sexta-feira, 5 de setembro de 2014

PARA SER APRECIADA: "PAISAGEM INTERIOR"

Recebo da promotora do evento, Regina d’Azevedo, solicitação para agendar show de lançamento do CD “Paisagem Interior”, no qual Marco Aurélio Vasconcellos interpreta composições de nossos conterrâneos Paulo Timm, Martim Cesar e Alessandro Gonçalves, além de sessão de autógrafos de “Sobre Amores e Outras Utopias”, último livro de Martim Cesar.
 A quem interessar possa:
Quando: 12 de setembro (sexta-feira), às 20 horas.
Onde: Livraria Cultura, Bourbon Country/Porto Alegre.

Em Julho de 2010, tive oportunidade de assistir a apresentação de “Da Mesma Raiz”, disco anterior do mesmo grupo no Teatro Bruno Kiefer, da Casa de Cultura Mário Quintana, aqui em Porto Alegre. A casa totalmente lotada e eu tive a grande frustração de ser o único jaguarense ali presente, apesar de amplo anúncio na época entre os conterrâneos da Capital. Confesso que a minha cara caiu no chão e, daí em diante, desisti de me fazer agregador. O fato é que Marco Aurélio Vasconcellos é um artista consagrado, de grande carisma e público fiel que sempre atende sua chamada.
Agora mesmo estive dando uma olhada em seu primoroso site , que mostra todos os detalhes de sua carreira artística, quase impossível de sintetizar em poucas linhas e que muitos “medalhões” devem invejar. E, no entanto quem priva da amizade e do convívio desse notável cantor, músico e compositor sabe muito bem que se trata de uma personalidade extremamente simples e cativante, jamais afetada por qualquer estrelismo. De comportamento afável, deixa muito à vontade quem dele se aproxima.
Posso dizer que fui apresentado espiritualmente a Marco Aurélio através de uma composição de sua autoria “Conselhos”, mostrada pelo reitor do IPA, Prof. Oscar Machado Filho, em sua residência, por se considerar sua origem como filho de peão. Vim a tomar conhecimento de sua pessoa como colega da Oficina Literária do escritor Laury Maciel, escamoteando sua condição de sumidade do nativismo gauchesco. Sou testemunha de seu relacionamento franco e cordial com todos os companheiros de aprendizado na arte do bem escrever. E depois tinha aquelas caronas, quase um “city-tour”, para prolongar o papo com este filho daquela terra que tanto admira e gosta.
Por isso não me canso de celebrar o caráter desse tremendo boa gente que é meu apreciado amigo Marquinho pelo muito que aprendi com sua sabedoria inata, mais ainda não se fazendo de rogado para me brindar com um generoso prefácio, expondo seu julgamento em meu modesto trabalho “O Velho Chateau Daqueles Rapazes de Antigamente”, que lhe custou uma visita minha a seu Haras, em Eldorado do Sul, onde cria aqueles garbosos cavalos da raça Morgan que me encantaram, assim como aquele saboroso salmão por ele preparado com toda maestria e que ainda aguardo repetição...

SOLIDÃO NO PAMPA (Marco Aurélio Farias de Vasconcellos)
O céu, até bem pouco antes azul, num repente se povoou de nuvens negras, ameaçadoras. Ventos sibilantes surgidos dos confins passaram a açoitar a planície crestada do pampa, levantando em redemoinhos poeira dos corredores e trilhas. Na tapera próxima, um umbu majestoso se encolheu todo como que procurando se abrigar do vento arrasador, até que um grande galho da velha árvore estalou e se soltou do tronco com um ruído seco.
Em seguida, a chuva começou a desabar em grossos pingos, impregnando o ar com o cheiro característico da terra úmida. Já não mais se ouviam os trinados da passarada e o mugir do gado disperso. Somente emolduravam a acústica daquele ambiente desolado o sibilar do vento, o farfalhar das folhas nos capões de mato e o ribombar dos trovões.
A planície estava deserta. O gado desaparecera. Talvez tivesse procurado abrigo no mato denso que margeia o rio lá embaixo.
Subitamente, o grito de um quero-quero ecoou estridente. Viria alguém?
Logo a estampa negra de um cavaleiro solitário apontou numa curva do caminho. A grande capa escura do gaúcho envolvia seu corpo e a anca do alazão, enquanto o vento e a chuva vergastavam sem piedade o rosto acobreado do viandante que, no tranquito e indiferente a tudo, avançava pela trilha enlameada e tortuosa a se perder na vastidão da planície.
Dentro em pouco, apenas o vulto sombrio e quase indistinguível do cavaleiro, como que perdido naquele imenso quadro cinzento, via-se ao longe diminuindo, diminuindo...
O que pensaria ele na sua solidão?


