
No Instituto de Cardiologia de Porto Alegre, conheci um cidadão recém safenado que me contava das agruras conseqüentes do abuso da carne gorda e do sal na alimentação. Ele nos dizia que era seu hábito saborear todas as noites com os amigos um churrasco, regado a caixas de cerveja. A princípio, o organismo tolerava razoavelmente a façanha, porém, o efeito cumulativo foi-se acentuando através de indisposições sintomáticas do coração, as quais abreviariam o seu tempo de vida, não tivesse adotado os corretivos imediatos. Gordura, sal e álcool, uma mistura explosiva.
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Frequentemente, constato essa prática arraigada entre os nossos jovens. Altas horas da noite, com o fim de prolongar um papo gostoso, eles decidem churrasquear no pátio ou na garagem da casa de um dos companheiros. E se cotizam para levantar a verba necessária que lhes possibilite adquirir carne, sal, carvão e bebidas, facilmente encontráveis em qualquer mercadinho generoso no expediente noturno. Sem pressa, ao redor do fogo, proseando e bebericando, nem sentem as horas passar até o momento de forrar o estômago.
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Na década de 70, viajei muito pelo interior de Santa Catarina e Rio Grande do Sul a serviço do BRDE e, na época, era muito comum a falta de opções quanto aos restaurantes existentes, na grande maioria churrascarias tipo espeto corrido. Sobremesa só mesmo de compota, vivia suspirando por um pudim de leite ou uma torta de requeijão. Numa cidade gaúcha, fui convidado para um churrasco que declinei, enjoado que estava da iguaria. O anfitrião achou por bem determinar à esposa que preparasse um arroz-com-galinha para este vivente saudoso da comidinha caseira. Só que esta teve de se virar numa segunda rodada, já que os demais apreciadores do assado nem se dignaram a provar do mesmo, queimando além da conta...
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Em qualquer residência, já se tornou acessório indispensável para a gastronomia dos donos de casa a instalação de uma churrasqueira completa para receber convidados em reuniões festivas. Não dá muito trabalho de se preparar um bom assado e a limpeza se processa de maneira expedita, poupando um maior esforço feminino. Que me perdoem os tradicionalistas, churrasco não tem segredo, é comida de malandro, para mim, um prato rústico, mais apropriado para servir em galpões de estância. E as vezes um costume bárbaro quando assado no couro.
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Bufê com espeto corrido a preço fixo e módico, haja desperdício, e quem se importa com o custo variável e agregado pelas bebidas. E depois se queixam de valores inflacionados, que se cortem outros itens da alimentação e se poupe a costela e a picanha como essenciais. Num mercado assim tão promissor, não admira que se tenham proliferado as churrascarias pelo mundo inteiro. Até mesmo na Índia, onde a vaca é animal sagrado, com carne importada do Brasil, já existe esse famigerado estabelecimento destinado a atender a demanda de turistas e estrangeiros.
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A pecuária de corte e a extração de madeira são hoje as grandes responsáveis pela dizimação sem controle das nossas áreas florestais, ocupando espaços indispensáveis à preservação do meio ambiente. O aquecimento global está sendo apontado como a grande consequência desse desequilíbrio ecológico que vem causando catástrofes inimagináveis à sobrevivência humana. Diante dessas evidências, atrevo-me a bradar que churrasco é droga, é praga que se alastrou pelo planeta em proporções tão avassaladoras quanto o álcool e o cigarro, gerando prejuízos imensos ao sistema de saúde com o seu consumo sem moderação.