sábado, 27 de junho de 2015

"A VALSA DA MEDUSA" JÁ COMPLETA 25 ANOS!

UMA ABORDAGEM SOBRE ESTRUTURA E MARCAÇÃO DE PERSONAGENS

Segundo a mitologia grega, Medusa teria sido uma jovem que, por haver ofendido Minerva, foi castigada tendo seus longos e maravilhosos cabelos transformados em serpentes, o seu olhar ganhando o poder de petrificar quem os fitasse. A partir desta colocação, passamos a entender o significado do título “A Valsa da Medusa”, obra com que Valesca de Assis faz sua estreia como novelista. A medida com que o drama evolui, compreendemos perfeitamente as danças dos personagens com seus “demônios do coração”.
Enfeixado em 92 páginas e 18 capítulos, um roteiro ágil entremeado por diferentes perspectivas do narrador, essa novela logo nos conduz ao clima da ficção. A história, que cativa o leitor em seu decorrer, adquire força na reconstituição de uma época passada há quase século e meio. A riqueza dos detalhes levantados através de pesquisa séria faz-nos sentir Porto Alegre, Rio Pardo, Santa Cruz, Rio Pardinho, Faxinal, Rio de Janeiro, Brasil e Europa ganhando vida naqueles tempos. As informações são transmitidas ao atual e se aprende com gosto até mesmo a influência do regime de chuvas e ventos à navegação da Lagoa dos Patos.
A marcação dos personagens nos permite analisar a importância de cada um no contexto da novela. Tristan Waldvogel é de longe o que mais se salienta: está presente em 62 páginas (78%), além de concentrar em si mesmo o foco narrativo em 12 capítulos (onisciente coletivo, 3ª. Pessoa). É a criatura carente de vida marcada pela tragédia – “Tristan será seu nome porque nascido da minha tristeza” – que busca transferir um desconhecido afeto materno a um amor idealizado através de suas andanças como brummer querendo “completar o vazio imemorial que o impede de existir por inteiro”.
Pauline Eick é a personagem que secunda Tristan: a sua marca aparece em 42 páginas (46%) e como foco narrativo (3ª. Pessoa) nos capítulos VIII e XIV que tratam de suas confidências a Cláudia Santo Roque e de suas reflexões acerca do dilema Jacob e Tristan. Retrata-se mais a mulher determinada e sensível que se deixa influenciar pelas mandingas da amiga e guarda consigo a poção milagrosa para salvar e enfeitiçar a vida do amado.
O ritual desse amor proibido começa a ser desvendado através da indiscrição de Ingrid Marie Eick, a filha adotiva de Pauline e Jacob, explicando à sua maneira, quase um fluxo de consciência, todo o jogo de interações entre os membros de sua família. É “eu” testemunha que faz contraponto ao narrador onisciente nos capítulos II, VI, X e XVI, com crédito de 25 páginas (27%).
Um dos elementos do triângulo é Jacob, marido de Pauline, que se apresenta em 23 páginas (25%) – “um estrangeiro em seus domínios” – o homem inadaptado à sua realidade, deslocando todo o sentido da sua vida para o filho Theodore. Este, o elo capital na corrente familiar, atrai atenção de todos, a vivacidade correndo solta nas reminiscências, conforme mostram 16 páginas (17%).
Robert Ave Lallemant, médico alemão que faz amizade com Tristan durante viagem de inspeção extraoficial às colônias, e João Martinho Buff, diretor da colônia de Santa Cruz, igualam-se em participação através de 21 páginas (23%) e significam polos opostos quanto ao estabelecimento daquele personagem na região. Em 19 páginas (21%), surge a figura da avó, a Oma, com a sua forte influência de raízes e tradições, completando a formação do ambiente doméstico.
Para não alongar esta exposição, restaria ainda dizer do misticismo nativo de Cláudia Santo Roque como que mexendo este caldeirão de costumes (pasmem: 13 páginas (14%), das troças de Lise com Ingrid, das implicâncias com Catherine Ullmann “feia como um susto”, da dedicação do médico Dr. Schnapp nos momentos cruciais da vida familiar, diluídos cada qual em apenas 10 páginas (11 %).

(Publicado no jornal "A Notícia", de São Luiz Gonzaga-RS, em  22/23 de dezembro de 1990.

sábado, 20 de junho de 2015

Assis Brasil surpreendido com vistoso Festschrift

Recebi convite importante e sigiloso para participar da coletânea “Festschrift para Assis Brasil”, organizada por Valesca de Assis, Gabriela Silva, Roberto Schmitt-Prym e Rubem Penz, a qual se destinava a homenagear aquele escritor pela passagem de seu aniversário de 70 anos, além de marcar as três décadas de funcionamento de sua consagrada Oficina Literária que vem ministrando em nossa Pontifícia Universidade Católica. O lançamento desse título ocorreu dia 17 do corrente, das 19 às 21 horas, no Memorial do Ministério Público, tendo considerável afluência de público, apesar da chuva torrencial que acontecia na ocasião.

Participaram dessa obra 46 ex-alunos da “Oficina do Assis” com publicações individuais, dos quais 31 se acham relacionados na lista de 93 nomes, abrangendo 209 títulos editados, conforme consta no portal desse renomado escritor e pesquisador da arte literária. Ali também constatamos alguns nomes que já figuram em catálogos de destacadas editoras nacionais como Companhia das Letras, Objetiva, 7 Letras, Grua (SP), Record, Alfaguara (RJ), Bestiário, LP&M, Não Editora e Dublinense (RS). Deve-se ressaltar que este foi um resultado parcial daquilo que vem sendo produzido por mais de 500 estudantes que passaram nos últimos 30 anos pela supervisão do caro Mestre.
José Alberto, Valesca e Luiz Antonio (foto: Leonardo Brasiliense).

Importante que se identifique aqui todos os co-autores deste Festschrift que responderam ao chamamento para concretizar a sigilosa comemoração, a saber: Marcos Vinicius Almeida, Luiz Roberto Amabile, Mariza Baur, Carol Bensimon, Mariana Bertolucci, Amilcar Bettega, José Francisco Botelho, Roger Cardús, Laís Chaffe, Gustavo Czekster, Vitor Diel, Camila Doval, Roberto Frizero, Daniel Galera, Luiza Geisler, Celso Gutfreind, Marli Hintz, Vera Karam, Michel Laub, Fernando Mantelli, Valdomiro Martins, Carlos André Moreira, Cintia Moscovich, Fernando Neubarth, Joselma Noal, Ítalo Ogliari, Helena Ortiz, Augusto Paim, Mauro Paz, Daniel Pelizzari, Rubem Penz, Diego Petrarca, Roberto Schmitt-Prym, Monique Revillion, Caio Ritter, Paulo Scot, Vanessa Silla, Gabriela Silva, Cleci Silveira, José Alberto de Souza, Marcelo Spalding, Leila de Souza Teixeira, Helena Terra, Flávio Torres, Moema Vilela e Flávio Wild.

Tratando-se do aniversário do Professor Luiz Antônio de Assis Brasil, achei que deveria levar um presente de felicitações pela data, ocorrendo-me simbolizar o bom gosto arquitetônico de Jaguarão através da fotografia – mandei ampliar e emoldurar em singelo quadro - assinada pelo conterrâneo Lino Marques Cardoso, retratando artisticamente a fachada do nosso tradicional Clube Instrução e Recreio, a meu ver o mais belo fronral da cidade, infelizmente carecendo de uma melhor valorização local. E deixei a cargo desse homenageado descobrir algum cantinho onde pudesse apreciar as linhas clássicas desse magnífico exemplar de nosso conjunto eclético. 


sábado, 6 de junho de 2015

A TÚLIO PIVA - O EMBLEMÁTICO CENTENÁRIO


  
Ele não nasceu no morro.

Nasceu em Santiago, região da Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul. Nada a ver com samba. Mas incorporou em sua mente a poética dos morros cariocas de uma época mágica em que a pobreza das favelas era cantada de forma lírica em versos musicados, que desciam para a cidade grande aonde iam alegrar as ruas e os salões da velha Capital da República. Era o Rio Antigo, alegre, festivo e até ingênuo na forma de cantar os seus costumes. E a alma do nosso Túlio Piva foi impregnada daquele Rio de Janeiro tão diferente do de hoje.
E o que há de mais belo na obra e no pensamento do autor de Pandeiro de Prata é a sua fidelidade ao samba tradicional, ou de raiz - como se queira dizer - com comovida paixão. Em “Morro e Asfalto”, samba que Túlio gravou junto com Eneida Martins, no ano de 1977, para a antiga gravadora Chantecler, ele diz:
“Enquanto houver violão, cavaquinho e madrugada,
Uma lua no fundo da noite debruçada,
Enquanto houver um pandeiro batendo e um tamborim,
O nosso samba vai continuar assim
Histórias de morro,
Morro e asfalto,
Improviso de bambas cantando
Partido alto”.

Túlio não se conformava que o samba tivesse seu espaço ocupado por outros gêneros musicais. Que houvesse a concorrência, sim, mas nunca a substituição. Chegou até a admitir a bossa nova, quando compôs para Elis gravar “Silêncio” que dizia:

Mas para ele, a troca do samba pelo rock na programação das rádios soava como soa para qualquer cidadão brasileiro, hoje, a transformação do cenário poético dos morros cariocas em território de guerra de quadrilhas. Ou seja, o terror!
A bem da verdade, Túlio Piva também compôs outros gêneros, como sambas-canção, marchas carnavalescas, marchas-rancho, choros e até músicas tradicionalistas. Mas foi o samba a sua verdadeira identidade musical, a sua marca, com “Tem Que Ter Mulata”, o seu maior sucesso, gravado inclusive no exterior, além de “Gente da Noite”, de imensa popularidade regional, e “Pandeiro de Prata”. Este último classificado em primeiro lugar no Festival Sul Brasileiro da Canção, em 1969.
Túlio nos deixou uma vasta obra, com mais de trezentas composições. Muitas ainda inéditas para o grande público, mas que poderão ser resgatadas e conhecidas agora, graças à iniciativa de seu neto, Rodrigo Piva, talentoso compositor e intérprete, que produziu um excelente CD book intitulado “Pra Ser Samba Brasileiro”, contendo dois discos com 39 músicas gravadas, além do livro com poemas e crônicas de autoria do velho sambista.
GUILHERME BRAGA.

sábado, 30 de maio de 2015

ADEMAR SÍLVIO: UM DOS PERDIDOS NA NOITE



Para mim, é sempre motivo de satisfação saber que existem pessoas como Agilmar Machado e Vilarino Wolff valorizando a sua passagem aqui por Porto Alegre e descobrindo encantos numa metrópole que pode ser destituída de atrativos turísticos, mas que tem de sobra o calor humano da sua gente hospitaleira. Pois eles me fizeram lembrar outro personagem da noite porto-alegrense que, talvez, tenham conhecido em suas andanças por aqui – nosso grande seresteiro Ademar Sílvio.
Indivíduo culto e educado, há alguns anos venho privando da sua amizade e testemunhando o seu grande valor como artista desprendido que, até pouco tempo atrás, perambulava pelos bares e casas noturnas da nossa Capital. No seu dizer, assim procedia mais por gosto que por dinheiro – “este quando aparece no bolso do cantor liquefaz-se muito rapidamente por ser pouco para matar muita sede”.
Tanta lealdade costuma dedicar a seus amigos e companheiros que não hesita em deslocar-se de um extremo a outro de Porto Alegre, quase cem quilômetros gastos na ida e volta, utilizando-se de várias linhas de transporte coletivo, saindo da sua residência situada na Zona Norte até chegar a Belém Novo, onde é sempre esperado para a reunião musical com a turma de Jorge Machado, normalmente se prolongando da hora do almoço até a janta.
Numa dessas oportunidades, esse nosso personagem não havia comparecido então, encontrava-me no bar do Getúlio, naquele bairro da Zona Sul, e escutava uma pessoa pregando a elaboração de um abaixo-assinado de todos os moradores daquele bairro para que o Ademar ali fixasse o seu domicílio, pois sentiam muito a sua ausência, impossibilitados de ouvir a sua palavra fluente de emérito contador de causos. Não é que esse companheiro de mesa dizia-se impressionado com certa aula de aviação na qual o Ademar esparramou todo o seu conhecimento da época em que tirava o seu brevê, pilotando o teco-teco Biguá!
Nesse convívio fraterno, ficamos sabendo da tremenda versatilidade desse vulto notável da nossa cultura popular, atestando a sua capacidade como conhecedor profundo da obra de Catulo da Paixão Cearense e intérprete inesquecível de Por Um Beijo – Vai, Meu Amor, Ao Campo Santo – Ontem Ao Luar, que o consagraram em suas apresentações na boate Chão de Estrelas.
Na VII Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana (1977), impõe-se o elemento negro que vence na linha de Manifestação Rio-grandense, a canção Colorada (Aparício da Silva Rillo/Mário Bárbara Dornelles), com seu timbre de voz grave alcança a força necessária para reviver uma época violenta da história gaúcha, tempo de degolas nas revoluções.
Revelou-se ainda como sambista de raiz ao enfrentar pela primeira vez um desfile de escolas, defendendo pela Academia Praiana, o samba enredo Exaltação à Janaina (José Gomes), que lhe exigiu 45 minutos cantando sem parar.

Mais ainda teríamos a falar dessa criatura – Ademar Hilário da Silva, de batismo – cujo nome artístico foi-lhe sugerido por Demóstenes Gonzáles, porém, encerramos aqui lembrando sua faceta de compositor, já tendo gravadas duas faixas com música e letra de sua autoria intituladas Eu Te Adoro e Por Causa Daquela Mulher, no CD demo Fundo de Gaveta. - (See more at: http://www.carosouvintes.org.br/a-musica-que-vem-do-sul-4/#sthash.Y4PVKkQs.dpuf)

domingo, 17 de maio de 2015

AS PENÚLTIMAS ONDAS DE CERTA NOSTALGIA


                                           

Quando da estreia do filme “Buena Vista Social Club” aqui em Porto Alegre que assisti tão entusiasmado, lá por meados de 2000, em plenos estertores do século passado, não me fiz de rogado para intimar o cantor e compositor Guilherme Braga, uma das grandes vozes da época de ouro do rádio gaúcho, insistindo para que não deixasse de apreciar essa obra prima do cine-documentário internacional.
Pois, este meu caro amigo não tardou para manifestar sua opinião, na qual enaltece a redescoberta por um produtor de discos norte-americanos, Ry Cooder, e um cineasta alemão, Win Wenders, de velhos músicos e cantores cubanos. E ao ver emocionado as cenas que mostravam aqueles velhinhos fabulosos, redivivos e exuberantes na execução de sua arte musical – alguns com mais de oitenta anos de idade –, identificava-se durante a projeção, com aqueles personagens, pela semelhança com sua própria vivência como ex-cantor já conformado com o ostracismo, mas ainda capaz de sonhar com o milagre de um reencontro com o público e com ex-companheiros.
E assim recomendava a todos que ainda não tivessem assistido a essa fita emocionante, para não deixarem de vê-la. E todos que a viram, soubessem que aqui no Brasil, aqui em Porto Alegre, neste Sul do Mundo, existiam outros velhinhos com muito talento, capazes de reeditar grandes sucessos numa versão local de Buena Vista Social Club, que bem poderia se chamar Maipu, Marabá ou American Boite. Só faltando um Ry Cooder e um Win Wenders, produtores de talento e arrojo para bancar o espetáculo em grande estilo. (Da mensagem de Guilherme Stone Braga para José Alberto de Souza, em 5 de junho de 2000).

Apenas Guilherme deixou de fazer referência a algumas tentativas de revival em nível de Buena Vista ocorridas aqui neste Sul do Mundo, das quais inclusive teve participação destacada como no espetáculo “REENCONTRO (O show tem que continuar)”, levado a efeito em 16 de outro de 1991, na antiga Boite Le Club. Ao lado da eterna Rainha do Rádio Maria Helena Andrade e do saudoso astro Fernando Collares, com acompanhamento de Paulo Santos (violão/guitarra) e de Celso Lima (teclado), sendo apresentados pelo veteraníssimo Ary Rego, fez valer a mensagem – A gente precisa se reencontrar / Com os amigos / Com os músicos / Antes que tudo passe / Com a alegria de viver – inserida no convite. Este Reencontro voltou a ser levado à cena em 10 de julho de 2002, sob a direção de Silvana Prunes, ora com participação especial dos cantores Roberto Gianoni e Jussara Souza, dos bailarinos Paulo Pinheiro e Lisiane e mais os músicos José Moacir Vidal (teclados), Salvador Touguinha (guitarra), Wilmar Neto (baixo) e Dé Ribeiro (bateria).

Nesta ocasião em que alguns integrantes do Buena Vista se apresentaram a 13 do corrente, no Auditório Araújo Viana, com “Adiós Tour”, sua despedida de mais de mil turnês artísticas pelo mundo, permito-me a conjecturar: 1º) Ry Cooder precedeu Barak Obama na aproximação de Estados Unidos com Cuba; 2º) esse grupo musical desempenhou um papel de resistência pacífica tipo Gandhi e Mandela (afinal com sua atitude diplomática, eles atraíram a atenção mundial para o sofrido povo cubano), digno de merecer um Prêmio Nobel da Paz; 3º) Sem dúvida, Buena Vista Social Club merece o reconhecimento da UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade.  

terça-feira, 14 de abril de 2015

LP "SAMBA SEM MENTIRA" - Jorge Costa (1968)












Obs.: Não conseguimos registrar a faixa 2 - "Pode Voltar" - deste disco.
















domingo, 12 de abril de 2015

CHICO BUARQUE JÁ INSPIROU JORGE COSTA

1968 - Abertura do Carnaval do cinquentenário de Catanduvas-SP em baile realizado no Clube dos 300.
Na foto o compositor Jorge Cosra, a Rainha do Carnaval Amália Marangoni e o cantor Wilson Simonal.
Oriundo das Alagoas, a pequenina e simpática terra dos marechais, de lá saindo como expedicionário – “Graças a Deus, não embarquei para a Itália, me escapei de uma”! – e radicado há mais de 34 anos na São Paulo da Garoa, Jorge Costa é uma dessas criaturas predestinadas a encarar grandes desafios. É bem provável que o Senhor lhe tenha poupado de sentir na própria pele os horrores apocalípticos de uma convulsão mundial, reservando-lhe uma missão mais nobre. Truncada a carreira na caserna, nem por isso deixou por menos o destino de seus conterrâneos, galgando através do talento e do carisma que lhe são peculiares, a mais alta patente da nossa genuína música popular, qual seja, a de Marechal do Samba.
Cidadão do Brasil, Jorge Costa veio dar com os costados aqui pelos pampas e, na sua meteórica passagem entre nós, foi “sequestrado” por Jessé Silva, o “magnífico” do violão e seu particular amigo, que o colocou em contato com o “xará” Jorge Machado, outro de nossos grandes violonistas. Isto no fim de uma manhã ensolarada do sábado 9 de agosto de 1986, só poderia resultar num churrasquinho amigo. Telefona para o Admar do Cavaquinho, disposto a bancar a recepção, e estava formado o pagode.
Cidadão do Brasil é isso mesmo, não precisa ensaiar e se faz entender facilmente, pois a linguagem é a mesma, ainda mais através da comunicação fluente de Jorge Costa, identificando-se na grande capacidade de improvisação, na competência e na versatilidade dos talentosos músicos gaúchos Jorge Machado e Jessé Silva (violões), Admar Rodrigues (cavaquinho), Geraldo Majela (timba), Aroldo Dias e Cláudio Braga (cantores).
Jorge Costa é uma satisfação e um privilégio continuar privando do seu convívio. Que esse salutar intercâmbio prossiga, pois esta batalha não podemos perder. Índio, negro e português, estas são as raízes reais da nossa mais autêntica cultura musical, o resto é enxerto. Volte sempre, um abraço e até de repente. (Jorge Costa no pagode do Xará / J.A.S.)

Antes de falecer em 1995, Jorge Costa ainda esteve em Porto Alegre em outras oportunidades, nas quais não deixava de procurar seus amigos aqui residentes, chegando a ser contratado para longa temporada na Boate Carinhoso, de Flávio Pinto Soares, que lhe proporcionava hospedagem num apartamento situado nas proximidades do seu famoso cartório da Ladeira. Inclusive Jorge chegou a comemorar seu aniversário de 70 anos naquela afamada casa noturno, deixando gravada essa apresentação em fita cassete e me brindando gentilmente com uma cópia referente ao acontecimento.
Quando ouvi “Triste Madrugada” pela primeira vez, logo me ocorreu Haroldo Lobo: - “Eu fiz serenata pra ela/ Cantei uma linda canção/ Ela não veio à janela/ Quebrei meu violão”. E eis que o destino me reserva ser apresentado a Jorge Costa (“Triste madrugada foi aquela/ Em que perdi meu violão/ Não fiz serenata pra ela/ E nem cantei uma linda canção”). Atrevi-me apontar essa coincidência nas duas letras, ao que ele me esclareceu como se nada tivesse a ver, revelando a fonte de inspiração após encontro com Chico Buarque de Holanda num bar da Galeria Metrópole, em São Paulo. 
Na saída, aproveitou carona em taxi com Chico e foi prolongando o papo até que, lá pelo meio da viagem, essa celebridade deu-se conta que tinha esquecido naquela Galeria seu inestimável violão, e decidiu voltar ao local para recuperar o valioso instrumento. Mas cadê? Lá ninguém viu, ninguém sabia... Quase clareando o dia, na volta para sua casa em Taboão da Serra, estalo na cachola de Costa: “Ora, vejam só, nesta madrugada Chico perde mais um de seus violões, sabe que isto dá samba...” E nem poderia dar outra, pronta, Triste Madrugada virou sucesso nacional em 1967.

sábado, 11 de abril de 2015

O SAMBISTA JORGE COSTA NO "PENA D'OURO"

Da esquerda para a direita: Bráulio de Castro, Raimundo Prates,
Noite Ilusrtrada, Luiz Américo, Túlio Piva e Jorge Costa.
“De passagem pelo Rio de Janeiro, frequentei poucas casas noturnas, mas em São Paulo fui assíduo nas de qualidade, chiques ou simples. Há que enaltecer: Arabesque. João Sebastião Bar. Vogue. Baiuca. Catedral do Samba. Igrejinha. Telecoteco da Paróquia. Viva Maria. O Jogral. Regine. Siroco. L’abissant. La Fontaine. Nick Bar. Terceiro Whisky. Ponto de Encontro. Open The Door e Rosa Amarela, na Galeria Metrópole. Em algumas eu era mais manjado e dava canja com meus instrumentos de percussão. Bom cliente. Ninguém pagava a minha conta. Eu sim, com prazer, convidei muitos artistas, intelectuais, durangos, a sentar na minha mesa. Alguns eu já levava na algibeira.”

De São Paulo, recebo quinzenalmente a publicação “Zingamocho/Coisas e Lousas”, gentilmente enviada pelo cronista Aguinaldo Loyo Bechelli, fruto de suas observações do cotidiano, de onde extrai o parágrafo acima transcrito. O que esse amigo escreveu me fez rememorar uma casa do Largo do Arouche, em São Paulo, com nome bastante sugestivo – PENA D’OURO –, onde Gislaine e eu comparecemos numa tarde de sábado a convite do saudoso Jorge Costa, autor do sucesso nacional “Triste Madrugada”, que ali se apresentava.
Muito bem recebidos pelo simpático compositor e demais frequentadores com uma salva de palmas ao ser anunciada a presença de um casal de Porto Alegre, que ali estava prestigiando o espetáculo, colocamo-nos inteiramente à vontade em agradável convívio. Mais ainda quando Jorge Costa e seu fiel escudeiro, o violonista Sergipe, sentaram à nossa mesa para um descontraído bate-papo, testemunhando a combinação deles a fim de animar o Carnaval em um dos hotéis de Águas de Lindóia. Chamava atenção no recinto lotado o chapéu de peão boiadeiro de um dos presentes.  
De repente, a companheira desse cidadão veio até onde estávamos e tirou da cabeça do Jorge seu tradicional boné branco e saiu a arrecadar gorjetas nas mesas do salão, voltando logo após para lhe entregar uma féria repleta de cédulas e moedas. Ficamos admirados quando assistimos “seu” Costa repartindo religiosamente, cédula a cédula, moeda a moeda, a quantia ali depositada e destinando exata metade a seu parceiro Sergipe. Era o que colhiam através de inesperado e voluntário “couvert artístico” da assistência como reconhecimento daquele maravilhoso show vespertino.
Em outra ida a São Paulo, tive oportunidade de almoçar com Jorge Costa, privando de algumas de suas confidências, entre as quais sua constatação de que morava no local errado, pois melhor seria residir no Rio de Janeiro, onde aconteceriam melhores contatos com artistas e intérpretes para divulgar as suas composições musicais. Este fato obrigava-o a contínuas viagens ao Rio, nem sempre bem sucedidas face ao desencontro com aqueles, muitas vezes ausentes pelos compromissos assumidos em shows e excursões por todo país. E as despesas de estadia não lhe compensavam qualquer espera.
Procurei-o à tarde, após encerrar seu expediente no escritório da SBACEM, situado na Barão de Itapetininga, dali nos dirigindo a um bar do Largo do Paissandu, onde encontramos um conhecido do Lupinho, e depois seguindo até outro ponto em que costumava se reunir com um grupo de amigos, entre eles o compositor Luiz Felipe. Então nos foi revelada a solidariedade existente naquela confraria, todos mostrando sua preocupação quando um de seus membros deixava de comparecer ao “hapy hour”, imediatamente buscando informações sobre essa baixa.
Nesta ocasião, Luiz Felipe contou que sua esposa financiou e produziu a fita K7 “Meu Testamento” de Lúcio Cardim, que este distribuiu entre seus amigos e que se difundiu pelo Brasil afora através de inúmeras cópias efetuadas na legião de seus admiradores. Essa senhora recebia fidalgamente os convidados de seu marido para almoços e jantares em sua residência, além de patrocinar eventos beneficentes que sempre contavam com graciosas apresentações de famosos artistas do círculo de amizades de Luiz Felipe, uma única vez negada participação de conhecida celebridade devido exigência de “cachê” pela sua empresária.

quinta-feira, 26 de março de 2015

A MISTERIOSA APARIÇÃO DE UMA SARACURA

Não vivo em florestas e matas, 
nem em pântanos e áreas alagadiças,
mas tive a felicidade de ver a saracura,
muito difícil de encontrar aqui.

Bichinho lindo, 
plumagem de rico colorido,
com seu canto melodioso
encanta observadores da Natureza,
surpresos com esta inesperada aparição.



E assim como a enxergamos,
logo ela some de nossos olhos,
parece que se esconde 
em recônditos misteriosos,
longe de nossa indiscreta mirada.

Impossível de cativá-la,
amante da liberdade,
jamais poderia se conformar
confinada em qualquer viveiro 
como estranha avezinha de arribação.

Fotos gentilmente cedidas pelo Sr. Romar Rupert.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

SERÁ QUE ALGUÉM JÁ PENSOU NESTA IDEIA ?

Fernando Rozano postou, em seu blog ChronosFer, crônica sob título “A Estação” ilustrada com dependência de conhecido prédio uruguaio. Há pouco, andei compartilhando duas imagens colhidas pelo conterrâneo Lino Marques Cardoso, nas quais retratava as antigas estações ferroviárias de Jaguarão (Brasil) e Rio Branco (Uruguai). Lembrei-me então de uma notícia recente, anunciando a Ponte Internacional Mauá como primeiro bem cultural binacional a ser tombado pelo IPHAN. Daí comecei a conjeturar uma espécie de desafio aos poderes competentes.
Por este Brasil afora, já existe o aproveitamento de inúmeros ramais ferroviários, explorando o potencial de passeios turísticos, um deles bastante utilizado na região entre Bento Gonçalves e Carlos Barbosa, aqui no Rio Grande do Sul, onde se cultiva a memória dos tempos da “Maria Fumaça”. Bastou a vontade política da comunidade para implementar o desenvolvimento de uma ação que vem trazendo incontáveis benefícios para a economia local. Na madrugada, conversando comigo mesmo, me inquiri a respeito do assunto: por que não acontece o mesmo lá em Jaguarão?
Aquelas estações e a linha férrea remanescente (de bitola uruguaia) bem que poderiam ser incluídas nesse tombamento da Ponte Mauá. Por informações colhidas, fiquei sabendo que o trem uruguaio já não vai até a nossa Estação, devido a problemas estruturais na travessia do rio. Agora, fiquei imaginando a ligação entre as duas estações, utilizando um veículo mais leve como as “litorinas”, automotrizes a diesel, que chegavam e saiam (após giratória) da Estação Polinicio Espinosa, fazendo ligação direta com Rio Grande, em cinco horas. Ou, quem sabe, adaptando-se algum ônibus, tipo "linha turismo", para ser conduzido através da via férrea...
Enfim, acredito que se poderia elaborar um anteprojeto para avaliação de custos dessa proposta e na possibilidade de buscar recursos para viabilizá-la. Nas duas edificações se aproveitariam todo seu potencial de utilização cultural, com programações de espetáculos, gastronomia, artigos da região e a mais variada gama de atrativos para um inesquecível passeio turístico. A “Rua dos Trilhos” deveria ser preservada em toda sua extensão, prolongando-se Uruguai adentro num esforço patrimonial que envolvesse os dois países limítrofes. O desafio está feito, dou de barato para se começar.

LINKS DE REFERÊNCIA: