segunda-feira, 22 de agosto de 2011

"Pega na cola que o resto não amola!"

Eram os anos cinquenta, em Jaguarão predominavam como assuntos ora o futebol, ora as carreiras de cancha reta que deslocavam a política para uma abordagem secundária e as cores partidárias se trocavam conforme o livre arbítrio de cada um. No Café do Comércio, andava-se de uma mesa para outra e se constava essa predileção entre os diversos clientes, não se tinha muito a escolher. Agora os carreiristas eram mais chegados à barbearia do Márcio Tissot, outro aficionado que atraia e dava linha para os clientes, demorando-se em suas conjeturas turfísticas que enervavam aqueles que não estavam a fim de papo.
Na época, recém se fundara o Jockey Club de Jaguarão, modismo que provocou algum esvaziamento nos estádios de futebol existentes na cidade, prejudicados pela concorrência com os páreos de longa distância, aos domingos, no Prado local. Disputavam a corrida principal o parelheiro Lord, pertencente a meu primo Anysio de Souza Resem, e a potranca Princesa, de propriedade do Dr. Ernesto Marques da Rocha, ex-prefeito do Município, em infindáveis tira-teimas consequentes das discussões que se sucediam na barbearia do Márcio, nenhum deles querendo dar o braço a torcer.
O Lord não tinha lá o seu pedigree, pois era descendente duma eguinha zaina e mansa que tio Cantalício tinha em sua chácara, após o passo dos Correias. Resultara do cruzamento com o tordilho Nico, este sim um excelente troteador e puxador do carrinho que conduzia Anysio para visitar a noiva na estância do futuro sogro no Cerrito. Mas aquele era um animal diferenciado que logo revelou seus pendores para o galope nas pistas de corrida, vindo a se tornar alegria de muitos apostadores na fase inicial quando pagava generosas “poules”, as quais em seguida deixaram de ser compensadoras...
Porém, havia um complicador nessa história toda: era o jóquei Matraca, um mestre nas rédeas apesar de muito chegado a um trago amigo que, às vezes, sumia na véspera e só aparecia todo borracho pouco antes de correr – e dê-lhe banho frio para se compor. Assim meu primo se viu obrigado a construir uma casinha de alvenaria na chácara do seu pai Cantalício, com um quarto para alojar Matraca e o tratador “seu” Benício, encarregado de vigiar os passos daquele, tendo ao lado a baia que abrigava Lord. E de madrugada, todo dia, saiam os dois para varear e cronometrar os tempos do parelheiro.
Anysio me falava que se dedicaria a viajar por todo Estado caso dispusesse de um capital maior, possibilitando-lhe a corrida do Lord em localidades onde não fosse conhecido para obter melhores rendimentos. Até que o doutor Ernesto se dando conta da melhor performance deste em relação à Princesa, terminou comprando-o. E o primo, acreditando nas melhores condições financeiras do seu rival para explorar o potencial do seu cavalinho, não relutou em se desfazer do mesmo. Acontece que Marques da Rocha se enfezou com a aquisição e terminou “queimando” suas fichas em canchas de baixo retorno...
Quando chegava à chácara de tio Cantalício, sempre procurei tomar meus mates com “seu” Benício e Matraca, levando alguns livros para que eles se distraíssem durante a semana. Numa dessas ocasiões, “seu” Benício Tissot, que também era pai do barbeiro Márcio e de uma filharada imensa dessas de campanha, convidou-me para ir até sua casa situada “logo ali” quem vai para a capela de São Luiz. E lá fui eu, roçando fundilhos em cima dos pelegos da sela de um petiço, a visitar o humilde rancho desse tratador. Foi uma festa a nossa chegada. Na porteira, a filha mais moça do velho, toda sorridente, e ele me larga uma pérola:
- “Que tal, te agrada essa flor de prenda?”

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Quem diria? Já cozinhei pra cachorro...

