sexta-feira, 30 de março de 2012

De Jaguarão-RS a Valinhos-SP *** (III)

11. - Por que falar de coronéis e de países diferentes? O que te trouxe a colocar no conto um personagem que não fala a língua portuguesa? Sem qualquer intenção de assumir equivocadas ideologias, talvez tenha sido influenciado pela situação política do continente na época em que foi escrito o texto, na qual predominavam os regimes militares em vários países sul americanos – “mi padre desapareció como ativista político”... Tratava-se de um conto ambientado numa pequena cidade fronteiriça, num local público e aberto e eu precisava de um personagem desconhecido, um andarilho, um “hippie” difícil de ser localizado naquela região – “Hace três dias que acá estoy” – para conseguir “tapar o buraco” do quebra cabeça. Posso afirmar que, no início do diálogo, não me dei conta quando esse personagem já respondeu falando em espanhol.
12. – De onde e desde quando essa vontade de ser escritor? Você se sente feliz em ser escritor? Creio que já tenha respondido em parte no item 8, porém, devo acrescentar que apenas me julgo um escritor diletante, não vivo da escrita e nem preciso forçar a barra, desde que tudo aconteça ao natural. Já tenho editado dois livros por conta própria, sem qualquer pretensão de auferir rendimentos, a não ser a satisfação de distribuir para os amigos e obter o seu reconhecimento como o certificado que me foi outorgado pela Escola Municipal de Ensino Básico “Horácio Salles da Cunha”, realmente um diploma de escritor reconhecido pelos leitores. Este é o segundo motivo de me sentir feliz com esse sucesso, já que o primeiro tive oportunidade de vivenciar quando fui escolhido para participar da Oficina de Criação Literária da PUC, coordenada pelo escritor Luiz Antônio de Assis Brasil.
13. - Você gostaria de escrever quantas histórias mais? Você gostaria de ser outro cara ou não? Apenas o que Deus me permitisse já que estou na fase do lucro e recém colhendo os frutos daquilo que plantei. Basta-me o que já tenho. “Então a gente se contenta com nem ter muito dinheiro, nem muita fama, nem mesmo, sim - nem mesmo muita felicidade. Aprende a aceitar confortavelmente a meia ração e ainda agradecer por ela. A ceder os primeiros lugares para os mais dotados e os mais sôfregos, sem as fúrias e a pressão que acicatam os favoritos. Descobrir que o bom é bater palmas e não disputar os aplausos.” – Fito-me nessas palavras sábias de Rachel de Queiroz.
14. – Quantos livros aproximadamente o senhor já fez? Os livros que tenho editado são mais coletânea de textos engavetados durante quarenta anos, embora alguns tenham resultado de participação da Oficina de Criação Literária da PUC, em que se projetou a antologia “Contos de Oficina 5” (1989). Como integrante do Grupo Fábula, também publiquei outros contos em “Mais Ao Sul Do Que Eu Pensava” (1993). Colaborei ainda em “Julinho 100 Anos de História” (2000), “Olhares Sobre Jaguarão” (2010), “Varal Antológico” (2011), além de vários artigos publicados em jornais e sites nacionais. Recentemente, lancei individualmente os títulos “Lá Pelas Tantas” (crônicas) e “Para Não Dizerem Que Passei em Brancas Nuvens” (ficção).

quinta-feira, 29 de março de 2012

De Jaguarão-RS a Valinhos-SP *** (II)

