segunda-feira, 24 de junho de 2013

TODA A DIGNIDADE DA NOSSA HISTÓRIA

Ilustração extraída do face de Sérgio Souza Amaro da Silveira,
Olhando a secção do tronco de uma árvore, constatam-se as camadas que se alternam a partir de um núcleo central, resultantes da adaptação a cada ciclo climático da sua existência. Desta forma, deduz-se a sua idade em função do número dessas camadas. Explicação natural da Botânica, porém, poucos se dão conta que nenhuma delas poderia ter se originado sem que as anteriores – e até o núcleo central – fossem formados.
Enxergo assim minha genealogia desde aquele instante em que meus avôs decidiram se aventurar nessas terras brasílicas a partir de Marco de Canaveses, pequena cidade no distrito do Porto, embarcando como clandestinos num cargueiro para fazer a América e tendo de pagar esse traslado como taiferos. E indo mais além, fico imaginando outros ascendentes às voltas com as invasões napoleônicas a Portugal, por ocasião da fuga da família real para o Brasil. Seus descendentes também foram testemunhas da Abolição da Escravatura e da queda do Segundo Reinado, com a proclamação da República, dando vivas e saudando os novos tempos.
Rememoro minha curiosidade infantil ao remexer no baú de fundo triangular embutido na estante de livros jurídicos do gabinete do meu tio Cantalício Resem e me deparar com a bandeira do Estado do Rio Grande do Sul, as cores vistosas e o altruístico lema Liberdade – Igualdade – Humanidade. Uma época bárbara, em que imperava a ditadura Vargas com a dureza da vigilância da polícia de Filinto Muller, recolhendo e queimando todos os símbolos estaduais em nome duma questionável nacionalidade. Eis que voltando o país a seu estado de direito, retornam esses mesmos símbolos a compor a unidade federativa.
Em Jaguarão, busca-se a relíquia histórica e tio Cantalício retira-a daquela arca de raridades para colocá-la, já meio roída pelas traças, numa das sacadas do seu tradicional sobrado, ao lado da Prefeitura Municipal. Mais tarde, o velho lábaro ainda serviria para tremular imponente no Largo das Bandeiras e até se prestaria a ser conduzido no desfile cívico de 20 de setembro. Entre nós, falava mais alto o orgulho pela saga sul-rio-grandense, desta gente que nunca hesitou em defender as fronteiras da própria Pátria.
Segundo a Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul, “Jaguarão possui o mais expressivo e homogêneo conjunto arquitetônico de estilo eclético”. Na cidade, já existem mais de 800 imóveis cadastrados para serem tombadas as respectivas fachadas. E isto é uma forma de preservar a memória urbana remanescente da estagnação econômica e social por que passou o município em razão da falta de investimentos para se  desenvolver e que agora busca atrair visitantes para conhecer essa riqueza cultural.
Em Pelotas, a escritora Zenia de León tem publicado uma série de obras “Casarões contam sua história” em que aborda detalhes de cada prédio que vem resistindo a passagem do tempo naquela cidade. Sérgio da Costa Franco e Eduardo Alvares Souza Soares são autores que já nos tem legado importantes referências sobre nosso passado arquitetônico. O primeiro, relatando a disputa política entre Carlos Barbosa e Zeferino Moura pelo controle do diretório local do Partido Republicano Riograndense, ilustra-nos com a ostentação dos respectivos palacetes. Enquanto o segundo já tem elaborado pesquisa de fôlego sobre a Santa Casa de Caridade, Associação Protetora de Desvalidos, Ponte Internacional Mauá e Igreja Matriz do Divino Espírito Santo.

Toda essa memória jaguarense precisa urgentemente ser resgatada através de exaustivos levantamentos que podem ser feitos através de grupos de trabalho constituídos por pesquisadores sérios que demonstrem nossa honra de estarmos inseridos na dignidade do histórico passado brasileiro. 

terça-feira, 18 de junho de 2013

O SIMBOLISMO LATENTE DE UMA IMAGEM


Uma fotografia da turismóloga Elisângela Costa Barcellos me provoca o que pensar, pois ali se encontram alinhadas imagens da pira da Pátria, da estátua da Liberdade e da Igreja Matriz de Jaguarão. E eu fico pensando se na genialidade desse ângulo de focagem não estaria implícita uma premeditada escolha na construção do mais importante monumento situado na antiga Praça 13 de Maio (hoje denominada Doutor Alcides Marques). Mário Maestri já elaborou artigo transcrito na Confraria dos Poetasde Jaguarão, abordando sua inconformidade ao se privilegiar 20 de novembro em detrimento daquela data histórica que marcou o resgate nacional da cidadania do afro descendente. Essa inquietação me motivou a buscar dados históricos acerca daquele obelisco e, como não dispusesse de imediato dessas fontes, vali-me de consulta ao notável historiador rio-grandense Dr. Sérgio da Costa Franco, que me respondeu nos seguintes termos:
“Prezado conterrâneo: Na coleção do jornal jaguarense "A Ordem", de que existe uma coleção no Museu Hipólito da Costa, há várias referências à Estátua da Liberdade. Como o projeto nasceu ainda no tempo da Monarquia, para celebrar a abolição da escravatura e a Princesa Isabel, o jornal, que era do Partido Republicano hostilizou a idéia, já a partir de 24-01-1889. A pedra fundamental foi lançada em 3 de fevereiro daquele ano e a proposta da ereção do monumento foi do vereador Antônio da Costa Silveira. 
- Depois do advento da República, em janeiro de 1890, a Junta Municipal resolveu alterar as placas da base da coluna, certamente para retirar louvores à Monarquia e implantar homenagem à proclamação da República. A construção foi demorada e, por algum tempo, existia apenas a coluna com uma haste de ferro, onde deveria ser fixada a estátua de mármore. O cronista de "A Ordem" considerava isso ridículo, e, no Carnaval de 1890 houve gozações em torno disso, e o jornal republicano chegou a sugerir a demolição. Porém, em julho de 1891,  a Junta Municipal mandou completar o monumento, encomendando a estátua e determinando providências para o acabamento. Daí em diante, o jornal não toca mais no assunto, induzindo à conclusão de que tudo foi concluído.
Restaria examinar outras fontes, lá mesmo em Jaguarão.
      Um abraço do Costa Franco.”

Evidente que nossa querida artista jamais imaginaria o feliz achado da sua composição e que esta imagem viesse a confirmar o velho jargão “vale mais que mil palavras”. Quanta gente não andou ali pelo entorno desse monumento sem enxergar aquele alinhamento. Parece até que ditas construções quisessem nos transmitir alguma mensagem que permaneceria oculta na passagem do tempo. Eis que estas visuais palavras afloram através de um momento privilegiado e vivido pela sensibilidade de quem as soube auscultar. 

Embora semi-oculta no recanto sombrio, pode-se perceber ainda a Pira antecedendo a figura do obelisco e caracterizando o patriotismo do povo brasileiro. A Estátua ali erguida homenageando a redentora Princesa Isabel a fim de comemorar a Abolição da Escravatura -posteriormente obscurecida com a Proclamação da  República – deve significar os anseios desse mesmo povo de atingir os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, então o clamor universal da época. Em posição discreta, ao fundo, dividida ao meio nos hemisférios da razão e da emoção, a nossa Igreja Matriz lança suas bênçãos divinas de inspiração para essa perfeita harmonia entre símbolos. 

Ao menos, divulgando essa magnífica obra da artista conterrânea , emoldurada pelo conhecimento daquele ilustre escritor jaguarense, contribuímos para despertar o interesse sobre a importância desse belo monumento da nossa terra.


quarta-feira, 5 de junho de 2013

Jaguarão já cantou de galo neste terreiro

(Colaboração de João Pompílio Neves Pólvora)

Pergunta-me Jorge Passos se conheço o sambista Jaguarão, mencionado na música “O Samba é Meu Dom”, de autoria de Wilson das Neves e Paulo Cesar Pinheiro. Aceito o desafio e me ponho a campo para responder essa questão. Fico sabendo que esse é o apelido de José da Silva, parceiro de Zinco em vários sambas-enredo compostos para a Escola de Samba Lins Imperial, escola esta que nasceu da fusão da Filhos do Deserto, fundada em 1933, e Flor de Lins em 1946, ambas existentes na Cachoeira, no bairro Lins de Vasconcelos. Permanecendo o verde e rosa das duas escolas, entre seus fundadores e grandes colaboradores figuravam Jones da Silva (Zinco) e José da Silva (Jaguarão).

Em “Certidões de Vida e Identidade”, Nei Lopes escreve: “Durante muito tempo, pertencer ao seleto grupo de compositores de uma escola de samba era um privilégio e uma honra, que dependia do talento poético e musical do sambista. Aceito na ala, por indicação ou mesmo “por concurso”, o compositor estava autorizado a mostrar seu talento no terreiro. O número de sambas que poderia apresentar, a cada ano, variava de escola para escola, sendo em geral dois. Esses sambas tinham vida curta, pois a renovação do repertório era obrigatória a cada ano. Mas essa curta existência resumia-se ao terreiro, pois muitos deles, embora nunca gravados, permanecem até hoje na memória do mundo do samba, como alguns escritos por Jonas da Silva, o legendário Zinco, e seu parceiro Jaguarão, dos Filhos do Deserto, da qual nasceu a Lins Imperial...”

Já Martinho da Vila em “Feliz Primavera” opina: “A minha estação preferida é a que estamos, cantada pela Filhos do Deserto há anos atrás, com ricas rimas que se não me falha a memória eram do Zinco e do Jaguarão (“Olhai a natureza nas campinas, esse Brasil de flores mil, esta beleza tão divina que enfeita um fabuloso jardim. Olhai os lírios nos campos, o cintilar dos pirilampos e o bailado das flores em fantasias multicores. Tudo isso que estás vendo faz a gente viver feliz. É a natureza oferecendo um grande presente ao nosso país. Pétalas soltas pelo chão sob um pé de flamboaiant. Um aroma que é sedução a perfumar o raiar da manhã. Manacás, hortênsias, violetas, cravos, malmequeres, bogaris... Onde um bando de borboletas faz os seus charivaris. Primavera em flor. Em alta madrugada, um lindo sonho de amor nos braços da nossa amada”).

Um ilustre desconhecido no cenário nacional, João da Silva (o Jaguarão) teve duas de suas composições gravadas. No álbum “Clementina de Jesus e Convidados” (Emi/Odeon, 1979) figura na faixa 4 com o título “Olhos de Azeviche”. Esta se encontra registrada no programa semanal Essa é Pra Tocar no Rádio – 73 – Os Olhos da Amada (29.02.2012), iniciando um desfile temático de grandes nomes do nosso cancioneiro como Cartola, Garoto, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Chico Buarque e outros mais, Além dos intérpretes Fagner, Maria Bethania, Fafá de Belém, Milton Nascimento, Paulinho da Viola, Marisa Monte, Elis Regina e outras feras. E em 1989, a gravadora Ideia Livre lançou Projeto em Homenagem à Memória do Presidente Getúlio Vargas, denominado “O Grande Presidente”, onde aparece na faixa 8, “24 de Agosto”, música de sua autoria interpretada por João Nogueira.

Aonde estão os olhos de azeviche que me olham tanto,
que destruiram minh´alma, que me roubaram a calma?
O meu coração palpita a todo instante,
vive a perguntar se aqueles olhos lindos não vão me enganar (Bis).
Eu que vivia feliz, sossegado, jamais havia pensado no amor,
surgiram então aqueles olhos negros,
todo meu sentimento transformou...
Consulto meu coração sentimental
se aguenta amar não lhe faz mal.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

UMA LIÇÃO DE VIDA E LUCIDEZ AOS 97 ANOS (III)

Bate-papo com Alcides Carlos de Moraes


Olha só o que me apareceu nas imagens do Google: por acaso, reconhece esse pessoal? E o "paisano", quem é? Este não é o Pelotas de 1945?
Senão  me falha a memória,  é o time do Pelotas da década de 40, do século passado:
De pé, da esquerda para a direita: 1- RUI - 2ROVERÉ- 3 MÁRIO- 4~~NÃO RECONHEÇO - 5 LAERTE - 6 -  VAZ. AGACHADOS: AMARAL-PEPITO-BUCHELLI-FIERRO E BENTINH0.
O PAISANO: O URUGUAIO VISCARDI- TÉCNICO E MASSAGISTA.
Roverê não é Derni? Buchelli não é Apes?
Tenho absoluta certeza dos nomes que citei sobre a fotografia do time do Pelotas. Uma retificação: o "paisano" é de fato uruguaio e foi massagista e técnico, só que o nome dele não é Viscardi, como disse. O nome não me recordo.
O 4 (que não reconheceu)  não é Geraldo?
O nº 4 pode ser o Geraldo.
Segundo soube através de um de seus sobrinhos em Jaguarão, você enviuvou ano passado de Dª. Alda, certo? Qual o nome completo e naturalidade dela? Em que ano e cidade casou?
Eu enviuvei em novembro de 2008. O nome de  minha mulher de solteira era Alda Tavares de Oliveira. Ao casar passou a Alda Oliveira de Moraes. Seu pai era proprietário de uma fazenda no Uruguai. Por essa razão, alguns filhos  nasceram no Uruguai e outros no Brasil. Alda nasceu no departamento de Salto. Ao casar, segundo a lei, optou pela nacionalidade brasileira. Casamos-nos no dia 23 de junho de 1944, na cidade de Pelotas.
Tem dois filhos, desculpe se não cheguei a anotar nomes e profissões deles. Já tem netos e bisnetos? Quantos e seus nomes?
Tenho dois filhos. O mais velho, Luiz Fernando Oliveira de Moraes, é advogado e aposentado como Procurador do Ministério da Fazenda. O segundo, José Carlos Oliveira de Moraes, é médico. No dia 3 de dezembro de l972, foi vítima de um assalto que o deixou paraplégico, quando fazia residência médica aqui no Rio. Tinha 25 anos. Com uma licença especial da Secretaria da Fazenda do RGS, vim, com minha mulher, acompanhar sua reabilitação. Como foi muito demorada, voltei ao meu estado-, onde reassumi minhas funções até minha aposentadoria, o que ocorreu em junho de 1976. Esse meu filho é hoje professor titular de patologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi várias vezes à Europa e Estados Unidos como jogador de basquete em cadeira de rodas. Numa dessas andanças, conheceu  um vendedor de cadeiras, para tênis. Com um colega de infortúnio, Celso Lima, introduziram no Brasil o tênis para cadeirantes. Hoje há um  torneio que é disputado anualmente em caráter nacional.   Atlanta EUA, em 1986, tomou parte dessa olimpíada.
Mora no Rio de Janeiro desde 1972, foi nesse ano que se aposentou na Fazenda?
Moro no Rio de Janeiro definitivamente desde 1976, época de minha aposentadoria.
 Algo que não cheguei a falar é que achei no Google "Alcides Carlos de Moraes Neto", é seu parente?
Alcides Carlos de Moraes Neto é filho do meu filho mais velho. Tem trinta anos, casado, formado em ciência da computação e funcionário concursado do Senado Federal.
Desculpe se me estendi demais, qualquer acréscimo será sempre bem-vindo.
 Você me fez um tremendo bem. Conseguiu me transportar aos saudosos dias da minha mocidade. Tem a minha gratidão.

UMA LIÇÃO DE VIDA E LUCIDEZ AOS 97 ANOS (II)

Bate-papo com Alcides Carlos de Moraes

(Colaboração de Douglas Marcelo Rambor)

Em que ano se transferiu para o Bancário?
Joguei no Bancário no ano de l936.
Quando estreou no Pelotas?
A minha estréia no Pelotas foi no ano de 1937.
Poderia me falar de novo sobre aquele fato de sua decisão entre Botafogo e emprego assegurado na Secretaria da Fazenda do R.G.S.?
Minha desistência do Botafogo: Seria inaugurado o Porto de Pelotas. Isto nos idos de  1940. O emprego prometido seria de Fiel de Armazém. Cargo de muita responsabilidade, ao ponto de ter de abandonar o futebol. Gorou. Foram aproveitados dois funcionários do porto de Rio Grande que estavam disponíveis.
Em que ano saiu do Pelotas para ingressar na Mesa de Rendas?
Deixei o E.C. Pelotas em abril de 1942, para assumir as minhas funções na Secretaria da Fazenda do R.G. do Sul.
Foi o senhor que indicou Mário para ficar em seu lugar?
Não tive influência alguma no ingresso do Mário no Pelotas.
Em 1945 era o técnico do Pelotas Vice-Campeão do Estado?
Em 1945 fui Diretor de Futebol do E.C. Pelotas, com a responsabilidade de cuidar do time. Fomos bi-campeão da cidade e vice no Estado
Nas partidas com o Esperança de Novo Hamburgo em 1945, aparece como goleiro titular Carneirinho, sendo que Mário só veio a jogar na última partida com o Inter. Será que este andava meio "parobé"?
Quanto aos goleiros Mário e Carneirinho, eles faziam rodízio na posição.
(CONTINUA)


UMA LIÇÃO DE VIDA E LUCIDEZ AOS 97 ANOS

Bate-papo com Alcides Carlos de Moraes

(Colaboração de Carlos Alberto Machado Neves)

Com quantos anos ingressou no Cruzeiro, de Jaguarão? Quando deixou de ser "filhote"?
Comecei a jogar no Cruzeiro, como filhote, aos doze anos como centro-avante,
Antes da construção da ponte, você atravessava o rio de bote para jogar com o Cruzeiro em Rio Branco, onde eram recebidos com banda de música e marchavam lado a lado com a equipe adversária até o campo de futebol. De onde saiam apressados e hostilizados até as canoas, após o final das partidas. Verdade?
 Antes da ponte, quando se tratava de muita gente, o transporte era de balsa. Nunca joguei em Rio Branco. As  nossas excursões eram a Vergara e Melo.
Massinha residiu muito tempo aqui perto, na Rua Costa, Menino Deus, e depois se mudou para Taquara, se não me engano. Infelizmente não cheguei a conhecê-lo, mas um conterrâneo Newton Monteiro costumava visitá-lo e me falava que tinha um pôster em casa, motivo de grande orgulho, em que aparecia fazendo um gol em Bra-Pel. Adivinhe quem foi a vítima?
Quanto ao Massinha fomos moleque em Jaguarão.
Escalação do Cruzeiro em 1934: Alcides, Deoclides e Irumé; Álvaro Moreira, Alberto Pintado e Alberto Neves; Aldírio Moraes, Moreirinha, Arloque, Amador e José Carvalho.
Escalação do 9º R.I. em 1934 e 1935 (parece até uma seleção de S. Vitória do Palmar, enxertada pelo jaguarense Folhinha): Brandão, Jorge Augusto e Chico; Ruy (Folhinha), Itararé e Celistro; Birilão, Bichinho (Coruja), Cerrito, Cardeal e Gasolina.
Pelo visto, aquela partida histórica em que o Cruzeiro perdeu para o 9º R.I. por 3 a 1 (1934) não foi válida pelo Campeonato Farroupilha 35. Confirma o escore?
Se não me falha a memória o escore foi de 4x0.
Confirma as escalações das equipes conforme o acima referido?
Confirmo a escalação do 9º R.I. Quanto a do Cruzeiro onde se lê Irumé, leia-se Irani.
Quem eram os técnicos do Cruzeiro e 9º R.I. em 1934?
Era treinador do E.C. Cruzeiro do Sul o Júlio Proença. Foi ponta esquerda do Cruzeiro.  Do 9ºRI Corbiniano de Andrade, conhecido pelo apelido de Castelhano. Foi, também, jogador. Tomou parte na segunda grande guerra. Fazia parte da Força Expedicionária Brasileira. Tem nome de Rua  em Pelotas e foi condecorado pelos Estados Unidos como herói.
É verdade que Cardeal foi o Pelé da sua época?
Sezefredo da Costa, como era chamado no Nacional de Montevidéu, era o nome do Cardeal. Foi um craque, na expressão da palavra. Jogou, também, no Fluminense do Rio e Seleção gaúcha e brasileira.
Jogava mais que Friedenreich?
 Quando comecei a jogar futebol, o Friedenreich estava abandonando a carreira. Nunca o vi jogar. Segundo a crônica, foi um senhor jogador do esporte bretão. Os argentinos chamavam-no El Tigre.
Qual o maior craque que enfrentou em sua carreira esportiva?
Dos jogadores famosos que enfrentei. No Internacional de P. Alegre: entre outros, Tesourinha e Sílvio Pirilo. Contra o Peñarol de Montevidéu, a famosa ala esquerda formada por Camaiti e Varela. Este se consagrou no Boca de Buenos Aires, como um dos melhores jogadores da América.  Na seleção gaúcha contra os paulistas Servilio, Luizinho, Teleco, etc. Contra a seleção Botafogo-Fluminense: Russinho Milman, pelotense, Heleno de Freitas, Romeu Peliciari, etc. 
(CONTINUA)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

* CARO AMIGO SOUZA - Helena Ortiz *

(Crõnica em Panorama - jornal de literatura - número 2 - ano I - maio de 1999)
Uns dois dias depois de sair o panorama ensaiei uma carta para ti, escrita à mão, mas não cheguei ao final. Fiquei com um complexo bobo, depois de uma coisa que me escreveu um poeta famoso a quem mandei meus livros: que uma carta escrita em computador não tinha alma. Fiquei triste dele dizer isso. Afinal eu não o tinha conhecido por meio da palavra impressa? E todo o mundo de palavras que conheço hoje, não foi lendo os manuscritos, pois não? Mas deixa pra lá. Vou de computador mesmo, que minha letra começa  bem mas depois não se aguenta, aqui posso aumentar o tamanho da fonte e te facilito a leitura com esses óculos.
A verdade é que naquele dia estava vivendo uma alegria infantil, mas mais que isso. De mãe, mesmo. Coisa difícil de explicar. Estava em casa vendo na TVE um filme sobre Geraldo Pereira, feito por gente de Juiz de Fora. Muito bom, e eu ria à vezes, de contente por ser brasileira e viver num país em que se produz arte assim, com tanta naturalidade. É a mesma coisa que eu sinto quando vejo Antônio Nóbrega. Naquela noite rodava o panorama. Era 23 de abril (1999). Depois eu vim saber, também era dia de São Jorge e aniversário de Pixinguinha. Com esses padrinhos, o panorama tem chance de ser imortal, não acha?
Eu via o filme e pensava no jornal que estava rodando em Cabuçu, que, se não sabes, é muito no fim de Nova Iguaçu que, como sabes, é longe pra burro.
Claro, passaram-se os dias. O jornal está de novo na rua e já estou vivendo o próximo. Sartre disse que somos nós e as circunstâncias. Eu já acho que somos mais os nossos erros.
Ouvi várias observações. A todas acatei. Problemas? Não são dele. São da mãe. Freud bem que ajudou, e ajuda ainda, mas a culpa nos persegue. O pecado continua original. O sonho indica a causa das nossas angústias. Mas quem não sabe interpretar os sonhos? A ciência e o conhecimento não servem a todos. E de que vale o conhecimento quando se é capaz de produzir a guerra, de não aceitar o outro? O lado da sombra também se vale dela para a execução – uma nova religião. (Estou saindo do Evangelho de Saramago e me dou conta do pouco valor de nossas pequenas vidas.
Destinados a glória
 os homens
 jogam fora as trombetas?
***********************
A tua poesia tá no jornal. Verso que vem em sonho é palpite bom. Gostei muito de saber dos progressos do teu projeto musical. Conta mais.
Da situação geral, é bom nem falar, não é, Souza? Eu disse para minha amiga Vera Lopes que Fhc me lembrava Luiz XVI e ela me corrigiu  “Luiz XVI com repentes de Maria Antonieta”. Até minha mãe, que é resistente, acha que ele não se aguenta nas pernas. A propósito, meu poema O Última Dia foi feito a partir dele. Tenho vários, mas O Último Dia é que gosto mais. Tá no nº. 1, lê de novo. (Pena que não tenho um chargista).
************************
Da guerra dos Balcãs, falar o quê? Se o próprio general da OTAN reconheceu que a campanha não atingiu os seus objetivos? Depois, a gente sabe, é preciso testar novas armas. Inventa-se um milosevic e pronto: é só apontar. Aliás, com um serviço secreto tão eficiente (ou era só nos filmes?) podiam matar só um e resolver. Mas o que se vê é morte, degradação, impotência – a hipocrisia sustenta a guerra. O resto fica por conta da televisão, que dá sentido ao que não tem. Que as pessoas precisam morrer, disso não há dúvida, mesmo porque o mundo não daria para todas. Mas por que de maneira tão brutal? Isso é Saramago ainda que não literal. Leio Clarice e ela diz: “Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe”.
Te abraço e a Gislaine, desejando alegrias nos intervalos. E esse é Gabriel pra te dar um sinal e já nada mais precisar dizer:
Seja como for
Estamos no planeta
Eu e meu amor.
Obs: O Henfil também era Souza. Daí também eu ter me lembrado de escrever esta carta, que no próximo jornal pode de novo virar uma crônica, porque também Clarice permanece, e Rubem Braga, Drumond, Carlinhos Oliveira, Sérgio Porto e não terminamos.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

MÃOS QUE OFERECEM ROSAS (Judite Junqueira Vilela)

 Fica sempre um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas,
Nas mãos que sabem ser generosas.
Dar um pouco que se tem aos que tem menos ainda,
Enriquece o doador, faz sua alma ficar mais linda.
Fica sempre um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas,
Nas mãos que sabem ser generosas.
Dar ao próximo alegria parece coisa singela,
Aos olhos de Deus, porém, é das artes a mais bela.
Fica sempre um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas,
Nas mãos que sabem ser generosas.

“Olá,
O autor não é desconheciodo. Aliás, é uma autora, a irmã Judite Junqueira Vilela, de Ituiutaba MG, ainda viva. Escreveu em forma de poema, que, de tão lindo, logo virou uma bela e inspiradora música.
Nós brasileiros precisamos aprender a dar crédito a quem é de direito, não é mesmo?
:)Evelyne”

No dia 2 do corrente, fui surpreendido com esse comentário postado em http://poetadasaguasdoces.blogspot.com.br/2010/10/maos-que-oferecem-rosas.html, cuja importante informação ali contida agradeço e procuro divulgar. Porém, devo esclarecer que, na época, andei buscando no Google e apenas encontrei escrito, através de várias referências, como sendo “canção gospel de autor desconhecido”.

Tais desinformações são muito comuns, conforme tenho constatado em várias mensagens que me chegam através do correio eletrônico com a troca de nomes de autores e até de desconhecidos que se valem de textos apócrifos para circulação na Internet. Esse assunto foi abordado na matéria publicada em: 

Provavelmente, essa nossa complementação venha a trazer algum esclarecimento acerca da autoria da irmã Judite Junqueira Vilela nas referências do Google sobre o poema “Mãos que oferecem rosas”, graças a gentil colaboração de nossa cara leitora Evelyne. 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Complementando: Um quebra cabeça...



Em 13/05/1987, Zero Hora (p.49) publicou entrevista concedida a Cláudio Dienstmann, pelo historiador Carlos Lopes dos Santos, sob o título “História do Negro no Futebol Gaúcho”, da qual me permito reproduzir a abordagem final da referida matéria: - “Mas quando Luiz Carvalho, grande centro-avante do Grêmio, foi para o Rio de Janeiro e jogou no Botafogo, ele fez questão de levar um jogador negro, o Jaguarão, ponteiro-esquerdo, criado no Palmeiras, da várzea de Porto Alegre. Só que o Botafogo não aceitou o Jaguarão, porque era preto e ele foi parar no Bangu. No primeiro jogo entre os dois clubes, o Botafogo com Luiz Carvalho, tomou 5x0 do Bangu – três golos do Jaguarão. Era um tipo Tesourinha, mais forte”. 
Transcrevo ainda do livro “Nós é que somos banguenses”, de Carlos Molinari, as seguintes passagens: “Curiosa a história do ponta-esquerda Cirilo Campelo, apelidado pelo nome de sua cidade natal: Jaguarão. Chegou ao Rio na vã tentativa de jogar pelo Botafogo, mas foi proibido de treinar em General Severiano por ser negro! Lá foi aconselhado a procurar o Bangu, pois segundo um diretor botafoguense o "seu tom de pele seria ideal no time dos Mulatinhos Rosados". Veio para a Rua Ferrer, treinou e ficou. No Campeonato Carioca marcou somente dois gols, sendo que um deles justamente em cima do Botafogo.” ... “Mudanças significativas ocorreram na equipe de futebol do Bangu em 1932. A principal delas foi a saída de três titulares absolutos: o goleiro Zezé foi defender o Olaria, o atacante Jaguarão iria parar no Engenho de Dentro e Domingos da Guia. O zagueiro havia exibido sua classe suprema de tal forma que foi impossível para o Bangu mantê-lo após tantas insistências dos outros clubes - ele iria para o Vasco”.




terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Um quebra cabeça para nossa memória


Em pé: Zé Maria, Buza, Plínio, Santana, Médio e Ladislau. Agachados: Sá Pinto, Domingos da Guia, Zezé, Eduardo Moura e Jaguarão. Equipe do Bangu em 1930, no Estádio de São Januário.