“Sempre me surpreendo, me decepciono quando encontro a maldade em estado puro... em crianças e pré-adolescentes” – a escritora e poetisa Profª. Maria Clarice Sampaio Villac se mostra desencantada, relatando em sua crônica (http://www.simplicissimo.com.br/colunas-ativas/daqui-de-la/aquela-historia--quando-vai-acabar) recente experiência em sala de aula com alunos de idade média entre 11 e 12 anos na escola em que leciona em Valinhos-SP, alguns dos quais manifestaram modos incorretos de tratar os animais. A meu ver, só o fato de abordar esse assunto deve ter contribuído para lançar em mentes férteis uma boa dose de valores humanísticos.
O tema serviu para me provocar profundas reflexões. Por não ser muito afeito a encarar perdas constantes como são aquelas que dizem respeito aos animais de estimação, que têm vida breve se comparada a nossa existência, tenho evitado não me envolver em demasia com tais apegos. Mas nem por isso deixo de admirar aquelas pessoas que se dedicam a cuidar destas criaturas compartilhando da nossa jornada pelo planeta no qual habitamos. Há pouco, vimos na televisão o esforço sobre-humano de uma família em São Paulo que buscava os mais avançados recursos veterinários para salvar o seu dócil leão acometido de uma doença degenerativa.
Minha esposa e meus filhos são apaixonados por cães e gatos. E eu, na medida do possível, sempre os apoiei nessa preferência, assumindo encargos de providenciar os cuidados necessários, tais como saúde e alimentação, inclusive como cozinheiro de cachorro, aquela mão de obra considerável. Hoje, com os filhos encaminhados na vida, a mulher e eu vivemos sozinhos em apartamento sem a compensação de afetos alternativos. Já moramos em casa bem situada no nosso bairro, sendo um dos motivos pela longa permanência na mesma o pátio e o jardim que nos permitiu ser acompanhados por uma gentil “collie” até o fim de seus dias.
Pois nessa residência procedemos algumas reformas para adaptá-la às nossas necessidades, uma delas foi a construção de uma “suíte” em cima da garagem para ser instalado o quarto do casal que posteriormente tivemos de trocar por razões ortopédicas na subida da escada. Então ali se acomodou um dos filhos até encontrar outro espaço de maior privacidade. E este era useiro e vezeiro em atrair os gatos da rua para sua companhia dentro do quarto. Os bichanos se acostumaram então a entrar pela janela sem a menor cerimônia a qualquer hora do dia ou da noite, tendo de me valer de algumas vassouradas para ser mais respeitado.
Ali recebemos um casal de parentes que era habituado a dormir de janela aberta, fosse verão ou inverno, para melhor renovação do ar ambiente. E não é que a gataria invadiu o recinto sagrado, provocando o maior escarcéu por cima de tudo que era móvel e assustando aquela gente... Mas não eram só essas inconveniências que os bichos aprontavam, bastava que se deixasse alguma abertura por onde eles pudessem chegar e logo apareciam ninhadas aqui e ali, o que sempre acarretava um tempo para serem descartados em algum local propício às suas sobrevivências. Até chegamos a apelar para a Associação Protetora dos Animais, cruz credo!
Agora o outro filho foi quem nos brindou com aquela “collie” que ele trouxe para casa quando procurava comprar uma roupa emborrachada de “surf” e terminou trocando por aquela filhota que viu num “pet shop” em seu trajeto. Antes já nos tinha enfiado uma lebre (ou coelho, sei lá) que extinguiu todo o verde existente no quintal, além de espalhar “bolinhas” por toda casa, obrigando-me a construir uma gaiola para conter a danada. Terminei negociando a “fera” com gaiola e tudo - e mais uma pelega de mil no pescoço - para um colega de serviço que morava num sítio, convencendo-o das vantagens da cunicultura como reforço da economia doméstica.