Largo da Igreja - concepção da aluna Vitória Caroline Bastos

05. – Como seria a sua continuação para esse conto? Normalmente, nenhum conto tem continuação, serve mais para provocar a imaginação do leitor que faz a sua leitura mental nas entrelinhas como aconteceu no que foi sugerido nos trabalhos apresentados, onde predominava a temática familiar. No entanto, alguns autores já estenderam os contos publicados em narrativas mais longas, como é o caso de Laury Maciel, saudoso escritor gaúcho, cujo conto “A noite do Homem Mosca” rendeu-lhe o romance “Rosas de Papel Crepom”. Também é o caso de Graciliano Ramos, que produziu “Vidas Secas”, a partir de contos publicados em “Histórias Inacabadas”.
06. – Se o senhor tivesse de reproduzir esse conto em teatro ou filme, mudaria ou acrescentaria algo? Já me salientaram o excesso descritivo na parte inicial do conto, de que não cheguei abrir mão porque necessitava construir o cenário da história onde situaria o personagem Rafael e para isso me vali do narrador “câmera” – serviu para que a aluna Vitória Caroline elaborasse a maquete do Largo da Igreja conforme ela enxergou em sua mente. Confesso que já andei pensando em submeter esse texto – pela carga cenográfica que possui - para ser adaptado em “Histórias Curtas” que é apresentado em nossa TV de Porto Alegre, deixando a cargo do Diretor as mudanças ou acréscimos que fossem necessários, inclusive o final.
07. – Há quanto tempo escreve conto desse tipo? Pelas interpretações dos jovens analistas, “Um Compromisso para o Natal” parece revelar uma mensagem edificante, o que o diferencia dos demais textos publicados em “Para Não Dizerem que Passei em Brancas Nuvens”, cada um dos quais produzidos a partir dos mais diferentes estímulos sem caracterizar um estilo definido.
08– Como surgiu a sua vontade de escrever? Posso dizer que a minha necessidade de escrever surgiu do incentivo de meu tio e pai de criação pela leitura – “lê bastante se queres escrever bem” - e em plena infância no ambiente da livraria e tipografia desse meu tio, onde “fuçava” os balaios de saldo à procura de títulos sugestivos. Ali também funcionava o jornal da cidade “A Fôlha”, onde sempre nos visitavam personalidades de passagem como o poeta Cornélio Pires, de quem me recordo ainda meninote me mostrando, no balcão da livraria, a fotografia de um livro espírita onde aparecia a imagem incorporada de seu falecido irmão através do ectoplasma de um médium.
09. – Por que escrever uma história assim? A inspiração vem quando “o santo baixa”, resultante de um estímulo externo, um fato qualquer que a gente procura dar um tratamento literário e transforma em ficção, adaptando ao nosso imaginário e criando peças para colocar no lugar daquelas que faltam num quebra cabeça incompleto. No linguajar futebolístico é como se a bola estivesse “picando” na grande área, tem que aproveitar e chutar em golo. Ai então passamos a acreditar que vamos escrever uma história para cair no agrado dos leitores e assim atingir esse nosso grande objetivo.
10. – Por que tantos detalhes para descrever o lugar? Faz parte do tratamento literário para que o leitor imagine o cenário da história, para marcar a importância do local como ponto principal da cidade, onde acontecem as grandes concentrações de público, contrastando com a hora deserta e isenta do calor humano, salientando o estado de abandono e desespero do personagem. A sua maneira de vestir, sua postura nos degraus da Igreja, ajudam a criar uma imagem de palavras, a qual poderia ser “enxugada”, por exemplo, num filme ou numa história de quadrinhos.

De Jaguarão-RS para Valinhos-SP (I)


01. – Em que o autor se inspirou para fazer o texto. Esta história é verdadeira? “Um Compromisso para o Natal” foi baseado num fato acontecido na Igreja de São Paulo, no Rio de Janeiro, que me foi contado por um primo meu. Rafael e Leila não são nomes fictícios, apenas transpus o relato para minha Jaguarão, adaptando-a a uma realidade fronteiriça. O personagem Rafael também me inspirei numa pessoa que conheci em Novo Hamburgo-RS, cujo pai sumiu na Revolução e muito tempo depois reapareceu aqui pelo Rio Grande do Sul cognominado João Sem Terra, vindo de Goiás aonde chegou a constituir outra família.
02. – Você já escreveu livros para adolescentes? Quais foram? Nunca escrevi qualquer livro para adolescente que, dizem os entendidos, serem os mais difíceis de serem escritos tal a complexidade da mente infanto-juvenil, apesar de ser marcante a influência que a infância exerce no imaginário do escritor. Aqui no Rio Grande do Sul, Sérgio Faracco tem se notabilizado pelas suas lembranças da meninice e meu Mestre Assis Brasil chamou-me atenção sobre o conto “Um Caminhão Marca Ford em Mau Estado de Conservação” que dizia comparável a obra daquele autor e digno de figurar em qualquer antologia de autores gaúchos. Este conto me deixou “marcado na paleta”, nem sei se conseguirei atingir nível igual - até certa leitora se dispôs a comprar o referido para me presentear...
03. – Você já escreveu livros que foram homenagens para alguma pessoa? Quem foi? Pretende fazer homenagens a mais pessoas? Quais? Dediquei “Um compromisso para o Natal” ao casal Delícia e Guadil Bittencourt, ela professora brasileira que me preparou para o exame de admissão ao Ginásio (2º lugar) e ele guarda aduaneiro uruguaio, seu marido e meu grande amigo, ambos falecidos, os quais me alertaram para certo pendor literário e coincidentemente um paralelo ao “par internacional” Leila e Rafael. A ficção se entrelaça com a realidade e todos nós temos a tendência de romancear os fatos do cotidiano, estabelecendo certa verossimilhança (para mim uma mentira que parece verdade). Em “O Mais Recente Lançamento” inventei uma história toda calcada em personagens reais, aos quais pretendia homenagear, porém, quando levei a mesma ao conhecimento do herói do meu relato, este me contestou “nada haver comigo, até o nome saiu errado que é com dobre vê”...
04. – Como surgiu a idéia de escrever esse livro? Por que decidiu ser autor? Sinceramente, nunca pretendi escrever um livro e minha maior aspiração era participar de certa “Antologia de Contistas Bissextos”. Porém, em 2009, quando da realização da I Feira Binacional do Livro em Jaguarão-RS, meu amigo Prof. Carlos José Azevedo Machado (Maninho), então Secretário Municipal da Cultura, me fez um desafio para lançar um livro de minha autoria na Feira do próximo ano. Assim me decidi colocar mãos à obra e fui juntando vários artigos que estavam na gaveta para compor “Lá pelas tantas” que o jornalista Marcello Campos, da Rádio Guaíba, teve a generosidade de revisar, diagramar, editar e prefaciar. Logo após, sai novamente a campo, desta feita juntando os textos de ficção e convidei o escritor Fernando Neubarth – outro que me cobrou uma obra solo - para prefaciar “Para Não Dizerem Que Passei em Brancas Nuvens”. Desta forma, consegui pagar aquela promessa feita ao Professor Maninho, lançando em 2011 os dois livros na II Febin.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Visita à EMEB Horácio Salles da Cunha