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

#TWITADAS# PARA AQUELE SAUDOSO AMIGO



(Produção de vídeo: Jorge Luiz Neves Passos)

Ele foi pro Porto dos Casais, foi rever os lampiões, aquelas coisas passadas de um tempo que deixou saudade e que se congelou na sua espera.



Ele foi singrando no Guaíba, conduzido pelos ancestrais que vieram tão alegres recebê-lo ali no parque da Redenção, onde ele sempre pairava.


Os velhos fundadores desse nosso Alegre Porto jamais deixaram  de ser gratos pelas lembranças dele, de vivas memórias e ainda tão iluminadas.

Vai pro porto antigo das eras coloniais a ajudar os que fizeram a América dos seus sonhos se tornar nesta realidade por demais esplendorosa.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

"HOTEL AVENIDA": UM RESGATE HISTÓRICO?

AAi meu deus. Me esclareçam. Este não estava no "rol". Afinal, ele estava nesta esquina? Foi demolido quando? Mas bá, acabei de reobservar a aquarela de 1880 (que tem no IHGJ) e para minha surpresa, lá estava ele. Não tinha percebido o 2º andar. Puxa vida, que legal.
Carlos José de Azevedo Machado (Prof. Maninho)
Mestrando em Memória Social e Patrimônio Cultural PPGMP ICH UFPEL

Por: Fabiano Roncato
O antigo prédio foi demolido entre 1924 e 27, para a construção de 3 novas casas para os filhos do Ermenegyldo Correa, último dono do sobradão, ou do Avenida Hotel. Que lástima o terem posto a baixo, tenho algumas imagens dele e inclusive do mesmo já demolido. Ah, e ao contrário do que algumas pessoas pensam, dele nada foi aproveitado, nem mesmo da sacada para baixo, poderiam ter aproveitado parte do frontão para as 3 novas casas, mas isso não aconteceu, elas foram feitas desde o chão por completo.


Na frente dele, pela 20 de Setembro, tinha os portões em ferro trabalhado para a entrada das caruagens e carros, que em Jaguarão já tinha bastante para a época. E na parte inferior, "ouvi falar" que, havia uma especie de escritório portuário, e que por fim, depois de uma grande cheia, mandaram fechar suas portas inferiores com tijolos, isso pouco antes da demolição do mesmo.

E a propósito, ele foi construído no tempo de Jaguarão vila, ou seja, antes de 1855, e para mim, muito provavelmente ainda nas calendas de 1840. Porque este hospedou vários ilustres operários que trabalhavam na construção e finalização da Matriz.




Vista da Usina Termo Elétrica de Jaguarão - Foto tomada desde a sacada do antigo sobrado de esquina: Av. 27 de janeiro com Av. 20 de Setembro. Parece que na época teve alguma manifestação contra a demolição da chaminé de tijolos, mas também existiam comentários naquele tempo de que a mesma apresentava rachaduras. Desconheço a data precisa dessa foto, mas com toda certeza esta antecede a década de 1930.



NOTA DO EDITOR: Elisângela Costa Barcellos "acendeu essa fogueira" em seu facebock "Olhares de Jaguarão", para que os incautos pulassem e dessem suas opiniões, destacando-se os esclarecimentos do autor, lançando as luzes do seu saber que evitaram muitas "queimaduras"...

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

DE PATRONO A PADROEIRO SEM QUERER



Na 41ª. Feira do Livro de Porto Alegre (1995), Caio Fernando Abreu se dizia mais padroeiro do que patrono. Em nossa postagem “O Pirata que virou Papagaio” tivemos oportunidade de traçar um perfil dessa figura carismática que passamos a adotar como Patrono do nosso blogue, pelo que representou como incentivador e inspirador de vários textos aqui publicados. E eis que na semana p assada o nosso querido Professor Glênio Reis deixa de nos brindar com seu rico convívio, legando a sua imensa bagagem de preciosos ensinamentos que estão ai para serem postos em prática. Patrono deste Poeta das Águas Doces ele sempre vai ser, agora acrescido da sua condição de Padroeiro das boas causas que sempre abraçou.


Após a perda da amada Anésia há quatro anos, restou-lhe o consolo da companhia de suas filhas Ellen e Rosy e da neta Carolina, grandes alegrias de toda sua vida. Além da sua grande paixão pela radiofonia, a qual se agarrou com unhas e dentes até o último dia 2 de agosto, sempre motivado pela apresentação nas noites de sábado do programa Sem Fronteiras, da Rádio Gaúcha. Tanto assim que, internado no Hospital São Francisco, a fim de se submeter a exames médicos, justificava sua ausência na semana seguinte e prometia voltar neste último dia 16. Porém, submetido à cirurgia de emergência dois dias antes, devido a seu estado fragilizado não resistiu à falência múltipla de órgãos. Ao completar oitenta anos, nosso blogue registrou “24 de Outubro de 1927”.

 Ao ser conduzido à sua última morada no São Miguel e Almas, foi prestada tocante despedida na palavra do comunicador Paulo Santana que frisou “a qualidade de Glênio Reis de nunca ter entrado em atrito com quem quer que fosse em toda sua existência, enquanto ele Santana tinha mais de dez por dia”... Foi o que sempre constatei como característica da família Reis, todos sem exceção bastante atenciosos e gentis quando me recebiam, seja pessoalmente ou através de telefonemas e mensagens eletrônicas. Era minha segunda família em termos de estima e afinidade. Certa vez, manifestei a nosso amigo comum, Guilherme Braga, desejo de visitar Glênio em sua casa, prontamente atendido, e lá chegando Glênio disse que estaria a meu dispor em qualquer ocasião.

 Quando soube da internação do Professor Glênio, procurei contatar Guilherme Braga e, como este estava viajando, tive de aguardar seu retorno e combinamos aquela que seria nossa derradeira visita ao velho companheiro de tantas jornadas, a qual veio a ocorrer uma semana antes do seu passamento. Glênio Reis não media esforços para apoiar a tantos de seus próximos, de ninguém guardava mágoas e procurava assistir com sua proverbial gentileza a quem dele necessitasse. Eu que o diga pelos frequentes encontros para acompanhá-lo nos eventos a que era solicitado, fazia questão de compartilhar comigo das suas andanças para que eu testemunhasse o sucesso alcançado. Inclusive cheguei a posar junto com seus familiares quando recebeu o Destaque Açorianos 2010.

Decidi postar acima o vídeo Norminha Duval – Tea for Two para mostrar a participação do GR regendo o acompanhamento de palmas, o gravadorzinho numa das mãos, durante a apresentação daquela consagrada violonista no foyer do Teatro São Pedro, gesto muito típico deste comunicador, do qual se valia para animar qualquer performance onde se fizesse presente. Aliás, tive de batalhar um pouco para fazer aproximação da Norminha, a quem estive sondando para levar ao Sem Fronteiras. Reis relutante e Duval insistente, foi um caro custo até que surgiu a oportunidade. Ai, minha gente, acendeu o “amor à antiga vista” de que o Glênio não se lembrava mais dos tempos do GR Show, quando Norminha desempenhava a sua arte por lá. Acabou “arrombando” no Sem Fronteiras...

domingo, 27 de julho de 2014

GENTE OU BICHO, CADÊ A INCLUSÃO SOCIAL?

Antonio Galderio "Sem Teto"

Sabes quem eu sou? De onde venho?
Pois é, ninguém sabe nem quer saber. Nem mesmo eu me importo
com falta de vontade, impedindo-me de reagir.

Quando peço uma moedinha, qualquer coisa já me basta,
até agradeço por teres me dado atenção,
chego a ficar contente apenas com tua palavra.

À noite, tenho vontade de procurar a casa de Deus,
mas sempre encontro as portas fechadas
para que eu não permaneça por lá um tempo sem fim.

Fico perambulando pelas ruas, ajeito-me agachado
em qualquer canto onde possa descansar
sem que perturbe a passagem indiferente das pessoas.

Sentimento de gratidão é que me ocorre quando encontro
o espaço generoso de uma dessas marquises sem grades
para me abrigar das intempéries.