sábado, 23 de julho de 2011

UM ÍCARO RUMO ÀS GALÁXIAS

Wenceslau, Velho de Guerra, até que enfim você se decide a modernizar seus instrumentos da escrita. Provavelmente, a sua máquina de escrever esteja virando peça de museu e vá ficar na saudade. Agora, você pode tirar da gaveta tantas e tantas jóias para guardá-las nesse “quartinho de despejo” que vai ser o teu Blog do Wenceslau, um diário de inestimável valor para divulgar ao mundo o seu talento de escritor nato. Adquirido ao longo de anos e anos se espelhando nas boas leituras de sua abarrotada biblioteca que se estende de Jaguarão, passando por Arambaré, até Porto Alegre.
Agora você se torna um cidadão do Universo e ninguém segura a sua prosa e a sua poesia se disseminando por todas as Galáxias. Para que Gutenberg em plena era do livro virtual? Seus seguidores já começam a aparecer e vão continuar surgindo novas carinhas, algumas delas completamente desconhecidas, mas que irão descobrir em seus escritos outras formas afins de manifestação do seu pensamento. Ai terá toda liberdade de expressão para concordar ou divergir da “unanimidade” midiática que se acomoda aos interesses dos aproveitadores da ocasião.
Jaguarão passa a contar com mais uma ferramenta para difusão de tudo aquilo que vem se construindo nesses 200 anos de criação da Freguesia do Espírito Santo do Cerrito, o que se constitui numa notável coincidência com o surgimento de mais um apontador da sua história. Muitos dizem que nunca viram bairrismo tão acentuado como em nossa terra natal e eu acredito não tenha enxergado pessoa mais orgulhosa de suas origens do que o nosso amigo Wenceslau Gonçalves, batalhador, guerreiro que nunca se dobra ante os desafios de agregar os conterrâneos estejam onde estiverem.
Só o fato de termos diante de nós o criador do Dia do Retorno - data que foi recentemente oficializada por Decreto Municipal a ser incluída no calendário turístico de Jaguarão no último sábado de novembro – já constitui credencial suficiente para que se reconheça sua persistência. Infelizmente as autoridades constituídas do Município ainda não se deram conta de que essa data é muito mais do que receber timidamente uma caravana de residentes em Porto Alegre e que precisam atuar com programações destinadas aos jaguarenses radicados em outras localidades do Estado e do País.
Vejam a realização estampada no rosto desse moço que teve a ousadia de desfraldar a bandeira de Jaguarão em plena Torre de Belém, em Portugal, marco zero da era dos descobrimentos, como se fosse uma conquista pessoal para sua terra. E o Blog do Wenceslau ai está dando um banho de notícias e estórias em todos aqueles famintos de novas sobre o seu torrão natal. Ninguém melhor do que ele merece ser acessado e comentado em http://wenceslaugoncalves.blogspot.com/ para que se estimule na continuação do ideal a que se propõe. Recomendamos com muito louvor.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

DESLUMBRAMENTO INEXORÁVEL

Guadalupe Soledad. Isso mesmo, Guadalupe Soledad, sem tirar nem por. Mulher franzina devido a sequelas de raquitismo na infância, sobrevivera até o fim de seus dias à custa de fervorosas preces e insistentes tratamentos a base de ervas medicinais. E fora batizada com esse nome como cumprimento de uma promessa por ter a mãe resistido a um parto doloroso e difícil. Nunca tinha saído daquele vilarejo pobre e empoeirado, de ar seco e sol forte, na região desértica da costa andina, onde todos dependiam de uma velha e exaurida mineração existente nos arredores.
A população local constituída basicamente de indígenas e afrodescendentes havia sido excluída naquelas paragens inóspitas desde os tempos da colonização espanhola, ali acontecendo, ao natural, miscigenação entre esses grupos étnicos. A maioria dos homens se enterrava nos túneis da mina durante o dia e só viam a luz do sol aos domingos, quando freqüentavam a capelinha para assistir a prédica de algum frade que lá comparecia. Raros os que ficavam na superfície, vivendo de biscates ou se dedicando ao artesanato de prataria para passar o tempo.
Desde pequena, Guadalupe se empenhava para ter uma vida normal apesar de suas limitações. Pernas arqueadas, caminhava se apoiando num bastão. Pouco convivia com o pai negro que trabalhava na mina, mas ajudava a mãe índia nas tarefas domésticas e até buscava água em longínquos poços. Naquela comunidade parca de recursos, todos se ajudavam na medida do possível. Supriam ausência de um posto de saúde com a medicina das comadres que se transmitia de geração a geração. As notícias eram geradas no balcão da bodega e corriam de boca em boca.
Já moça, não tinha os pais e passou a ser adotada e respeitada por todos numa estima isenta de comiseração. Deficiente, não media esforços para se igualar e mostrar sua fé inabalável àqueles abatidos pelo desânimo que buscavam se aconselhar e encontrar esse incentivo que transbordava da sua férrea vontade de viver. Um ser iluminado vagando nas trevas desse universo sinistro. O corpo vergado e disforme encerrava uma alma pura irradiando paz e harmonia a quem dela se acercasse. Até então ninguém tomara qualquer atitude de repulsa por sua condição humana.
Embora isolado, o vilarejo não se sustentava com os recursos de que dispunha em plantações de hortas e pomares. E os porcos, caprinos e jumentos se criavam quase selvagens em vazios cochos e exíguas campinas. Algumas pessoas tinham de percorrer a pé longas trilhas levando seu incipiente artesanato até outras povoações e trazendo mantimentos na volta como formigas carregadoras. E ainda havia os andarilhos que por ali passavam sem rumo e não se quedavam muito tempo, impulsionados por uma falta de perspectiva local, sem qualquer oportunidade de adaptação.
E assim surgiu na vila Frei Rafael, um frade de batina imunda e surrada, barba amarelecida, cajado de peregrino e sandálias rotas por infindáveis caminhadas. Acomodou-se num canto da capela e foi se tornando fixo no confessionário e nas missas de domingo. Logo requisitou os serviços da beata Guadalupe Soledad para auxiliar nos serviços domésticos e litúrgicos que ela exerceria com todo esmero. Encantada com a afabilidade do religioso, foi cedendo aos seus caprichos mais íntimos e secretos a qualquer hora e em qualquer lugar que ele necessitasse.
Porém brota em Guadalupe o instinto da maternidade. Ela enxerga em Frei Rafael o agente concretizador desse sonho, suplica seguidas vezes para ser atendida sem encontrar nele a mínima correspondência, pois este se esquiva sempre do ato sacrílego. Tanto o intimida que ele perde o gosto por esse pequeno deslize. E comunica que o estão chamando numa paróquia distante, que deve ir lá, mas que volta em seguida. Mais tarde, ao pé do altar, Guadalupe repara na escrita de um papel amassado:
"Qur perdoasse os seus pecados, que fazia daquilo um ato de caridade..."

