segunda-feira, 26 de junho de 2017

Poeta Garoeiro e a semana Heitor Saldanha (IV)






Heitor Saldanha – A Hora Evarista – 1974 – pp. 54/55.

Em mim esse fulgor de alucinâncias
que paralisa os contrários
e reconquista um campo de batalhas
cansei de cruzar fronteiras
com passaporte lacrado
entanto não me projeto
somo um simples apelido
num alfabeto sincrônico
que há muito foi desusado
operário de impossíveis
trabalho sobre o imprevisto
escrevi cartas anônimas
à luz de velas mortiças
e minhas correspondências
chegavam sem endereço
...
mas não andei sobre as águas
não imitei Jesus Cristo
eu sou o lado contrário
e vou passar sem ser visto
...
sim meu trajeto é de longe
fazendo um curso de espasmos
com sombras de fuzilados
caindo dentro de mim
até chegar ao teu reino 
e te cantar   liberdade

domingo, 25 de junho de 2017

Poeta Garoeiro e a semana Heitor Saldanha (III)

Heitor Saldanha 
– A Hora Evarista – 1974 – p. 88.

Hoje enquanto tiver dinheiro beberei.
Depois entregarei ao garçom
meu relógio de pulso
meus carpins de nylon
meus óculos de tartaruga (que nome bonito)
minha caneta tinteiro
e continuarei bebendo
sem literatura
sem poema
sem nada.

Só.
Como se o mundo começasse agora.
Estou nesses conscientes estados de alma
em que não posso me salva
e nem salvá-la.

sábado, 24 de junho de 2017

Poeta Garoeiro e sua semana Heitor Saldanha (II)


Dança
Heitor Saldanha – A Hora Evarista – 1974 – p. 80.

A lua disse à criança
                    que a flor era um pé de sol.

A lavadeira passando
                    seus alvíssimos lençóis
                    estendeu uma nuvem no espaço.

E ficou tudo
                    distante
                              distante

                                       como a lembrança da infância.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Poeta Garoeiro e sua semana Heitor Saldanha (I)


Marcha
Heitor Saldanha – A Hora Evarista – 1974 – p. 182.

Ouço um rumor de astros debandando
um marulhar de onda que vem vindo,
será a marcha do tempo penetrando
ou será a Tua voz que estou sentindo?

São matilhas de cães que vão ladrando
ou debandar de sombras se esvaindo?
É um astro no mar que está sangrando
ou será o passo Teu que vem subindo?

Senhor,   não me abandones no caminho.
Tu me deste a beber de um novo vinho
então dá-me mais luz se é  que mereço.

E se tanto merece um teu eleito
Senhor,   manda que cresça no meu peito 
este glorioso mal de que padeço.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Da homenagem ao poeta gaúcho Heitor Saldanha

Cedemos nosso espaço para repicar parte da Apresentação do Especial Heitor Saldanha com o depoimento do Poeta Garoeiro, de Natal-RN, sobre uma das obras deste ilustre cruzaltense

3. Hora Evarista – Especulações...

Sob o título: “A Hora Evarista” a Editora Movimento, de Carlos Appel, lançou, em 1974, poemas de Heitor Saldanha, inclusive, os de: “A Nuvem e a Espera”, “As Galerias Escuras” e “A Outra Viagem”. Ainda que esse livro trouxesse refinados comentários de Manoel Sarmento Barata, Raymundo Faoro e José Louzeiro, nada é mencionado a respeito do título, onde está esse adjetivo singular, “evarista”, para qualificar aquela “hora” do poeta. Descartamos eventual referência que viesse da onomástica, pela antroponímia de “Evaristo”, nome próprio de origem latina.
Invenção, neologismo, aliteração, transliteração para abonar ou desabonar palavras, são atitudes constantes na criação poética e na literatura em geral. Nosso poeta poderia simplesmente ter achado bonito, sozinho em sua mesa, ou conversando com amigos, “A Hora Evarista”, que não é “A Hora H”, nem “A Última Hora”, mas é uma hora decisiva.
Também pode ser que ele tivesse lido o epíteto em algum tempo e lugar e por gosto e livre escolha adotado o enigma para título da compilação.
Nos poemas em que a expressão aparece um significado preciso não ganha abonação pela moldagem metafórica que a permeia.
As pistas rabiscadas pelo Poeta Heitor Saldanha, autor de "A Hora Evarista", são:

1ª) - página nº 9 - (título): a hora evarista (em letras minúsculas); com a epígrafe:

uns vivem crono-metrados
eu vivo fora de hora
paciência
por agora
quero um oco de céu
pra cabidar meu chapéu

2ª) -  página nº 10 - (título): A HORA EVARISTA (caixa alta), seguido de:

chega uma altura na vida
em que o universo suspira sua síntese
então passamos de cabeça baixa
era tão longe e não se sabia
que tudo é perto pra viver poesia

3ª) – página nº 11 – poema: "Dia dos Mortos":

tira isso daí
recua essas mesas pardas
pra não me perturbar em alucínio
apague os refletores que essa água mareia
estão desembarcando os passageiros
nesse campo de pouso disparado
é a hora evarista no tambor dos revólveres
por isso não há estampido
cuidado
sai daí
...

Pensando nisso, é possível que uma "hora evarista" seja, ao contrário da hora cronometrada, uma "hora de se viver fora de hora", "numa certa altura da vida", "com a síntese do universo ali, sendo suspirada"...
Ela poderia vir, por aproximação, do Latim, onde "sempre" admite, entre outras abonações: "semper", "umquam", "ever" e "in perpetuum".
Ora, considerando "ever" - também, como o mantém a Língua Inglesa - há de haver uma forma declinativa de "ever" para "evaris", acabando por ancorar o adjetivo "evarista", para qualificar uma determinada e singularíssima hora que seria para sempre, com duração diferente da "hora cronometrada", muito diferente:

Hora evarista = aquela que a gente quer que nunca acabe, que dure para sempre...

Ou, não?

Poeta Garoeiro – Natal, RN, 21 de junho de 2017.


Programação: de 22 de junho a 29 de junho de 2017, o Reblog do Poeta Garoeiro homenageia o Poeta Heitor Saldanha, postando, dia a dia, um poema escolhido, dentre o manancial apuradíssimo que ele criou...

domingo, 4 de junho de 2017

* A ULTRA SENSIBILIDADE DE LUIZ CORONEL *



O homem no desemprego
é um homem amordaçado.
Esconde grito contido,
Por isso parece calado.

O homem no desemprego
rumina áspero o ódio.
O tempo boceja inútil 
sem agenda ou relógios.

O homem no desemprego
não tem passagens ou malas.
Move-se num vai e vem
qual uma fera na jaula.

O homem no desemprego
parece perdido no espaço.
Manearam suas pernas,
imobilizaram seus braços.

O homem no desemprego
é um homem no exílio.
Não tem idioma nem pátria.
É um trem fora dos trilhos.

O homem no desemprego
é um náufrago na tábua.
É um peixe asfixiado
num turvo aquário de mágoas.

Ao homem no desemprego
congelaram sua imagem.
O tempo rola seu filme
mas ele ficou à margem.

Ao homem no desemprego
o alambique destila
a salvação pelos copos
e o triste roteiro das filas.

Publicado em 17/maio/2017 no Caderno de Sábado do Correio do Povo (POA). 