E como dói ter que depender da caridade alheia,
muitas vezes mitigada pelo carinho de um prato de sopa quente, 
repartido como pão de Cristo.

Amigo, talvez não saibas nem tenhas vivenciado
esta total carência de quem deixou e segue deixando
o tempo passar na falta de oportunidades.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

E por falar no apito tão estridente do carro motor

Em remotas eras, certo amigo me apresentou a uma bela “dama da noite”, conhecedora profunda do comportamento masculino, tecendo rasgados elogios à minha pessoa, apesar de não merecidos. Do alto de sua refinada experiência, essa dona não chegou a colocar em dúvida aquelas referências, porém, colocou-se a desfiar todas as decepções que lhe ensinaram a conhecer melhor o sexo oposto. E nos apontava apenas uma distinta figura do seu relacionamento como modelo de cavalheirismo, pautado em atitudes de respeito indiscriminado à condição social de cada criatura e que se chamava João Batista.
Assim, em rápidas pinceladas, apresento o perfil desse indivíduo que deixo em suspenso para compreender a profunda ansiedade por que passa todo ser humano ante as resultantes traduzidas pela química das reações emocionais. Dizem os espiritualistas que já somos programados desde os planos superiores. De modo inconsciente, mal percebemos os sinais que nos chegam através de inúmeras ofertas sociais de interação aos pares no meio onde vivemos com o fim de perpetuar a própria estirpe. E o nosso espírito vaga por ai perdido para encontrar afinidade de gostos e ideias.
Agora, imagine-se como estudante, dinheiro contadinho, que vai passar fim de semana na casa de parentes, em Barra do Ribeiro. A seu lado, viaja linda jovem, calada, que vai desembarcar numa parada logo adiante a fim de fazer baldeação a um ônibus de partida para Sertão Santana. Da sua janela, você avista ela embarcando no outro veículo e lançando para si um significativo sorriso. Você pensa em tomar outro rumo, mas ai surge o dilema de quem vai lhe pagar a passagem de volta. Cada um segue o seu caminho até nunca mais, pois aquele desencontro já fora previsto em sua programação.
Tantas partidas e chegadas nestas estações aonde nos conduz o destino que a gente não deixa de esquecer as muitas paragens de nossa existência. E ali naquela aduana no lado uruguaio da Ponte Internacional Mauá, hoje é difícil de conceber a ausência daquele carro motor que ia e vinha pelos trilhos de Rio Branco a Montevidéu, levando e trazendo aquelas pessoas complicadas para se identificar nas suas pretensões como de passeio ou negócio. Passageiros das mais diversas origens, misturando-se em multicoloridas roupagens que mal denunciavam seu modo de vida.
Afinal quem era João Batista? Boêmio, solteirão inveterado, filho de fazendeiro que ajudava o pai nas lides campeiras, com tempo suficiente para se dividir entre a dureza da atividade rural e as ocupações comerciais que não prescindiam de sua presença na cidade. Tínhamos um amigo comum, Vitório Silva, um velho companheiro das rodadas no Café do Comércio,  que sempre me falava das qualidades de João Batista, as quais eu ia agregando com admiração, apesar de não lhe desfrutar da intimidade. E o Vitório foi quem me contou um acontecimento rocambolesco, envolvendo aquele nosso personagem.
Estavam os dois passando de automóvel pela Aduana uruguaia no momento em que os passageiros embarcavam no carro motor, quando João Batista viu aquele perfil de rosto feminino que lhe encantou. Parecia que lhe sopravam: “Esta é a mulher da tua vida”. O trem já ia saindo, mas ele não teve dúvida para instruir Vitório: “Vamos até a estação da Cuchilla, que lá eu compro a passagem e pego o carro motor, preciso falar com aquela moça que nem conheço. Tu telefonas para o representante de meu pai em Montevidéu, Mateo Gallindo, que me espere lá na chegada desse trem, pois necessito acertar um negócio com ele. E levas o nosso carro para casa em Jaguarão”.
Nem preciso contar que ele terminou casando com a "involuntária visão", embora tivesse se apresentado a ela de botas e bombachas, a mesma roupa com que saíra da campanha. Apenas contando com presumíveis préstimos de uma pessoa de Montevidéu, que só distinguia de ouvir falar em seu nome.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

QUEM DIRIA: * ESTA GENTE ANDOU POR LÁ (II)