UM PERSONAGEM INESQUECÍVEL

Ao lado, uma colega comentava: “Fiquei com pena dele, acho até válido o seu desabafo, mas não vai adiantar nada”. A voz embargada pela emoção, ele havia concluído o seu protesto ante a disposição do liquidante nomeado pelo Banco Central, Adson Quintela Martins, de promover a cisão do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul em três instituições de fomento estaduais, na visão deste perfeitamente viável. Ele tratava esse cidadão como Senhor Interventor e reclamava da sua postura em não providenciar na recuperação da entidade.
Anteriormente, ele já costumava me solicitar opinião sobre alguns dos seus artigos que depois iria publicar no Jornal do Comércio. Nessa época, eu era mais adepto da hibernação daquele nosso Banco na condição de autarquia não financeira, como instituição prestadora de serviços. Baseava-me no artigo 20 dos Atos Constitutivos do Sistema Codesul/BRDE, o que nos permitiria subsistir como funcionários autárquicos de um quadro em extinção nos três Estados. Mas ele não admitia qualquer recuo, tinha a idéia fixa da imediata retomada das operações financeiras.
Em Porto Alegre, ele era uma voz isolada que procurava compor com os colegas de Florianópolis e Curitiba, mais afinados com o ideal da preservação da regionalidade desse estabelecimento, contrariando a opção gaúcha pelo banco de desenvolvimento estadual. Foi um dos incentivadores e dos raros subscritores da ação popular, patrocinada pelo advogado Antônio Carlos Gomes, contra a liquidação do BRDE, pela imediata volta a normalidade das operações de fomento à Região Sul.
Convivi com essa figura ao longo de todo esse tempo de lutas e posso testemunhar da sua vontade férrea, da sua convicção para reverter todo um processo já previamente orquestrado nas esferas federais, uma causa quixotesca. As cansativas viagens à Brasília, a família prejudicada, os problemas de saúde, os negócios particulares relegados a segundo plano, nada o demovia desta inesgotável capacidade de superar obstáculos. Inúmeras vezes o assisti frustrado ante consequências inesperadas, ante o rumo incerto dos acontecimentos, nunca porém o vi se prostrar na acomodação dos derrotados.
Luiz Carlos Beiller de Freitas, Freitinhas para os mais chegados, como Davi frente a Golias, fez a sua parte.
Artigo publicado em 1989, no Jornalzinho do BRDE.

domingo, 29 de maio de 2011

E a vendinha de Dona Alexandrina?

“Às vezes, no rústico balcão
De velha tábua enegrecida
O tempo parava...
Às vezes, o vento passava
E o papel de embrulho acenava
Convidando o cliente...”