Quando estive em Valinhos-SP visitando a Escola de Ensino Básico “Horácio Salles da Cunha”, foram-me entregues os trabalhos dos alunos Ana Cléssia Santos da Silva, Chrigor Ezequias da Silva, Christopher Renan Ferreira, Maria Alice Machado, Matheus Jesus Santos, Mirela Bueno Silva, Samantha Cunha Gonçalves e Tamilles Carvalho dos Santos (6º ano “A”), Albert da Cruz de Souza, Ana Paula de O. Justino, Gabriella da Silva, Mayara Alves Freire e Vitória Caroline Bastos (6º Ano “B”), Amanda Cristina Santana, Dafny Stephany da Silva, Jéssica Ferreira Santos, Luana Romão Rodrigues da Silva e Sabrina Rios Paixão (7º Ano “A”), Natália Conceição dos Santos e Stefani Shesleno Justino (7º Ano “B), os quais desenvolveram atividades referentes a estudo do conto “Um Compromisso para o Natal”, de minha autoria. *********************************************************************************************************** Esta atividade que teve coordenação das professoras Clarice Villac e Leila Rangel compreendia resposta às seguintes questões: 1 – Qual mensagem o conto de José Alberto de Souza lhe trouxe? Explique. 2 – Qual sua opinião sobre o conto? Explique. 3. – Continue a história. 4 – Faça um desenho. 5. O que você perguntaria para o autor? *********************************************************************************************************** As respostas obtidas demonstraram o elevado grau de aplicação e capricho empregados nessa tarefa que me pareceu um exercício para que o aluno desenvolva e aprimore o seu pensamento lógico, adquirindo agilidade mental e desinibição. Emocionei-me com as suas interpretações acerca das mensagens transmitidas através do texto e fiquei bastante gratificado com suas estimulantes opiniões. Mais impressionado eles me deixaram quando puseram a imaginação a funcionar, arranjando diferentes desfechos para a história e com sugestivas ilustrações mostrando o efeito visual obtido pela escrita. Agora, as perguntas realmente colocaram esse escriba numa “saia justa” que o forçou a se desnudar sem maiores apelações, aliás, com todo o prazer... *********************************************************************************************************** Para esse fim, vou dar início a uma série de postagens com o que respondi para meus caros e inteligentes questionadores.