quinta-feira, 9 de março de 2017

GENTILEZA DE AÇOUGUEIRO - /S. Costa Franco/

Na minha idade há grande perigo de me tornar repetitivo, contando histórias que já foram contadas. Especialmente quando se fez colunismo desde o outro milênio, ou, mais precisamente desde o ano de 1969. Confio em que o meu estoque de “causos” e anedotas seja bastante grande, para resistir a esses 48 anos de memórias registradas na imprensa, desde a “Voz da Serra", de Erechim, passando pelo velho Correio do Povo e a Zero Hora, de Porto Alegre, onde assinei umas cinco mil e duzentas crônicas ou comentários opinativos, até 1989, quando deixei de fazer estatísticas. Depois disso, aposentado, continuei escrevendo eventualmente, para diversos periódicos, em geral sem qualquer remuneração, mas ainda assim com o ânimo incontido de me comunicar com o público.
Vocês dirão que estou com a pauta esgotada, sem possibilidade de contar qualquer novidade. Mas como o      texto do meu livro de memórias foi encerrado em 2006, já sobram mais de dez anos sem a narrativa de vantagens ou fracassos, nem de observações sobre os outros viventes, que são fonte inesgotável de inspiração.
Minha pauta de agora tende a ser didática, atendendo às experiências de octogenário. Observo hoje as práticas civilizadas do comércio de varejo, onde a clientela é atendida segundo corretas prioridades, assegurada a preferência dos idosos e deficientes físicos, em geral mediante a prévia distribuição de senhas numeradas E me lembrei do tempo em que a desordem imperava, tanto nos guichês das diversões públicas quanto no balcão das repartições ou das casas de varejo. Pelo que me lembro, foram as dificuldades de abastecimento durante a 2ª. guerra mundial, que introduziram o saudável hábito das filas, então chamadas de “bichas”. Mas antes que a experiência das filas fosse aceita e assimilada pelo público, houve um tempo em que predominava quem reclamasse mais alto ou quem desfrutasse das simpatias do atendente.
É deste período o episódio que testemunhei, numa das cidades onde vivi, no açougue do Beto Cunha (o nome é fictício para não atrair eventualmente a ira do falecido). Com a freguesia se acotovelando junto ao balcão, o Beto era sozinho para cortar, pesar, e embrulhar os pesos de carne, além de receber o respectivo preço. Compreende-se que sofresse e se exasperasse. Foi então que assisti à divertida cena. A freguesa apressada para ir cozinhar o almoço, enquanto não era atendida, repetiu mais de uma vez o seu pedido, que, salvo engano, era de 1 quilo de paleta, sem osso. Com vinte anos de pesado serviço entre carnes e fressuras, ganchos, facas, chairas e balanças, o Beto Cunha não seria exatamente um gentleman com a freguesia, e muito menos com os impacientes. Depois de mais um pedido da freguesa, ele deu um corte fundo na paleta bovina e largou na balança o enorme pedaço, que devia regular uns 3 quilos.
- Tá bom assim, vizinha?
Assustada, a mulher contestou:
- Mas, Seu Beto, eu só quero l quilo.
- Ué, pediu três vezes!
Com a distribuição de senhas à freguesia, já não acontecem mais essas cenas caricatas. 

sexta-feira, 3 de março de 2017

A PONTE PÊNSIL - vista p/Sérgio da Costa Franco

Da minha janela, com vista para o Rio Mampituba e o Passo de Torres, descortino à esquerda a moderna ponte rodoviária, sólida, de concreto e plenamente confiável, pelo menos para veículos leves. Mas, olhando à direita, vejo a ponte pênsil, uma estrutura balouçante, que não me animo a utilizar em minhas caminhadas, mesmo se vou a curtas distâncias. Usei-a apenas uma vez e me arrependi. Jovens na idade das brincadeiras inconvenientes pulavam sobre a ponte, fazendo-a balançar perigosamente, pondo em risco a segurança dos velhinhos que se animavam a utilizá-la. Há um cartaz condenando essa prática imprudente, mas duvido que seja obedecido pela garotada. Vejo a ponte pênsil muito utilizada, inclusive por ciclistas e, em certas horas, suspeito que receba excesso de frequentadores.
No mesmo local, parece que existiu outrora outra ponte pênsil, bem mais precária, das qual possuo um pequeno quadro a óleo, de pintor local, que adquiri de um vendedor de rua, na Prainha, faz alguns anos. Era a única via de transporte a pé enxuto sobre o Mampituba.      O certo é que, em 1984, por iniciativa das duas prefeituras interessadas, a de Torres e a da cidade catarinense que a defronta, construiu-se a ponte atual, mais sólida, mais forte, com uma estrutura de cabos de aço, tabuado firme e guardas laterais de arame grosso. Parecia obra definitiva, para durar muitos anos e assegurar a glória de seus construtores.
O entusiasmo trouxe multidão de gaúchos e catarinenses à sua inauguração, superlotou-se o equipamento, e, justo no instante em que o vigário preparava a sua bênção, a ponte cedeu ao peso dos que a celebravam, jogando no rio o padre, os prefeitos e as autoridades todas, felizmente sem vítimas ou outras consequências, afora o susto e o inesperado banho.
O episódio caricato inspirou a “Décima da Ponte”, que Guido Muri incluiu em seu livro de “Remembranças de Torres”: “As comitivas chegaram,/ Uma era a catarina,/ Outra, do nosso torrão./ De cada lado, povo olhando/ E foguetes estrondando,/ Cada qual com seu prefeito/ E o povo satisfeito/ Espera a inauguração.// 
E continua mais adiante, o poeta-cronista: “Também as autoridades,/ Era um grupo em cada ponta/ Pra no meio se encontrar/ E a pênsil inaugurar./ Muita gente em cada bando/ E mal estavam chegando/ Foram n’água despencar.// Uns nadaram muito pouco/ E à velha ponte chegaram./ Pra outros foi só um banho/ E na pele nenhum lanho./ Do padre, a água benzida/ É a única coisa perdida/ Nesse mergulho tamanho.// 
Com esse lance de ópera bufa, que é de 33 anos atrás, inaugurou-se a ponte pênsil. Um dos motivos para não transitar por ela com muita tranquilidade.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

OS "PROVISIONADOS" - /Sérgio da Costa Franco/



ChargeBRABO
Já é hoje uma espécie rara, senão desaparecida. Quando eu era jovem e me iniciava na vida forense, ainda eram numerosos os advogados provisionados, desrespeitosamente chamados de “rábulas”, sem formação jurídica regular, mas praticantes do ofício com direitos adquiridos na época da liberdade profissional. O Rio Grande do Sul, em função da constituição castilhista de 1891, tivera a singularidade de admitir que qualquer profissão, inclusive as mais dependentes de formação científica, como a medicina, a engenharia ou a odontologia, pudesse ser exercida por amadores, feitos na prática do cotidiano e licenciados mediante o simples pagamento de um imposto de licença. Daí haver numerosa classe de dentistas e construtores “licenciados”. Não me lembro de ter conhecido “médicos licenciados”, porém conheci vários formados num curso de curta duração (três anos) da Escola Médico-Cirúrgica que certamente exerceram a profissão até a década de 1960. Até sucedia que tais profissionais fossem bem sucedidos e não revelassem incompetência. Mas evidentemente constituíam um perigo no atendimento à saúde humana e no exercício de atividades cada vez mais complexas.
Advogados provisionados representavam risco menor para a sociedade, e houve alguns com excelente desempenho, que até se tornaram famosos como criminalistas. Nas comarcas em que comecei a desempenhar as funções de promotor de justiça, ainda encontrei alguns provisionados competentes, com larga experiência adquirida nos cartórios e salas de audiência. Mas também tropecei com os efeitos do despreparo técnico e teórico. Lembro-me bem de haver sido procurado certa vez pela viúva de um funcionário, para uma consulta inusitada. Seu marido morrera, deixando-lhe apenas a casa de moradia. E o provisionado que estava promovendo o inventário dos bens do falecido dissera que ela não tinha direito à herança, porque fora casada com separação de bens. De fato, o advogado estava habilitando como herdeiras as duas irmãs do defunto e deserdando a viúva. Logo lhe esclareci que, segundo o Código Civil, o cônjuge, em qualquer regime de bens do casamento, é o terceiro na vocação sucessória, após os descendentes e os ascendentes, e, na falta destes, é herdeiro único, prevalecendo sobre os colaterais, como os irmãos e sobrinhos; Pediu-me a viúva que eu interviesse no inventário de seu marido, para fazer prevalecer seu direito, e tive de explicar-lhe que, num feito entre maiores e capazes, não havia intervenção do Promotor de Justiça. No máximo eu poderia conversar com seu advogado e esclarecer sobre o erro em que estava incorrendo. Foi o que fiz, enfrentando alguma resistência, porque o rábula insistentemente alegava que o defunto era casado com separação de bens. Ele custou a entender que o direito de herança não se confunde com meação conjugal. Esta não existia em razão do regime de casamento, mas a vocação hereditária era legal e indiscutível, pela ausência de descendentes e de ascendentes vivos do falecido.. Ele afinal corrigiu o inventário que iniciara, e a pobre viúva pôde ficar com sua moradia. Guardo comigo a carta agradecida que ela então me endereçou.
A formação acadêmica pode fazer falta algumas vezes. Mesmo profissionais sérios e bem intencionados, como era o caso daquele rábula, podem cometer erros grosseiros no exercício da profissão.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

UM APELO BEM SUCEDIDO /Sérgio Costa Franco

Porto Alegre Bairro Menino Deus no tempo das chácaras
O apelo que fiz, numa destas minhas crônicas avulsas, por gente que pudesse compartilhar das minhas lembranças mais remotas do bairro Menino Deus, teve bom resultado. As crônicas em si, que eu dirijo ao restrito público dos meus filhos, netos e amigos próximos, teriam o destino dos natimortos, se não fosse a gentileza de meu conterrâneo e vizinho José Alberto de Souza, que habitualmente as reproduz em seu blog, e do colega Antônio Goulart, que, nesse caso transcreveu minhas reminiscências nas colunas do “Almanaque Gaúcho” em Zero Hora.
Mostrando que memórias emocionadas não são privativas deste octogenário, escreveu-me o Engenheiro Roberto Difini, colega do Curso Científico do Colégio Anchieta em 1945, para acrescentar lembranças muito vivas daquele velho Menino Deus que ambos conhecemos na infância.
Mas as lembranças dele me induziram a espichar o assunto, pois evocaram uma imagem perdida e esquecida da Rua José de Alencar, que muito importa relembrar: a Vila Esmeralda, sede de uma grande chácara que fazia fundos na Rua Costa, pertencia aos avós maternos do Roberto, João Pereira da Costa e sua esposa, casal que eu conheci e ainda conservo na memória. Assinalada por uma grande figueira e por um magnífico portão de acesso, o imóvel estaria hoje preservado como relíquia do patrimônio, não só do bairro, como da própria cidade de Porto Alegre. Ali estava um dos últimos exemplares de sede de chácara, com fisionomia autenticamente rural. Outros imóveis que resistiram à ânsia demolitória, como o solar de Lopo Gonçalves, na Rua João Alfredo, ou o sobrado da Rua Paraíso, no Morro de Santa Teresa, têm o estilo de residências urbanas.
João Pereira da Costa fora comerciante visceralmente urbano, dono da joalheria Esmeralda, na Rua de Bragança, mas sua chácara no Menino Deus conservava as características de um estabelecimento rural, quase se diria uma sede de estância. Creio que, já no início da década de 1980, um de nossos prefeitos nomeados, do período ditatorial, talvez o Thompson Flores, concebeu abrir a Rua Múcio Teixeira até a José de Alencar, disso resultando a desapropriação e demolição da Vila Esmeralda, com seu centenário e estilizado portal, mais o magnífico arvoredo. Parece que se tratava de um projeto urbanístico antigo, repetidamente adiado. Tudo para abrir uma radial tortuosa e estreita, que mais adiante se interrompe. Em lugar da chácara, numa esquina movimentada, está uma prosaica e insossa agência da Caixa Econômica. Atentado modernizante, que hoje, com melhor consciência patrimonialista e ambiental, talvez não se consumasse.
Imagino não sermos apenas nós, eu e o Roberto Difini, que lamentamos a perda da Vila Esmeralda no ambiente do Menino Deus.