Fátima Michels me confunde com o autor de “Bodega”, Raimundo Cândido Teixeira Filho, de Crateús-CE, e diz que gostou muito do poema. Mas ele está ali a meu lado e corrige o equívoco: “A Bodega é minha!” E tinha que ser mesmo, mas me chama atenção pela temática. Mais tarde, leio a obra poética e me emociono com a beleza dos versos de uma sintética tranqüilidade ao transmitir com imagens felizes o humilde cotidiano que ainda subsiste apesar dos avanços tecnológicos. E nos transporta para aquelas paragens isoladas que se congelam na espera dos transeuntes.
Dou-me conta dos tempos decorridos e dos espaços ocupados nesta minha jornada de tantas vidas. Lugares por onde andei, saindo de Jaguarão, passando em Porto Alegre (Partenon, Centro, Bonfim e Menino Deus), São Bernardo do Campo (Jardim do Mar), São Paulo (Vila Prudente, Jardim da Saúde) e Florianópolis (Capoeiras, Agronômica). Em todos eles ainda rememoro a existência de uma “bodega”, ali na esquina ou no meio da quadra, que ainda hoje teima em manter a sua caderneta de fiados para os clientes relutantes em ingressar na era das compras facilitadas pelos cartões de crédito.
E o vento vai passando e me jogando meninote naquela chácara do meu tio Cantalício, em Jaguarão, naquela estrada que me parecia não ter fim até chegar lá, deixando a cidade, avistando a Igreja Matriz, a Santa Casa, o Quartel, o Curtume e o caminho longo até o Corredor das Tropas. Logo ali, a casa dos Machado, atravessava-se o Passo dos Corrêas, um fiapo de arroio que não dava passagem nas chuvaradas, e a estrada seguia na direção da Capela São Luiz. Bem antes eu descia do “carrinho” puxado a cavalo e abria a porteira para trilhar a íngreme ladeira de terra escorregadia até as casas.
Ranchos, galpões, currais, baias, tambos, galinheiros, chiqueiros, açudes, sangas, mato, campos, potreiros, cacimba, bomba d’água, plantações, hortas, pomares, taquarais, um mundo de solidões para mim. Aves, bovinos, eqüinos, suínos, caninos eram seres alienígenas num deserto humano. Meu tio reinava ali absoluto e ditava suas leis: “na minha propriedade é proibido caçar passarinho”. Os estilingues eram apreendidos sem qualquer apelação. Não deixava de verificar e determinar as tarefas do chacreiro, “seu” Dema, que a toda hora precisava ser lembrado da forma de executá-las.
Para melhor ocupar esse tempo arrastado, lá ia eu pegar no arado e tanger os bois no vai e vem da terra lavrada ou então rolar a pipa para buscar água na cacimba. Montava na égua zaina e saia a recolher as reses espalhadas pelo campo. Enchia balaios de laranja, vergamota, peras, goiabas para devorá-las ali mesmo, levando o resto para casa. Antes do almoço, o banho recreativo na sanga, seguido de causos contados na roda do mate, enquanto “seu Dema” aprontava a bóia e eu sugeria um angu de sobremesa: “mas não tem o fubá, a farinha de milho...” Fácil, só ir lá na Dona Alexandrina que ela tem...
E nós saíamos transpondo aramados e cruzando campos afora, a pé naquela longitude, para chegar na venda da Dona Alexandrina e gritar da porteira: “Ó de casa, queremos meio quilo de fubá!”

domingo, 22 de maio de 2011

Estendidos no Varal em Floripa/SC

EM PÉ: Icléia, Sandra, J.Machado, Flávio, Jacqueline, Dulce, Valdeck, Márcio, Júnior e Raimundo; SENTADOS: Verônica, José, Fátima, Zuleide, Walnélia Corrêa Pederneiras, Vó Fia, Irineu, Santhiago e Maerki (O TIME DOS SONHOS).