segunda-feira, 19 de março de 2012

INTERATIVIDADE EM VALINHOS-SP

Na postagem http://poetadasaguasdoces.blogspot.com.br/2011/12/como-virei-projeto-em-valinhos.html, abordei a surpresa que me aprontaram os alunos da Escola Municipal de Ensino Básico Horácio Salles da Cunha, situada no bairro São Bento, em Valinhos-SP. Daí que resolvi retribuir a deferência que me prestaram, enviando para cada um deles um exemplar com dedicatória de “Para Não Dizerem Que Eu Passei em Brancas Nuvens”. Recebidos ditos exemplares, foi-me informado pela Profª. Clarice Villac, uma das coordenadoras do referido projeto, que se decidira fazer a entrega dos mesmos no reinício das aulas do corrente ano. ******************************************************************************************************* Diante do exposto, ofereci-me para estar presente no dia em que fossem passados às mãos dos alunos tais volumes, correndo por minha conta as despesas de transporte e hospedagem. Assim me coloquei à disposição da Escola no dia 6 de março, terça-feira, reservando passagens aéreas da Azul de ida para a tarde de 5 e regresso na manhã de 7 deste mês, bem como tratei da minha estadia no Golden Park Hotel, situado no Distrito Industrial de Campinas-SP, de clientela tipicamente empresarial, porém, o mais próximo do Aeroporto de Viracopos. Para ir a Valinhos, foi-me disponibilizada condução a cargo da Escola. ******************************************************************************************************* Na data aprazada, a Profª. Clarice e o coordenador pedagógico da Escola, Prof. Wilson Vicente, me procuraram pela manhã no Hotel para me conduzir até a cidade de Valinhos, que faz parte da região metropolitana de Campinas. Depois de uma rápida apresentação das dependências da EMEB Horácio Salles da Cunha, em companhia da secretária desse estabelecimento de ensino, Dª. Edmara Gonçalves Di Gaspari, fomos almoçar no restaurante Arizona, do bairro São Bento. Logo em seguida, retornamos ao colégio, onde nos aguardavam alunos e professores do turno da tarde, convocados para participar no auditório da interatividade com este modesto escriba. ******************************************************************************************************* Com a presença dos professores Leila Rangel (Artes), Sandra Fachineti (Ciências), Francislaine Lima de Oliveira (Português), Lindalva Ribeiro (Inglês), Gizele Bermudes (Geografia) e Gilberto Braziato (História), o diretor da Escola, Prof. Frederico Rodrigues Póvoa Leal, abriu esse nosso encontro com seu corpo discente, dizendo da finalidade dessa reunião e passando a palavra à Profª. Clarice para apresentar a detalhada postagem com os respectivos comentários em http://projetoletrasearteshoracio2011.wordpress.com/2011/12/17/projeto-jose-alberto-de-souza/ através de telão especialmente instalado no recinto, onde cada aluno participante dessa atividade fazia a leitura do seu comentário ali postado sobre o texto escolhido daquele livro de minha autoria. ******************************************************************************************************* Após a minha fala introdutória, fui sabatinado por alguns destes alunos com perguntas bastante inteligentes e instigantes que demonstravam o interesse deles pela leitura de Para Não Dizerem que Passei em Brancas Nuvens, notadamente pelo conto “Um Compromisso para o Natal”, as quais procurei responder dentro das minhas possibilidades. Encerrada a bateria das questões abordadas, o senhor Diretor me fez entrega de um certificado de agradecimento pela contribuição de minha presença nesse encontro, com o que manifestei minha gratidão e honra pela acolhida a mim proporcionada. ******************************************************************************************************* Durante a cerimônia, foi efetuado um precioso levantamento fotográfico da mesma, inclusive tive oportunidade de posar com todos os participantes (7º ano B) daquele projeto coordenado pelas professoras Clarice (Letras) e Leila Rangel (Artes). Ao final, mais uma surpresa: fui informado que a Direção da Escola, diante do sucesso alcançado pela iniciativa, decidiu estender aos demais alunos do turno da tarde mais uma rodada de leitura da obra, cujos trabalhos já estão chegando às minhas mãos para a devida apreciação dentro em breve. Sem dúvida, voltei bastante impressionado com as atividades desenvolvidas naquele colégio.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Cuidado: o Autor Desconhecido ataca!!!


