domingo, 27 de julho de 2014

GENTE OU BICHO, CADÊ A INCLUSÃO SOCIAL?

Antonio Galderio "Sem Teto"

Sabes quem eu sou? De onde venho?
Pois é, ninguém sabe nem quer saber. Nem mesmo eu me importo
com falta de vontade, impedindo-me de reagir.

Quando peço uma moedinha, qualquer coisa já me basta,
até agradeço por teres me dado atenção,
chego a ficar contente apenas com tua palavra.

À noite, tenho vontade de procurar a casa de Deus,
mas sempre encontro as portas fechadas
para que eu não permaneça por lá um tempo sem fim.

Fico perambulando pelas ruas, ajeito-me agachado
em qualquer canto onde possa descansar
sem que perturbe a passagem indiferente das pessoas.

Sentimento de gratidão é que me ocorre quando encontro
o espaço generoso de uma dessas marquises sem grades
para me abrigar das intempéries.

E como dói ter que depender da caridade alheia,
muitas vezes mitigada pelo carinho de um prato de sopa quente, 
repartido como pão de Cristo.

Amigo, talvez não saibas nem tenhas vivenciado
esta total carência de quem deixou e segue deixando
o tempo passar na falta de oportunidades.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

E por falar no apito tão estridente do carro motor

Em remotas eras, certo amigo me apresentou a uma bela “dama da noite”, conhecedora profunda do comportamento masculino, tecendo rasgados elogios à minha pessoa, apesar de não merecidos. Do alto de sua refinada experiência, essa dona não chegou a colocar em dúvida aquelas referências, porém, colocou-se a desfiar todas as decepções que lhe ensinaram a conhecer melhor o sexo oposto. E nos apontava apenas uma distinta figura do seu relacionamento como modelo de cavalheirismo, pautado em atitudes de respeito indiscriminado à condição social de cada criatura e que se chamava João Batista.
Assim, em rápidas pinceladas, apresento o perfil desse indivíduo que deixo em suspenso para compreender a profunda ansiedade por que passa todo ser humano ante as resultantes traduzidas pela química das reações emocionais. Dizem os espiritualistas que já somos programados desde os planos superiores. De modo inconsciente, mal percebemos os sinais que nos chegam através de inúmeras ofertas sociais de interação aos pares no meio onde vivemos com o fim de perpetuar a própria estirpe. E o nosso espírito vaga por ai perdido para encontrar afinidade de gostos e ideias.
Agora, imagine-se como estudante, dinheiro contadinho, que vai passar fim de semana na casa de parentes, em Barra do Ribeiro. A seu lado, viaja linda jovem, calada, que vai desembarcar numa parada logo adiante a fim de fazer baldeação a um ônibus de partida para Sertão Santana. Da sua janela, você avista ela embarcando no outro veículo e lançando para si um significativo sorriso. Você pensa em tomar outro rumo, mas ai surge o dilema de quem vai lhe pagar a passagem de volta. Cada um segue o seu caminho até nunca mais, pois aquele desencontro já fora previsto em sua programação.
Tantas partidas e chegadas nestas estações aonde nos conduz o destino que a gente não deixa de esquecer as muitas paragens de nossa existência. E ali naquela aduana no lado uruguaio da Ponte Internacional Mauá, hoje é difícil de conceber a ausência daquele carro motor que ia e vinha pelos trilhos de Rio Branco a Montevidéu, levando e trazendo aquelas pessoas complicadas para se identificar nas suas pretensões como de passeio ou negócio. Passageiros das mais diversas origens, misturando-se em multicoloridas roupagens que mal denunciavam seu modo de vida.
Afinal quem era João Batista? Boêmio, solteirão inveterado, filho de fazendeiro que ajudava o pai nas lides campeiras, com tempo suficiente para se dividir entre a dureza da atividade rural e as ocupações comerciais que não prescindiam de sua presença na cidade. Tínhamos um amigo comum, Vitório Silva, um velho companheiro das rodadas no Café do Comércio,  que sempre me falava das qualidades de João Batista, as quais eu ia agregando com admiração, apesar de não lhe desfrutar da intimidade. E o Vitório foi quem me contou um acontecimento rocambolesco, envolvendo aquele nosso personagem.
Estavam os dois passando de automóvel pela Aduana uruguaia no momento em que os passageiros embarcavam no carro motor, quando João Batista viu aquele perfil de rosto feminino que lhe encantou. Parecia que lhe sopravam: “Esta é a mulher da tua vida”. O trem já ia saindo, mas ele não teve dúvida para instruir Vitório: “Vamos até a estação da Cuchilla, que lá eu compro a passagem e pego o carro motor, preciso falar com aquela moça que nem conheço. Tu telefonas para o representante de meu pai em Montevidéu, Mateo Gallindo, que me espere lá na chegada desse trem, pois necessito acertar um negócio com ele. E levas o nosso carro para casa em Jaguarão”.
Nem preciso contar que ele terminou casando com a "involuntária visão", embora tivesse se apresentado a ela de botas e bombachas, a mesma roupa com que saíra da campanha. Apenas contando com presumíveis préstimos de uma pessoa de Montevidéu, que só distinguia de ouvir falar em seu nome.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