Dia 13 de maio último, estive em Florianópolis-SC participando do lançamento do livro “Varal Antológico”, na Livraria Catarinense do Beiramar Shopping. Esta obra reunia 38 autores do site Varal do Brasil, editado em Genebra (Suíça) e organizado pela escritora Jacqueline Aisenman, Embaixatriz da Paz, que também ali se fez presente para autografar os títulos de sua autoria “Lata de Conserva” e “Poesia nos Bolsos”. Noite de congraçamento e encontro com os leitores que não se furtaram a atender o convite para comparecer e prestigiar esse brilhante evento de Santa Catarina.
Poetas, contistas, ensaístas, literatos em geral, marcaram seu ponto de representação de alguns estados brasileiros, a saber: BAHIA – Waldeck Almeida de Jesus (Jequié): CEARÁ – Raimundo Cândido Teixeira Filho (Crateús); MINAS GERAIS – Irineu Baroni (Belo Horizonte) e Maria Aparecida Felicori/Vó Fia (Nepomuceno); RIO GRANDE DO SUL – Icléa Inês Ruckhaber Schuwarzer (Gramado) e José Alberto de Souza (Porto Alegre); SANTA CATARINA – Dulce Claudino, J. Machado, Jacqueline Aisenman, Maria de Fátima Barreto Michels, Mário José Rodrigues, Rita de Oliveira Medeiros, Souza Júnior, Suyan de Mello, Thiago Santhiago, Verônica dos Santos Silva e Zuleide J. Coral (Laguna); Flávio Goulart Barreto, Luiz Carlos Amorim e Walnélia Corrêa Pederneiras (Florianópolis) e Sandra Helena Queiroz Silva (São José);
SÃO PAULO – Thiago Maerki (Guarulhos).
A capa do livro foi um dos pontos altos destacado pelos inúmeros apreciadores desta arte projetada a partir de fotografia colhida por Maria de Fátima Barreto Michels sobre um banco de pedreiro.
Na ocasião, distribui como brinde aos confrades antologistas “Lá pelas tantas”/ crônicas e “Para Não Dizerem Que Passei em Brancas Nuvens”/ contos, de minha autoria, tendo recebido retribuição de Dulce Claudino (“Vidas em Versos”) e Luiz Carlos Amorim (“Borboletas nos Jacatirões”).
Muito gratificante para mim foi receber abraços e cumprimentos do amigo Ernani de Moraes Kurtz e da sobrinha Hilda Terezinha de Souza Pacheco, esta acompanhada pelas filhas Isabele e Alicia, compartilhando comigo dessa imensa alegria.
Para dar uma idéia da afluência do público às dependências da Livraria Catarinense, recomendo ver a ampla cobertura fotográfica de Dulce Claudino: http://duinha-dulce.blogspot.com/2011/05/lancamento-livro-varal-antologico.html.
Abaixo transcrevemos a introdução do poeta catarinense Alcides Buss nesse "Varal Antológico:
IDADES DE SER FELIZ Se você tem quinze anos não esqueça: esta é a melhor idade! Dos 15 aos 30, tudo é ainda propício à felicidade. Ao fazer 40, pense nisto: cheguei à metade da vida mas tenho outra metade pela frente. Depois dos 40, leve em conta: o que importa é cada momento!

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Não é que eu queira me gabar...

Alguém me disse uma vez que só é escritor aquele que tem livro publicado. Palavra, que jamais tive essa pretensão de editar qualquer obra. Porém, em novembro de 2009, o meu sobrinho “emprestado” Carlos José de Azevedo Machado (esposo de Vera Lúcia Souza Pacheco, esta sim legítima), então titular da Secretaria Municipal de Cultura me intimou a lançar no ano seguinte uma publicação de minha autoria na II Feira Binacional do Livro, de Jaguarão-RS. E se agora me invisto dessa condição, devo única e exclusivamente àquele seu estimulante desafio.

No mês passado, fui colhido de surpresa ao me deparar com postagem referente à minha pessoa no blogue “Talentos Jaguarenses: do passado ao presente”, a qual foi motivo de divulgação através de mensagem aos contatos mais chegados com os seguintes dizeres: “Não é que eu queira me gabar, mas me colocaram nesta galeria http://talentosjaguarenses.blogspot.com/2011/03/jose-alberto-de-souza.html. Diante de tantas manifestações de júbilo, resolvi transcrevê-las nos comentários abaixo, bem como enumerar todas as postagens publicadas naquele diário eletrônico até o momento:

01. Músicos Jaguarensses;

02. Escritores Jaguarenses;

03. Artistas Plásticos Jaguarenses;

04. Artesões Jaguarenses;

05, Joaquim Caetano da Silva;

06. Dr. Carlos Barbosa Gonçalves;

07. Eduardo Nadruz – o Edu da Gaita;

08. Sérgio da Costa Franco;

09. Aldyr Garcia Schlee;

10. Martim César Gonçalves;

11. Hélio Ramirez;

12. Gilberto Isquierdo;

13. José Alberto de Souza;

14. Eduardo Álvares de Souza Soares;

15. Marilu Duarte;

16. Carlos Heráclito Mello Neves (Kalunga);

17. Jaguarenses Ilustres Que Fizeram História;

18. Lau Siqueira;

19. Osvaldo Cordeiro de Farias;

20. Lau Siqueira lança livro em Porto Alegre, Curitiba e João

Pessoa;

21. Satyro Agenor Garcia;

22. Paulo Timm;

23. Alesssandro Gonçalves;

24. Maristel Pereira Mainardi;

25. Hermes Pinto Affonso;

26. Carlos Alberto Ribas;

27. Tempo, Espaço e Máscaras – Exposição da Artista Ana Izabel

Bretanha na Galeria de Artes da UCPEL;

28. Jerônimo Jardim – Um Grande Artista Jaguarense.

Evidente que me sinto bastante honrado com essa deferência, apesar de um pouco constrangido por anteceder inúmeras personalidades bem mais merecedoras de constarem nesse rol de notáveis, alguns ainda não acolhidos mas que por certo terão a sua vez com o decorrer do tempo e a ampliação do espaço desse resgate histórico.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Ele revela que nasceu em Jaguarão

Na 56ª. Feira do Livro de Porto Alegre, estive na sessão de autógrafos de lançamento de “In Extremis – Na Alça da Mira”, novela de Jerônimo Jardim. Quando o avistei, ele caminhava de vagar, apoiado numa bengala, ainda convalescente de enfermidade que o manteve em prolongada quarentena. E qual não foi a minha surpresa ao me deparar no saguão do Teatro Bourbon Country, prestigiando os 20 anos do Prêmio Açoriano de Música, com sua presença simpática e saudável, aparência de impressionante recuperação e desenvoltura no andar. Ah, e mais aquela sua marca registrada num flamante “Ramenzoni”!
Dia 4 de maio último, assistimos no Teatro Renascença (CMC) ao espetáculo de lançamento do último título da Virtual Musix/Mídia. – “De Viva Voz” – em que esse cantor e compositor se fazia acompanhar de um seleto grupo integrado por grandes astros da nossa constelação instrumental: Toneco da Costa (direção musical, arranjos, cifras e violão), Pedrinho Figueiredo (produção artística, vocal, sopros e arranjos para flauta e sax soprano), Fernando do Ó (percussão), João Vicente (violão de 7 cordas) e Luís Arnaldo (cavaquinho), além da participação especial da cantora Greice Morelli.
Abrindo a cena, JJ apresentou a primeira faixa do disco “Violão, Meu Violão”, samba de sua autoria que começa “a capela” e vai adquirindo balanço cada vez mais crescente. Segue-se a melodia título do trabalho “De Viva Voz” em que JJ dá o seu tom seresteiro, sob a brilhante moldura musical do sax de Pedrinho Figueiredo. Chega a vez do samba rasgado “Minha Nega”, em boa marcação do cavaquinho de Luís Arnaldo, e a platéia assiste atônita a invasão do palco por um cidadão trajando preto que arrasa com sua intervenção de harmônica – era o músico Xandy Vieira que se apresenta cantando e tocando no Sargent Peppers.
Embora lenta, uma batucada, “Perdoar”. A dor de cotovelo chega e aparece a flauta de Figueiredo, uma valsa “Cama Desfeita”. Em dueto com Greice Morelli, apresentação dos músicos, a gafieira de “É Isso Aí”. As firulas do Pedrinho na flauta, o agito de “Se Eu To na Boa”. O soprano do homem, vou te contar, boa de sair no sereno esta valsa “Não Há Mais Chão”. Jerônimo diz que é de dois lugares – “Nasci em Jaguarão, meu pai era militar, estava em trânsito, mas me considero de Bagé” – a sua origem familiar, ali descobre o choro da dupla Ciro Vaz & José Ducos, “Aconteceu em Madureira”.
Logo vem as suas parcerias que tem início com Greice Morelli, chamada ao palco, surge extasiante num longuinho vermelho e interpreta “Sinto Muito”, um samba-choro de fé. Poesia de Luiz Coronel que musicou e interpreta “O Amor é Assim”, dolente canção. Um título curioso “Amsterdã”, a letra repassada pelo jornalista Timóteo Lopes em relevo numa melodia singela, metáfora perfeita de amantes encarando horrores para mostrar que o amor supera a guerra. E até a esposa Clair Jardim colabora nos créditos de “Cartas Digitais”, valsa onde sobressai o sopro de Figueiredo.
Encerrando, apresenta novamente em dueto com a “melindrosa” Greicinha o agitado frevo “Lenha na Fogueira”, outra de suas parcerias com Clair Jardim. Em suma, Jerônimo Jardim esbanjou todo seu carisma romântico e alegria de viver em cena sem maiores sofisticações mas de grande identidade e sintonia com o público, que o aplaudiu delirantemente durante toda apresentação. Isabela e José Fogaça, Gelson Oliveira, Ayrton dos Anjos, Luiz Coronel e Luiz Mauro entre muitos que ali estiveram prestigiando o espetáculo.
“De Viva Voz” teve captação fonográfica ao vivo nos dias 6 e 7 de janeiro últimos, na Sala Álvaro Moreira do Centro Municipal de Cultura de Porto Alegre. Este show será reprisado no Sargent Peppers, no próximo dia 1º de junho às 22h30min. Conheçam melhor o artista em: http://www.jeronimojardim.com/.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Mais reconhecimento a Glênio Reis

Dia 26/04/2011, fui intimado pelo radialista Glênio Reis, a comparecer no Teatro Bourbon Country, a fim de acompanhar a cerimônia de entregas dos troféus relativos à 20ª. Edição do Prêmio Açorianos de Música (2010), no qual recebeu Menção Especial por seu expressivo desempenho como mais antigo comunicador gaúcho na área musical. Também receberam essa premiação Ayrton dos Anjos, renomado produtor fonográfico do Rio Grande do Sul; Carlos Branco, produtor musical; OSPA 60 Anos e Revista Noize. Os Homenageados do Ano foram Kleiton e Kledir pelo conjunto da obra.
Em sua fala de agradecimento, este filho de “seu” João dos Reis e de Dona Carolina Tanger dos Reis salientou a sua plena disposição de continuar atuando à frente dos microfones, faça frio ou faça calor, sem ligar para o avançado de seus 83 anos recém completados. Mantém-se ativo enquanto sua saúde permite para dar continuidade na apresentação do seu consagrado programa Sem Fronteiras das noites de sábado e, às vezes, das madrugadas de domingo – “sem preconceitos, onde a mediocridade não tem vez” – sempre na sintonia da Rádio Gaúcha, de Porto Alegre.
Com emoção referiu-se à presença de seus familiares na primeira fila da platéia de que muito se orgulhava – suas filhas Ellen e Rosy, ambas professoras como sua saudosa esposa Anésia Pereira dos Reis, e mais a neta Carolina, a quem nutria esperança de que se tornasse um dia como ele radialista. Ao final de sua oração, o público levantou-se para aplaudi-lo em demorada salva de palmas, como testemunha desse ato de reconhecimento a quem vem se dedicando com notável pertinácia à missão de levar entretenimento e cultura ao nosso povo.
A família Ramil, de Pelotas, teve bons motivos para comemorar, além de Kleiton e Kledir como Homenageados do Ano que tiveram suas músicas interpretadas por vários cantores gaúchos participantes da apresentação como Thedy Corrêa, Serginho Moah, Claus & Vanessa, Tati Portella, Neto Fagundes e Carlinhos Carneiro: a performance do irmão mais novo Vitor que arrebatou o principal prêmio da noite, Melhor Disco do Ano para “Délibáb”, cujo álbum ainda recebeu os troféus de DVD do Ano, Instrumentista (Carlos Moscardini) e Disco na categoria MPB.
Tive oportunidade de ser apresentado pelo professor Glênio à conterrânea Dª. Dalva, matriarca do clã Ramil. Nesse contato, inteirei-me do seu ramo materno Del Pino, cujas irmãs Diva e Dalva Del Pino Alves conheci como professoras do antigo Grupo Escolar Joaquim Caetano da Silva, em Jaguarão. E fiquei sabendo que era sobrinha do Sr. Abade Del Pino, dono de armazém naquela cidade, pai do ex-colega do Ginásio Estadual, Derly Del Pino, vozeirão dos programas locais de calouros, onde era apresentado como o “Vicente Celestino dos Pampas”.
Entre as inúmeras personalidades ali presentes, encontrei os conterrâneos Jerônimo Jardim, acompanhado da esposa Clair, e Martim César Gonçalves, concorrente a Melhor Compositor na categoria Regional com o disco “Da Mesma Raiz”. Cumprimentei ainda o amigo Marco Aurélio Vasconcellos e sua esposa Regina, ele postulando o prêmio de Melhor Intérprete pelo referido disco, também indicado para Melhor Instrumentista (Carlitos Magallanes). Bem que mereciam qualquer um desses troféus, considerando a concentração de prêmios alcançada por alguns agraciados.
A família Reis me proporcionou uma festa maravilhosa, senti-me bastante honrado com o convite deles e apreciei muito essa agradável companhia como se fosse um de seus membros.