Confesso que costumo me irritar quando vejo artigos de jornais locais sendo “chupados” para publicação em boletins informativos de certas empresas. Parece até que os seus leitores não tem o hábito de abrir os diários para conferir o conteúdo dos mesmos. Inclusive cheguei a flagrar um editorial num órgão ligado à Responsabilidade Social reproduzindo, sem tirar nem por, todo um texto que circulava banalizado através da Internet. Em meu serviço, sugeri e consegui que se fizesse, fora do expediente, uma oficina para elaboração de veículo jornalístico com a finalidade de ser produzida matéria da própria lavra dos funcionários. ***************************************************

É claro que se obtiveram ótimos textos com essa iniciativa, porém, não me dava por satisfeito ao constatar a timidez de alguns de seus autores quando se escondiam através do recurso do pseudônimo ou então concedendo apenas as iniciais de seus nomes. Entendia essa atitude como uma forma de se defenderem das críticas para evitar polêmicas desnecessárias. Isto que os assuntos tratados eram os mais diversos possíveis, sem envolver qualquer ofensa pessoal. Portanto, não deveriam se envergonhar da sua condição de diletantes escribas que manifestam suas idéias, atendendo a necessidade de uma fluente comunicação. *********************************************************
Há pouco recebi “Felicidade Realista”, cuja autoria era atribuída a Mário Quintana. Desconfiei do estilo apresentado e resolvi pesquisar no Google, onde descobri um portal que denunciava como sendo de Martha Medeiros o referido texto. Então alertei ao remetente esse equívoco e ele me respondeu que mais importava o conteúdo do que o autor. Quer dizer que essas mensagens estariam circulando impunemente, sem que se evite os constrangimentos a que são submetidos seus criadores, como veio ocorrer com Luiz Fernando Veríssimo ao ouvir numa cerimônia de formatura da qual era o paraninfo, um trecho apócrifo que lhe era atribuído. ******************************************************************
A jornalista Cora Rónai, em seu livro “Caiu na Rede”, no qual desmistifica os textos apócrifos, declara que é “uma completa falta de interesse pelo autor do texto: o que importa é a mensagem, não importando quem a tenha escrito... aliada à ignorância e a um senso peculiar do que seja direito autoral”. Nessas páginas, desfilam como vítimas Millôr Fernandes, Herbert Vianna, Gabriel Garcia Marques, Henfil, Caetano Veloso, Chico Buarque, Clarice Lispector e Castro Alves, tendo ainda veementes depoimentos de João Ubaldo Ribeiro, Arnaldo Jabor, Martha Medeiros e Luiz Fernando Veríssimo, renegando indevidos escritos.
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Martha Medeiros, vai dai certo machismo, tem sua produção autoral confundida com Carlos Drumond de Andrade (este com o texto “Quem Não Tem Namorado”, na obra erroneamente se aponta como sendo de Artur da Távola), Mário Quintana (“Promessas Matrimoniais”), Luiz Fernando Veríssimo (“A Impontualidade do Amor” e “O Que Faz Bem à Saúde”), Roberto Freire (“As Razões que o Amor Desconhece”), Arnaldo Jabor (“Até a Rapa”), Miguel Fallabela (“A Dor Que Dói Mais”) e Pablo Neruda (“A Morte Devagar”). Afora os inúmeros apócrifos onde o Autor Desconhecido ataca sem dó nem piedade, alterando os devidos créditos. **************************************************************
Vinte anos atrás, andei buscando exaustivamente um poema atribuído a Bertold Brecht e, por acaso, numa entrevista do então vereador Antônio Hohlfeldt, tomei conhecimento de “No Caminho com Maiakovski” http://www.culturabrasil.org/caminhocomaiakovski.htm que tinha autoria de Eduardo Alves da Costa, publicado em sua obra de mesmo nome, e que ninguém acreditava ser de sua lavra como até hoje a Internet vem confundindo os incautos. Comumente venho recebendo “Desejos” ass’as’inado por Victor Hugo e que acabei descobrindo como adaptação da crônica do nosso saudoso Sérgio Jockymann, intitulada “Os Votos” http://muneo.wordpress.com/2007/12/15/os-votos-de-sergio-jockymann-a-verdadeira-versao/ e publicada na Folha da Tarde em 30 de dezembro de 1978. ***********************************************************************
Rónai, colunista do Segundo Caderno do jornal O Globo, em suas considerações de “Caiu na Rede” é muito enfática quando afirma: “O melhor serviço que se pode prestar aos autores de quem se gosta, porém, é nunca, jamais, em hipótese alguma, passar adiante textos a respeito de cuja autoria não se tenha certeza”.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O PÃO DORMIDO DE UMA CRÔNICA