Grande ator do teatro rio-grandense, natural de Jaguarão, Joberto Teixeira levou à cena, no Teatro Esperança, o monólogo “As Mãos de Eurídice”, a mesma peça com que foi aplaudido de pé no principal palco do nosso Estado – o São Pedro, de Porto Alegre. Fiquei sabendo, através de uma emocionante crônica do Professor Cléo dos Santos Severino publicada no jornal “A Folha”, lá pelo fim dos anos cinquenta, que o espetáculo foi realizado para uma restrita plateia, mas que no dizer desse articulista com a presença de um casal de idosos, nada mais nada menos que os pais daquele artista, lotavam todo o espaço vazio daquela casa, dada a feliz oportunidade deles assistirem a magistral interpretação do seu talentoso descendente.
Outro momento mágico do nosso Cine Teatro Esperança me foi relatado pelo saudoso amigo Newton Silva, quando ali se apresentou o notável cantor e compositor Rubens Santos, já falecido, um dos parceiros de Lupicínio Rodrigues, então cumprindo uma turnê artística patrocinada pelo Governo do Estado, provavelmente acertada pelo empreendedor Danilo Brum, o qual integrava o Conselho Estadual de Cultura. Pois o Newton me enfatizou que esse espetáculo foi dirigido a uma meia dúzia de assistentes, os quais chegaram a sentir pena de tantos ausentes que deixaram de conferir um dos mais abalizados intérpretes do velho Lupi. Compreendi perfeitamente essa colocação, tendo acompanhado o veteraníssimo Rubens em inúmeras performances no antigo restaurante do CIB – Centro Ítalo Brasileiro, situado na Rua João Teles, bairro Bonfim, que costumava reunir às segundas-feiras a nata da música rio-grandense, ocasiões em que abusava de sua potência vocal, sem utilizar qualquer microfone.
Os tópicos acima transcrevi de crônica aqui publicada em 28/11/2010 e intitulada “Vivenciando instante privilegiado”. Feito esse reparo e aproveitando a deixa, ocorre-me uma passagem que me contaram sobre o desempenho do radialista Wilson “Catico” Almeida, filho da terra que ousava desafiar o dito “santo de casa não faz milagre”, representando naquele palco o difícil monólogo de Pedro Bloch, tantas vezes levado à cena pelo famoso artista Rodolfo Mayer, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Disseram-me que os invejosos de plantão se combinaram para lotar o Esperança a fim de lhe contemplar com uma estrondosa vaia. Mas o que se viu, ao final, foi uma longa e calorosa aclamação de todo o público ali presente.
Aqui já andei falando daquela ocasião em que tio Cantalício me levou para assistir a uma peça no Teatro, da qual teve que se retirar mais cedo porque eu comecei a bater pé como fazia nas matinês do cinema. Ou então daquelas vezes em que, ainda garoto miúdo, insistia com meu primo Anysio, já moço taludo e namorador, que me levasse nas noites de segunda-feira ao Cine para assistir aos seriados do Tom Mix e, já na outra semana, era ele quem vinha me perguntar se eu não ia ver a continuação do folhetim. Vendo as chanchadas da Atlântida, impressionava-me com a interpretação de Silva Neto para Nervos de Aço, cuja autoria ignorava fosse de Lupicínio Rodrigues, ilustre desconhecido para esse analfabeto musical.
E a ZYU-7 Rádio Cultura de Jaguarão tinha seus programas vesperais de calouros, aos sábados, ali apresentando as atrações locais, onde pontificavam o regional dos filhos do seu Agostinho – Canhoto, Lourenço e Moacir – e mais o violonista Nery Antonini, além de Napoleão, Severo e Adalberto Mendes, notáveis seresteiros, cuja fama se propagava por toda nossa Zona Sul do Estado, estendendo-se Uruguai adentro.
Finalizando esta lição de casa, para descontrair, um episódio hilário. Uma tremenda bofetada ecoa pelo recinto e lá da galeria (“poleiro”) alguém grita: “Afofaram o Adem!”. A projeção do filme é interrompida, acendem-se as luzes da plateia e, lá de baixo, ressoa o brado do melindrado dengoso: “Que ovo!” Acústica perfeita, surgia mais uma das expressões típicas do “jaguarês”...
E o resto fica a cargo das memórias vivas de Cláudio Ely e Pedro Bartholomeu.

