sábado, 30 de maio de 2015

ADEMAR SÍLVIO: UM DOS PERDIDOS NA NOITE


Para mim, é sempre motivo de satisfação saber que existem pessoas como Agilmar Machado e Vilarino Wolff valorizando a sua passagem aqui por Porto Alegre e descobrindo encantos numa metrópole que pode ser destituída de atrativos turísticos, mas que tem de sobra o calor humano da sua gente hospitaleira. Pois eles me fizeram lembrar outro personagem da noite porto-alegrense que, talvez, tenham conhecido em suas andanças por aqui – nosso grande seresteiro Ademar Sílvio.
Indivíduo culto e educado, há alguns anos venho privando da sua amizade e testemunhando o seu grande valor como artista desprendido que, até pouco tempo atrás, perambulava pelos bares e casas noturnas da nossa Capital. No seu dizer, assim procedia mais por gosto que por dinheiro – “este quando aparece no bolso do cantor liquefaz-se muito rapidamente por ser pouco para matar muita sede”.
Tanta lealdade costuma dedicar a seus amigos e companheiros que não hesita em deslocar-se de um extremo a outro de Porto Alegre, quase cem quilômetros gastos na ida e volta, utilizando-se de várias linhas de transporte coletivo, saindo da sua residência situada na Zona Norte até chegar a Belém Novo, onde é sempre esperado para a reunião musical com a turma de Jorge Machado, normalmente se prolongando da hora do almoço até a janta.
Numa dessas oportunidades, esse nosso personagem não havia comparecido então, encontrava-me no bar do Getúlio, naquele bairro da Zona Sul, e escutava uma pessoa pregando a elaboração de um abaixo-assinado de todos os moradores daquele bairro para que o Ademar ali fixasse o seu domicílio, pois sentiam muito a sua ausência, impossibilitados de ouvir a sua palavra fluente de emérito contador de causos. Não é que esse companheiro de mesa dizia-se impressionado com certa aula de aviação na qual o Ademar esparramou todo o seu conhecimento da época em que tirava o seu brevê, pilotando o teco-teco Biguá!
Nesse convívio fraterno, ficamos sabendo da tremenda versatilidade desse vulto notável da nossa cultura popular, atestando a sua capacidade como conhecedor profundo da obra de Catulo da Paixão Cearense e intérprete inesquecível de Por Um Beijo – Vai, Meu Amor, Ao Campo Santo – Ontem Ao Luar, que o consagraram em suas apresentações na boate Chão de Estrelas.
Na VII Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana (1977), impõe-se o elemento negro que vence na linha de Manifestação Rio-grandense, a canção Colorada (Aparício da Silva Rillo/Mário Bárbara Dornelles), com seu timbre de voz grave alcança a força necessária para reviver uma época violenta da história gaúcha, tempo de degolas nas revoluções.
Revelou-se ainda como sambista de raiz ao enfrentar pela primeira vez um desfile de escolas, defendendo pela Academia Praiana, o samba enredo Exaltação à Janaina (José Gomes), que lhe exigiu 45 minutos cantando sem parar.

Mais ainda teríamos a falar dessa criatura – Ademar Hilário da Silva, de batismo – cujo nome artístico foi-lhe sugerido por Demóstenes Gonzáles, porém, encerramos aqui lembrando sua faceta de compositor, já tendo gravadas duas faixas com música e letra de sua autoria intituladas Eu Te Adoro e Por Causa Daquela Mulher, no CD demo Fundo de Gaveta. - (See more at: http://www.carosouvintes.org.br/a-musica-que-vem-do-sul-4/#sthash.Y4PVKkQs.dpuf)

domingo, 17 de maio de 2015

AS PENÚLTIMAS ONDAS DE CERTA NOSTALGIA


                                           

Quando da estreia do filme “Buena Vista Social Club” aqui em Porto Alegre que assisti tão entusiasmado, lá por meados de 2000, em plenos estertores do século passado, não me fiz de rogado para intimar o cantor e compositor Guilherme Braga, uma das grandes vozes da época de ouro do rádio gaúcho, insistindo para que não deixasse de apreciar essa obra prima do cine-documentário internacional.
Pois, este meu caro amigo não tardou para manifestar sua opinião, na qual enaltece a redescoberta por um produtor de discos norte-americanos, Ry Cooder, e um cineasta alemão, Win Wenders, de velhos músicos e cantores cubanos. E ao ver emocionado as cenas que mostravam aqueles velhinhos fabulosos, redivivos e exuberantes na execução de sua arte musical – alguns com mais de oitenta anos de idade –, identificava-se durante a projeção, com aqueles personagens, pela semelhança com sua própria vivência como ex-cantor já conformado com o ostracismo, mas ainda capaz de sonhar com o milagre de um reencontro com o público e com ex-companheiros.
E assim recomendava a todos que ainda não tivessem assistido a essa fita emocionante, para não deixarem de vê-la. E todos que a viram, soubessem que aqui no Brasil, aqui em Porto Alegre, neste Sul do Mundo, existiam outros velhinhos com muito talento, capazes de reeditar grandes sucessos numa versão local de Buena Vista Social Club, que bem poderia se chamar Maipu, Marabá ou American Boite. Só faltando um Ry Cooder e um Win Wenders, produtores de talento e arrojo para bancar o espetáculo em grande estilo. (Da mensagem de Guilherme Stone Braga para José Alberto de Souza, em 5 de junho de 2000).

Apenas Guilherme deixou de fazer referência a algumas tentativas de revival em nível de Buena Vista ocorridas aqui neste Sul do Mundo, das quais inclusive teve participação destacada como no espetáculo “REENCONTRO (O show tem que continuar)”, levado a efeito em 16 de outro de 1991, na antiga Boite Le Club. Ao lado da eterna Rainha do Rádio Maria Helena Andrade e do saudoso astro Fernando Collares, com acompanhamento de Paulo Santos (violão/guitarra) e de Celso Lima (teclado), sendo apresentados pelo veteraníssimo Ary Rego, fez valer a mensagem – A gente precisa se reencontrar / Com os amigos / Com os músicos / Antes que tudo passe / Com a alegria de viver – inserida no convite. Este Reencontro voltou a ser levado à cena em 10 de julho de 2002, sob a direção de Silvana Prunes, ora com participação especial dos cantores Roberto Gianoni e Jussara Souza, dos bailarinos Paulo Pinheiro e Lisiane e mais os músicos José Moacir Vidal (teclados), Salvador Touguinha (guitarra), Wilmar Neto (baixo) e Dé Ribeiro (bateria).

Nesta ocasião em que alguns integrantes do Buena Vista se apresentaram a 13 do corrente, no Auditório Araújo Viana, com “Adiós Tour”, sua despedida de mais de mil turnês artísticas pelo mundo, permito-me a conjecturar: 1º) Ry Cooder precedeu Barak Obama na aproximação de Estados Unidos com Cuba; 2º) esse grupo musical desempenhou um papel de resistência pacífica tipo Gandhi e Mandela (afinal com sua atitude diplomática, eles atraíram a atenção mundial para o sofrido povo cubano), digno de merecer um Prêmio Nobel da Paz; 3º) Sem dúvida, Buena Vista Social Club merece o reconhecimento da UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade.