sexta-feira, 22 de agosto de 2008

FOLHETIM (para Gislaine)


Perdoa-me se não te curti como devia
tanto e tanto sempre quís eu te compreender;
buscava fazer-te feliz e não podia,
nem sabes o que me custou esse padecer.
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E o tempo que ia passando, mais e mais eu insistia
neste tão estranho devaneio de te querer:
bastava simplificar mas eu não sabia
assim bem humana me fosses parecer.
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Primavera já marca lindo calendário:
azaléias são passadas em nosso jardim,
estão como recordações num relicário.
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Com ternura que representas para mim,
registro nas páginas deste simples diário
mais um capítulo do nosso folhetim.
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segunda-feira, 18 de agosto de 2008

PLÁCIDO REPOUSO

Um, dois, três, quatro, cinco na mão direita; um, dois, três, quatro, cinco na esquerda. Ainda menina, te certificavas de ter os dedos completos para juntá-los aos pares. Mindinho com mindinho. Seu-vizinho com seu-vizinho. Pai-de-todos com pai-de-todos. Fura-bolos com fura-bolos. Mata-piolhos com mata-piolhos. Antes de dormir, te ajoelhavas ao pé da cama e repetias as palavras ditas baixinho por tua mãe em teu ouvido. O hábito arraigado, estranhavas aquele dia em que ela deixou de aparecer. Sozinha no quarto amplo, te sentias insegura à espera do monstro de ferro que logo passaria ali perto, estremecendo toda casa.
Aguardavas tua mã e ouvias perfeitamente aqueles passos, subindo as escadas com o cão. Eram de teus irmãos maiores já iniciados nas conversas dos adultos. Àquelas horas, eles raramente costumavam andar pelos corredores do sobrado, muito menos o cão que se confinava no pátio. E tu ali , em vão tentavas mexer os dedos para te distraires. E depois aquele apito estridente. ********************************************************************** Na madrugada, um trem sibila e te acorda num sobressalto. Tua mãe parece estar adormecida na poltrona, ao lado da cama. Olhas para a sua face, os traços tristes, cabelos soltos e enbranquecidos, o xale preto se estendendo sobre o corpo encolhido pela noite fria. Ela se lembrou de ti, deves pensar, talvez não se tivesse animado a te despertar para as orações que sempre fez junto contigo. Sais do leito, te abaixas a seus pés e beijas suas mãos enregeladas. Teu desespero ecoa solitário no silêncio...
As luzes da casa acendem-se todas, logo o quarto está habitado por outros parentes. Perguntas por tua mãe, se não a viram. Impossível que ela esteja ali, mas o milagre finalmente acontecera, há anos que esperam esse teu retorno. Lágrimas, rostos sorridentes, comovidos, vincados pelo tempo, aos poucos vais reconhecendo-os. E teus irmãos? O cão? Ninguém consegue falar deles para ti. Apenas abraços e beijos, te festejam sem que entendas o porquê. E te enxergas com mãos e pés enormes saídos de uma esmaecida camisola de dormir. Alguém traz um livro, abre-o em uma página marcada e te mostra a passagem. O teu olhar interrogativo, tudo tão nebuloso para ti naquele momento. Forma de esquizofrenia caracterizada por catalepsia, melancolia e depressão física - como poderias entender?

