quarta-feira, 5 de novembro de 2008

DISCONTUS : XVII, XVIII, XIX & XX

*************************************************DISCONTUS XVII Setenta por cento: a probabilidade. Os outros trinta, o médico não garante. A estatística pende para o lado certo, acredito, levo fé. Encho-me de esperança, flutuo na minha paz. ************************************************DISCONTUS XVIII Cada vez que passava na plantação, aquela melancia piscava-lhe o olho, provocante... **************************************************DISCONTUS XIX Vê se pode: a gente curtir transa mais legal mais adoidada do que essa aí da magrinha - haja saco - a morar no papo aqui do coroa! ***************************************************DISCONTUS XX Quando descia na sua parada, o menino tomou a iniciativa de apresentá-la ao amigo motorista do ônibus: - Esta é a minha mãe!

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

CHIRU BUENO DAS CHARLAS

No começo deste mês, fui surpreendido ao receber mensagem em meu computador de velho amigo e companheiro das jornadas literárias na casa do saudoso Laury Maciel. Era o Marco Aurélio Vasconcellos, grande cantor e compositor, parceiro de Luiz Coronel em notáveis clássicos do cancioneiro gaúcho. Então me comunicava que estava com um novo parceiro letrista (Martim César Gonçalves, meu conterrâneo, jovem de imenso talento), com quem vinha fazendo composições incríveis. Dizia ainda estar vivendo um momento excelente na área musical e que não se lembrava de haver criado tantas canções quanto agora. Em contrapartida, suas criações literárias andavam em compasso de espera até que pretendesse retomar essa atividade. ********************************************************** Daí passei para o assunto da troca de figurinhas com o pessoal do Martim César que já tinha me falado E que acompanhava pela imprensa a trajetória deles pelos festivais, em que vinham obtendo algumas premiações. Salientei-lhe o quanto mais velho o vinho fica melhor, assim a sua experiência estaria valendo na criatividade de agora. E, se não perder a embocadura, o som sai ao natural, não obstante estar aprimorando o imelhorável. Depois lhe deixei o meu palpite de que a música era o seu chão e que deixasse a literatura para quando lhe desse um ataque de estupidez. *********************************************************** E o Marco prossegue citando a esplêndida interação entre a sua melodia e a letra do Martim César, após ter ponderado que poesia é uma coisa e letra de música é outra, evitando-se o texto longo nesta. Didaticamente, expõe o quanto a rima e a métrica não trazem prejuízo musical se inexistentes ou eventuais, apesar de que a rima produz uma cadência toda especial e a métrica facilita a criação melódica. Então afirma: “De qualquer forma, acho o texto dele maravilhoso. Considero-o um dos melhores letristas da nova geração e me orgulho de ser seu parceiro, havendo reciprocidade nisso, porque ele também pensa o mesmo de mim... Há dois anos que o conheci. Eu andava, até então, produzindo cerca de três a quatro músicas por ano. A partir de então, meu processo de criação se exacerbou - ...respiro música, sonho com música e ela vai brotando a torto e a direito, mesmo que eu não tenha o violão nas mãos. É incrível ...nessa minha trajetória musical que já não era pequena e agora se agigantou.” *********************************************************** Foi aí que eu tive de me explicar sobre o ataque de estupidez – expressão que poderia soar como pejorativa – exemplificando com o Chico Buarque, quando enjoa de música, mete-se a escrever romances, algo cíclico assim como sua fase melódica atingindo o auge, ocorrendo hoje com ele Marco Aurélio. Considerava eu, no final das contas, letrista e melodista deviam confundir-se para se tornarem somente compositores. A propósito de métrica e rima, lembrei-lhe de uma conversa nossa anterior em que ele falava da musicalidade dos versos do Jaime Vaz Brasil, justamente por serem mais livres, mais soltos. E também daquela vez em que o santo lhe baixou bem na hora em que se dirigia ao Banco para pagar uma conta, as notas brotando na mente e ele se impacientando com a possibilidade de que algum conhecido lhe cumprimentasse no caminho, interrompendo-lhe a concentração. *********************************************************
O Marco Aurélio ainda me fala de outras parcerias lá por Jaguarão com o Alessandro, irmão do Martim César, e com o José Francisco Sabbado, sogro deste, enfim reatando-se a sua antiga amarração com a terrinha que ele veio a conhecer há mais de vinte anos, no tempo em que era advogado do JH Santos. Inclusive que teria escolhido ali participar da fase regional da Califórnia da Canção, tendo subido ao palco junto com Regis Bardini, grande violonista jaguarense. “Mas a minha gana é fazer um show por lá” – enquanto isso podemos assistir ao vídeo da Seresta Nossa dos Pampas na barra lateral.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

G_E_IO : a revanche dos 18 aos 81 !

Parabéns, parabéns
Saúde e felicidade
Que tu colhas sempre todo dia
Paz e alegria na lavoura da amizade.
(Parabens Crioulo/Dimas Costa)

24 de outubro de 1910

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Carta publicada na coluna Mr. Grilo, Turismo Caderno Especial, Edição nº. 216 do jornal Kronika, de Porto Alegre, 2ª. Quinzena de Setembro de 1990.
***************** Escreve o leitor desta coluna José Alberto de Souza:
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“Toda noite de quinta-feira, a convite de seu presidente Léo Remião, o Glória Tênis Clube (N.S. Graças, 207) acolhe um grupo de músicos e cantores, amantes da mais genuína música popular brasileira – o Clube do Choro. Fundado em novembro do ano passado, tal entidade agora se prepara para promover uma das suas mais inesquecíveis noitadas no próximo dia 25 de outubro a fim de homenagear um dos seus mais ilustres freqüentadores. **************************************************** Nesta data estará completando 80 anos um dos quatro filhos do casal Maria Antonia e Avelino Faustino Silva, nascido e criado no bairro Floresta da nossa Capital. Verdadeira legenda da boemia porto-alegrense que se orgulha de suas origens humildes: o balconista das bancas 8 e 9 do Mercado Público, o engarrafador de bebidas na firma Moraes Velhinho, o pugilista que interrompeu a carreira por falar mais alto a sua sensibilidade artística. **************************************************** Testemunha viva de uma época áurea impregnada de romantismo, de grandes serviços prestados à nossa cultura popular. Seu nome, muito ligado ao saudoso Lupicínio Rodrigues, insere-se com destaque na vida boêmia que nos legou figuras ímpares como Ney Orestes, Bororó, Sady Nolasco, Nuno Roland, Alcides Gonçalves, Ovídio Chaves e outros tantos. ****************************************************
O assunto não se esgotaria por aqui a merecer tratados que melhor analisassem a expressividade e a participação no movimento musical riograndense daquele estreante da Audição de Águas Caxambu às 20h45min do dia 12 de dezembro de 1934, na Rádio Sociedade Gaúcha – o nosso querido ORLANDO Johnson SILVA."

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Efeméride para não ser esquecida: 100 anos de Alcides Gonçalves

Dia 10 de outubro último, foi reapresentado o espetáculo Entra Meu Amor, Fica à Vontade!, desta vez no Teatro Dante Barone, da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, como parte da programação do projeto Centenário de Alcides Gonçalves que se vem desdobrando dentro do Ano - Jul/2008 a Jul/2009 - instituido pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre para comemorar a passagem dessa efeméride. ************************************************************ Com razoável presença de público, desfilaram no palco os artistas Carlos Catuípe (violão, voz e arranjos), Cléa Gomes (voz), Izabel L'Aryan (voz), Chico Pedroso (cavaquinho), Marcelo Pimentel (percussão), Luciano Padilho (acordeão), contando ainda com Airton Pimentel como convidado especial. ************************************************************ Na oportunidade, foi executado o seleto repertório das composições de Alcides Gonçalves e seus parceiros, a saber: Flávio Pinto Soares (Brigamos Outra Vez & Samba Cinquentão), Leduvy de Pina (Se Ela Soubesse), Lupicínio Rodrigues (Cadeira Vazia, Castigo, Jardim da Saudade, Maria Rosa, Pergunte Aos Meus Tamancos & Quem Há de Dizer), Pedro Caetano (Minhas Valsas Serão Sempre Iguais), além daquelas com música e letra próprias (Marcha da Coroa, Minha Seresta & Pecador). ************************************************************ Sob a coordenação de sua presidente Izabel L'Aryan, o Sindicato dos Compositores e Intérpretes Musicais do Estado do Rio Grande do Sul - SICOMRS - pretende ainda realizar a gravação de um disco com músicos e cantores gaúchos, edição de livro com partituras e CD encartados (em preparo pelo jornalista Marcello Campos), exposição fotográfica alusiva ao referido Centenário e outros espetáculos pelo interior do estado e por algumas capitais brasileiras. ************************************************************ Registramos aqui a pouca acolhida que os nossos meios de comunicação vem dispensando a essa louvável iniciativa do SICOMRS, não obstante a exaustiva divulgação do evento de parte dos seus organizadores, o que bem demonstra o tímido interesse da midia local em valorizar importantes personalidade da nossa música popular quando dedica generosos espaços a outro nome mais consagrado no centro do país. ************************************************************ Porém, sinceramente, o que nos lavou a alma foi a marcante presença na platéia do cantor e compositor WILSON PAIM, também consagrado intérprete de algumas melodias do saudoso Alcides, que bem representava o prestígio da nossa classe artística a esse empreendimento. Oxalá, quem sabe, chame atenção de outros colegas para apoiar e participar em futuras apresentações desse espetáculo.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

DISCONTUS : XIII, XIV, XV & XVI

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DISCONTUS XIII
Gorda para mais de cem quilos, já não atrai como antes. Mas tem ilusão, acha-se linda e se derrete toda com os galanteios da magrinhagem.
Fizeram eleição para Rainha do Bar Ocidente: deu ela disparado.
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DISCONTUS XIV
A família viaja no feriadão. Estrada cheia de buracos, decidimos compensar no trecho bom. O radar acusa cento e seis, excesso de velocidade. Na Polícia Rodoviária, pedem os documentos. Licença e seguro vencidos.
Duas multas no grupo um, uma no dois.
O guarda nem parece disposto para lavrar a infração.
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DISCONTUS XV
Esperou até a madrugada e se distraiu vendo o parquinho das crianças vazio, os antigos postes de lampiões quebrados, aquele recanto escurecido pela sombra das árvores.
Depois a cisma dela não ter aparecido. Daí se deu conta: esquecera de trocar a vestimenta na casa paroquial.
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DISCONTUS XVI
Acomoda as crianças, senta-se à beira da cama e se prepara.
Olha para os dois, por um instante hesita. O órfão choraminga, a filhinha quieta parece consentir em ceder sua vez.
Então se decide amamentá-lo primeiro.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

De como me impressionei assistindo Alcides Gonçalves ao vivo

Permita-me, tu velho seresteiro,
chamar-te de amigo e companheiro,
apesar de recém ter satisfação
de conhecer ao vivo, tua presença
que fui chegando sem pedir licença
porque me provocaste grande emoção...
Ouvir tua voz melodiosa que encanta
ainda hoje é coisa que nos espanta
e nos deixa incrédulos na descrença...
Ver-te sempre digno nesta altivez
de cabelos brancos, sentir a vez
dessa alma boemia que aí se condensa...
E que meus filhos sentissem como eu
tua ternura, todo carinho teu
disposto em cada canção inolvidável,
sempre fiel ao teu parceiro saudoso
do qual és intérprete esperançoso
a cultivar um amor formidável...
Em versos simples, agradeço a Deus
agradares a nobres e plebeus.
vindo da platéia aplausos merecidos!
Que ele te compense na vez primeira
por este empenho da tua vida inteira
- sermos mais humanos, mais comovidos!
Evocando o centenário de nascimento do saudoso Cidoca, publicamos aqui mensagem que lhe foi enviada em 01.05.1985, após assistir sua participação no espetáculo Noite de Seresta, apresentado pelo cantor Aroldo Dias.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

...ET LE ROI (III)

( c o n t i n u a ç ã o )
Há tempos que eles vêm monitorando os teus passos. E tu, Antoine, nem percebes nada. Agora mesmo que andas sozinho pela rua, eles vão te abordar, um de cada lado. Sentirás uma picada de agulha e, logo em seguida, desmemoriado, ficarás completamente a mercê dessa gente. Nem precisarão vendar os teus olhos porque, assim drogado, nunca vais saber por onde andaste. Foste convertido num ente sem vontade própria. Apenas te restarão teus conhecimentos técnicos que eles vão explorar.
Então, vais chegar numa propriedade situada em local inóspito, de difícil acesso, cercada de muros elevados e vigiada por ferozes cães de guarda. Contigo, eles atravessarão imenso bosque que oculta um sombrio prédio de poucas aberturas para o exterior, todas elas gradeadas, onde providenciarão teus aposentos e tuas vestimentas. Ali não verás nenhuma luz natural, apenas estarás circulando em longos corredores junto com outros internos, as faces encobertas em capuzes de mantos escuros.
Em breve, deverás voar à baixa altitude sobre uma área de florestas cerradas, fugindo do controle dos radares internacionais para transportar uma carga que nem chegarás a imaginar o que possa conter. Em tua mente, foi introjetada uma ordem de obediência incondicional, chantagem que não admite rebeldia, pois, caso contrário colocarás em risco a vida de Michelle e Phillipe, daqueles que não podes prescindir. Sem qualquer noção do tempo, nunca terás a mínima idéia de quando vais concluir essa missão.
A maior parte das tuas horas será gasta em sono profundo a que te induzirão a fim de receberes instruções e procedimentos a serem gravados em teu subconsciente, tais como planos de vôo, rotas aéreas, sistemas e códigos de comunicação e tudo que for necessário para desempenhares a tua tarefa. Ainda serás submetido a várias simulações de obstáculos e imprevistos para testar a tua capacidade de superá-los. Assim, estarás vivendo numa situação virtual, da qual te despojarão quando voltares à tua realidade.
Logo ficarás pronto para o grande passo rumo ao desconhecido. Eles vão te levar para um campo de pouso clandestino, com hangares cuidadosamente camuflados que guardam antigos bombardeiros adaptados para transporte de cargas. A aeronave que deverás pilotar já estará devidamente preparada para a decolagem. Apenas te caberá tomar conta da cabine de comando e seguir a movimentação involuntária das tuas mãos junto aos controles da aparelhagem sub-repticiamente colocada á tua disposição.
Desse modo, quando menos esperares, chegarás a teu destino e, em seguida, voltarás à letargia do repouso induzido ali mesmo na cabine de comando, enquanto eles descarregam a misteriosa carga, Eles te concederão certo tempo e depois te despertarão para o trajeto da volta que tornarás a proceder como da vez anterior, voando à baixa altitude sobre uma área de florestas cerradas, fugindo dos controles dos radares internacionais e... circulando em longos corredores, a face encoberta em capuz de manto escuro...
Alta madrugada, perambulas solitário pela rua. Apenas te lembras de ter saído de tua residência para buscar baguete e leite na padaria. Aliás, recém agora começam a ser levantadas as cortinas de aço da mercearia, o leite já foi entregue e o pão está saindo do forno. Portanto, és o primeiro freguês a passar no caixa para pagar as suas compras. Daí voltas para casa, meio que cantarolando naquele velho e surrado bordão: il a déjà pensé dans la brise des vertes mers en équilibrant les cocotiers des plages ensoleillées?

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

...LA DAME... ( II )

(continuação)
Michelle está ali, esperando. Com o telefone a seu lado, procura estabelecer contato com amigos e conhecidos. Esta tem sido sua rotina nos últimos dias. Só mesmo assim consegue alienar-se de uma grande preocupação. Ainda tem esperança de que alguém lhe traga alguma notícia sobre o paradeiro de Antoine. Ele não podia ter sumido assim sem mais nem menos. Tudo acontecera tão de repente, uma saída banal para buscar baguete e leite na padaria. O tempo passa. E ela, aguardando na sua nórdica frieza, aceita tudo com aquela naturalidade espantosa. Embora um pouco abalada, ainda consegue escrever os seus comentários sobre as repercussões das tendências da moda atual no Brasil.
Em Paris, Michelle levava uma vida agitada como editora de modas de uma revista de atualidades, sendo constantemente requisitada a empreender viagens em busca de novidades pelo mundo afora. Morena, ainda atraente e elegante, apesar da maturidade se aproximando, costumava valorizar os breves momentos junto com Antoine, conseqüente de um relacionamento sereno e de contínuas partilhas e confidências. Nem dava tempo para ficar remoendo mágoas e remorsos.
Agora, no Rio de Janeiro, embora exercendo sua atividade local como correspondente especializada da revista em que tinha trabalhado na França, estava vivendo naquela bonança de ares mais tranqüilos e dias mais arrastados, convencida que fora por Antoine que tinha insistido para ela dar um basta na frenética existência anterior, tanto que ele costumava repetir o velho e surrado bordão:
- il a déjà pensé dans la brise des vertes mers en équilibrant les cocotiers des plages ensoleillées?

Antoine viera antes, junto com seu colega Phillipe, encarregados que foram de conduzir dois caças Mirage para teste na Força Aérea Brasileira, com planos de não voltar para a França. E ela agora estava ali sozinha, decorrido certo tempo desde que chegara para apoiá-lo nessa aventura em terras estranhas. È bem verdade, estava comodamente instalada naquela mansão em São Conrado com deslumbrante vista para o mar, que ele alugara para estarem mais próximos um do outro e, além disso, contava com a assistência de Phillipe, ainda ocupando uma das dependências da casa.
Ela nem sabe como consegue manter-se constante naquela vigília de dias infindáveis, completamente esquecida daquele viço de mulher impetuosa. Bem próximo de si, estava Phillipe, muito respeitoso, colocando-se sempre à disposição para o que fosse necessário. Porém, ela vivia à sombra de um fantasma, lembrança ainda intensa, brasa escondida sob as cinzas, que não lhe permitiam mudar os rumos do seu destino.
Desse modo, não lhe resta outra alternativa se não bater furiosa sobre as teclas da sua máquina de escrever, datilografando laudas e laudas que são rasgadas e jogadas à cesta do lixo, para depois recomeçar numa busca de perfeição inatingível. Em certas ocasiões, para com tudo e se põe a discar no telefone algarismos que estão gravados na sua memória, buscando informações em que se embaralham assuntos profissionais e particulares. Depois, vai até a cozinha, passa um café e traz o bule para a sua mesa de trabalho, onde se debruça tomando xícaras e xícaras dessa bebida enquanto quente para manter-se desperta até que o cansaço a prostre por completo.
Certo dia, porém, acordou com passos de gente andando pela casa. Avista um vulto vindo em sua direção. Já não pode mais conter a torrente de lágrimas represada em seu íntimo.
( c o n t i n u a )