Apesar da virada dos quatro dígitos, ainda não havíamos chegado ao Século XXI nem tão pouco ao Terceiro Milênio. Porém o fascínio que nos causou trocar o 1 pelo 2 e os três 9 pelos três 0, tinha algo de místico e profundamente revelador. De repente, parecia que despertávamos de um sono letárgico e nos dávamos conta das grandes transformações que ocorriam no mundo em que vivíamos. Dos mais idosos aos mais jóvens, cruzando os limiares de 2001, logo iríamos carregar a pecha de haver nascido no século passado.
Quantos de nós deixamos de perceber a gradativa evolução arquitetônica de nossas cidades? Ainda existiam essas relíquias tombadas pelo patrimônio público como registro de uma época de fausto. Assim, podia-se constatar o alto pé-direito daquelas edificações, as vigas de madeira tosca a sustentar o assoalhado dos pisos superiores. Ou então as artísticas fachadas com ornamentos cuidadosamente executados, portas e janelas refletindo a ostentação de uma riqueza concentrada nas mãos de poucos. Estruturas de ferro e aço, o concreto das lajes, formas buscando a funcionalidade, o ar condicionado, o elevador, provocavam revisão de conceitos no projeto de prédios atualmente mais despojados.
Até meados daquele século, os objetos pareciam relutar em se tornar peças de museu. Geralmente tinham a sua serventia situada desde um passado distante. E eis que chegávamos a civilização do consumismo desenfreado, do obsoletismo programado. E ai começávamos a fazer arqueologia em recentes depósitos de lixo, dos quais se extrairiam desde radinhos de pilha até computadores e calculadoras eletrônicas, resultantes da revolução que a nanotecnologia ocasionava na compactação desses aparelhos.
Quantos de nós, já arqueados pelos anos, ainda não revivíamos aqueles tempos em que possuir uma geladeira dava status a seu proprietário? Em que teimávamos, década de quarenta provavelmente, mantendo os “frigoríficos”, móveis de madeira de lei, revestidos internamente com folhas-de-flandres, onde se gelavam e conservavam bebidas e alimentos, juntos a barras de gelo. Essas adquiridas em fábricas funcionando anexas a usinas elétricas com geradores acionados pelo vapor resultante da queima de carvão nas caldeiras.
Os antigos filmes americanos já nos mostravam as primitivas televisões que surgiam no mercado ianque, um inacessível sonho para nós brasileiros que não demorou muito para se concretizar – essa majestade que determinava a derrocada do rádio e do cinema, trancando as pessoas em casa com drástica mudança de costumes. As visitas perdiam a sua razão de ser...
E ainda permanecia fresca em nossa memória a lembrança do telefone de manivela com bocal fixo e terminal de escuta que se levava ao ouvido, solicitando-se o número desejado à telefonista na Central para aguardar com o fone no gancho que fosse completada a chamada... Então engavetávamos esse texto com receio de que fossem dizer que havíamos começado a “recordar a História, nem era preciso ensinar”.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Como me tornei projeto em Valinhos

Ao abrir minha caixa postal na noite de ontem, deparei-me com uma mensagem cujo assunto me despertou bastante a curiosidade – Projeto José Alberto de Souza. Tratava-se de um link do portal “Projeto Letras e Artes Horácio 2011” (http://projetoletrasearteshoracio2011.wordpress.com/2011/12/17/projeto-jose-alberto-de-souza/#comment-162), que reúne criações literárias e artísticas dos alunos dos 7ºs anos de 2011, do Ensino Fundamental da EMEB Horácio de Salles Cunha, em Valinhos, SP, sob a coordenação das professoras Clarice Villac, de Língua Portuguesa, e Leila Rangel, de Artes.
O projeto consistiu em sortear entre os alunos do 7º. Ano B os dois livros de minha autoria que enviei para a Escola, onde cada um deles, após a leitura dos mesmos, deveria apontar o texto que mais lhe agradou a ser lido para toda classe comentar a respeito e assim sucessivamente procedendo-se novos sorteios, os quais resultaram numa atividade bastante envolvente e motivadora de trabalhos bem elaborados.
A Profª. Clarice Villac que muito me honra com sua presença em meu círculo de amizades virtuais, notadamente como seguidora deste nosso modesto blog, atuou como revisora da coletânea “Varal Antológico”, organizada pela escritora Jacqueline Bulos Aisenman, natural de Laguna-SC e residente em Genebra (Suiça), e teve a generosidade de comunicar a Jacque sua apreciação sobre o “Velho Chateau Daqueles Rapazes de Antigamente”, com o qual participei daquela obra, opinião que me foi transmitida em 14,02.2011 pela ilustre lagunense. Através de rastreamento na Internet, acabei descobrindo o endereço eletrônico da Profª. Clarice e assim agradeci sua atenção.
Logo depois, resolvi lhe enviar “Lá Pelas Tantas” e “Para Não Dizerem Que Passei em Brancas Nuvens”, títulos de minha autoria. Desta forma, fiquei conhecendo a moça idealista com notável atuação nas áreas pedagógicas e ambientais, uma persistente semeadora de valores humanísticos em sua comunidade, como pude constatar não só através de “Cantinho Literário” e “Ponto de Luz”, portais que edita com brilhantismo na Internet, como também das virtuosas atividades que vem desenvolvendo em sua Escola.
Palavra que não esperava essa tremenda repercussão alcançada junto a um jovem público que me analisa detidamente e externa espontaneamente seus qualificados comentários. Impressionou-me sobremaneira o entusiasmo com que levaram a cabo suas tarefas, fruto do carinho e paciência com que são orientados para futuramente exercerem com dignidade a sua cidadania. As duas mestras, Clarice e Leila, são bem uma mostra da abnegação dessa briosa classe dos educadores, ainda não suficientemente valorizada em nosso país.
A utilização da ferramenta informática em sala de aula demonstra bem a importância da interatividade entre professores e alunos que assim podem trocar idéias e enriquecer conteúdos didáticos, estabelecendo bases sólidas para um melhor rendimento através de um aprendizado rico de saber humanístico.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Parceiro Vado Medeiros na "sobreloja"