segunda-feira, 21 de julho de 2008

DISCONTUS : IX, X, XI e XII

DISCONTUS IX
Apareceu com uma bola de couro número três. Uma loucura. Os dois times formados, num deles o escalaram de centro-médio. Não armava o jogo. Pediram que fosse para a ponta-esquerda. Não sabia cruzar para a grande área. Terminou a partida atacando no golo.
No outro dia voltou com a mesma bola. Deram-lhe um apito.
DISCONTUS X
Domingo, manhã cinzenta, passeia no parque. Donzela linda o acompanha. Volúvel mexe as ancas. atrai a cobiça. Já acostumado, ele tira baforadas do cachimbo. Ignora.
De repente, liberada se agacha, faz xixi em público. Ele tolera tudo menos a falta de compostura:
- Mas que vergonha, Donzela!
DISCONTUS XI
Reconhece a lambreta no estacionamento. De braços cruzados, sentada na garupa, espera horas seguidas até que o marido aparece. A outra a tiracolo.
- Estou saindo da reunião... Ah, ia me esquecendo: minha companheira do Sindicato.
A outra percebe que está sobrando, pede licença para se retirar.
- Muito prazer, querida!
DISCONTUS XII
Ex-aluno do Colégio Júlio de Castilhos, primeiro lugar da turma. Hoje funcionário público, vinte e três concursos, uma vaga a menos - sempre ocupada - para os demais concorrentes.
Bunda-fria virou folclore: só ganhou estabilidade, saiu do piso salarial da categoria e recebeu cargo em comissão depois de atingir a idade limite.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Centenário de Alcides Gonçalves

No próximo dia 28 de julho, às 18 horas, no Teatro Renascença do Centro Municipal de Cultura, será levado a cena o espetáculo Entra Meu Amor, Fica a Vontade, que deverá encerrar o Festival de Inverno 2008, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura. Esse evento constitui parte do projeto Centenário de Alcides Gonçalves, saudoso compositor, cantor e instrumentista gaúcho que nos legou importante parceria com Lupicínio Rodrigues, autores de consagrados clássicos da música popular brasileira como Cadeira Vazia, Maria Rosa, Quem Há de Dizer e Castigo.
Na oportunidade, o prefeito de Porto Alegre, José Alberto Fogaça, deverá assinar Decreto instituindo o Ano Alcides Gonçalves na Música Porto-Alegrense, compreendido no período de Julho de 2008 a Julho de 2009, quando será desdobrada extensa programação de eventos alusivos à efeméride - 01/Out/1908 - com lançamento de CD e livro biográfico em preparo pelo jornalista Marcello Campos, além de exposição fotográfica da época e apresentações artísticas nos bairros da Capital e no interior do estado.
A coordenação geral do projeto encontra-se a cargo do Sindicato dos Compositores Musicais do Rio Grande do Sul, através de sua presidente Izabel L'Aryan, e conta com o apoio das Secretarias municipal e estadual de Cultura, do Instituto Estadual do Livro e da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul.
No espetáculo do dia 28, a cantora e compositora Izabel L'Aryan estará recebendo os artistas Carlos Catuipe (direção musical, arranjos, violão e voz), Cléa Gomes (voz), Chico Pedroso (cavaquinho) e Marcelo Pimentel (percussão). Também foram convidados Ademar Silvio, Roberto Paz, Alexandre e Alcides Gonçalves Júnior, cujas presenças deverão interagir com o público a partir do Teatro, prosseguindo pelo foyer do Centro Municipal de Cultura até chegar no Bar do Lupi, ali situado, a fim de mostrar um autêntico clima da nossa seresta.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

