domingo, 18 de outubro de 2009

TRAJETÓRIA DE UM ASTRO (III)

1948 - São Paulo F.C. (Campeão Paulista): ********** Mário, Savério e Mauro, Rui, Bauer e Noronha, China, Ponce de León, Leônidas, Remo e Teixeirinha.
O São Paulo sagrou-se bicampeão paulista em 1949, ao derrotar o Santos, no Pacaembu, por 3x1. O jogo ocorreu no dia 20 de novembro e o árbitro era Godfrey Sunderland. Os golos foram marcados por Teixeirinha aos 25 minutos; Friaça aos 31 minutos do 1º. tempo e aos 19 minutos do 2º. tempo; e Alemãozinho aos 44 minutos do 2º. tempo. O tricolor formou com: Mário; Savério e Mauro; Rui, Bauer e Noronha; Friaça, Ponce de León, Leônidas, Remo e Teixeirinha; tec. Vicente Feola. O Santos jogou assim: Chiquinho; Charreta e Dinho; Nenê, Pascoal e Alfredo; Alemãozinho, Antoninho, Juvenal, Odair e Pinhegas; tec. Oswaldo Brandão. (in Planeta Tricolor, Anos 40).
1950 - São Paulo F.C. (Vice-Campeão Paulista): ***** Mário, Savério e Mauro, Rui, Bauer e Jacob, Friaça, Ponce de León, Leônidas, Leopoldo e Teixeirinha.
1952 - São Paulo F.C. (Vice-Campeão Paulista): ***** Mário, Turcão e Mauro, Pé-de-Valsa, Bauer e Alfredo, Alcino, Bibe, Albella, Leopoldo e Maurinho.

sábado, 17 de outubro de 2009

TRAJETÓRIA DE UM ASTRO ( II )

No dia 18 de novembro de 1945, o Internacional, jogando no Estádio da Timbaúva, em Porto Alegre, venceu o Pelotas por 3 x l, marcando Carlitos e Tesourinha (2) para o colorado e Pepito para o auri-cerúleo. Com público de 8500 pessoas e arbitragem de Paulo Cortelari, as equipes alinharam da seguinte forma:
S.C. Internacional - Ivo, Nena e Alfeu, Viana, Ávila e Abigail, Tesourinha, Rui Motorzinho, Adãozinho, Elizeu e Carlitos;
E.C. Pelotas - Mário, Vaz e Demi, Rui, Laerte e Geraldo, Calvete, Amaral, Ápis, Fierro e Pepito.
Assim, o S.C. Internacional, que já havia ganhado no jogo de ida (15/11) em Pelotas por 4x2 sagrou-se então Hexacampeão Gaúcho de Futebol, ficando o E.C. Pelotas com os títuloz de Vice-Campeão Gaúcho e Campeão do Interior nesse ano.

sábado, 10 de outubro de 2009

TRAJETÓRIA DE UM ASTRO ( I )

Coloco no Google – Mário goleiro do São Paulo – e me aparece um comentário, assinado por Alberto Oliveira, sobre o texto Goleiros de São Paulo, de Luizinho Trocate, inserido na página São Paulo Minha Cidade: “Pois é, tu falaste em quase todos goleiros do são paulo, faltou o mário, início da década de 50! não por que fosse meu tio, foi melhor do que muitos, e o poy era reserva dele... Jogou no time dos grandes da época...e o arrogante do leônidas, virou tecnico e "queimou" o cara...Abraços”.(sic).
Com o endereço eletrônico de Alberto Oliveira, apresento ao mesmo a minha disposição de pesquisar sobre a carreira do conterrâneo Mário Patão, como era conhecido em sua terra natal, que se consagrou defendendo a meta do São Paulo Futebol Clube, da capital paulista. Anteriormente, já tinha ficado sabendo da dificuldade do pesquisador de Jaguarão, José Nunes Orcelli, autor do livro Os 103 Anos do Futebol Jaguarense, em recolher dados acerca desse grande goleiro, de vez que na cidade quase nada se sabia da sua história.
Através desse sobrinho, ficamos sabendo que o irmão mais velho de Mário, Joaquim Dionísio, chegou a servir no Exército quando moço, perseguindo a coluna Prestes até a fronteira com a Bolívia, enquanto isso em Jaguarão a mãe viúva, Dª. Idalina Barbosa Oliveira, cuidava dos filhos menores, João da Cruz (pai de Alberto) e Mário, e sempre buscava o rancho – direito adquirido como genitora de militar em combate – que lhe era fornecido pelo Regimento local.
De nossa parte, contatando gente contemporânea que chegou a conhecer esse grande goleiro que figura na galeria dos 100 jogadores mais importantes da agremiação são-paulina, conseguimos precariamente registrar a sua trajetória na história do nosso esporte. Valemo-nos, pois, de importantes depoimentos de Alcides Carlos Moraes, arqueiro da seleção gaúcha de futebol em 1941, hoje com 93 anos e residindo no Rio de Janeiro; de Edu Pucurull, um dos veteranos fundadores do Mauá F.C., de Jaguarão, e de Luiz Carlos Vergara Marques, jaguarense e ex-narrador de turfe em nossa Capital.
Alcides Carlos Moraes, que também atuou no E.C.Pelotas, falou-nos que Mário, recém saído do Jaguarão F.C., foi o seu sucessor na meta auri-cerúlea em 1942, quando dependurou as chuteiras para assumir o seu cargo na Mesa de Rendas do Estado. Edu Pucurull lembrava-se de Patão treinando no Mauá no ataque sem grandes brilhos e que num recreativo colocaram-no debaixo das traves, quando então se revelou, apesar de não assumir a titularidade, cujo dono da posição era Oscar Emygdio Garcia, o craque Oscarzinho. Vergara Marques refere-se ao servente de pedreiro Mário trabalhando na casa do seu pai.
Dessa forma, retratamos inicialmente a passagem desse grande astro do futebol nacional pelos gramados do Rio Grande. O nosso falado Patão (calçava 44) iniciou a sua carreira aos 16 anos de idade, lá pelos idos de 1940, treinando no Mauá F.C., logo após se integrando no quadro do Jaguarão F.C.; daí transferindo-se para o Esporte Clube Pelotas, da cidade do mesmo nome, onde formou no trio final Mário, Catalã e Betinho Conceição. Já em 1947, emissários do São Paulo Futebol Clube foram buscá-lo para assinar contrato.
A seguir, contaremos como Alberto Oliveira, sobrinho de Mário. vem de nos desvendar a trajetória desse astro até chegar ao tricolor paulistano.

domingo, 12 de julho de 2009

DA INSÔNIA À INSÂNIA

Sala pequena, apenas duas janelas e uma porta, mais escritório do que moradia. Corredor longo, banheiro coletivo no fundo. Haviam de ser disciplinadas as necessidades, também coletivas. Mesa de estudos junto às janelas, em frente à porta. Iluminação incidente pela direita, sem atrapalhar a escrita, de canhoto. Ao lado da cama, o criado-mudo. Em cima deste, o rádio tipo capela. Luz precária, tentava ler, o sono não vinha. Um copo de leite quente, sugeria, para acalmar. Calça e blusa sobre o pijama, de chinelos mesmo, trespassava a porta. Ali perto, dezoito degraus num só lance, do segundo ao primeiro pavimento, e mais vinte e dois até o térreo. Do lado de fora, encostava o portal, voltaria em seguida. Avenida movimentada, veículos nervosos. Na outra margem, salão iluminado, aglomeração de mesas e cadeiras. Atravessava esquivo a corrente para chegar ao balcão. Estranho entre notívagos que se admiravam quando pedia bebida incomum. Trocando calorias, pelo esôfago, entranhava-se o líquido aveludado. Degustava demorado, como se quisesse repartir a noite com os outros. Um tempo arrastado, pagava a conta, virava as costas. Ao cruzar a via, a provocação de novo. A porta do edifício, alguém a trancou. Esperar até quando? Amanhecer nesse mundo, jamais. A vidraça quebraria para puxar o trinco, por dentro. Na esquina, a viatura policial. Um arrombador poderiam julgar. Um plano simples, assumiria a responsabilidade, de manhã chamaria o vidraceiro, acertaria o prejuízo, não dormiria na rua. Se fosse assim, dos guardas nada a opor. Um tijolo maciço haveria de encontrar por ali. De mão, o apararia. Frontalmente, faltaria impulso, melhor enviesado, só dar uma corridinha. Dardo retangular numa desajeitada trajetória, a coreografia se esboçaria ante o olhar fixo. Saindo de comprimento, se atravessaria na largura, ficando de pé, o aríete se esforçaria por cair suave e não se esfarelar no solo. Em vão a súplica da vidraça, já determinado pelo instinto, mesmo por que não conseguiria adormecer.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

ECOMANIA: QUEM SE HABILITA?

Não sei se existe alguma coisa que me causa mais aversão do que saco plástico. Se não me engano, comecei a detestar esse troço desde que um motorista de táxi resolveu me cobrar certa quantia a cada sacola carregada, resultando no total uma apreciável percentagem sobre o valor da corrida. Protestei e ainda fui reclamar no supermercado que exagerava no número de sacos fornecidos para o transporte das compras – uns vinte, cujo conteúdo poderia ser perfeitamente acondicionado na terça parte dos mesmos. Das duas a uma: ou o empacotador tinha combinação com o taxista ou a administração do supermercado não fazia valer o direito de serem mais bem atendidos os seus clientes no ponto encostado ao estabelecimento.
Depois de acontecido o fato, passei a gastar certo tempo eu mesmo esvaziando em pleno supermercado as sacolas com as compras para depois acondicioná-las em número menor de sacos, descartando o excedente. Então me lembrava daqueles tempos em que eram usados sacos de papel – os únicos que param em pé – com um aproveitamento considerável de cada unidade, o que facilitava bem mais o transporte das compras. Porém, esse produto não se prestava para o seu reaproveitamento no descarte do lixo. E as famigeradas sacolinhas voltam de novo a desempenhar o seu papel de péssima utilização quando dificultam o trabalho de quem recolhe os resíduos domésticos – onde cabem uns dois ou três quilos, colocam-se algumas gramas.
Vai daí que me vem à memória aquelas caminhadas que fazia com o saudoso colega Ruy Firmino, quando encerrávamos o expediente no BRDE e nos dirigíamos tagarelando rumo ao Menino Deus. O Ruy era um sujeitinho esbelto, metódico, que detestava fazer volume nos bolsos, só levava a carteira de identidade, procurando sempre manter as mãos livres dessas tralhas tipo pastas ou leva-tudo. Mas ele não deixava de marcar o seu ponto nas bancas de frutas e verduras ali na Praça XV e, nessas ocasiões, ele sacava d’algibeira um saquinho dobrado simetricamente, onde acomodava as hortaliças frescas para o consumo da família. Até nisso, ele me parecia uma pessoa diferenciada e cuidadosa com a sua postura, dispensando o excesso de bolsas plásticas.
E a coleta seletiva? Lixo seco. Lixo limpo. Lixo inorgânico. Tudo certinho como manda o figurino no dia e local determinado. Vivia de bronca com os catadores. Eles chegavam antes do coletor e nem se importavam em descartar o plástico em plena via pública. Aí saquei qual era a deles – virei fiscal do lixo – e passei a guardar o plástico numa sacola separada, juntando papel, lata e vidro a parte, pois eram os materiais mais comercializáveis para os distintos especialistas. Aprendi então que, até para os excluídos, o plástico representa um valor irrisório em função do seu baixo peso específico. Traduzindo-se assim num alto custo-benefício a sua não reciclagem face às árduas conseqüências desde limpeza urbana até agressão ao meio ambiente.
Hoje em dia, fala-se muito na alta taxação daqueles produtos nocivos à saúde pública tais como o fumo e o álcool, apesar de que – limitante este fator – o poder público não só concede incentivos à produção dos mesmos sob a justificativa do grande potencial de arrecadar impostos e gerar empregos dessas indústrias, como também se omite ao não considerar os gastos da previdência social com o tratamento dos viciados. E ainda tem a escalada nefasta da fabricação de veículos automotores, de indiscutível capacidade poluidora. Eis por que precisamos entender como ainda não se onera substancialmente a comercialização dos sacos plásticos e, por outro lado, não se estimula através de medidas efetivas às empresas que operam com o reaproveitamento desse material. Mas não é necessário apoiar quem importa lixo da Inglaterra ou da Cochinchina...

sábado, 27 de junho de 2009

DISCONTUS : XXIX, XXX, XXXI & XXXII

DISCONTUS XXIX
Minha retina parece um cosmos onde se travam formidáveis batalhas navais.
Como guerreiro estelar, o oftalmologista é paciente, nunca desiste: dispara o canhão do laser e impede o inimigo de me jogar a visão no buraco negro.
DISCONTUS XXX
Minha cabeça é uma concha acústica, caixa de ressonância por onde penetram os ecos do passado que só me fazem escutar solidão.
DISCONTUS XXXI
Que fazes, minha doce menina, encerrada nesses olhos tristes? Por que se arregalam eles quando pareces que queres fugir?
Ah, esse arrebatamento como se bastasse um príncipe para te resgatar!
DISCONTUS XXXII
No cimo daquele morro, onde sopra o velho vento que tanto me desgrenhou esta crespa cabeleira, ainda quero contemplar a paisagem dos meus sonhos. O casario despencando suave, encosta abaixo, até chegar bem perto do meu caudaloso rio. Então me permitirei uma derradeira lágrima como minha despedida neste caminho sem volta.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Mais currículo menos diploma

O jornalista Lino Tavares, de Alegrete, tem freqüentado as colunas de opinião de alguns jornais do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, protestando contra a decisão do Supremo que cassou a exigência de diploma de Jornalismo para o exercício da profissão. Acredito que essa medida seja uma forma de autodefesa de Suas Excelências quanto à demanda – provavelmente uma enxurrada - que por certo deve estar acontecendo, de processos pendentes sobre aquela irregularidade. Parece-me que assim eles estariam retirando o sofá da sala, caso contrário não perderiam o precioso tempo de suas atividades para discutir o sexo dos anjos dessa questão.
********************************************************************* Então me acode a idéia que se começa a esboçar da profissão de escritor a ser regulamentada através dos cursos de graduação em Letras existentes em várias universidades do país. Ora, escrever bem e corretamente é um dom que prescinde de qualquer exigência de diploma, porém, requer uma prática e disciplina constante para se obter um contínuo aprimoramento. E as Oficinas Literárias estão aí para abreviar esse aperfeiçoamento para os mais talentosos, além de formar leitores melhor preparados para percorrer os rumos sinuosos da arte da escrita. E o resto é autonomia de voo.
********************************************************************* Em qualquer profissão liberal, assistimos cotidianamente o desvirtuamento da instituição do diploma de curso superior em que muitos formados se vem às voltas na luta por uma colocação no mercado de trabalho, sujeitando-se a exercer funções não compatíveis com o seu preparo (p.ex.: farmacêuticos/balconistas), já que lhes falta a experiência necessária e a oportunidade de treinamento adequado nas empresas procuradas, cujo maior interesse concentra-se no candidato já pronto.
********************************************************************* E muitas vezes as grandes realizações do gênio humano processam-se por meio de gente comum que apenas dispõem do seu extraordinário bom senso e sentido de observação da Natureza, como é o caso daquele jardineiro e assistente negro do Dr. Christian Barnard, no pioneiro transplante de coração ocorrido na África do Sul. Em plena época do apartheid racial vigente naquele país, esse cidadão propiciou todas as condições para que aquele cirurgião se tornasse uma celebridade mundial, revelando-lhe as técnicas rústicas das operações bem sucedidas que costumava efetuar em animais. Isso que a sua aparição nas fotografias da equipe do Dr. Christian era sempre escamoteada do público, sem que ao menos lhe fossem proporcionadas melhores condições de vida – humilhado no gueto em que morava com sua família. Embora tardiamente, o reconhecimento de suas habilidades veio-lhe com a outorga do Diploma de Doutor Honoris Causa pela University of South Africa.
********************************************************************* Outro exemplo marcante que posso revelar, diz respeito a meu tio e pai de criação – Cantalício Resem – autodidata alfabetizado até o 3º. Ano primário por seu progenitor; aprendeu Geografia com os selos que juntava nos envelopes descartados da correspondência em seu emprego; um dos idealizadores do curso de alfabetização 20 de Setembro, em Jaguarão-RS; jornalista panfletário d’A Situação; viria a tornar-se Juiz de Direito nessa cidade, por nomeação - a qual tentou declinar, mas que foi intimado a assumir - do então Presidente do Estado, Dr. Carlos Barbosa, chegando a ter elogiados seus despachos em julgado por eminentes desembargadores no Tribunal de Justiça. Ele sempre me aconselhava a ler bastante para que escrevesse bem – com a leitura podes até dispensar a gramática. Ao meu saudoso primo e irmão de criação, seu filho Anysio de Souza Resem, coube-lhe o encargo de dar continuidade à editoria do jornal A Folha, outro dos seus empreendimentos. Sem nunca ter obtido um diploma sequer.
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Resumindo: as Faculdades de Comunicação devem continuar burilando a competência dos mais aptos para concorrer em condições mais vantajosas pelas vagas disponíveis.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

A HERANÇA DE UM IDEALISTA


Em abril último, estive participando de reuniões para reativar a Associação do Museu da Imagem e do Som de Porto Alegre, ocasião em que tive oportunidade de voltar a manter contato com o seu idealizador Hardy Vedana. Então lhe falava da veteranice da maioria do pessoal que ali se encontrava reunido, afora os representantes da Secretaria Municipal de Cultura como apoiadores desse projeto. Com o que ele não concordava e retrucava dizendo da sua saúde debilitada, a qual não o impedia de seguir adiante em suas atividades de pesquisa e codificação dos primórdios da música em nossa Capital.
Era sensível a preocupação de todos os presentes em acelerar as providências para constituição e localização da sede dessa entidade, preservando e restaurando o antigo prédio onde funcionou A Casa Elétrica, fábrica de discos pioneira no início do século passado, atualmente abandonado e sito na Avenida Sergipe, bairro Glória. Velho batalhador da idéia, Vedana mostrava-se atento à explanação do companheiro Battu que vem se dedicando com afinco para conseguir legalizar o tombamento daquela área como Patrimônio Cultural do município.
A Secretaria Municipal de Cultura já vinha apoiando e preparando um projeto para ser apresentado ao Minc, de restauração da Casa Godoy, já tombada na Avenida Independência, para guardar o acervo de Hardy Vedana que seria doado àquele Museu, o qual também teria ali instalada a sua sede provisória. Para tanto necessitava que fosse realizada Assembléia Geral para eleição da nova Diretoria da Associação e aprovação do seu estatuto social.
Já em 29 de abril, Hardy Vedana não se furtou ao encargo de presidir essa Associação até 2011, tendo Nério Letti como secretário e José Alberto de Souza como tesoureiro, além de Juarez Fonseca, Danilo Ucha e Carlos Bocanera Koch como membros do Conselho Fiscal, quando então solicitou um tempo para se submeter a uma intervenção cirúrgica na iminência de ocorrer naquela época.
Uma queda, duas costelas fraturadas, pneumonia contraída, uma parada respiratória e outra cardíaca, não dava mais para resistir e, dois dias após completar 81 anos (13/06/2009), Ardy Antônio Vedana, sai de cena melancolicamente, abandonando a contragosto toda uma obra a completar, antigos projetos que jamais deixou de lado num esforço extraordinário para levá-los adiante. Mas ele nos deixa com a força do seu exemplo e desprendimento e o compromisso de prosseguir na sua jornada interrompida.
Enquanto isso, fico a pensar naquela conversa com um velho taxista, indignado com a greve dos metroviários, ocorrida recentemente, provocando um trânsito caótico em nossas principais vias de escoamento. Este também me dizia que, apesar de aposentado, continuava trabalhando para não sentir-se parasita na sociedade em que vive. E eu argumentava com a necessidade de injetar sangue novo nas instituições esclerosadas, como era o meu caso cedendo o meu espaço aos mais moços. Reacionário, queria apenas me convencer que essa gente nova era de uma geração de malandros e drogados que não se esforçava por merecer a posição dos mais experientes.
Nessa linha de raciocínio, sou levado a espelhar-me na razão do saudoso Hardy, na sua tenacidade, na dedicação de uma vida inteira a resgatar fatos, valores e costumes relegados à poeira do ostracismo. Como se estivesse lembrando daquela inscrição na entrada do Templo Positivista de Porto Alegre – os vivos são sempre e cada vez mais governados pelos mortos.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

A triste ronda de uma tragédia

Recém hoje me dou conta, mas espera aí, esse cara eu conheço. Pois é, meu caro amigo, as tragédias rondam-nos por perto e a nossa insensibilidade não nos permite enxergar o que se passa a nosso redor. Como se nunca fosse acontecer a qualquer um de nós. Veja só: 228 passageiros, 34 nacionalidades e, entre eles, alguns gaúchos, justamente ele, a sua esposa e sua filha que tiveram a sua sonhada viagem de recreio interrompida pela fatalidade. Embora tardiamente, é como uma punhalada que me dilacera a alma.
Ai perpassa pela minha mente, aqueles momentos tão marcantes, em 1994, quando acorríamos semanalmente à Biblioteca Pública do Estado, a fim de participar daquele inesquecível Seminário de Criação Literária da Profª. Lea Masina, num saudável convívio de aprendizado e troca de experiências. Além de nós, compareciam ainda o Paulo Fabris, o Blau Fabrício de Souza, a Maria Aparecida Becker, a Beth Motta, a Maria Moura, o Leandro Mallmann, a Maria Amoretti, o Regis Conte.
Hoje estou remoendo-me todo naquelas imersões do nosso batismo literário, tomando conhecimento da obra de autores clássicos e contemporâneos, tais como Sérgio Faracco, Manoel de Barros. Antônio Carlos Resende, Adolfo Bioy Casares, Mário Arregui, Sófocles, Shakespeare, Guy de Maupassant, Flaubert, Eça de Queiroz, Machado de Assis, Alan Poe, D.H.Laurence, Horacio Quiroga, Jorge Luis Borges e Virginia Woolf. Posteriormente, repassávamos a regionalidade de Alcides Maia, Simões Lopes Neto, Érico Veríssimo, Lia Luft, Laury Maciel, Caio Fernando Abreu, Assis Brasil e Reynaldo Moura.
Detenho-me relendo dois trabalhos seus apresentados naquelas reuniões e me espelho na sua extrema sensibilidade, no gosto artístico e na refinada cultura da sua formação acadêmica. Revejo as suas importantes e assíduas colaborações nas coletâneas Médicos (pr)escrevem, coordenadas por Blau Fabrício de Souza, Fernando Neubarth, Franklin Cunha e José Eduardo Degrazia, abordando Ficção, Crônicas, Memória, Humor, O Cômico e o Inesquecível. Abro na sua secção em MP 1996 (página 155) e transcrevo:
Roberto Corrêa Chem – Nasceu em Bagé, em julho de 1942. Filho único, estudou até o final do curso primário no Colégio Espírito Santo e em 1950 a família mudou-se para Porto Alegre. Fez todo o resto do curso secundário no Colégio Rosário. Bacharelou-se em História Natural e era professor de Biologia no curso pré-vestibular Mauá, enquanto fazia o curso de Medicina na antiga Faculdade Católica de Medicina, hoje Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas. Ao terminar o curso médico fez concurso e ingressou no magistério superior na área de Anatomia Humana, onde trabalha até hoje. Formado em Cirurgia Plástica, sua especialidade, atualmente dedica-se ao magistério em ambas as áreas: Anatomia Humana e Cirurgia Plástica. Publicou um livro pioneiro na área médica: Introdução à microcirurgia reconstrutiva (Medsi, 1992). Casado com psicóloga, pai de três filhos: um médico, uma bacharela em Comércio Exterior, e uma aluna de curso pré-vestibular.

Nessa mesma página, colhi o seu autógrafo – Para Gislaine e José Alberto, com a esperança de que possamos fazer uma nova Oficina juntos. Com meu abraço RCC agosto 96. Não deu, fiquei-lhe devendo esta, quem sabe ainda possa reencontrá-lo em outro plano para me esclarecer melhor espiritualmente, orientando-me com as luzes do seu caminho.

terça-feira, 9 de junho de 2009

A panquecaria da prima Clotilde

De família pobre, o Zequinha tinha vindo do Interior, a convite de um tio, para procurar emprego na Capital. Esse tio que era zelador de um edifício, com a chegada do Zequinha, tratou de acomodá-lo num velho sofá-cama existente no galpão de ferramentas anexo à sua moradia situada no terraço do prédio, também utilizado para secar as roupas lavadas dos moradores nos varais estendidos no local. O Zequinha que não era dado a escolher qualquer ocupação, logo topou se arranjar como ajudante de padeiro na mercearia dos gringos ali perto, com horário puxado desde a madrugada a fim de colocar no forno a massa crua e repartida para dali sair transformada no sovado quentinho que a clientela buscava ávida para o alimento matinal. E mais ainda havia umas três fornadas para completar a produção diária até o entardecer.
E de noite, o Zequinha fazia um esforço danado para freqüentar a escola noturna que lhe possibilitaria conseguir uma melhor qualidade de vida. A rotina podia ser desgastante, mas ele ia agüentando firme, saindo do seu quartinho quando nem o sol tinha se levantado e voltando de tarde apressado a fim de pegar uma ducha ligeira e suficiente para banir do seu corpo o suor misturado com a farinha de trigo.
Raramente o Zequinha costumava avistar o seu tio e a esposa ao chegar ao apartamento deles, pois ambos se viravam por fora para conseguir uma renda extra a seus ganhos naquela zeladoria. Ele, bastante solicitado em serviços de hidráulica, eletricidade, pintura, sempre pegava o que aparecia, e ela cavando o seu em trabalhinhos de arrumadeira e passadeira. Clotilde, a filha, é que ficava tomando conta de casa...
Clotilde tinha as suas aulas no colégio durante a manhã e, à tarde, passava estudando e preparando os deveres de casa ou então assistindo televisão, sendo interrompida toda a vez que o Zequinha dava com a toalha, sabonete e a cara sisuda – oi, tudo bem – passando apurado em direção ao banheiro e depois se mandando para a rua, todo bem vestido. Até que um dia, a Clotilde notou algo de estranho nele...
E sempre num certo dia, geralmente ensolarado, em que ela ficava a cismar – xi, hoje tem roupa no arame! Pois nestes dias, não se sabe de onde, surgia no terraço recolhendo a roupa seca, Dona Antoninha, moradora do 507, recém separada do marido, que em seguida retirava-se toda lampeira, cantarolando escadas abaixo. E justo nesse instante, é que o Zequinha adentrava, toalha e sabonete, o corpo todo lambuzado, para o seu banho.
A Clotilde resolveu então tomar umas providências. Colou uma foto da Ana Hickman na parede do seu quarto e foi se espelhando na celebridade. O cabelo crespo desleixado foi recebendo umas chapinhas daqui e dali, carregou no xampu da banheira, a maquiagem caprichada, fez um photo shop ao natural, enfiou-se no tubo curtíssimo do modelito negro frente única que tinha descoberto na liquidação do supermercado.
Naquele dia, assim que o sol caia no poente, já não tinha mais nenhuma roupa no arame, o Zequinha saiu da sua toca naquela sutileza de sonso disfarçado e foi chegando para a higiene habitual, nem notou a ausência da prima na sala. Mas assim que se retirou da sua privacidade, eis que enxerga aquela tremenda ninfeta a ofertar-lhe uma taça de Côte Rouge, vinho uruguaio em promoção na praça, e querendo esticar o papo monossilábico...
Ele que escolhesse o sabor - à bolognesa, à catupiry ou à calabresa - pois, a partir de então, o Zequinha jamais poderia deixar de lanchar na panquecaria da prima Clotilde.