Contemporâneo de Pedro Bartholomeu Ribeiro (Tutuca) no Ginásio Estadual de Jaguarão, eu ficava abismado com a sua verve em composições musicais que produzia a torto e direito, sem se importar com o destino que elas tomariam. Quando muito apresentava as mesmas através de performances beneficentes do Conjunto “O Ginasiano”, na época composto por ele, Luiz Fernando Cassal, Eulálio Delmar Faria (Pato) e mais os saudosos Luiz Carlos Silveira (Bode), Oscar Godofredo Porciúncula (Porraço) e Luiz Elder Franco, inclusive tinha o samba “Trovejou, Relampeou”, de sua autoria, como característica musical do grupo.
Eu não me conformava com tanto talento desperdiçado e tentava convencer “Tutuca” a encarar melhor a divulgação de sua obra, mas ele Pedro Bartholomeu sempre me contestava com a demasiada mão de obra que lhe custaria investir nessa empreitada, não valia a pena. E ai eu, nulidade em qualquer ritmo, meti-me a querer provar como não seria tão difícil assim. E comecei a cantarolar alguns versinhos que me vieram à mente, saiu “Boa Noite, Alegria”. Depois numa viagem naqueles ônibus antigos da Fréderes, que rangiam com as “costeletas” da estrada de terra, comecei a escutar uma melodia naquela barulheira, “Seu Boa Piada”...
Um belo dia, enchi-me de coragem para apresentar esses “pecaditos” ao notável instrumentista de Jaguarão, Oswaldo Emílio Medeiros, nosso querido Mestre Vado. Voz de taquara rachada, ritmo precário, fui “largando a franga”. Ele me pediu que parasse, obedeci envergonhado. Ele pegou um pedaço de papel, riscou algumas pautas, apanhou o “surrado” clarinete de palhetas amarradas com barbante, deu uma ligeira afinada e me ordenou “canta de novo”, “para”, solava aquela coisa e depois escrevia as notas na modesta partitura. Canta, para, toca, anota e assim fomos indo. Em questão de minutos, as partituras estavam prontas.
“Quanto é, Mestre Vado?” De jeito nenhum quis me cobrar. Disse-lhe então que dali em diante o apresentaria como parceiro. Aceitou relutante, pois queria me convencer de que tinha passado para o papel aquilo que lhe transmiti. Na ocasião, recomendou-me que procurasse o professor Alcebíades Lino de Souza, pianista jaguarense, diretor do Conservatório Musical de Pelotas, para fazer o arranjo para piano e o desenho da partitura. E lá fui numa “via-crúcis” danada, dando cabeçadas de tudo que é jeito. Estabeleci meus primeiros relacionamentos no mundo musical e terminei editando a partitura definitiva e encalhada daquelas músicas.
Em 2002, produzi “Fundo de Gaveta”, CD/Demo reunindo parceiros e intérpretes para compilação de tudo aquilo que resultou dessa nossa jornada e ali registrando o samba “Boa Noite, Alegria” e a marcha “Seu Boa Piada”, ambos com música de Oswaldo Emílio Medeiros e letra de José Alberto de Souza, com muita honra. Pouco tempo depois, estive jantando numa churrascaria da Coxilha/Uruguai, onde me juntei aos amigos Cláudio Rodrigues, Newton Silva e Arnoni Lenz, para entregar essa modesta gravação aos companheiros “Tutuca” e Vado Medeiros, integrantes daquela coletânea.
Hoje sou surpreendido pela matéria “Jaguarão está de luto: faleceu Mestre Vado” postada em http://confrariadospoetasdejaguarao.blogspot.com/2011/12/jaguarao-esta-de-luto-faleceu-mestre.html?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+blogspot%2FmhyBLf+%28Confraria+dos+poetas+de+Jaguar%C3%A3o%29 e, pesaroso, estou publicando este meu depoimento sobre um ilustre conterrâneo, personalidade ímpar da nossa cultura popular, de grande contribuição a tantas orquestras e conjuntos regionais que se formaram em Jaguarão e Rio Grande, aonde chegou a acompanhar consagrados cantores do cenário nacional. Acredito que São Pedro deve estar recebendo-o de braços abertos ouvindo:
“Seu Boa Piada,
Seu Boa Piada,
conte mais uma,
bem bem engraçada,
daquelas que o senhor,
dizer sempre costuma...”