QUEM DIRIA: * ESTA GENTE ANDOU POR LÁ (II)


Grande ator do teatro rio-grandense, natural de Jaguarão, Joberto Teixeira levou à cena, no Teatro Esperança, o monólogo “As Mãos de Eurídice”, a mesma peça com que foi aplaudido de pé no principal palco do nosso Estado – o São Pedro, de Porto Alegre. Fiquei sabendo, através de uma emocionante crônica do Professor Cléo dos Santos Severino publicada no jornal “A Folha”, lá pelo fim dos anos cinquenta, que o espetáculo foi realizado para uma restrita plateia, mas que no dizer desse articulista com a presença de um casal de idosos, nada mais nada menos que os pais daquele artista, lotavam todo o espaço vazio daquela casa, dada a feliz oportunidade deles assistirem a magistral interpretação do seu talentoso descendente.
Outro momento mágico do nosso Cine Teatro Esperança me foi relatado pelo saudoso amigo Newton Silva, quando ali se apresentou o notável cantor e compositor Rubens Santos, já falecido, um dos parceiros de Lupicínio Rodrigues, então cumprindo uma turnê artística patrocinada pelo Governo do Estado, provavelmente acertada pelo empreendedor Danilo Brum, o qual integrava o Conselho Estadual de Cultura. Pois o Newton me enfatizou que esse espetáculo foi dirigido a uma meia dúzia de assistentes, os quais chegaram a sentir pena de tantos ausentes que deixaram de conferir um dos mais abalizados intérpretes do velho Lupi. Compreendi perfeitamente essa colocação, tendo acompanhado o veteraníssimo Rubens em inúmeras performances no antigo restaurante do CIB – Centro Ítalo Brasileiro, situado na Rua João Teles, bairro Bonfim, que costumava reunir às segundas-feiras a nata da música rio-grandense, ocasiões em que abusava de sua potência vocal, sem utilizar qualquer microfone.
Os tópicos acima transcrevi de crônica aqui publicada em 28/11/2010 e intitulada “Vivenciando instante privilegiado”. Feito esse reparo e aproveitando a deixa, ocorre-me uma passagem que me contaram sobre o desempenho do radialista Wilson “Catico” Almeida, filho da terra que ousava desafiar o dito “santo de casa não faz milagre”, representando naquele palco o difícil monólogo de Pedro Bloch, tantas vezes levado à cena pelo famoso artista Rodolfo Mayer, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Disseram-me que os invejosos de plantão se combinaram para lotar o Esperança a fim de lhe contemplar com uma estrondosa vaia. Mas o que se viu, ao final, foi uma longa e calorosa aclamação de todo o público ali presente.
Aqui já andei falando daquela ocasião em que tio Cantalício me levou para assistir a uma peça no Teatro, da qual teve que se retirar mais cedo porque eu comecei a bater pé como fazia nas matinês do cinema. Ou então daquelas vezes em que, ainda garoto miúdo, insistia com meu primo Anysio, já moço taludo e namorador, que me levasse nas noites de segunda-feira ao Cine para assistir aos seriados do Tom Mix e, já na outra semana, era ele quem vinha me perguntar se eu não ia ver a continuação do folhetim. Vendo as chanchadas da Atlântida, impressionava-me com a interpretação de Silva Neto para Nervos de Aço, cuja autoria ignorava fosse de Lupicínio Rodrigues, ilustre desconhecido para esse analfabeto musical.
E a ZYU-7 Rádio Cultura de Jaguarão tinha seus programas vesperais de calouros, aos sábados, ali apresentando as atrações locais, onde pontificavam o regional dos filhos do seu Agostinho – Canhoto, Lourenço e Moacir – e mais o violonista Nery Antonini, além de Napoleão, Severo e Adalberto Mendes, notáveis seresteiros, cuja fama se propagava por toda nossa Zona Sul do Estado, estendendo-se Uruguai adentro.
Finalizando esta lição de casa, para descontrair, um episódio hilário. Uma tremenda bofetada ecoa pelo recinto e lá da galeria (“poleiro”) alguém grita: “Afofaram o Adem!”. A projeção do filme é interrompida, acendem-se as luzes da plateia e, lá de baixo, ressoa o brado do melindrado dengoso: “Que ovo!” Acústica perfeita, surgia mais uma das expressões típicas do “jaguarês”...
E o resto fica a cargo das memórias vivas de Cláudio Ely e Pedro Bartholomeu.

terça-feira, 15 de julho de 2014

QUEM DIRIA: QUE ESTA GENTE ANDOU POR LÁ

Carlos José Azevedo Machado, o Professor Maninho, está preparando uma tese de mestrado na UFPEL sobre Memória Social e Patrimônio Cultural e me solicita um depoimento acerca daquilo que vivenciei no Cine Teatro Esperança, de Jaguarão. Para início de conversa, devo relatar a indignação do amigo João Campelo Costa, o “Ceará”, falando da entrevista do ator Paulo Autran com a apresentadora Cristina Ranzolin, na qual ele citava os diferentes teatros do mundo inteiro, onde representara a sua arte, incluindo aqui no Estado nossa terra. E não é que Cristina não conseguiu se conter para lhe perguntar como é que ele, já sendo aplaudido em grandes metrópoles da América e da Europa, sentiu-se pisando o palco de uma cidadezinha inexpressiva como Jaguarão.
Em verdade, criei-me na mentalidade do “já teve” de tanto ouvir falar daquelas companhias líricas que faziam ponto de parada em Jaguarão em seus deslocamentos de São Paulo e Rio de Janeiro para as repúblicas do Prata, privilegiando nossa cidade com memoráveis temporadas. A acústica do Teatro Esperança sempre foi destacada pela sua clareza para se ouvir perfeitamente os diálogos encenados a partir da ribalta, encantando todos os artistas que ali se apresentavam. Entre aqueles que chegaram a meu tempo, era useira e vezeira em se hospedar no Gerundo Hotel a pianista Luzia Felix, sempre acompanhada do marido, o humorista Sérgio Felix, os quais nunca deixavam de marcar sua presença no vetusto Esperança, antes de seguirem para Montevidéu.
Outra das inesquecíveis atrações que ali tive oportunidade de presenciar, recordo da veterana cantora Dircinha Batista, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Muito simpática, ela falou da sua vinda a Jaguarão como uma viagem sentimental que trazia a lembrança daquelas excursões que fazia com seu pai, o cantor Batista Júnior, e sua irmã Linda, inclusive já tendo estado nesta região sul do Estado. Era de se ver como ela cativou naquele momento a plateia do nosso Teatro que a deixava entusiasmada e feliz com a receptividade jaguarense, a ponto de manifestar seu desejo de um breve regresso e sua promessa de vir acompanhada da outra irmã, também famosa, Linda Batista. Azar o nosso que não chegou a se concretizar essa expectativa.
Já que Professor Maninho me provocou para pisar nestas brasas de uma fogueira mental, nem precisei esconder a primeira ideia que me ocorreu. Veio-me à mente certa peça encenada no antigo “politeama”, cujo título me parecia “Helena abriu...” que procurei conferir com o "expert" Luiz Carlos Dutra Monteiro e ele prontamente me corrigiu: “Helena fechou a porta”, apesar de desconhecer o ator principal da cena. Martelava-me o cérebro um tal de Luiz, do Teatro do Estudante. Em contato com a Coordenação de Artes Cênicas (SMC/P. Alegre), Breno Ketzer Saul gentilmente me envia mensagem com o artigo “Teatrodo Estudante do Rio Grande do Sul” e eis que me “aparece a margarida” LUÍS TITO na direção daqueles espetáculos.
Das minhas andanças internauticas, fico sabendo que a peça “Helena fechou a porta”, autoria de Accioly Neto, teve sua estreia no Teatro Copacabana do Rio de Janeiro, em 1950, estrelada por Tônia Carrero e Paulo Autran. Também consigo algumas informações sobre o ator e diretor teatral Luís Tito, que chegou a trabalhar com Cacilda Becker, Walmor Chagas, Célia Helena e Raul Cortez em “Santa Maria Fabril SA” (1958), de Abílio Pereira de Almeida, além de “Os Perigos da Pureza” (1959), ambas as montagens da Cia. de Teatro Cacilda Becker. E no cinema, encontro sua participação em “Caçula do Barulho”, contracenando com Oscarito, Grande Otelo, Anselmo Duarte e Gianna Maria Canale. Acredito que se possa ter uma ideia da importância daquela viagem do Teatro do Estudante, em 1954, pelo interior gaúcho.
Ainda me ocorrem outras passagens a serem reveladas para ilustrar a história de uma das mais tradicionais casas de espetáculos do nosso Estado, que se ombreia com o Teatro São Pedro, de Porto Alegre, mais o Sete de Abril e o Guarani, de Pelotas. Assim, devo prosseguir numa próxima postagem, atendendo o dever de casa que me foi passado.

terça-feira, 8 de julho de 2014

A FANTASIA DE MEANDROS DO INCONSCIENTE


Quando Juscelino Kubitschek foi eleito Presidente da República, em 1955, a revista “O Cruzeiro” publicou uma fotografia de página inteira da fachada da casa onde nasceu JK, em que aparecia bem nítida a numeração 241 do prédio. Conta-se que, em Jaguarão, o proprietário do Hotel Fronteira na época acreditou nesse número como um palpite infalível e resolveu apostar uma grande soma na “quiniela” uruguaia, vindo a ser contemplado com uma razoável fortuna, a qual poderia ter sido ainda maior se ele dispusesse de mais dinheiro para tanto.
Enquanto isso eu vivia suspirando por um sonho revelador que me possibilitasse uma tranquila independência financeira. Até que um dia me vejo como “chofer de auto de praça”, sentado a uma mesa num Café, em Caxias do Sul, e então me aparece o amigo “Rato”, dono de uma oficina mecânica, para me informar que o veículo que tinha deixado para conserto já estava pronto. Pergunto se dispunha da Nota Fiscal, assim pagaria ali na hora e depois iria retirar o carro onde se encontrava. “Rato” apresenta-me o documento Nº 1201... E eu me acordo imediatamente para anotar aquela surpresa.
Devo esclarecer que nunca fui “chofer de praça” e, até aquele momento, ainda não conhecia Caxias do Sul. “Rato” era um parceiro do Café do Comércio e tinha defeito de nascença nas pernas que o obrigava a caminhar com dificuldade, muito menos chegou a proprietário de qualquer oficina. Só mesmo dos meandros do inconsciente podia aflorar uma história tão fantasiosa, motivando-me a catar todos os “pilas” onde pudesse encontrá-los para jogar com sofreguidão em tudo quanto era tipo de jogo da “quiniela” de Rio Branco: 201 na cabeça, do primeiro ao quinto, aos vinte...
A lista com os resultados oficiais dessa loteria uruguaia costumava chegar a Rio Branco, cidade fronteiriça do outro lado do rio Jaguarão, por volta das 17 horas, através do carro motor que vinha de Montevidéo. No início da rampa de acesso daquela localidade, defronte a Casa Simon, até o plano mais elevado da Aduana, existia um quadro onde era divulgada a listagem dos vinte números sorteados. No lado brasileiro, alguns aficionados postavam-se às margens do rio e aguardavam o apito estridente do trem, chegando na Aduana e chamando-os para conferir a “buena dicha”.
E dali, com esse sinal, iniciava-se a marcha batida dos inveterados da “quiniela” para cruzar a fronteira, na esperança da realização de seus palpites. Numa dessas vezes, misturei-me ao pessoal, o coração batendo acelerado como se quisesse adiantar no caminho. Chegando naquela rampa, consegui avistar o “2” da centena no primeiro prêmio. Pernas frouxas, mal prosseguiam em alguns passos, o suficiente para distinguir o “0” da dezena... Modedocéu, não é possível! Comecei a tremer, as vistas turvas nem alcançavam o algarismo da unidade. Precisei chegar bem perto da tabuleta para enxergar aquele “202” frustrante, em oposição à expectativa da Nota de um sonho.
O fato consumado, relatei a passagem para a roda do meu grupo no Café do Comércio, o personagem onírico ali presente. Pois “Rato”, que tinha sua experiência das "fezinhas" no jogo do bicho, inconformado com essa “furada”, indignava-se por eu não ter procurado sua assessoria: “Tu podes ser inteligente, porém, pouco prático. Não acertaste porque não quisesses...” – E eu ali boiando e querendo adivinhar onde tinha me enganado: – “Presta bem atenção, coisa simples, sem erro, bastava ter somado o “1” do milhar a “201” da centena, ora bolas!”

Nem preciso contar do trauma que se apossou de mim, daí em diante, e me afastou definitivamente dos jogos de azar, afora algumas “tentaçõesinhas”.  

quinta-feira, 26 de junho de 2014

E ASSIM CRIAMOS O MITO "OBDULIO VARELA"


É tempo de Copa do Mundo e me ponho a reflexionar em cima de minhas lembranças sobre esse evento. Sinceramente, para mim tal certame já acabou em 1970 com a conquista definitiva pelo Brasil da Taça Jules Rimet, aquela mesma que foi roubada da sede da CBF e sumariamente derretida pelos larápios. Embora discutível, era minha opinião que nosso país passasse a ocupar uma posição de “hors concours”, dando oportunidade a que outros também chegassem ao tricampeonato e se habilitassem a uma disputa com nossa seleção canarinho. Mas reconheço que, se assim fosse, estaria se privando às novas gerações o gostinho de levantar mais um caneco.
Apesar dessa minha divergência, nunca deixei de acompanhar o desempenho de nossos atletas nas competições de futebol. E o que tenho visto nas últimas Copas não chega a me entusiasmar face o acentuado declínio técnico dos participantes em geral, a maioria dependendo da genialidade do principal jogador de sua equipe. Isso que são regiamente remunerados para exercer uma honrosa função. Nosso selecionado está ai todo enxertado de jogadores que atuam no Exterior, à exceção de alguns poucos oriundos de quadros nacionais, classificando-se a duras penas (e até com ajuda da arbitragem) numa das chaves mais fáceis da atual Copa do Mundo. Haja tremedeira...
Até algum tempo atrás, ainda guardava como relíquia uma edição extra de “A Noite Ilustrada” que circulou na véspera da decisão de 1950 entre Brasil e Uruguai, tendo estampada na capa em letras garrafais a manchete “BRASIL CAMPEÃO DO MUNDO” em flagrante desrespeito ao adversário. Favas contadas, vivia-se um clima de oba-oba, todo mundo querendo tirar casquinha em cima de nossos craques, que assim viam aumentar sua ansiedade em relação ao jogo. Preservação da equipe, nem pensar, até tiveram que aguentar, por imposição do técnico Flávio Costa, uma missa de mais de uma hora de duração, rezando em pé. A politicagem imperava sobre o grupo.
No lado uruguaio, alguns dirigentes só queriam não perder de goleada, o empate já estava de bom tamanho, com o que se rebelou “El Capitán” Obdulio Varela, comandando a reação sobre nossa vantagem zero a zero do primeiro tempo, já no intervalo da partida, dentro dos vestiários. Um “maracanazo” estava por surgir para calar as vozes daquelas inoportunas provocações, sepultando as esperanças de milhões de brasileiros. Porém, esses “futurólogos” ufanistas não foram capazes de assumir seu equívoco perante a opinião pública e descarregaram toda sua irresponsabilidade ao buscar algum “bode expiatório” pelo ocorrido, crucificando de forma desumana Barbosa e Bigode.
Recém tinha nascido para o futebol e comecei adorar aqueles ídolos fantásticos como Barbosa(V), Augusto(V), Juvenal(Fa), Bauer(SP), Danilo(V), Bigode(Fa), Friaça(SP), Zizinho(Ba), Ademir(V), Jair(P) e Chico(V), além daqueles grandes coadjuvantes Castilho(Fu), Nilton Santos(Bo), Nena(I), Eli(V), Rui(SP), Noronha(SP), Alfredo II(V), Maneca(V), Baltazar(C), Adãozinho(I) e Rodrigues(P). Quer dizer, dois craques em cada posição para dar e vender, não tinha erro. Mas faltou humildade para os líderes das classes dirigentes do país, que contaminaram com sua imprevidência toda estrutura montada para aquele desfecho mais favorável, coroando a melhor campanha da nossa seleção em toda a Copa de 1950.
Parecia um jogo jogado, ninguém se dava conta que os uruguaios entravam em campo de sangue doce, era nossa a obrigação de vencer. Uma tremenda sobrecarga emocional pairava sobre o elenco brasileiro. Mesmo assim, já aos 2 minutos, Friaça abria o placar com o tento de honra. Esta foi a gota d’água que transbordou o copo do orgulho “celeste”. Anunciava-se uma enfiada, jamais admitida por “Dom” Obdulio que correu rápido para apanhar a bola no fundo das redes, voltando logo ao meio de campo para repô-la em jogo, e aos berros incitando seus companheiros “vamos a ganar, a ganar ese partido!” 

sábado, 31 de maio de 2014

O BOM COMBATE DESTE SAUDOSO JOHNSON

Marcello Campos retoma sua brilhante trajetória de pesquisador arguto e incansável com mais um lançamento cultural ao resgatar a memória de um astro eclipsado na sombra de nosso compositor mais canonizado e decantado por este Brasil afora. As novas gerações que já começam a ter conhecimento da obra de Lupicínio Rodrigues esqueciam a importância daquele que viria a ser o seu mais fiel intérprete e até o confundiam como uma espécie de “anjo da guarda” tal a constância de sua companhia como se fossem “corda e caçamba”. Na realidade, Orlando “Johnson” Silva se tornou uma espécie de termômetro no qual Lupi testava suas composições.
Foi um desafio ao qual Campos se entregou de corpo e alma para compor mais este álbum, ricamente ilustrado, que sucede “Week End no Rio” (sobre as cinco décadas do Melódico Baldauf) e “Minhas Serestas” (Vida e obra de Alcides Gonçalves) e agora acaba de ser lançado no último dia 26 no Centro Municipal de Cultura – “Johnson – o Boxeur Cantor”. Tarefa bastante complicada que demandou paciência e um tempo prolongado na busca de dados e fotografias, através de museus, bibliotecas, inúmeras entrevistas em nível de Ruy Castro e Fernando Moraes, que só mesmo um “rato” das redações poderia descobrir para trazer a público.
“Estúdios e estádios não eram apenas palavras parecidas ou ambientes semelhantes em quesitos como concorrência, popularidade e desconfiança aos olhos da sociedade conservadora” – o autor vai fundo na questão, quase definindo a dualidade de talentos do personagem, indeciso entre o pugilismo e a boemia, suas duas paixões. Eram épocas em que fervilhavam de gente os auditórios das nossas emissoras que se valiam de lotações maiores nos cinemas Castelo e Baltimore e, paralelamente, os tablados de grandes lutas atraiam um público fanático que não se cansava de torcer por seus ídolos. A maioria deles aqui radicados, dispensando apresentações de artistas de fora.
Pois Marcello Campos transita com desenvoltura nas diferentes fases da longeva existência dessa incrível personalidade da noite porto-alegrense, dissecando desde suas origens familiares, repassando sua atuação radiofônica e esportiva, até alcançar sua ligação com o inseparável companheiro de tantas noitadas. Para tanto, reconstrói toda história da introdução do boxe no Brasil, em especial reportando o ambiente da cena artística no Estado, em que relembra nomes e estampas pinçados em páginas amareladas de coleções de velhos jornais. E nos coloca como transeuntes num tempo que se vai desvelando familiar à medida que correm as páginas na leitura dessa obra.
Seus capítulos se desdobram como “rounds” de um bom combate, a principiar pelo prefácio de Juarez Fonseca “Calçando as luvas” e daí passando ao segundo “A Voz Morena da Cidade” e depois ao terceiro “O Boxeur Cantor”, ao quarto “Amigo Lupi”, ao quinto “Quando Eu For Bem Velhinho”, ao sexto “Fontes Consultadas”, ao sétimo “Agradecimentos”, ao oitavo “Ficha Técnica” e ao nono “Sobre o Autor”. Muito interessantes os quadros sobre “As Composições de Johnson” e “Johnson: Cartel Conhecido” (Categoria peso pluma/amador e peso leve/profissional). Eis ai uma boa dica para a próxima Feira do Livro.
MINICRÔNICA PARA MARCELLO CAMPOS
O garçom, sonolento, vai empilhando as cadeiras sobre as mesas desocupadas. A copeira joga o balde de água espumante no frio chão de lajotas. O dono do bar implora aos fregueses renitentes para fechar a conta, lembrando-os que já é a hora de se retirarem do recinto. Mas estes ainda insistem em mais uma das constrangedoras “saideiras”, com o que apenas conseguem a firme e decidida recusa do taverneiro. Resta-lhes tão somente a alternativa de saírem contrariados. Lá fora, as primeiras luzes da manhã ofuscam as suas olheiras consequentes das contínuas noitadas de ócio e fuzarca. O crescente ruído das buzinas e das descargas dos motores atordoam seus frágeis ouvidos, mais acostumados à sonoridade dos ambientes dançantes. Misturam-se, assim, à gente simples que desce nas paradas de ônibus, vindo dos subúrbios distantes, em busca do ganha-pão de todo dia e teimando em sobreviver na adversidade. Cigarras noturnas que cedem seu lugar as matinais formigas, poderiam até ser confundidos na reduzida multidão madrugadora, não fossem as vestes alinhadas e a cuidadosa aparência. Casacos trespassados. Calças bem frisadas, com perfeito caimento. Sapatos reluzentes de polainas brancas. Cabelos alisados, exalando perfume de brilhantina. Bigodinhos e cavanhaques diligentemente afilados. Discretas suíças, quase provocativas. Mas, mesmo assim, passam entre olhares indiferentes de outras pessoas que nem sequer imaginam o mundo de luxúria em que eles vivem... 

segunda-feira, 12 de maio de 2014

ATÉ DEBAIXO DO MAU TEMPO, NEM ACREDITO


Dona Mimi, esposa do Coronel Ataliba, salientava-se em sociedade como guardiã dos bons costumes e da conduta familiar, admirável pelo carisma e desprendimento nas campanhas comunitárias. Não era de se estranhar, pois, aparecesse com frequência na coluna social do hebdomadário local em clichê destacado com a legenda: “Mimi e Ataliba Pereira esbanjando sua proverbial elegância”. Sempre apoiando o marido na política e nos negócios, não se constrangia de arregimentar um grupo de senhoras para recorrer todas as tardes, no período eleitoral, aquelas “casas-luzinha-vermelha”, conduzindo a plataforma da Aliança Popular que tinha o Coronel como patrono. Nessas ocasiões, costumava impressionar o mulherio, expondo um programa de creches e casamentos incentivados para as “operárias da periferia suburbana”.
O diabo é que o velho Ataliba andava meio mal acostumado com a “tolerância” de sua mulher, muitas vezes flagrando-o e fazendo o maior dos escarcéus, nem se contam as “amiguinhas” despachadas por ela e socorridas em postos médicos das redondezas à custa do dito cujo para não responder processo por lesões corporais. Todo dia avisada do expediente se prolongando com a desculpa de convocarem assembleia (estatuto sendo alterado, integralização de capitais e outras coisitas mais), Dona Mimi mal desconfiava das chegadas do marido lá no “Naitandei”.

Marli conhecia bem o “furacão Mimi”, o suficiente para pressentir uma tremenda catástrofe vindo por ai. Há tempos, ela prevenia Janete para evitar o “enrabixamento” do cliente abonado, a exigir exclusividade nos seus serviços. Mas esta colaboradora da casa nem ligava para essas advertências, estimulando inda mais a fogosidade restante do coroa. O negócio já estava andando longe demais e a “chefona” se precavia de alguma represália da “matriz”, afinal a casa era de respeito, não admitindo qualquer arranhão em seu patrimônio. Mas essa de Janete acompanhar o Coronel até a estância para ver a esquila, agora sim, passava dos limites, pois se sabe lá como a mulher do capataz se portaria, se era confiável ou dessas “bocas de jacaré”, pior ainda se íntima de Dona Mimi.
E para complicar as coisas, aquela chuva sem parar há mais de três dias encharcando as estradas de chão batido, era bem capaz de impedir a passagem pelo arroio, na volta para a cidade. E eles no maior descuido como pombinhos predestinados à caçarola. “Meu Deus do Céu, atentai para que Dona Mimi não os importune”, porém, Marli deixava de ser atendida em suas preces, estando o Senhor surdo para escutá-las: o chofer de praça Costinha veio lhe contar que saiu em auto atola-desatola até desistir, deixando a passageira num rancho, onde ela conseguiu um carro de bois para continuar a viagem. A matrona já não aguentava mais de saudades do seu “Libinha” e tinha resolvido encarar uma maneira de ir lá na estância.

Dois dias depois.
Janete não tinha saído das casas e o Coronel passara fora o tempo todo empenhado no serviço da esquila. Já havia anoitecido quando chegou de volta, sem reparar Janete esfregando o chão da cozinha, foi direto ao banheiro se recompor no capricho, dali saindo apurado para o quarto, onde o esperava a romântica Mimi:

- Que amorzinho esta filha do capataz! Tão prestativa, não achas, querido?

terça-feira, 6 de maio de 2014

A COMOÇÃO DE IMOLA SEGUNDO R. MOREAU

Uma das coisas que mais me irritava, há pouco tempo atrás, quando ia visitar algum conhecido, amigo ou parente, era ficar olhando para a televisão ligada e só ter oportunidade de conversar no intervalo dos comerciais. E ainda hoje não consigo entender como não se pode marcar qualquer compromisso noturno num horário mais cedo, pois o pessoal só começa a aparecer depois que termina a novela.
Assim é que fui pegando certa ojeriza pela telinha e acabei redescobrindo o prazer de ouvir o rádio do meu carro, como se estivesse conversando com algum companheiro de viagem, não obstante o protesto daqueles que reclamavam do volume alto do som, imprescindível para a empatia nessa comunicação. Principalmente, aos domingos pela manhã, quando tomava o rumo da casa da minha irmã Lucy que morava no Partenon, a fim de esvaziar uma térmica com água quente na cuia do chimarrão e jogar conversa fora nas horas mais quietas desse dia.
Nesse trajeto, deveria gastar mais ou menos uns quinze minutos na ida e outro tanto na volta, tempo suficiente para curtir a prosa que me chegava através das ondas hertzianas. Desta forma, eu dialogava com Raul Moreau que então apresentava o Manhã de Domingo, pela Rádio Pampa, e algumas vezes, ao chegar na volta, corria ao telefone para entrar em contato com a produtora do programa, a sua esposa Dª. Bete.
Certa feita, o nosso amigo Raul explanava sobre o desmascaramento da criatura do Lago Ness, falando da armação montada por uma equipe náutica, a qual havia confeccionado a cabeça do monstro com material plástico, isso lá pelo século XIX. Pois eu tive o desplante de ligar para Dª. Bete, perguntando se naquela época já existia o plástico, que ela encaminhou ao Raul e ele respondeu que não poderia responder naquela hora, solicitando a sua produtora que providenciasse a compra imediata de uma enciclopédia para ficar à sua disposição já a partir do próximo domingo. Aí, caiu-me a ficha e, na mesma hora, fiz a pesquisa em casa, onde constatei que o plástico era uma invenção bastante antiga, embora alcançasse recentemente a sua aplicação mais generalizada – sem querer, provoquei uma polêmica desnecessária.
O Raul Moreau era admirador incondicional do Ayrton Senna e das corridas de Fórmula Um, que acompanhava através dos bilhetes da produção do programa informando os resultados parciais, como naquele dia em que se preparava para entrevistar o cantor e compositor Rubens Santos, parceiro de Lupicínio Rodrigues. Só que, nessa ocasião, passaram-lhe a notícia do terrível acidente que vitimou o Ayrton Senna, deixando-o completamente abalado, sem condições de prosseguir apresentando o restante da programação, a qual perto do seu final teve de apelar ao Rubens Santos para que fizesse o encerramento, conseguindo este levá-la a bom termo.
Outro momento marcante do programa aconteceu no dia em que completou um ano a cirurgia em sua esposa, Dª. Bete, processada pelo espírito do Dr. Fritz, incorporado no médium e médico pernambucano Dr. Edson Queiroz, a qual descreveu em detalhes tendo como fundo musical No Llores Por Mi, Argentina, a mesma melodia ambiental tocada enquanto era realizado aquele procedimento que restaurou a saúde da paciente.
Durante a semana, na parte da tarde, o Raul também ocupava espaço na Rádio Pampa, com ótima audiência, tendo em vista a sua programação de variedades, misturando cultura e entretenimento. Então eu participava do Grupo Fábula, supervisionado pelo escritor Luiz Antônio de Assis Brasil, que estava lançando uma antologia de contos intitulada Mais Ao Sul do Que Eu Pensava e fazia a divulgação da obra, junto com as colegas Jane Thompson Brodbeck e Patsy Ceccato, quando nos ocorreu contatar com a produtora Dª. Beth que imediatamente disponibilizou-nos a entrevista com Moreau. Lá comparecemos, justo no dia de seu aniversário, expondo a estrutura do nosso livro, onde cada um tinha um miniconto na abertura do seu capítulo. Espirituosamente, ele deu-nos a sua versão do gênero – uma professora passou para a classe como tema de redação Divindade, Realeza e Sexo, não demorando muito para que um dos alunos levasse o seu trabalho, onde estava escrito: “Ai, meu Deus – disse a princesinha – que bom!”

Por onde andará Raul Moreau? Há pouco tempo, tinha o seu espaço em nossa televisão através do Canal 20. Também publicitário, um profissional competente, carismático, mases de prosseguir apresentando o restante da programaçompletamente abaladose preparava para entrevistar o cantor e compositor Ru que, infelizmente, parece que não teve seu reconhecimento de parte das nossas emissoras. Que falta ele nos faz para animar as nossas manhãs de domingo!

domingo, 27 de abril de 2014

O positivismo e a liberalidade nas profissões

Templo Positivista de Porto Alegre

“O preceito que estabeleceu a liberdade profissional plena, embora hostilizado vivamente por profissionais diplomados, especialmente os médicos, parece-me que teve mais virtudes do que defeitos. Além de abrir mais possibilidades de trabalho a uma estrangulada classe média e de oferecer assistência a comunidades pobres e distantes, que jamais receberiam a visita de um médico ou de um dentista graduado, a regra da liberdade profissional terminou, indiretamente, por estimular o nascimento de instituições de ensino superior. Pelo próprio temor que os charlatães inspiravam à intelectualidade, o Rio Grande do Sul cedo criou sua Faculdade de Medicina em 1898, a terceira do Brasil em ordem cronológica. Já criara, em 1896, a Escola de Engenharia, assim como gerou em 1900 a Escola Livre de Direito.”
O historiador Sérgio da Costa Franco, nosso conterrâneo, tem enriquecido recente postagem deste blogue com seu oportuno comentário sobre o positivismo e a liberalidade no exercício das profissões. Então, ele nos diz que “a legislação da época não exigia qualquer prova de competência” e que “era livre o exercício de qualquer profissão, inclusive as da área médica”, pois “bastava inscrever-se na Diretoria de Higiene e pagar o imposto de licença”. Afirma ainda ter examinado “o assunto em vários ensaios”, não chegando “a conclusões muito negativas”, já que “nas condições do tempo, com absoluta falta de profissionais diplomados, talvez tenha sido uma saída necessária”.
Para esclarecer o tema, ele nos enviou gentilmente seu último livro publicado – “Ensaios de História Política” – do qual extraímos o trecho da página 24 acima grifado. Esta obra resultou da reunião de dois livros de edições esgotadas publicados pela Editora da UFRGS, - “Getúlio Vargas e outros ensaios” em 1993 e “Pacificação de 1923” em 1996 -, além de outros trabalhos inéditos. Mais especificamente, indica “O meio rio-grandense e a fundação da Faculdade de Medicina", texto de palestra proferida por ocasião do centenário daquele instituto de ensino superior da UFRGS. De sua absorvente leitura, colhemos interessantes lições da história rio-grandense que passaram a ser conhecidas a partir de árduas pesquisas empreendidas por Costa Franco.
Assim, começamos a entender melhor os fundamentos da filosofia positivista de Augusto Comte, a partir do título IV (“Garantias gerais de ordem e progresso no Estado”) da Carta de 1891, onde se encontra expresso: “Não são admitidos também no serviço do Estado os privilégios de diplomas eclesiásticos ou acadêmicos, quaisquer que sejam, sendo livre no seu território o exercício de todas as profissões de ordem moral, intelectual e industrial” (parágrafo 5º, artigo 71). Adiante, estabeleceu-se no artigo 74: “ficam suprimidas quaisquer distinções entre os funcionários públicos e os simples jornaleiros, estendendo-se a estes as vantagens de que gozarem aqueles”, conforme o filósofo francês pregava como ideal de incorporação do proletariado à sociedade moderna. 
Nesses “Ensaios de História Política” vale a pena assinalar na página 27: “Segundo os conselhos de Augusto Comte, o poder público apenas deveria cuidar da instrução fundamental, assegurando a todos noções gerais e enciclopédicas, que evitariam a preponderância excessiva e irresistível dos donos de uma ilustração privilegiada. Quanto aos ensinos secundário e superior, neles não interviria o governo, ficando assegurada a livre iniciativa dos particulares. Desta forma, visava-se evitar o nascimento de uma ‘ciência oficial’, que deformaria e viciaria a livre consciência dos cidadãos”.
Eis ai, em rápidas pinceladas, um dos aspectos da Constituição Estadual de 14 de Julho de 1891, obra de Júlio de Castilhos, líder máximo do Partido Republicano Rio-Grandense, regime político que aqui se perpetuou por mais de três décadas, exasperando o poder de estado com grande influência na República Velha e relegando o “Sistema de Política Positiva” de Comte a um modelo teórico frustrado em seus princípios sagrados de liberdade de consciência e de opinião. Em suma, peculiaridades que caracterizaram as diferenças entre uma e outra doutrina.