Em uma de suas obras, o escritor Eduardo Álvares de Souza Soares aventou a tese da diáspora da população jaguarense, em que os jovens se viam forçados a procurar outros centros em busca de melhores oportunidades em termos de mobilidade social. E o patrimônio arquitetônico que a cidade possui atesta bem essa evolução demográfica do município, onde cada prédio cadastrado tem uma história oculta para ser revelada através das pessoas que lá residiram e deixaram marcas de sua passagem através do tempo.
Alguns anos atrás, Fausto de Mattos Mello Ferreira, português de Aveiro, já falecido, por duas vezes, andou circulando por Jaguarão em visita de reminiscências. Pois o Fausto era neto do tio Joaquim, que enviuvou em Portugal e veio dar com os costados nestas plagas pampianas, acompanhado de sua filha Celeste e mais o genro e netos. Esse genro, cujo nome não recordo, foi gerente do Banco Português, antecessor do Pelotense e do Banrisul e residiu por certo tempo em nossa terra, regressando após com a família às suas origens. Aquele avô de Fausto casou com tia Maria José, uma das irmãs de meu pai José Dalberto, e terminou ficando por aqui até o fim de seus dias.
Quando saiu de Jaguarão, Fausto tinha 10 anos de idade e só veio rever as terras brasileiras quando já alcançava a 65 bem vividos, um sonho acalentado durante toda essa ausência, sempre suspirando por um retorno a seus tempos de infância. E aquele menino renasceu caminhando desde cedo pelas antigas ruas que ele jamais esquecera, reconhecendo cada prédio e lembrando até de seus velhos moradores. Isto que ele já vinha se correspondendo por um período bastante prolongado com nosso confrade Jorge Passos, a pretexto de resolver certa pendência na Receita Federal.
De minha parte, às vezes me vejo em palpos de aranha, quando me solicitam informações que dizem respeito a épocas anteriores a meu nascimento. A nossa memória vai se perdendo no tempo e não tem jeito de se resgatar o que procuramos. A transferência para Porto Alegre, em 1937, do 3º Regimento de Cavalaria Divisionária tem dado muito pano para mangas em matéria de pesquisas. Exemplo disso ai está o Grêmio Esportivo General Osório, agremiação que foi campeã jaguarense de futebol em 35 e 36, chegando a disputar o Gauchão, conforme nos foi demonstrado por Douglas Marcelo Rambor, pesquisador de Três Coroas. E quem se habilita para esclarecer esse assunto?
Em 13/05/1987, Zero Hora (p.49) publicou entrevista concedida a Cláudio Dienstmann, pelo historiador Carlos Lopes dos Santos, sob o título “História do Negro no Futebol Gaúcho”, da qual me permito reproduzir a abordagem final da referida matéria: - “Mas quando Luiz Carvalho, grande centro-avante do Grêmio, foi para o Rio de Janeiro e jogou no Botafogo, ele fez questão de levar um jogador negro, o Jaguarão, ponteiro-esquerdo, criado no Palmeiras, da várzea de Porto Alegre. Só que o Botafogo não aceitou o Jaguarão, porque era preto e ele foi parar no Bangu. No primeiro jogo entre os dois clubes, o Botafogo com Luiz Carvalho, tomou 5x0 do Bangu – três golos do Jaguarão. Era um tipo Tesourinha, mais forte”. 
Recentemente, encontrei uma foto do Bangu onde aparece esse atleta: http://esquadroesdefutebol.blogspot.com.br/2010/04/bangu-ac.html. Desde então tenho me perguntado se esse jogador seria mesmo natural de Jaguarão? Se alguém na época sabia que um conterrâneo brilhava no time dos “mulatinhos rosados”, onde despontava um Domingos da Guia, figurando ao lado do maior artilheiro da história da tradicional agremiação – Ladislau, com 223 golos? Como diria o grande Érico Veríssimo, “eta, mundo velho sem porteira”, por aonde vão se espalhando os nossos “jaguarões”?