terça-feira, 15 de julho de 2014

QUEM DIRIA: QUE ESTA GENTE ANDOU POR LÁ

Carlos José Azevedo Machado, o Professor Maninho, está preparando uma tese de mestrado na UFPEL sobre Memória Social e Patrimônio Cultural e me solicita um depoimento acerca daquilo que vivenciei no Cine Teatro Esperança, de Jaguarão. Para início de conversa, devo relatar a indignação do amigo João Campelo Costa, o “Ceará”, falando da entrevista do ator Paulo Autran com a apresentadora Cristina Ranzolin, na qual ele citava os diferentes teatros do mundo inteiro, onde representara a sua arte, incluindo aqui no Estado nossa terra. E não é que Cristina não conseguiu se conter para lhe perguntar como é que ele, já sendo aplaudido em grandes metrópoles da América e da Europa, sentiu-se pisando o palco de uma cidadezinha inexpressiva como Jaguarão.
Em verdade, criei-me na mentalidade do “já teve” de tanto ouvir falar daquelas companhias líricas que faziam ponto de parada em Jaguarão em seus deslocamentos de São Paulo e Rio de Janeiro para as repúblicas do Prata, privilegiando nossa cidade com memoráveis temporadas. A acústica do Teatro Esperança sempre foi destacada pela sua clareza para se ouvir perfeitamente os diálogos encenados a partir da ribalta, encantando todos os artistas que ali se apresentavam. Entre aqueles que chegaram a meu tempo, era useira e vezeira em se hospedar no Gerundo Hotel a pianista Luzia Felix, sempre acompanhada do marido, o humorista Sérgio Felix, os quais nunca deixavam de marcar sua presença no vetusto Esperança, antes de seguirem para Montevidéu.
Outra das inesquecíveis atrações que ali tive oportunidade de presenciar, recordo da veterana cantora Dircinha Batista, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Muito simpática, ela falou da sua vinda a Jaguarão como uma viagem sentimental que trazia a lembrança daquelas excursões que fazia com seu pai, o cantor Batista Júnior, e sua irmã Linda, inclusive já tendo estado nesta região sul do Estado. Era de se ver como ela cativou naquele momento a plateia do nosso Teatro que a deixava entusiasmada e feliz com a receptividade jaguarense, a ponto de manifestar seu desejo de um breve regresso e sua promessa de vir acompanhada da outra irmã, também famosa, Linda Batista. Azar o nosso que não chegou a se concretizar essa expectativa.
Já que Professor Maninho me provocou para pisar nestas brasas de uma fogueira mental, nem precisei esconder a primeira ideia que me ocorreu. Veio-me à mente certa peça encenada no antigo “politeama”, cujo título me parecia “Helena abriu...” que procurei conferir com o "expert" Luiz Carlos Dutra Monteiro e ele prontamente me corrigiu: “Helena fechou a porta”, apesar de desconhecer o ator principal da cena. Martelava-me o cérebro um tal de Luiz, do Teatro do Estudante. Em contato com a Coordenação de Artes Cênicas (SMC/P. Alegre), Breno Ketzer Saul gentilmente me envia mensagem com o artigo “Teatrodo Estudante do Rio Grande do Sul” e eis que me “aparece a margarida” LUÍS TITO na direção daqueles espetáculos.
Das minhas andanças internauticas, fico sabendo que a peça “Helena fechou a porta”, autoria de Accioly Neto, teve sua estreia no Teatro Copacabana do Rio de Janeiro, em 1950, estrelada por Tônia Carrero e Paulo Autran. Também consigo algumas informações sobre o ator e diretor teatral Luís Tito, que chegou a trabalhar com Cacilda Becker, Walmor Chagas, Célia Helena e Raul Cortez em “Santa Maria Fabril SA” (1958), de Abílio Pereira de Almeida, além de “Os Perigos da Pureza” (1959), ambas as montagens da Cia. de Teatro Cacilda Becker. E no cinema, encontro sua participação em “Caçula do Barulho”, contracenando com Oscarito, Grande Otelo, Anselmo Duarte e Gianna Maria Canale. Acredito que se possa ter uma ideia da importância daquela viagem do Teatro do Estudante, em 1954, pelo interior gaúcho.
Ainda me ocorrem outras passagens a serem reveladas para ilustrar a história de uma das mais tradicionais casas de espetáculos do nosso Estado, que se ombreia com o Teatro São Pedro, de Porto Alegre, mais o Sete de Abril e o Guarani, de Pelotas. Assim, devo prosseguir numa próxima postagem, atendendo o dever de casa que me foi passado.