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Reflexões sobre a incrível efemeridade



Dei uma circulada pela ancestral cidade e constatei uma gradativa perda de referência. Senti bastante a falta daqueles amigos que tomaram outros rumos, alguns deles partindo para outros planos. Até os antigos pontos de encontro já não existiam mais, substituídos por acanhados recintos que mal acomodavam os remanescentes daqueles bons momentos ali vivenciados. E agora aquele resistente boteco se tornava recanto tradicional, onde achávamos algumas caras vincadas diuturnamente que ainda podíamos reconhecer e assim compartilhar de um papo afável regado com o cafezinho da casa ou a água mineral servida bem geladinha para espantar a rouquidão das cordas vocais. 


Pouquíssimos conhecidos me reconheciam e eu não conseguia me lembrar das suas antigas figuras, hoje mais barrigudos e de cabelos grisalhos. “A quem devo a honra de me dirigir?” – era minha constrangedora saída para me situar num distante espaço de tempo. Alguns, mais afoitos, que não sentiam os anos pesando em suas costas, não deixavam por menos e me provocavam: “Mas tu ainda estás vivo!”. E eu tinha que bater três vezes com a mão em qualquer pedaço de madeira para tirar o pé da cova... De repente, gritavam meu nome e eu olhava para um lado e para outro e só via aquelas damas todas eufóricas. “Qual delas?” – me inquiria apelativo. 

À noite, andando por aquelas ruas repletas de passantes desconhecidos, julgava-me como um espectro que tudo vê e não é visto, a enxergar os vultos difusos das minhas lembranças, passado que teimava por não ser esquecido. Saudava-os como nas noites em que, na saída do cinema, respeitosos casais caminhavam lépidos tentando aquecer os corpos açoitados pelo vento hibernal e desprotegidos apesar das grossas vestimentas, na direção da cafeteria mais distante para o choque térmico do chocolate quente. Mas eles também não me avistavam nem respondiam ao cumprimento como se eu fosse um fantoche das próprias ilusões. 

Também andei passeando nas alamedas da minha aldeia de saudades eternas. Naquelas pedras frias e tristes, os retratos amarelecidos pareciam me contemplar através de um limiar imaginário. Pacientes, eles sempre esperavam a minha chegada, querendo me agradecer pelas piedosas orações. Esta energia que emanava do infinito estabelecia uma espécie de comunicação com aqueles entes queridos. Ali estavam as profundas raízes desse tronco que ainda permanecia de pé e se ramificava em outras gerações. A nossa capelinha se mantinha cuidada e pronta para o ornamento reverencial das flores como eu gostaria que continuasse quando ali fosse conduzido. 

Pois esta minha imersão nesse mundo de outrora me fazia refletir sobre a efemeridade da vida, de memoráveis instantes que não se eternizam. De hora em hora, a necessidade nos impele a profundas transformações, a nos adaptar a novos comportamentos ditados pelo aqui e agora. Assim como antigas células de qualquer organismo dão lugar a outras mais novas num processo constante de renascimento, também nosso entorno submete-se a severas mudanças. A mãe Natureza sempre procura nos alertar e preparar para esse ciclo irreversível de plantio/germinação, crescimento/maturidade, colheita e letargia. Até mesmo o progresso implacável contribui para o supremo desígnio do Universo.