sábado, 31 de maio de 2014

O BOM COMBATE DESTE SAUDOSO JOHNSON

Marcello Campos retoma sua brilhante trajetória de pesquisador arguto e incansável com mais um lançamento cultural ao resgatar a memória de um astro eclipsado na sombra de nosso compositor mais canonizado e decantado por este Brasil afora. As novas gerações que já começam a ter conhecimento da obra de Lupicínio Rodrigues esqueciam a importância daquele que viria a ser o seu mais fiel intérprete e até o confundiam como uma espécie de “anjo da guarda” tal a constância de sua companhia como se fossem “corda e caçamba”. Na realidade, Orlando “Johnson” Silva se tornou uma espécie de termômetro no qual Lupi testava suas composições.
Foi um desafio ao qual Campos se entregou de corpo e alma para compor mais este álbum, ricamente ilustrado, que sucede “Week End no Rio” (sobre as cinco décadas do Melódico Baldauf) e “Minhas Serestas” (Vida e obra de Alcides Gonçalves) e agora acaba de ser lançado no último dia 26 no Centro Municipal de Cultura – “Johnson – o Boxeur Cantor”. Tarefa bastante complicada que demandou paciência e um tempo prolongado na busca de dados e fotografias, através de museus, bibliotecas, inúmeras entrevistas em nível de Ruy Castro e Fernando Moraes, que só mesmo um “rato” das redações poderia descobrir para trazer a público.
“Estúdios e estádios não eram apenas palavras parecidas ou ambientes semelhantes em quesitos como concorrência, popularidade e desconfiança aos olhos da sociedade conservadora” – o autor vai fundo na questão, quase definindo a dualidade de talentos do personagem, indeciso entre o pugilismo e a boemia, suas duas paixões. Eram épocas em que fervilhavam de gente os auditórios das nossas emissoras que se valiam de lotações maiores nos cinemas Castelo e Baltimore e, paralelamente, os tablados de grandes lutas atraiam um público fanático que não se cansava de torcer por seus ídolos. A maioria deles aqui radicados, dispensando apresentações de artistas de fora.
Pois Marcello Campos transita com desenvoltura nas diferentes fases da longeva existência dessa incrível personalidade da noite porto-alegrense, dissecando desde suas origens familiares, repassando sua atuação radiofônica e esportiva, até alcançar sua ligação com o inseparável companheiro de tantas noitadas. Para tanto, reconstrói toda história da introdução do boxe no Brasil, em especial reportando o ambiente da cena artística no Estado, em que relembra nomes e estampas pinçados em páginas amareladas de coleções de velhos jornais. E nos coloca como transeuntes num tempo que se vai desvelando familiar à medida que correm as páginas na leitura dessa obra.
Seus capítulos se desdobram como “rounds” de um bom combate, a principiar pelo prefácio de Juarez Fonseca “Calçando as luvas” e daí passando ao segundo “A Voz Morena da Cidade” e depois ao terceiro “O Boxeur Cantor”, ao quarto “Amigo Lupi”, ao quinto “Quando Eu For Bem Velhinho”, ao sexto “Fontes Consultadas”, ao sétimo “Agradecimentos”, ao oitavo “Ficha Técnica” e ao nono “Sobre o Autor”. Muito interessantes os quadros sobre “As Composições de Johnson” e “Johnson: Cartel Conhecido” (Categoria peso pluma/amador e peso leve/profissional). Eis ai uma boa dica para a próxima Feira do Livro.
MINICRÔNICA PARA MARCELLO CAMPOS
O garçom, sonolento, vai empilhando as cadeiras sobre as mesas desocupadas. A copeira joga o balde de água espumante no frio chão de lajotas. O dono do bar implora aos fregueses renitentes para fechar a conta, lembrando-os que já é a hora de se retirarem do recinto. Mas estes ainda insistem em mais uma das constrangedoras “saideiras”, com o que apenas conseguem a firme e decidida recusa do taverneiro. Resta-lhes tão somente a alternativa de saírem contrariados. Lá fora, as primeiras luzes da manhã ofuscam as suas olheiras consequentes das contínuas noitadas de ócio e fuzarca. O crescente ruído das buzinas e das descargas dos motores atordoam seus frágeis ouvidos, mais acostumados à sonoridade dos ambientes dançantes. Misturam-se, assim, à gente simples que desce nas paradas de ônibus, vindo dos subúrbios distantes, em busca do ganha-pão de todo dia e teimando em sobreviver na adversidade. Cigarras noturnas que cedem seu lugar as matinais formigas, poderiam até ser confundidos na reduzida multidão madrugadora, não fossem as vestes alinhadas e a cuidadosa aparência. Casacos trespassados. Calças bem frisadas, com perfeito caimento. Sapatos reluzentes de polainas brancas. Cabelos alisados, exalando perfume de brilhantina. Bigodinhos e cavanhaques diligentemente afilados. Discretas suíças, quase provocativas. Mas, mesmo assim, passam entre olhares indiferentes de outras pessoas que nem sequer imaginam o mundo de luxúria em que eles vivem... 