terça-feira, 8 de julho de 2014

A FANTASIA DE MEANDROS DO INCONSCIENTE


Quando Juscelino Kubitschek foi eleito Presidente da República, em 1955, a revista “O Cruzeiro” publicou uma fotografia de página inteira da fachada da casa onde nasceu JK, em que aparecia bem nítida a numeração 241 do prédio. Conta-se que, em Jaguarão, o proprietário do Hotel Fronteira na época acreditou nesse número como um palpite infalível e resolveu apostar uma grande soma na “quiniela” uruguaia, vindo a ser contemplado com uma razoável fortuna, a qual poderia ter sido ainda maior se ele dispusesse de mais dinheiro para tanto.
Enquanto isso eu vivia suspirando por um sonho revelador que me possibilitasse uma tranquila independência financeira. Até que um dia me vejo como “chofer de auto de praça”, sentado a uma mesa num Café, em Caxias do Sul, e então me aparece o amigo “Rato”, dono de uma oficina mecânica, para me informar que o veículo que tinha deixado para conserto já estava pronto. Pergunto se dispunha da Nota Fiscal, assim pagaria ali na hora e depois iria retirar o carro onde se encontrava. “Rato” apresenta-me o documento Nº 1201... E eu me acordo imediatamente para anotar aquela surpresa.
Devo esclarecer que nunca fui “chofer de praça” e, até aquele momento, ainda não conhecia Caxias do Sul. “Rato” era um parceiro do Café do Comércio e tinha defeito de nascença nas pernas que o obrigava a caminhar com dificuldade, muito menos chegou a proprietário de qualquer oficina. Só mesmo dos meandros do inconsciente podia aflorar uma história tão fantasiosa, motivando-me a catar todos os “pilas” onde pudesse encontrá-los para jogar com sofreguidão em tudo quanto era tipo de jogo da “quiniela” de Rio Branco: 201 na cabeça, do primeiro ao quinto, aos vinte...
A lista com os resultados oficiais dessa loteria uruguaia costumava chegar a Rio Branco, cidade fronteiriça do outro lado do rio Jaguarão, por volta das 17 horas, através do carro motor que vinha de Montevidéo. No início da rampa de acesso daquela localidade, defronte a Casa Simon, até o plano mais elevado da Aduana, existia um quadro onde era divulgada a listagem dos vinte números sorteados. No lado brasileiro, alguns aficionados postavam-se às margens do rio e aguardavam o apito estridente do trem, chegando na Aduana e chamando-os para conferir a “buena dicha”.
E dali, com esse sinal, iniciava-se a marcha batida dos inveterados da “quiniela” para cruzar a fronteira, na esperança da realização de seus palpites. Numa dessas vezes, misturei-me ao pessoal, o coração batendo acelerado como se quisesse adiantar no caminho. Chegando naquela rampa, consegui avistar o “2” da centena no primeiro prêmio. Pernas frouxas, mal prosseguiam em alguns passos, o suficiente para distinguir o “0” da dezena... Modedocéu, não é possível! Comecei a tremer, as vistas turvas nem alcançavam o algarismo da unidade. Precisei chegar bem perto da tabuleta para enxergar aquele “202” frustrante, em oposição à expectativa da Nota de um sonho.
O fato consumado, relatei a passagem para a roda do meu grupo no Café do Comércio, o personagem onírico ali presente. Pois “Rato”, que tinha sua experiência das "fezinhas" no jogo do bicho, inconformado com essa “furada”, indignava-se por eu não ter procurado sua assessoria: “Tu podes ser inteligente, porém, pouco prático. Não acertaste porque não quisesses...” – E eu ali boiando e querendo adivinhar onde tinha me enganado: – “Presta bem atenção, coisa simples, sem erro, bastava ter somado o “1” do milhar a “201” da centena, ora bolas!”