13 de junho de 1928

Hardy Vedana & Jazz Band com Glênio Reis, TV Piratini/1960.
No último sábado, amigos e admiradores do musicólogo Hardy Vedana reuniram-se no Ypiranga Futebol Clube, a fim de lhe oferecer um almoço comemorativo à passagem de seus 80 anos. Na presença de sua esposa Dª. Gila, das filhas Clarisse e Fernanda, dos netos Mateus, Daniel e Vitória e da bisneta Gabriela, o homenageado recebeu os cumprimentos de Soleno Almeida, Darcy Alves, Maria Helena & Ivomar, Anamaria Bolzoni, Raquel & Marcello, Flavinha, Gilberto Coutinho, Plauto Cruz, Franklin Cunha, Luiz Carlos Cunha, Eulálio Delmar Faria, Juarez Fonseca, Luiz Fonseca, Helenice & Waldyr, Carlos Boccanera Koch, Laci, Jayme Lubianca, Glênio Reis, Ruth Regina, Gislaine & José Alberto, Valtinho e tantos outros que ali compareceram. Num ambiente agradável, a festa prolongou-se até às 17 horas, através de um clima de confraternização em que não faltou a esperada apresentação artística, onde se salientaram os cantores Coutinho, Maria Helena Andrade, Ruth Regina, Maria Edith, Flavinha, Waldyr Justi e Bernardo, bem como o solo de trombone de Laci e mais a roda de choro do regional formado por Plauto Cruz (flauta), Darci Alves (violão), Cebolinha (cavaquinho), Soleno (pandeiro) e depois Valtinho (pandeiro). Uma verdadeira seresta que foi registrada pelos cineastas Cláudia Ávila & Amarildo Dutra para o documentário em preparo Viola Enluada. ********************************************************************** Natural de Erechim, Ardy Antonio Vedana (seu verdadeiro nome) veio para Porto Alegre em 1943. Aqui transitou pelas emissoras da época, primeiro frequentando os programas de auditório que as mesmas costumavam apresentar e, posteriormente, trabalhando como copista e como clarinetista do Regional do Paraná, inclusive exercendo essas atividades simultâneamente na Farroupilha e na Gaúcha. Memória viva da nossa história musical, tem-se destacado como grande pesquisador e colecionador de aproximadamente de 8.000 partituras, algumas delas manuscritas e a mais antiga datada de 1835. Grande estudioso do jazz, a sua biblioteca dispões de um alentado número de volumes, abrangendo todo o panorama da música nas Américas. Além disso, tem o seu passatempo predileto de colecionar carteiras de cigarro que já atinge um total de 12.000 unidades. Nessa rica vivência, tornou-se escritor ao natural, já tendo editadas cinco obras, as quais constituem rica fonte de pesquisa para estudiosos do assunto, a saber: Quem é quem em Porto Alegre, Jazz em Porto Alegre, A História do Choro, Otávio Dutra na História da Música de Porto Alegre e o álbum recentemente publicado sobre A Elétrica e os Discos Gaúcho. ********************************************************************** Através daquelas pessoas que compareceram ao Ypiranguinha, tentou-se resgatar um merecido reconhecimento de que a nossa sociedade e as nossas entidades de classe são devedoras para com Hardy Vedana, grande batalhador pela implantação do Museu da Imagem e do Som/RS.

terça-feira, 24 de junho de 2008

P_E_N_E_L_O_P_E_D_I_C_A


Texto constante do álbum comemorativo à passagem dos 50 anos do escritor Luiz Antônio de Assis Brasil, oferecido em 21/06/1995 pelos ex-integrantes de sua Oficina de Criação Literária.
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Aonde houvesse um trapo, ela juntava.
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Amarelo claro, rosa esmaecido, verde musgo,
logo distinguia a tonalidade de cada cor.
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À luz do lampião, dispunha no solo
losangos, trapézios, meias luas, estrelinhas...
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Quando percebia algum efeito,
encarregava agulha e linha de resolver.
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Sem atropelos nem preocupações
(havia um anjo vigilante).
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Assim ocupou toda existência,
sempre esperando concluir a colcha de retalhos.
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terça-feira, 17 de junho de 2008

