quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Relembrando a corrida do chasque

Não há lugar distante, nem vento ou chuva, frios o suficiente; não há cansaço ou obstáculos capazes de desviar um chasque de sua missão.
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15, 16 e 17/set/2005 - Jaguarão - Abertura e shows no CTG Rincão da Fronteira.
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18/set/2005 - Início do Percurso do Chasque - saída de Jaguarão às 7 horas. De Arroio Grande, às 10h10min. De Pedro Osório, às 13h30min. De Capão do Leão, às 15h50min. De Pelotas (trevo Fenadoce), às 16h10min. Chegada em Turuçu (km 484), às 18 horas, onde ocorreu a Tertúlia artística.
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19/set/2005 - saída de Turuçu, às 7 horas. De São Lourenço do Sul, às 8 horas. De Cristal, às 10 horas. De Camaquã, às 11h50min. De Tapes, às 13h40min. De Barra do Ribeiro, às 16h30min. Chegada em Guaíba às 18 horas, com Tertúlia no CTG Gomes Jardim, às 18h30min.
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20/set/2005 - Saída de Guaíba, às 5 horas, com chegada em Porto Alegre às 9 horas para desfile e entrega do chasque ao então Governador do Estado Germano Rigotto.
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O chasque é uma palavra de origem quichua (chasqui), nome dado aos mensageiros que percorriam a pé o Império Andino de um extremo a outro. Assim, diríamos que o chasque equivaleria ao ordenança no Exército e ao estafeta, muito comum no Correio, antigamente, para designar o entregador de telegramas (correções introduzidas a partir do comentário abaixo que veio esclarecer a minha dúvida, enriquecendo assim sobremaneira essa matéria). Na guerra da independência de Cuba, ficou registrado o episódio da famosa Mensagem a Garcia, entregue a um voluntário para que descobrisse o paradeiro dessa pessoa e fizesse entrega daquele recado.
Na nossa Corrida do Chasque, foram utilizados 25 cavaleiros que se revesaram a cada 15 ou 20 quilômetros, um passando ao outro, com a montaria em movimento, uma mensagem que acabou chegando às mãos do Governador Rigotto. Cada um desses rapazes vestia uma indumentária característica de diferentes épocas da história rio-grandense.
Em Jaguarão, Tucuruçu e Guaíba foi montada a mesma cobertura de lona, aberta nas laterais, que se deslocava de uma parada a outra para receber as apresentações artísticas, entre outros, dos conhecidos cantores Carlão, Régis Bardini, Hélio Ramires, Luiz Marenco e Joca Martins. Sem dúvida, uma importante iniciativa da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Jaguarão que merece ser relembrada.
Entusiasmado pela realização desse evento, dediquei à Secretária Profª. Carmem Lúcia Corrêa Passos, um canto marcial denominado Chasque Farroupilha, cuja letra foi posteriormente musicada pelo consagrado violonista Mário Barros, da qual já temos uma cópia gravada pelo cantor nativista Flávio Hansen, a espera de uma oportunidade para divulgação.
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Eí-lo célere que passa, / intrépido cavaleiro,
o vento por companheiro, / nas patas da montaria.
Pela imensa pradaria, / escaramuças e brigas,
baitas tropas inimigas.
Na coragem sem igual, / rompe esse cerco brutal.
Para buscar os reforços, / não tem que medir esforços
de chegar a seu destino.
Esse nobre paladino, / orgulho da própria raça,
tem na boca uma mordaça, / segredos que não revela.
Ginete preso na sela, / persegue todos caminhos,
solito assim nos espinhos.
Nos entreveros cruzando, / os guascaços vai deixando.
Do perigo não se afasta, / a vida já não lhe basta,
eí-lo célere que passa.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

A nossa dura rotina como jornaleiros de outrora (II)

A sensação de desconforto acentuava-se à medida que progredíamos nessa tarefa, ansiosos por trocar a roupa ensopada, beber um café quente, esquentar o corpo. Eu cantava o número de cada casa; seu Cândido passava o jornal amolecido pela umidade na soleira das portas e respondia com o nome do bicho. Ele tinha a sua ilusão de acertar e despedir-se dos biscates; era simplório, mas possuía um senso de humor incomum. Assim, eu ficava observando aquela criatura que parecia derreter-se, gotas pingando do rosto vincado pelas rugas de um envelhecimento precoce, que nem o capuz do impermeável amarelo conseguia esconder. ****************************** Ruas encharcadas, o barro grudando nos pés pesados que chacoalhavam em lâminas de água. Sapos, grilos, um rádio tocando: a madrugada tinha seus ruídos. Alguma luz por detrás de um postigo encostado numa janela qualquer: por certo, um notívago assuntando entre paredes, no calor das cobertas. ********************************************************************** - Mil duzentos, cinquenta e cinco - dizia eu apontando para o armazém do Armando Costa e imaginava-me chegando mais cedo: a venda logo fecharia e o dono, aguardando o jornal, chamaria-nos para dentro, ofereceria mortadela fatiada e pedaços de pão; o apetite voraz, a saliva esgotando-se na boca, o picante de uma pimenta inesperada, o copo de vinho para não engasgar, uma vontade danada de ficar por ali, sentado nos sacos de batata, esperando a chuva passar... ********************************************************************** - Gato - berrava seu Cândido, à porta do armazém em que havia deixado o jornal, arrancando-me daquelas cismas.

A nossa dura rotina como jornaleiros de outrora (I)

Naquele sábado, eu corria que nem um louco para aprontar o jornal. A impressão andava péssima, o mecânico custava a acertar o nível do rolo na chapa. Eu ainda tentava compor alguma matéria na tipografia. O pó, na caixa dos tipos, entranhava-se em minhas narinas e eu espirrava a toda hora, mal conseguindo respirar. Meus dedos estavam encardidos com a tinta preta; não podiam coçar o nariz nem espantar as moscas. E caspa, no cabelo, comichava minha cabeça. Ali perto, debruçado na bancada, avental todo lambuzado, a careca brilhando sob o quebra-luz que pendia do teto, o velho Arcanjo resmungava por se encontrar atrasado na montagem da chapa. ********************************************** Odores fortes de tintas e suores sobrepairavam no ar. Alguém entrou na oficina, procurando-me. Sobrancelhas e bigode cerrados e negros, um porte respeitável não fosse a boca desdentada, vestia uma camiseta de lã desbotada, calça xadrez, cordão amarrando a cintura, chinelos de dedos: era seu Cândido, o engraxate da praça, que se dispunha a distribuir o jornal em troca de algum a mais, reforçando a féria do dia. ********************************************************************** Logo o prelo fazia trepidar o prédio inteiro, o rolo girando envolto no papel enquanto a chapa deslizava e voltava à posição inicial, depois de largar a folha maculada no aparador. Dobrávamos os jornais, acomodando-os dentro das bolsas. Era a primeira vez que seu Cândido fazia esse tipo de serviço; competia a mim indicar-lhe as casas em que devia proceder a entrega. Lá fora, raios e trovões, uma chuva torrencial. Era nossa obrigação atender os assinantes, apesar da precariedade dos guarda-chuvas como abrigo. *********************************************************(continua)

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

E o coqueiro ainda continua firme

Em mãos o guia Achei 80/81, ocorreu-me comparar a nominata dos assinantes da CRT na avenida Bastian, em relação à lista de endereços em 1994. Duas constatações: I - o total cresceu de 130 para 163 no período; II - apenas 60 nomes dessa última constavam da antiga lista. Assim, incluído entre estes, arroguei-me a contar histórias do logradouro. Naquela época, andei verificando que a mureta divisória entre jardim e rua, estava fora de prumo. A causa encontrei na raiz de um coqueiro plantado rente a mesma por minha sogra, logo que nos mudamos para o bairro. Então, dei-me conta do tempo decorrido, dezoito anéis subindo pelo tronco.
Quando ali chegamos, nossos filhos eram pequenos, alguém nos disse que a maioria da população dessa avenida seria de idosos, gente que já havia criado seus descendentes até a segunda geração. Realmente, os garotos enturmaram-se na vizinhança mais próxima da Baronesa de Gravataí e da Ganzo. Naquele tempo, a Baronesa - interrompida na avenida Ipiranga e continuando após a rua Marcílio Dias - era novamente bloqueada após a Bastian. Ali funcionando o coleginho Roquete Pinto, os portões abertos davam passagem aos pedestres para a avenida Ganzo; quando fechados, caminhava-se um pouco mais na volta pela rua Múcio Teixeira.
Havíamos saído da rua Jacinto Gomes, no Bonfim. Antes em nossa passagem por São Paulo e Santa Catarina, cinco endereços, em nenhum deles demoramo-nos mais de dois anos. Assim, escaldados, algumas vezes pensávamos em sair da Bastian; no entanto, os meninos sempre nos demoviam da ideia. A nossa moradia, pois, vinha se fixando numa das quatro casas em estilo colonial espanhol, geminadas duas a duas, que teriam sido sorteadas entre os ouvintes da Rádio Farroupilha, no ano de sua inauguração. Tal nos foi transmitido pelo advogado Rubens Ramos de Oliveira, um dos residentes anteriores, já falecido, que adquiriu o imóvel da contemplada Dª. Verena Selbach, filha do proprietário da extinta Livraria Selbach.
Diversas vezes, procuravam-nos interessados na aquisição de imóvel nessa avenida, os quais sempre recebiam a nossa inflexível negativa. Alguns corretores até nos falavam da adequada localização da casa para funcionamento como escritório ou consultório, fácil de encontrar comprador. O Menino Deus é um bairro próximo ao Centro, que explodiu em termos imobiliários, verticalizando-se ainda mais após a instalação do Shopping Center Praia de Belas, há tempos atrás. Já fazem seis anos que mudamos da avenida Bastian, porém, até essa data havíamos passado incólumes às pressões. As duas casas geminadas deram lugar à edificação de moderno centro profissional, onde se acham situadas várias salas para advogados atuantes nas juntas da Justiça do Trabalho próximas dali. Outro dos renitentes em abandonar a região foi a testemunha ocular do fato, o radialista Ruy Figueira, que costumava dizer, alto e bom som, para que todos o ouvissem: ainda sou comprador - se o Grupo Ipiranga ou o Banrisul estiverem à venda, podemos conversar...

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Os 50 anos da jóvem RBS na vida do cidadão comum

Adoro tomar o meu cafezinho na Arvorezinha, ali na José de Alencar esquina com Oscar Bittencourt, onde sou atendido com a camaradagem do pessoal da casa e o proverbial cumprimento do Paulão, o taxista do ponto ao lado, e sempre tenho a minha disposição o Diario Gaúcho para uma leitura dinâmica e descontraída sobre assuntos amenos, tais como futebol e as musas do Véio, detendo-me mais nas palavras cruzadas - que me acostumei a fazê-las mentalmente para não estragar o prazer dos outros - e uma olhada de relance nos quadrinhos e na piada do dia. E, nas segundas-feira, faço minha pousada direta na crônica sutil e bem humorada do meu amigo Mauro Taxitrama Castro.
Um dos meus cadernos preferidos da Zero Hora, aos sábados, é o Cultural com aquele montão de informações, algumas vezes plural, outras temático, que nos ilustra um pouco a nossa parca sabedoria. Literatura, principalmente, atrai-me sobremaneira através das mais variadas séries mostrando um panorama bastante amplo de autores e personagens das letras gaúchas.
Os colunistas estão ali como leitura obrigatória de todos aqueles que buscam algum assunto para o papo cotidiano com os amigos, entre eles o Paulo Santana que faz muita gente ler o jornal de trás para diante. Os jornais da RBS são como um buffet de restaurante - neles se encontra matéria para todos os gostos, deixando aos leitores sua livre escolha.
As donas de casa tratam dos seus afazeres domésticos sintonizadas na Farroupilha, desde o tempo do Zambiazi com as suas campanhas filantrópicas - tem algum remédio sobrando e que alguém esteja necessitando, telefona para a Rádio que eles vem buscar.
Na portaria do nosso Edifício sempre tem algum plantão na escuta dos jogos de futebol ou então ouvindo o noticiário do dia na Gaúcha que, de vez em quando, brinda a seus ouvintes com audições de boa música. O Sem Fronteiras, do Glênio Reis, é o meu programa predileto das noites de sábado que me prende em casa e só perco quando surge algum compromisso social inadiável.
Na televisão, afora as novelas, ficamos vidrados no Jornal do Almoço - as suas elegantes apresentadoras e os versáteis comentaristas são uma atração à parte. Até foi muito comentado, há tempros atrás, aquele fato pitoresco em que uma conhecida e atuante comunicadora, após anos sendo enrolada pelo namorado, compareceu certa vez ao programa vestida de noiva, pois só assim conseguia realizar o sonho da sua vida...

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Alcides Gonçalves - o grande esquecido (IV)

Assim, pois, compositor, cantor e pianista consagrado, teve de retornar a Porto Alegre, onde consegue emprego na Assembléia Legislativa. Nessa ocasião, acontece o estremecimento das relações com seu principal parceiro, devido a não constar o seu nome no selo do disco em que Francisco Alves lançou Cadeira Vazia pela Odeon. Porém, continua compondo ou sozinho(Cachimbo da Paz, Minhas Serestas, Pecador, Olho Pro Céu, Fim de Festa), ou em parceria com Leduvy de Pina (Divisão, Se Ela Soubesse), com Ciro Gavião (Mendigos), com Flávio Pinto Soares (Brigamos Outra Vez, Chorei Uma Vertente, Modifiquei Minha Vida, Samba Cinquentão, Soluço de Boêmio, Violão Ciumento) e com Agnaldo Bechelli (Esfera da Vida).
Em 1977, tentando resgatar sua obra, o pesquisador paulista J.L. Ferrete produziu o antológico LP Cadeira Vazia, da Série Destaque / Continental e, em 1982, seu parceiro Flávio Pinto Soares editou mil cópias do LP Pra Ela, que teve a participação da OSPA – Orquestra Sinfônica de Porto Alegre.
Através do espetáculo Noite de Seresta, produzido por Aroldo Dias em 1985, apresentava-se nesta Capital e no interior do Estado com destacada participação, além de sua presença constante nos encontros musicais das segundas-feiras no restaurante do CIB – Centro Ítalo-Brasileiro, e das quintas-feiras no Las Tablitas, situado no antigo Estádio dos Eucaliptos, como sempre anunciada e relembrada pelo seu velho admirador Alberto Garrido.
Atualmente, constatamos que muitos apresentadores ainda omitem o nome de Alcides Gonçalves ao anunciarem músicas de sua parceria com Lupicínio Rodrigues, justo agora perto do seu centenário de nascimento, quando se faz necessário o resgate de sua obra.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Alcides Gonçalves - o grande esquecido (III)

E a famosa dupla surge com Alcides colocando música nos versos de Lupi: Cadeira Vazia, Castigo, Maria Rosa, Quem Há de Dizer, Jardim da Saudade...
Permanecendo no Rio de Janeiro, após a gravação daquele primeiro disco, logo ingressa na Rádio Nacional, onde ganha o apelido de Voz do Trovão, tal a potencialidade de suas cordas vocais. Desta época, são os versos de Pedro Caetano que musicou em homenagem a uma ouvinte nordestina, cuja melodia foi gravada por Orlando Silva, intitulados Minhas Valsas Serão Sempre Iguais. Os sambas Chorar Pra Quê (1942) e Desta Vez Não (1943) foram compostos em parceria com Ataulfo Alves, cujas gravações na Odeon fizeram sucesso naquele tempo.
No Copacabana Palace, atua em vários shows daquele hotel junto com Radamés Gnattali, na banda de Simon Bountman. A Segunda Grande Guerra apanha-o excursionando pela América do Sul, como pianista da orquestra argentina Santa Paula Serenaders. E ao término desse conflito mundial, acontece a perda de um ente querido – o Pardo Velho – seu pai Juvenal Gonçalves.

Alcides Gonçalves - o grande esquecido (II)

Na regressão de sua vida, podemos chegar ao tempo em que era tratador de cavalos do General Flores da Cunha ou então auxiliar de escritório em várias fábricas locais, quando estudava piano e atuava como crooner em diversas casas noturnas porto-alegrenses, tais como o Maipu e o Marabá. Ainda rememoramos a época em que embarcava em navios do antigo Loyd Brasileiro – Itanajé, Araranguá e Aratimba – tocando piano junto com o violino de Alexandre Ziotwski e a guitarra do seu irmão Antoninho.
Destacando um de seus irmãos – Walter Gonçalves – que morreu nos Estados Unidos e que costumava tocar bateria com as mãos, lembraríamos ainda do grupo Irmãos Gonçalves, com Alcides (piano e voz), Juvenal (contrabaixo), Oscar (violão e voz), Antoninho (guitarra e violão) e Osmar (bateria), todos eles já falecidos.
Chegada é a década de trinta, quando o encontramos, por longa temporada, atuando na Rádio El Mundo, de Buenos Aires, então a mais importante da Argentina. Em seu regresso, viria a ser um dos cantores convidados para a inauguração da Rádio Tupi de São Paulo e contratado pela nossa Rádio Farroupilha, em cujos bastidores conheceria o aspirante a compositor e hoje notável Lupicínio Rodrigues.
Comemorava-se, em 1935, o centenário da Revolução Farroupilha e Alcides, defendendo a sua parceria com Lupi, vence o festival de música alusivo ao evento promovido pela prefeitura de Porto Alegre. E assim nascia a primeira composição – Triste História – premiada com dois contos de réis...
Nessa época, não havia o microfone fora das rádios e Alcides Gonçalves torna-se a grande estrela vocal da Orquestra de Paulo Coelho, apenas utilizando-se da força de seus pulmões e de uma corneta de papelão para fazer ouvir a impostação da sua voz, educada cuidadosamente. Esse desempenho só poderia resultar no convite que recebe da RÇA Victor para gravar seu primeiro disco, no qual registraria a estréia de Lupicínio Rodrigues na produção fonográfica – Triste História e Pergunte Aos Meus Tamancos –, em 78 rotações, datada de 3 de agosto de 1936.