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

LE VALETE... ( I )

Antoine e eu éramos pilotos de prova em caças Mirage, na França. Velhos parceiros, costumávamos voar junto testando os aviões da fábrica. Nessa época, já andávamos bastante traumatizados com as constantes ocorrências de acidentes em várias partes do mundo com jatos daquele tipo. Foi quando fomos encarregados de conduzir dois aparelhos para teste na Força Aérea Brasileira. Pensamos então que ali estava a oportunidade de nos acomodar e usufruir de um ócio conseqüente de nossas reservas financeiras acumuladas durante anos nessa arriscada atividade profissional. No Brasil, acreditávamos que levaríamos uma vida de nababos e bem mais tranqüila - il a déjà pensé dans la brise des vertes mers en équilibrant les cocotiers des plages ensoleillées? - conforme Antoine insistia sempre batendo na mesma tecla para me convencer.
Transcendendo a nossa ligação profissional, havia ainda uma antiga amizade que nos aproximava diuturnamente, as nossas diferenças complementando um ao outro. Assim eu, um pacato celibatário, não era lá muito dado a conquistas amorosas e sim mais chegado a visitas esporádicas aos conhecidos e familiares, em cujo círculo sempre fui bem recebido, compensando dessa forma a necessidade de uma companhia mais íntima. Já Antoine vivia há alguns anos com Michelle, compartilhando os breves momentos que cada um dispunha do seu tempo, cuja maior parte gastavam nas tarefas desempenhadas. Algumas vezes, eu costumava freqüentar o apartamento deles, quando me convidavam para o jantar preparado a capricho por Michelle. Ela sempre me dizia que adorava minha conversa fluente e espirituosa, que eu era o amigo mais assíduo e pronto para aconselhá-los no que fosse requisitado.
Numa dessas ocasiões, Antoine aproveitou-se da minha presença a fim de propor para Michelle largar as suas massacrantes tarefas e desfrutar de um convívio mais intenso junto a ele, através de uma radical mudança de hábitos. Falou-lhe então dos planos que pretendia realizar comigo de nos estabelecer no Brasil, após conduzir os dois caças que seriam testados pela Aeronáutica daquele país, de onde não deveríamos voltar; que ela poderia seguir para lá assim que pudesse. Para minha surpresa, Michelle revelou na hora para Antoine sua concordância com tudo àquilo que estávamos premeditando.
Passados alguns dias, logo chegávamos à Base Aérea do Galeão, no Rio de Janeiro, onde deveríamos permanecer certo tempo em missão de treinamento e instruções aos pilotos brasileiros, habilitando-os a testarem as aeronaves recebidas para aprovação técnica de futuras encomendas. Terminado o estágio na Base, então podíamos providenciar no aluguel de uma casa para Antoine fixar sua residência, pois ainda dispúnhamos de longo prazo na validade dos vistos de estadia provisória em nossos passaportes. Depois era só esperar a vinda de Michelle.
Nem se completara um mês, Antoine comunicou-me a notícia de que Michelle já estava pronta para embarcar, depois de se desembaraçar dos seus compromissos na França, inclusive recebendo proposta da própria empresa jornalística para exercer a função de correspondente no Brasil, não precisando envolver-se em demasia com aquelas responsabilidades inerentes à sua ocupação anterior em Paris. Até aqui tudo parecia correr às mil maravilhas, afora o entusiasmo exagerado de Antoine que já me esgotava a paciência quando repetia monotonamente a mesma conversa de sempre, sem que se desse conta desse ato involuntário:
- Je ne lui ai pas dit, M. Phillipe, maintenant est seul de penser dans la brise des vertes mers en équilibrant les cocotiers des plages ensoleillées?
( c o n t i n u a )