segunda-feira, 12 de maio de 2014

ATÉ DEBAIXO DO MAU TEMPO, NEM ACREDITO


Dona Mimi, esposa do Coronel Ataliba, salientava-se em sociedade como guardiã dos bons costumes e da conduta familiar, admirável pelo carisma e desprendimento nas campanhas comunitárias. Não era de se estranhar, pois, aparecesse com frequência na coluna social do hebdomadário local em clichê destacado com a legenda: “Mimi e Ataliba Pereira esbanjando sua proverbial elegância”. Sempre apoiando o marido na política e nos negócios, não se constrangia de arregimentar um grupo de senhoras para recorrer todas as tardes, no período eleitoral, aquelas “casas-luzinha-vermelha”, conduzindo a plataforma da Aliança Popular que tinha o Coronel como patrono. Nessas ocasiões, costumava impressionar o mulherio, expondo um programa de creches e casamentos incentivados para as “operárias da periferia suburbana”.
O diabo é que o velho Ataliba andava meio mal acostumado com a “tolerância” de sua mulher, muitas vezes flagrando-o e fazendo o maior dos escarcéus, nem se contam as “amiguinhas” despachadas por ela e socorridas em postos médicos das redondezas à custa do dito cujo para não responder processo por lesões corporais. Todo dia avisada do expediente se prolongando com a desculpa de convocarem assembleia (estatuto sendo alterado, integralização de capitais e outras coisitas mais), Dona Mimi mal desconfiava das chegadas do marido lá no “Naitandei”.

Marli conhecia bem o “furacão Mimi”, o suficiente para pressentir uma tremenda catástrofe vindo por ai. Há tempos, ela prevenia Janete para evitar o “enrabixamento” do cliente abonado, a exigir exclusividade nos seus serviços. Mas esta colaboradora da casa nem ligava para essas advertências, estimulando inda mais a fogosidade restante do coroa. O negócio já estava andando longe demais e a “chefona” se precavia de alguma represália da “matriz”, afinal a casa era de respeito, não admitindo qualquer arranhão em seu patrimônio. Mas essa de Janete acompanhar o Coronel até a estância para ver a esquila, agora sim, passava dos limites, pois se sabe lá como a mulher do capataz se portaria, se era confiável ou dessas “bocas de jacaré”, pior ainda se íntima de Dona Mimi.
E para complicar as coisas, aquela chuva sem parar há mais de três dias encharcando as estradas de chão batido, era bem capaz de impedir a passagem pelo arroio, na volta para a cidade. E eles no maior descuido como pombinhos predestinados à caçarola. “Meu Deus do Céu, atentai para que Dona Mimi não os importune”, porém, Marli deixava de ser atendida em suas preces, estando o Senhor surdo para escutá-las: o chofer de praça Costinha veio lhe contar que saiu em auto atola-desatola até desistir, deixando a passageira num rancho, onde ela conseguiu um carro de bois para continuar a viagem. A matrona já não aguentava mais de saudades do seu “Libinha” e tinha resolvido encarar uma maneira de ir lá na estância.

Dois dias depois.
Janete não tinha saído das casas e o Coronel passara fora o tempo todo empenhado no serviço da esquila. Já havia anoitecido quando chegou de volta, sem reparar Janete esfregando o chão da cozinha, foi direto ao banheiro se recompor no capricho, dali saindo apurado para o quarto, onde o esperava a romântica Mimi:

- Que amorzinho esta filha do capataz! Tão prestativa, não achas, querido?

terça-feira, 6 de maio de 2014

A COMOÇÃO DE IMOLA SEGUNDO R. MOREAU

Uma das coisas que mais me irritava, há pouco tempo atrás, quando ia visitar algum conhecido, amigo ou parente, era ficar olhando para a televisão ligada e só ter oportunidade de conversar no intervalo dos comerciais. E ainda hoje não consigo entender como não se pode marcar qualquer compromisso noturno num horário mais cedo, pois o pessoal só começa a aparecer depois que termina a novela.
Assim é que fui pegando certa ojeriza pela telinha e acabei redescobrindo o prazer de ouvir o rádio do meu carro, como se estivesse conversando com algum companheiro de viagem, não obstante o protesto daqueles que reclamavam do volume alto do som, imprescindível para a empatia nessa comunicação. Principalmente, aos domingos pela manhã, quando tomava o rumo da casa da minha irmã Lucy que morava no Partenon, a fim de esvaziar uma térmica com água quente na cuia do chimarrão e jogar conversa fora nas horas mais quietas desse dia.
Nesse trajeto, deveria gastar mais ou menos uns quinze minutos na ida e outro tanto na volta, tempo suficiente para curtir a prosa que me chegava através das ondas hertzianas. Desta forma, eu dialogava com Raul Moreau que então apresentava o Manhã de Domingo, pela Rádio Pampa, e algumas vezes, ao chegar na volta, corria ao telefone para entrar em contato com a produtora do programa, a sua esposa Dª. Bete.
Certa feita, o nosso amigo Raul explanava sobre o desmascaramento da criatura do Lago Ness, falando da armação montada por uma equipe náutica, a qual havia confeccionado a cabeça do monstro com material plástico, isso lá pelo século XIX. Pois eu tive o desplante de ligar para Dª. Bete, perguntando se naquela época já existia o plástico, que ela encaminhou ao Raul e ele respondeu que não poderia responder naquela hora, solicitando a sua produtora que providenciasse a compra imediata de uma enciclopédia para ficar à sua disposição já a partir do próximo domingo. Aí, caiu-me a ficha e, na mesma hora, fiz a pesquisa em casa, onde constatei que o plástico era uma invenção bastante antiga, embora alcançasse recentemente a sua aplicação mais generalizada – sem querer, provoquei uma polêmica desnecessária.
O Raul Moreau era admirador incondicional do Ayrton Senna e das corridas de Fórmula Um, que acompanhava através dos bilhetes da produção do programa informando os resultados parciais, como naquele dia em que se preparava para entrevistar o cantor e compositor Rubens Santos, parceiro de Lupicínio Rodrigues. Só que, nessa ocasião, passaram-lhe a notícia do terrível acidente que vitimou o Ayrton Senna, deixando-o completamente abalado, sem condições de prosseguir apresentando o restante da programação, a qual perto do seu final teve de apelar ao Rubens Santos para que fizesse o encerramento, conseguindo este levá-la a bom termo.
Outro momento marcante do programa aconteceu no dia em que completou um ano a cirurgia em sua esposa, Dª. Bete, processada pelo espírito do Dr. Fritz, incorporado no médium e médico pernambucano Dr. Edson Queiroz, a qual descreveu em detalhes tendo como fundo musical No Llores Por Mi, Argentina, a mesma melodia ambiental tocada enquanto era realizado aquele procedimento que restaurou a saúde da paciente.
Durante a semana, na parte da tarde, o Raul também ocupava espaço na Rádio Pampa, com ótima audiência, tendo em vista a sua programação de variedades, misturando cultura e entretenimento. Então eu participava do Grupo Fábula, supervisionado pelo escritor Luiz Antônio de Assis Brasil, que estava lançando uma antologia de contos intitulada Mais Ao Sul do Que Eu Pensava e fazia a divulgação da obra, junto com as colegas Jane Thompson Brodbeck e Patsy Ceccato, quando nos ocorreu contatar com a produtora Dª. Beth que imediatamente disponibilizou-nos a entrevista com Moreau. Lá comparecemos, justo no dia de seu aniversário, expondo a estrutura do nosso livro, onde cada um tinha um miniconto na abertura do seu capítulo. Espirituosamente, ele deu-nos a sua versão do gênero – uma professora passou para a classe como tema de redação Divindade, Realeza e Sexo, não demorando muito para que um dos alunos levasse o seu trabalho, onde estava escrito: “Ai, meu Deus – disse a princesinha – que bom!”

Por onde andará Raul Moreau? Há pouco tempo, tinha o seu espaço em nossa televisão através do Canal 20. Também publicitário, um profissional competente, carismático, mases de prosseguir apresentando o restante da programaçompletamente abaladose preparava para entrevistar o cantor e compositor Ru que, infelizmente, parece que não teve seu reconhecimento de parte das nossas emissoras. Que falta ele nos faz para animar as nossas manhãs de domingo!

domingo, 27 de abril de 2014

O positivismo e a liberalidade nas profissões

Templo Positivista de Porto Alegre

“O preceito que estabeleceu a liberdade profissional plena, embora hostilizado vivamente por profissionais diplomados, especialmente os médicos, parece-me que teve mais virtudes do que defeitos. Além de abrir mais possibilidades de trabalho a uma estrangulada classe média e de oferecer assistência a comunidades pobres e distantes, que jamais receberiam a visita de um médico ou de um dentista graduado, a regra da liberdade profissional terminou, indiretamente, por estimular o nascimento de instituições de ensino superior. Pelo próprio temor que os charlatães inspiravam à intelectualidade, o Rio Grande do Sul cedo criou sua Faculdade de Medicina em 1898, a terceira do Brasil em ordem cronológica. Já criara, em 1896, a Escola de Engenharia, assim como gerou em 1900 a Escola Livre de Direito.”
O historiador Sérgio da Costa Franco, nosso conterrâneo, tem enriquecido recente postagem deste blogue com seu oportuno comentário sobre o positivismo e a liberalidade no exercício das profissões. Então, ele nos diz que “a legislação da época não exigia qualquer prova de competência” e que “era livre o exercício de qualquer profissão, inclusive as da área médica”, pois “bastava inscrever-se na Diretoria de Higiene e pagar o imposto de licença”. Afirma ainda ter examinado “o assunto em vários ensaios”, não chegando “a conclusões muito negativas”, já que “nas condições do tempo, com absoluta falta de profissionais diplomados, talvez tenha sido uma saída necessária”.
Para esclarecer o tema, ele nos enviou gentilmente seu último livro publicado – “Ensaios de História Política” – do qual extraímos o trecho da página 24 acima grifado. Esta obra resultou da reunião de dois livros de edições esgotadas publicados pela Editora da UFRGS, - “Getúlio Vargas e outros ensaios” em 1993 e “Pacificação de 1923” em 1996 -, além de outros trabalhos inéditos. Mais especificamente, indica “O meio rio-grandense e a fundação da Faculdade de Medicina", texto de palestra proferida por ocasião do centenário daquele instituto de ensino superior da UFRGS. De sua absorvente leitura, colhemos interessantes lições da história rio-grandense que passaram a ser conhecidas a partir de árduas pesquisas empreendidas por Costa Franco.
Assim, começamos a entender melhor os fundamentos da filosofia positivista de Augusto Comte, a partir do título IV (“Garantias gerais de ordem e progresso no Estado”) da Carta de 1891, onde se encontra expresso: “Não são admitidos também no serviço do Estado os privilégios de diplomas eclesiásticos ou acadêmicos, quaisquer que sejam, sendo livre no seu território o exercício de todas as profissões de ordem moral, intelectual e industrial” (parágrafo 5º, artigo 71). Adiante, estabeleceu-se no artigo 74: “ficam suprimidas quaisquer distinções entre os funcionários públicos e os simples jornaleiros, estendendo-se a estes as vantagens de que gozarem aqueles”, conforme o filósofo francês pregava como ideal de incorporação do proletariado à sociedade moderna. 
Nesses “Ensaios de História Política” vale a pena assinalar na página 27: “Segundo os conselhos de Augusto Comte, o poder público apenas deveria cuidar da instrução fundamental, assegurando a todos noções gerais e enciclopédicas, que evitariam a preponderância excessiva e irresistível dos donos de uma ilustração privilegiada. Quanto aos ensinos secundário e superior, neles não interviria o governo, ficando assegurada a livre iniciativa dos particulares. Desta forma, visava-se evitar o nascimento de uma ‘ciência oficial’, que deformaria e viciaria a livre consciência dos cidadãos”.
Eis ai, em rápidas pinceladas, um dos aspectos da Constituição Estadual de 14 de Julho de 1891, obra de Júlio de Castilhos, líder máximo do Partido Republicano Rio-Grandense, regime político que aqui se perpetuou por mais de três décadas, exasperando o poder de estado com grande influência na República Velha e relegando o “Sistema de Política Positiva” de Comte a um modelo teórico frustrado em seus princípios sagrados de liberdade de consciência e de opinião. Em suma, peculiaridades que caracterizaram as diferenças entre uma e outra doutrina.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O GRANDE DESAFIO DE PUBLICAR UM LIVRO


Graças ao Prof. Marcelo Spalding tivemos oportunidade de divulgar a edição digital de “O Velho Chateau daqueles rapazes de antigamente” através do endereço eletrônico http://www.ovelhochateau.com.br, além de publicar textos de nossa autoria no site dos Artistas Gaúchos. E, por tal motivo, retribuímos essas atenções, transcrevendo excepcionalmente artigo de sua lavra destinado à orientação de todos os interessados no lançamento das próprias obras literárias.

Publicar um livro ainda é o grande sonho de quem gosta de escrever, mas, para muitos, um tortuoso caminho.
De forma simples, podemos identificar três processos depois do ponto final em um texto. Primeiro, descobrir a dificuldade que é publicar, especialmente pela primeira vez. Segundo, entender o porquê dessa dificuldade (excesso de escritores, escassez de leitores, mercado com leis capitalistas e alto custo do papel são algumas pistas). Terceiro, encontrar uma solução para superar tais entraves.
Uma dica importante é não desistir tão fácil. Melhor do que desistir seria tomar a consciência do tamanho da literatura, muito superior a qualquer outra arte, e reescrever mil vezes o texto, melhorando-o cada vez mais antes da publicação apressada. Porque só a literatura compete de forma tão evidente com toda a sua história, uma história milenar. Na mesma prateleira de um romance estará Dom Quixote e Madame Bovary, na mesma estante de um teatro estarão os de Shakespeare e Ibsen. Um conflito, aliás, muito bem representado por Carlos Henrique Schroeder em A Rosa Verde (tema da próxima coluna): “eles continuam ali, rindo, me ameaçando com suas obras grandiosas, criativas, geniais, me reduzindo, intimidando”. Se a intimidação servir de estímulo para a releitura, para a visão crítica do que se produziu ótimo, estamos no caminho certo.
E então o texto está pronto e relido, aí há três caminhos:
É evidente que qualquer escritor começará pela primeira, mas raramente terá sucesso. As editoras comerciais são mais comerciais que editoras. E nós não somos (ainda) o Pedro Bial biografando a vida do chefe.
Então passaremos para a segunda. Conheço muita gente que começou por um concurso ou financiamento público, pode ser uma alternativa. Mas requer, além de qualidade, muita paciência.
O terceiro caminho é o mais traiçoeiro e viável. Antes, vale ressaltar que sempre se pagou para publicar (de Augusto dos Anjos a James Redfield). A auto-publicação não é errada e se existe preconceito é pela quantidade de lixo que se publica por conta própria. O que torna traiçoeira esta alternativa são as falsas editoras que mal fazem o papel de gráfica, diagramando e imprimindo o livro para o jovem escritor por um preço muito superior ao que se conseguirá pelas vendas. Especialmente porque, depois do ponto final e do cheiro de papel, há outro problema, a distribuição.
Mas voltando à publicação, ela não atribui, por si só, qualidade a um texto. A gente pensa que publicar trará reconhecimento, mas não basta ver nossa história eternizada em papel. É preciso ter boas histórias, acima de tudo. E bem contadas. As que forem realmente boas acabarão no papel. Porque o mercado editorial tem lá suas regras, parecidas com as de um banco, uma loja ou um canal de televisão. Ele está atolado no mercado, nas leis liberais deste, e só de vez em quando estica os olhos para a novidade, para a arte. Cabe a nós, iniciantes aventureiros malucos escritores em busca de espaço, aprimorar nossos textos para que se aproximem desta tal arte. E assim sejam percebidos nessas esticadas de olhos do mercado.

Dicas para quem tem um original pronto e não sabe o que fazer com ele:

Procure um bom primeiro leitor, de preferência algum escritor, professor ou leitor exigente que aponte mais defeitos do que qualidades;
Envie o texto para uma revisão, preferencialmente profissional;
Registre seu texto na Biblioteca Nacional (clique aqui);
Se você quiser enviar para editoras e concursos, mapeie quais estão adequadas ao perfil do livro. É importante conhecer a editora, pois você tem mais chances de publicar um livro de contos na Cia. das Letras do que na Sextante, por exemplo;
Prepare um original sem erros de digitação, diagramado com fonte de boa legibilidade e espaço no mínimo um e meio entre as linhas; acrescente antes do texto uma breve carta de apresentação sua e, depois, uma sinopse do livro que seja curta e eficiente;
Entregue o livro pessoalmente ou, se não for possível, envie pelo correio. E não hesite em enviar para mais de uma editora ao mesmo tempo. Mas se você for aceito por alguma, é no mínimo elegante avisar as demais;
Se você optar por uma edição paga, vá adiante, mas cuidado, principalmente, com a editora que vai escolher. Tente se informar sobre suas obras anteriores, converse com autores da editora, procure saber o que ela oferece em contrapartida e sua reputação no mercado;
Se você quiser fazer uma edição do autor, tenha em mente que pode ser importante o código de barras e a ficha catalográfica para a colocação em livrarias e até alguns prêmios literários;
Cuide, no caso de livros publicados por conta própria, com os custos de impressão em relação à tiragem e com a divulgação e distribuição da obra. Devido ao fotolito, é sempre mais barato o custo unitário do livro para tiragens maiores;
Não deixe de continuar produzindo e, especialmente, participando da comunidade literária enquanto seu livro não é aceito por nenhuma editora. Infelizmente ter um nome (re)conhecido é tão importante quanto um bom texto.
 Marcelo Spalding

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

UMA FADA SEM VARINHA NO SUPERMERCADO


Em matéria de concretude, sou um péssimo aprendiz. Bem sei que substantivos e adjetivos abstratos não se prestam à escrita literária. De que adianta estar consciente desse fato, se volta e meia lá estou eu largando aqueles termos malditos como ternura, amor, paixão, querer, cobiça e desatino. Sem dúvida, um vício ocasionado pela preguiça em descrever essas sensações através de palavras concretas como o fez o cineasta Kielowski ao definir os títulos da sua Trilogia das Cores em “A Liberdade é Azul”, “A Igualdade é Branca” e “A Fraternidade é Vermelha”, nos quais, apesar de utilizar substantivos abstratos, torna-os visíveis pelo colorido de alguns espectros do arco-íris.
“Que me perdoem as feias, mas a beleza é fundamental” – até o poetinha Vinicius pisou numa casca de banana, considerando o grau de abstração da frase. Beleza interior então é terrível, um tremendo desafio para quem pretende traduzir um sentimento que só o coração consegue enxergar. Já a exterior enche os nossos olhos quando a contemplamos duma forma platônica, em que os sentidos não têm acesso. Evidente que beleza é um substantivo abstrato, pois necessita uma descrição mais detalhada como pinceladas artísticas na tela de um pintor, independente de sua fama, e requer uma apreciação crítica para ser devidamente avaliada. Aqui deixo claro que estou tratando da beleza feminina.
Elas não eram tipos de formosura, porém extremamente meigas e simpáticas, irradiavam um encanto para enfeitiçar qualquer pessoa a seu redor. Tinham um melodioso tom de voz que chamava atenção até dos mais indiferentes, um entusiasmo que sempre excitava a virtude e um brilho perene em seu olhar. Um caro custo para o coração não ver tanta beleza interior. Uma delas, tímida, pediu a uma de suas colegas para que me levasse seu álbum de recordações a fim de fazer a respectiva abertura. Ali deixei registradas aquelas primeiras impressões que deixavam de ser minhas ao compartilhá-las com outros parceiros também comungando da mesma admiração.
Tem gente que não se conforma ao constatar o resultado das consequências de uma Natureza inclemente com o passar dos anos, penalizando o que de mais belo existe. E lá se vão as divas da nossa mocidade, substituídas por outros modelos que vem ao encontro de nossos padrões estéticos, mas não se enquadram em nossa expectativa de vida. A mente permanece jovem, enquanto o físico se deteriora. Resta-nos apreciar o belo em todas suas manifestações, como se estivéssemos revivendo nossa juventude por meio de nossos descendentes. E elas estão ai, por toda parte, poderosas, cuidando da aparência, nunca repetindo uma mesma roupa, para muitas uma ferramenta de trabalho.
O bom gosto deve ser um componente importante na beleza exterior, assim como uma embalagem bem planejada ajuda na escolha de um produto de qualidade. Uma cara bonita ou um corpo esbelto pode atrair atenção para si, mas não passa de um diamante bruto que precisa ser lapidado. Para se produzirem, as mulheres enfrentam uma bateria de cuidados desde banho de loja até cabeleireiros e maquiadores que as tornam mais admiráveis nas festas e recepções sociais. Agora no dia a dia elas também se esmeram e demonstram seu potencial de elegância desfilando nos passeios públicos sem outros comprometimentos, a não ser modismos atuais.
O dia era sábado em que fazia as compras semanais num supermercado, quando avistei aquela donzela circulando entre gôndolas e balcões frigoríficos que me despertou o alerta para um detalhe jamais notado em qualquer mulher – a discrição – que a tornava ainda mais atraente. Não era daquelas espécies exuberantes, pois aparentava um equilíbrio incomum sem quaisquer exageros. Morena, de olhos comuns, traços faciais perfeitos, gestos graciosos, peso normal, manequim tipo tudo em cima. Elegante, vestia calça branca e blusa combinando, cabelos bem penteados, um mínimo de maquiagem, o mais simples e natural possível. Só lhe faltava uma varinha de condão para ser uma fada...
Quando me deparava com ela naquelas galerias e disfarçava com meu olhar tipo veneziana, parecia escutar uma voz telepática: “Quer olhar? Pode olhar a vontade!”

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

LIVRO DIGITALIZADO DE ACESSO GRATUITO

Clique na imagem para ver o catálogo da WWLivros
O presente trabalho literário, que ora vem a lume, englobando crônicas e contos, por certo irá surpreender os leitores. As crônicas abordam situações e fatos da sua Jaguarão, ali aparecendo vários personagens da cidade, alguns folclóricos, que Souza nos traz para nosso deleite. Não raro, o autor  se apresenta envolvido nesses fatos e episódios, deixando muitas vezes de ser apenas um narrador, para se tornar também  um partícipe deles, inclusive em alguns contos. Tudo numa leitura fácil e acessível e, por vezes, com epílogos surpreendentes e hilários. Suas abordagens, muitas vezes, pincelam em cores cinzentas os infortúnios dos desvalidos, os amores fracassados e experiências vividas no ocaso da existência. Enfim, coisas e fatos do cotidiano que grassam por aí, nem sempre à vista de nossos olhos e não raro longínquos dos nossos ouvidos.  

Prefaciado pelo cantor e compositor nativista Marco Aurélio Farias de Vasconcellos, consegui editar eletronicamente através de G2D Soluções Visuais, dirigida pelos irmãos Gustavo e Gabriel Demarchi, conceituados capistas de nossa capital, “O Velho Chateau Daqueles Rapazes de Antigamente”, uma seleção de textos já publicados em lançamentos anteriores. Em forma de PDF, foi-me possível distribuir pelo correio eletrônico a fim de testar, como balão de ensaio, a sua repercussão entre todos meus contatos. Face a receptividade obtida, convenço-me de acertar em cheio quando afirmo ser esta uma valiosa via alternativa para a divulgação de novos autores.


Faltava, porém, encontrar um portal para hospedar esse trabalho, que me foi proporcionado por WWLivros, loja e biblioteca virtual dirigida pelo escritor Prof. Marcelo Spalding que abre democraticamente a sua estante especializada em livros digitais, ebooks e livros online com o acesso das obras ali expostas, algumas das quais podem ser baixadas gratuitamente, afora aquelas colocadas para venda. Neste importante catálogo, com certeza pode ser achado mais um livro de nossa autoria que pode ser adquirido sem qualquer custo, a não ser impressão por conta do usuário. Além de outros lá disponíveis e prontos a atender qualquer gosto.

domingo, 20 de outubro de 2013

CALOU A VOZ DESTA CORRESPONDÊNCIA !

Alcides Carlos de Moraes (N.24/05/1916 - F.19/10/2013)

Meu caro poeta e amigo José Alberto,

Com o velho Mandarino, muito tênis joguei nas minhas idas a Jaguarão. O Rubem, o  conheci em um torneio de golfe na cidade gaúcha de Santana de Livramento, do qual tomamos parte. Era simpático como o  pai.
Um grande abraço do Alcides.



Boa noite, caro amigo Alcides:

Não sei se poderá lhe interessar, mas estou repassando mensagem que acabo de receber de Douglas, cujo personagem cheguei a conhecer e que era muito amigo do meu tio Cantalício. Grande desportista, teve um filho nascido em Jaguarão, campeão de tênis José Edson Mandarino. Outro de seus filhos Rubem Mandarino, também residiu em Jaguarão e estudou no IPA. Apenas isso, uma pequena recorrida ao nosso torrão natal.

Grande abraço,
José Alberto de Souza.



Olá, caro amigo Sr. Jose Alberto!
 Casualmente achei no livro Futebol e Reminiscências do autor Hermito L. Sobrinho, página 170, relato sobre um cidadão que nasceu ou morou em Jaguarão; trata-se do goleiro JACOMO MANDARINO, assim diz o livro:

-Jacomo Mandarino jogava futebol, boxe e tênis. Conheci Mandarino como delegado da policia de Jaguarão. Rubem Mandarino, seu filho, estudava no IPA  de Jaguarão e jogava numa equipe daquela localidade. Alem das funções de delegado de policia, ele era encarregado de vigiar exilados políticos. Viajava constantemente a Montevidéu, Buenos Aires e Santiago do Chile, sempre com sua raquete embaixo do braço. Dizia-me que a raquete era seu cartão de visitas junto aos desportistas destas localidades.
Outro trecho diz que Mandarino pai morava com seu filho Edson Mandarino, campeão de tênis, que conheceu em Jaguarão, com apenas um ano de idade. Fala de tal de Rubem Mandarino que jogou no Cruzeiro de Porto Alegre, em Rivera e Livramento.
Ainda na época do livro (1989) Rubem teria dito que seu pai Giacomo ainda jogava tênis aos 87 anos na cidade de Madri onde residia, apos isso ainda no mesmo trecho de noticia o autor afirma que ainda em 1987 acabou sendo surpreendido que Giacomo havia falecido em Madri como bem gostaria em quadra jogando tênis. sem mais.

At. Douglas

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Fantasmas, lembranças, por que estou aqui?



Às vezes, fico pensando que estamos chegando numa idade onde começam a partir as pessoas mais jovens e que ficamos para cumprir nosso carma.

Quantos de nossos ascendentes já não embarcaram no veículo celestial que os conduziu para outras paragens, após cumprida a sua proba missão.

Acredito que essa inconformidade parece acentuar-se quando nos vemos privados intempestivamente de nossos contemporâneos ainda tão outonais.

E as recordações começam a fluir de forma intensa e tão real em todo nosso cotidiano, levando-nos a duvidar da inexorabilidade d’um destino.

Luiz Fernando Mello de Almeida (primo em segundo grau) era filho de minha prima Hilda Mello de Almeida, casada com o general Ociran Sebastião de Almeida; neto de minha tia Maria José Souza de Mello, casada com Joaquim Luiz de Mello; bisneto de meus avôs Joaquina Teixeira de Souza e José Vieira de Souza, tendo assim ligações familiares em Jaguarão.
Sempre admirei o ramo Almeida dessa família por incutir em seus descendentes a aproximação de todo tipo de parentesco, gente que nunca deixava de procurar em qualquer de seus destinos. Como agora me comunica o filho Luiz Eduardo Fontes Mello de Almeida a missa de primeiro ano de falecimento de seu pai, atitude típica de seus saudosos avôs Hilda e Ociran e de seus tios Eduardo Ubirajara e Regina.
Ainda tenho na lembrança a vez em que prima Hilda, então residente no Rio de Janeiro, foi visitar seu pai, tio Joaquim, em Jaguarão, lá pelos anos cinquenta. Foi quando encontrou a prima Nilza, casada com o major Cesário, na época servindo no Regimento local, botando a conversa em dia nas tardes hibernais, ambas sentadas numa mesma cama e entrouxadas até a alma para resistir o frio intenso.
Cadetes da Marinha, tanto Luiz Fernando quanto Eduardo Ubirajara, não deixavam de atender os apelos da mãe, no sentido de procurarem parentes nas cidades onde aportavam em suas viagens de estudo como tripulantes do navio-escola Cisne Branco. Depois ambos decidiram se fixar mais em terra para estar bem próximos da família, formando-se em Engenharia Naval e passando a exercer atividades civis.

Aqui em Porto Alegre, Luiz Fernando chegou a ocupar a Diretoria de Informática do Grupo Ipiranga e implantou todo o banco de dados dessa empresa, atuando de terça a quinta-feira e passando fins de semana com a família no Conjunto Residencial Itaipu, em Niterói-RJ. Como trabalhava perto do BRDE, algumas vezes costumávamos almoçar juntos no restaurante do Palácio do Comércio, trocando ideias e noticiando atividades. Depois, soube que tinha deixado a Ipiranga para se integrar em consultoria na construção do novo aeroporto do Rio.

domingo, 6 de outubro de 2013

PERCURSO DE UMA LEITURA

“Eu sou de uma terra de imaginação. O gaúcho, aquela vida segregada na estância, com um convívio muito limitado, aquilo leva às fantasias, aos sonhos, ao conto, à história... De muito cedo, a gente está neste mundo de ficção. Eu penso que foi isso que me levou. Minha cidade, Quarai, é um lugarejo de três mil habitantes. Era aquela solidão numa savana, uma casa a léguas de distância da outra, naquele campo. Aquela solidão leva ao sonho, tem que se conviver com alguma realidade e a realidade que está mais à mão é o sonho, é a ficção” (final da entrevista concedida por Dyonélio Machado a Ivan Cardoso e Décio Pignatari em 1978, publicada na Folha de São Paulo de 21.12.1991).
Da obra de outro quaraiense, Cyro Martins, em “O Príncipe da Vila” (3ª. edição, Movimento/Curso Pré-Universitário, 1987) à página 18, transcrevemos: “Uma casa aqui, outra lá, tão distantes uma das outras que as vizinhas precisavam sair do seu pátio para ir encontrar a comadre, porque de janela a janela não se ouviam”.
Parece-nos que tais trechos podem servir de ponto de partida para entender Brandino, personagem no qual se centra o desenrolar desta novela. Lendo em voz alta, escutamos o ritmo da narrativa, muito semelhante ao de qualquer causo contado nas rodas de galpão. Floreios, detalhes, associação de idéias, histórias emendadas, fatos paralelos – recurso típico do narrador que escamoteia os rumos, espicha as falas, mantém os ouvintes atentos e ansiosos enquanto não lhes desvenda o desfecho. Apesar de se reconhecer, pag. 74: “Causos que se passavam na campanha, mas que não refletiam necessariamente a alma da campanha, isto é não eram campeiros”.
“Filho de uma penca de pais e de meia dúzia de mães” (pag.14), Brandino se torna resultante de uma época de farranchos que glorificavam coronéis e estancieiros, quando as carretas ainda cumpriam a sua função no transporte de mercadorias. E o trem – antecedendo o rádio e o telefone – era a marca mais evidente do progresso: ”Era uma festa quando o estafeta chegava, de quinze em quinze dias, trazendo jornais – o Correio do Povo, a Gazeta do Alegrete, o Diário Popular de Pelotas e o Correio do Sul de Bagé” (pag. 68). Cultura tosca formada em leituras esparsas, gerando confusões na semi-intelectualidade do autodidata: “Só que não foi o Bilac que esteve no Cati, foi o Coelho Neto” (pag. 40).
Por obras e artes do galo-músico Príncipe, da casamenteira dona Pitoca, do amigo Cardosinho, do padre José e da prostituta Dulce, o personagem se encaminha ao fatalismo da própria existência, conforme prenúncios da mãe Luzia (pág. 46): “Não atinava com o porquê, mas Brandino desde que viera ao mundo, lhe pareceu fadado a um destino estranho”. Brandino renuncia à acomodação de Nossa Senhora do Rosário, às suas origens, à mácula do seu passado e se auto-exila no Paraíso, a estância-herança da mulher Teresa, onde tenta repetir a simplificação do seu antigo ofício na Prefeitura: – desça à comissão de pareceres (o capataz Floriano), suba a instância superior (o próprio). Mas ai ele vai dar um novo sentido à sua vida, a do itinerante tio Brandino - missionário, curandeiro, pregador, conselheiro, artista, aglutinador, milagreiro -  preenchendo lacunas na solidão do pampa, compensando carências – ou (pag. 68): “Mais que isso, descobrindo parentescos, pelo lado paterno, dos quais não tinha bisca de notícias”.
O desfile de 66 personagens, quase uma lista telefônica local, a princípio estranho numa história que se desenvolve em 84 páginas, justifica-se como representação fiel de uma cidadezinha de onde todo mundo conhece todo mundo. E assim se nominam costureiras, parteiras, lavadeiras, carpinteiro, hoteleiro, barbeiro, dono da venda, dono da loja, dono do colégio, delegado e ordenanças. Também comum numa localidade do interior gaúcho, o tratamento respeitoso na época – comadre Luiza, compadre Anselmo, coronel Sabino, dona Santinha, seu Ataliba, dona Margarida, dom Alberto, dueña Ângela. A linguagem é autêntica na medida em que reproduz o toque regionalista desta narrativa, apesar de não se constatar nenhum abuso em termos que dificultem a compreensão do leitor – afora 35 palavras, algumas de nítida influência fronteiriça. As referências históricas (revolução de 1893, tratado de Pedras Altas em 1923) e geográficas (o Passo, Alegrete, Santa Maria, Uruguaiana, Porto Alegre) delimitam com precisão tempo e espaço.

Em suma, uma narrativa extremamente densa e de considerável fluidez na leitura.