Alcides Gonçalves - o grande esquecido (I)




...antes de adoecer, queria realizar um último desejo – promover a Noite da Grande Seresta, no Teatro São Pedro, em Porto Alegre, convidando compositores e intérpretes brasileiros. Não deu tempo. O destino é caprichoso; foi injusto mais uma vez. Mas quem sabe se os amigos gaúchos, companheiros de boemia e noitadas memoráveis; quem sabe se eles não organizarão, mais tarde, uma grande seresta e dedicarão esta serenata ao artista sensível e humano que escreveu tanta coisa bonita, ao parceiro esquecido no repertório de Lupicínio, ao pianista e cantor que, queiram ou não, entrou para as páginas da história da música brasileira e entrou com uma obra notável, onde ninguém pode apontar o que é mais belo – Cadeira Vazia, Quem Há de Dizer, Maria Rosa ou Castigo... (in Nosso Domingo Musical, programa produzido por Paulo Tapajós, do Centro Brasileiro de Rádio Educativo Roquete Pinto, com narração de Cid Moreira).
Pouquíssimas pessoas sabiam ao certo do ano de nascimento de Alcides Gonçalves – 1908 – mesmo entre aqueles que se costumavam reunir para festejar a sua data natalícia – 1º de outubro – e muitos até desconheciam sua naturalidade – Pelotas – tal o seu apego e o seu amor por esta Porto Alegre que o adotou. Porém este véu de mistério viria a ser desvendado quando nossos veículos de comunicação obrigaram-se a registrar seu necrológico, resultante de seu falecimento – a 9 de janeiro de 1987 – nesta terra que escolheu para viver seus últimos dias.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Só mesmo Toni Dias - melhor do que a encomenda

Em Intimidade Devassada contei a história da lareira do Ruy Figueira em meio aos destroços da sua casa demolida que me inspirou aquele poemeto da ilustração. Depois disse ter enviado o mesmo para vários amigos, entre eles um compositor nativista que o recebeu justo no dia em que se estava separando da esposa e que até - não me prometia - tinha vontade de musicá-lo. Na ocasião, lembrei-me dos causos que o conterrâneo Sheldon Neves costumava contar-me sobre a Praça das Carretas, em Jaguarão, e da época áurea da cidade, quando era um importante centro comercial do Estado, devido ao seu porto fluvial recebendo navios de várias partes do mundo, os quais lá descarregavam suas cargas das mais diversas mercadorias. Dali eram embarcadas em carretas puxadas por juntas de bois e sendo conduzidas a outras cidades, entre as quais Bagé naquele tempo com seu abastecimento dependente da praça de Jaguarão.
Vai daí, lareira virou figueira e eu resolvi dar uma roupagem tradicionalista naqueles versos inconformados, cuja metamorfose tratei logo de passar às mãos daquele amigo, tendo então ele me respondido que não precisava ter agauchado. Assim, morreu o assunto.
Posteriormente, deixei essa letra com o esposo da minha sobrinha Hilda Pacheco, o Toni Dias, advogado durante o dia e cantor da noite em Florianópolis e qual não foi a minha surpresa quando me disseram que, tomando os ares da Laguna Merin, o santo tinha lhe baixado para colocar a melodia - de uma tacada só - em Praça das Carretas.
Passado algum tempo, a parceria tinha que sair melhor do que a encomenda e o Toni foi convidado a participar da gravação ao vivo no Bar Drakkar (Lagoa da Conceição/SC), em setembro de 2002, do CD Músicos da Ilha, incluindo no mesmo as composições de nossa parceria Praça das Carretas e Caravelas, esta última tendo sido bastante tocada na programação da Rádio da Universidade de Santa Catarina. Toni Dias (violão e voz), Beto Bacci (percussão), Marco Aurélio (trombone) e André Maia (baixo) foram as feras que tornaram real esse nosso sonho.
Tapumes, obras e prédios, / ainda resiste ali a figueira, /
antigamente ramada / de gaudérios estropiados, /
em volta das trempes, / a preparar o pouso.
E a memória perambula / nos tempos e nas distâncias, /
essas picadas abertas / pelo sulco de patas e rodas.
Parece até que se ouve / o pampeiro rangendo / por entre as carpas /
- causos, assombros, / hoje desgarrados / neste e noutros rincões.