Nem preciso contar do trauma que se apossou de mim, daí em diante, e me afastou definitivamente dos jogos de azar, afora algumas “tentaçõesinhas”.  

quinta-feira, 26 de junho de 2014

E ASSIM CRIAMOS O MITO "OBDULIO VARELA"


É tempo de Copa do Mundo e me ponho a reflexionar em cima de minhas lembranças sobre esse evento. Sinceramente, para mim tal certame já acabou em 1970 com a conquista definitiva pelo Brasil da Taça Jules Rimet, aquela mesma que foi roubada da sede da CBF e sumariamente derretida pelos larápios. Embora discutível, era minha opinião que nosso país passasse a ocupar uma posição de “hors concours”, dando oportunidade a que outros também chegassem ao tricampeonato e se habilitassem a uma disputa com nossa seleção canarinho. Mas reconheço que, se assim fosse, estaria se privando às novas gerações o gostinho de levantar mais um caneco.
Apesar dessa minha divergência, nunca deixei de acompanhar o desempenho de nossos atletas nas competições de futebol. E o que tenho visto nas últimas Copas não chega a me entusiasmar face o acentuado declínio técnico dos participantes em geral, a maioria dependendo da genialidade do principal jogador de sua equipe. Isso que são regiamente remunerados para exercer uma honrosa função. Nosso selecionado está ai todo enxertado de jogadores que atuam no Exterior, à exceção de alguns poucos oriundos de quadros nacionais, classificando-se a duras penas (e até com ajuda da arbitragem) numa das chaves mais fáceis da atual Copa do Mundo. Haja tremedeira...
Até algum tempo atrás, ainda guardava como relíquia uma edição extra de “A Noite Ilustrada” que circulou na véspera da decisão de 1950 entre Brasil e Uruguai, tendo estampada na capa em letras garrafais a manchete “BRASIL CAMPEÃO DO MUNDO” em flagrante desrespeito ao adversário. Favas contadas, vivia-se um clima de oba-oba, todo mundo querendo tirar casquinha em cima de nossos craques, que assim viam aumentar sua ansiedade em relação ao jogo. Preservação da equipe, nem pensar, até tiveram que aguentar, por imposição do técnico Flávio Costa, uma missa de mais de uma hora de duração, rezando em pé. A politicagem imperava sobre o grupo.
No lado uruguaio, alguns dirigentes só queriam não perder de goleada, o empate já estava de bom tamanho, com o que se rebelou “El Capitán” Obdulio Varela, comandando a reação sobre nossa vantagem zero a zero do primeiro tempo, já no intervalo da partida, dentro dos vestiários. Um “maracanazo” estava por surgir para calar as vozes daquelas inoportunas provocações, sepultando as esperanças de milhões de brasileiros. Porém, esses “futurólogos” ufanistas não foram capazes de assumir seu equívoco perante a opinião pública e descarregaram toda sua irresponsabilidade ao buscar algum “bode expiatório” pelo ocorrido, crucificando de forma desumana Barbosa e Bigode.
Recém tinha nascido para o futebol e comecei adorar aqueles ídolos fantásticos como Barbosa(V), Augusto(V), Juvenal(Fa), Bauer(SP), Danilo(V), Bigode(Fa), Friaça(SP), Zizinho(Ba), Ademir(V), Jair(P) e Chico(V), além daqueles grandes coadjuvantes Castilho(Fu), Nilton Santos(Bo), Nena(I), Eli(V), Rui(SP), Noronha(SP), Alfredo II(V), Maneca(V), Baltazar(C), Adãozinho(I) e Rodrigues(P). Quer dizer, dois craques em cada posição para dar e vender, não tinha erro. Mas faltou humildade para os líderes das classes dirigentes do país, que contaminaram com sua imprevidência toda estrutura montada para aquele desfecho mais favorável, coroando a melhor campanha da nossa seleção em toda a Copa de 1950.
Parecia um jogo jogado, ninguém se dava conta que os uruguaios entravam em campo de sangue doce, era nossa a obrigação de vencer. Uma tremenda sobrecarga emocional pairava sobre o elenco brasileiro. Mesmo assim, já aos 2 minutos, Friaça abria o placar com o tento de honra. Esta foi a gota d’água que transbordou o copo do orgulho “celeste”. Anunciava-se uma enfiada, jamais admitida por “Dom” Obdulio que correu rápido para apanhar a bola no fundo das redes, voltando logo ao meio de campo para repô-la em jogo, e aos berros incitando seus companheiros “vamos a ganar, a ganar ese partido!”