DISCONTUS : V & VI & VII & VIII

DISCONTUS V --------------------------------- Atende o telefone: mudo, desliga. Nova chamada, outra vez calado; se põe a xingar, bate a peça furiosa. Mais três ou quatro tentativas, deixa tocando até que cesse. Ocorre-lhe deixar o fone fora do gancho: ------------------------------------- - Dá trote agora, seu desgraçado! DISCONTUS VI -------------------------------- Na estrada, a morena super-gostosa fazia sinais. Parou bem em frente a ela. Tratava-se de trocar o pneu. -------------------------------------------------- - Com todo prazer... ---------------------------------------------------------------------------- Feito o serviço, ela agradeceu, entrou no carro e foi embora. DISCONTUS VII ----------------------------------------------------------------------------- Loura, maneira audaciosa de vestir, lábios tão tentadores, um azul perdido nos olhos. É insinuante na sua fala, tem graça no folhear das páginas coloridas da amostra encadernada. Quer fechar o pedido, se vou ficar com a obra: ---------------------------------------------------------------------------------------------------------- - Enciclopédia que nada, me dá o teu telefone! DISCONTUS VIII ---------------------------------------------------------------------------- Frequentemente buscava sintomas nos livros - nenhum que já não tivesse. Nunca usava sanitário público, pois só em casa podia fazer assepsia nas mãos e se banhar depois das necessidades fisiológicas. No necrotério constataram: --------------------------------------------------------------- Estava embalsamado desde que viera ao mundo.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

...e acabei quebrando a cara!!! (III)

(continuação)
Ai quem me dera que a estória terminasse por aqui. Outra vez, um dos trapezistas Hermanos Aguileras não podia participar do número com indisposição estomacal.
Carambôla - assim eles me chamavam – tenés que ir!
E lá naquelas alturas, numa das plataformas Carmencita, aquele mulherão de tirar o chapéu, e na outra, Huguito e eu. Carmencita se manda e vem até nós:
Veni, Carambôla!
Eu me atiro de qualquer jeito, ela me apanha no ar e me leva até a sua plataforma. Ali ela se agarra toda em mim:
Mi querido, mi querido...
Do outro lado, Huguito salta no seu trapézio, Carmencita me empurra, Huguito cruza os braços e eu fico pulando na rede de segurança. Carmencita logo vem em seu trapézio e me segura num daqueles pulos, voltando comigo até sua plataforma, e eu de lá tocando flauta no enciumado Huguito:
Mi querido, mi querido...
Esperem aí, eu tenho mais coisa pra contar. E aquela do atirador de facas, então, não tem no gibi. A companheira entrou em licença-maternidade e eu tive de me travestir como partner. Primeiro, eu vinha aos pulinhos e ficava rodopiando em volta de Dom Orlando que anunciava:
Y ahora com usteds el renomado batedor de la cavaleria americana, el Indio Apache com sus machaditas mortales...
Ele entrava todo agachado, os joelhos dobrados, olhando de um lado para o outro com uma das mãos em pala sobre as vistas e brandindo um enorme machado acima da cabeça, chegava a dez passos de onde se encontrava a roleta, erguia-se e esperava que me amarrassem naquela roda, aí se virava de costas, colocavam-lhe a venda nos olhos, a roda girava e ele atirava as machadinhas que se cravavam a milímetros próximos do meu corpo, ora no sovaco, ora quase arrancando uma das orelhas, no meio das pernas e por aí afora. O segredo do truque estava no peludo que girava a roleta, aparando as machadinhas nas áreas livres. Assim, é que, graças à sua habilidade, consegui sair são e salvo daquele número. Quando me soltaram da roda, eu tremia adoidado. Tiveram que me segurar para que eu andasse até onde se encontrava o Indio Apache, que me perguntou:
Como te llamas?
Carambola, eu lhe disse. E ele:
Ahora, eres Caram...
Eu insisti: Carambola. A observação dele:
Pero, mira lo que se quedó pendurado en la ruleta...
Desgraçado, desgraçado, eu te mato, eu te mato - e o Indio Apache saiu dali zunindo como uma flecha.
É melhor parar por aqui, se não eu é que vou ter de me desviar da pontaria de vocês!
Fum Imbora Mem?

quarta-feira, 11 de junho de 2008

...que fui aliciado por um circo... (II)

(continuação)
E aí começou a entrar bicho que não acabava mais, era elefante, era girafa, era urso, era macaco, era pônei, era cachorro, era palhaço, era trapezista, era equilibrista, era mágico... Mas eu comecei a me fixar na bailarina branquinha, branquinha, de uma alvura de propaganda de sabão em pó, ela vinha equilibrada num pé só, os braços estendidos e a outra perna esticada no ar, nem se mexia, em cima de um percherão e, naquela aflição, eu fui girando, girando junto com o carrossel e nem me dei conta que estava me enredando todo com o fio do megafone. Aí o cara que vinha em cima do elefante percebeu o que estava acontecendo e murmurou na orelha do bicho:
Ciranda, cirandita, vamos todos cirandar.
Ciranda, cirandita, media vuelta vamos dar.
O elefante girou para trás e a bicharada veio junto e eu rodando no carrossel consegui me soltar daquele monte de fio. Foi então que o percherão saiu da roda e ficou andando de lá pra cá e de cá pra lá na minha frente. Numa dessas, levantou a cola, deu um pinote e ploft ploft seguiu no trote. A bailarina deu uma mexidinha e logo se recompôs, mas eu não resisti e dei-lhe um baita berro:
Cuidado, niña, que te vas a melecar toda!
Vocês podem pensar que com essa eu já estava livre da enrascada, que nada, não é que Don Orlando me convidou para viajar com o circo e eu fui ser pau para toda obra. Um belo dia, o domador inventou de sumir na hora do espetáculo e adivinhem quem foi que teve de entrar na jaula com as feras? Não teve jeito, me explicaram direitinho e lá fui eu fazer outro papelão para enfrentar o Sultão e o Poderoso. Acontece que o tigre Sultão era gay e eu não podia deixar ele se aproximar muito de mim para que não me agarrasse e fizesse alguma indecência na frente da platéia. Era chicotada pra cá, chicotada pra lá, uma cadeira na outra mão empurrando ele pra longe quando se punha a rebolar:
No te fresquees, Sultón!
Já o Poderoso era um leão velho, bastante dorminhoco, que eu tinha que despertar a toda hora, dá-lhe chicote, fincar a cadeira na sua juba, bater no tambor, assustá-lo com o barulho, porque se facilitasse perigava ele cair no ronco ali mesmo. Assim, eu tinha que gritar alto e bom som:
Poderoso, mostrate como eres valiente!
(continua)

Faz bem uns cinquenta anos... ( I )

Lá na minha terra apareceu um famoso circo. De longe, assisti os caminhões chegando e descarregando todo o material para a montagem do picadeiro, das arquibancadas e da cobertura de lona. Era uma corrida só de peludos pra lá e pra cá, esticando as cordas, carregando painéis, o diabo a quatro. A estréia estava prevista para o dia seguinte e tudo tinha que ficar pronto até lá. Enquanto isso, todo o elenco ia desfilando pelas ruas da cidade, as jaulas uma atrás da outra, leões, tigres, ursos, depois os elefantes, a girafa e outros bichos mais.
Como era o costume naquele tempo, quando não se tinha dinheiro para pagar o ingresso, passava-se às escondidas por baixo da lona e assim o fiz antes da sessão começar só para dar uma olhada mais de perto nos animais. Então, um cidadão de cabelos grisalhos, alto, corpulento, chegou até onde eu estava e me cochichou ao pé do ouvido, com a voz rouca quase sumida: Buenas, soy Don Orlando, el proprietário del circo e necesitaria que usted hicieseme um pequeño favor. Ocurre que estoy afónico, imposibilitado de presentar el espetáculo y faltame un substituto. No tiene mistério, usted puede hacer eso facilmente. Yo le enseño despacito y usted se va a desempeñar muy bien.
Surpreendido no flagrante, eu não pude me recusar de jeito nenhum. E assim lá fui eu para o centro da arena. Naquela época, ainda não existia o microfone e a última palavra de equipamento era um megafone com fio ligado na tomada elétrica. Pois bem, mal a furiosa põe-se a tocar e eu entro correndo até o meio do picadeiro e começo a anunciar:
Señores e señoras, a partir de ese momento, el Gran Circo Universal tiene el honor de presentar al respectable público, sus atraciones internacionales...
(continua)