sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O PÃO DORMIDO DE UMA CRÔNICA

Apesar da virada dos quatro dígitos, ainda não havíamos chegado ao Século XXI nem tão pouco ao Terceiro Milênio. Porém o fascínio que nos causou trocar o 1 pelo 2 e os três 9 pelos três 0, tinha algo de místico e profundamente revelador. De repente, parecia que despertávamos de um sono letárgico e nos dávamos conta das grandes transformações que ocorriam no mundo em que vivíamos. Dos mais idosos aos mais jóvens, cruzando os limiares de 2001, logo iríamos carregar a pecha de haver nascido no século passado.
Quantos de nós deixamos de perceber a gradativa evolução arquitetônica de nossas cidades? Ainda existiam essas relíquias tombadas pelo patrimônio público como registro de uma época de fausto. Assim, podia-se constatar o alto pé-direito daquelas edificações, as vigas de madeira tosca a sustentar o assoalhado dos pisos superiores. Ou então as artísticas fachadas com ornamentos cuidadosamente executados, portas e janelas refletindo a ostentação de uma riqueza concentrada nas mãos de poucos. Estruturas de ferro e aço, o concreto das lajes, formas buscando a funcionalidade, o ar condicionado, o elevador, provocavam revisão de conceitos no projeto de prédios atualmente mais despojados.
Até meados daquele século, os objetos pareciam relutar em se tornar peças de museu. Geralmente tinham a sua serventia situada desde um passado distante. E eis que chegávamos a civilização do consumismo desenfreado, do obsoletismo programado. E ai começávamos a fazer arqueologia em recentes depósitos de lixo, dos quais se extrairiam desde radinhos de pilha até computadores e calculadoras eletrônicas, resultantes da revolução que a nanotecnologia ocasionava na compactação desses aparelhos.
Quantos de nós, já arqueados pelos anos, ainda não revivíamos aqueles tempos em que possuir uma geladeira dava status a seu proprietário? Em que teimávamos, década de quarenta provavelmente, mantendo os “frigoríficos”, móveis de madeira de lei, revestidos internamente com folhas-de-flandres, onde se gelavam e conservavam bebidas e alimentos, juntos a barras de gelo. Essas adquiridas em fábricas funcionando anexas a usinas elétricas com geradores acionados pelo vapor resultante da queima de carvão nas caldeiras.
Os antigos filmes americanos já nos mostravam as primitivas televisões que surgiam no mercado ianque, um inacessível sonho para nós brasileiros que não demorou muito para se concretizar – essa majestade que determinava a derrocada do rádio e do cinema, trancando as pessoas em casa com drástica mudança de costumes. As visitas perdiam a sua razão de ser...
E ainda permanecia fresca em nossa memória a lembrança do telefone de manivela com bocal fixo e terminal de escuta que se levava ao ouvido, solicitando-se o número desejado à telefonista na Central para aguardar com o fone no gancho que fosse completada a chamada... Então engavetávamos esse texto com receio de que fossem dizer que havíamos começado a “recordar a História, nem era preciso ensinar”.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Como me tornei projeto em Valinhos

Ao abrir minha caixa postal na noite de ontem, deparei-me com uma mensagem cujo assunto me despertou bastante a curiosidade – Projeto José Alberto de Souza. Tratava-se de um link do portal “Projeto Letras e Artes Horácio 2011” (http://projetoletrasearteshoracio2011.wordpress.com/2011/12/17/projeto-jose-alberto-de-souza/#comment-162), que reúne criações literárias e artísticas dos alunos dos 7ºs anos de 2011, do Ensino Fundamental da EMEB Horácio de Salles Cunha, em Valinhos, SP, sob a coordenação das professoras Clarice Villac, de Língua Portuguesa, e Leila Rangel, de Artes.
O projeto consistiu em sortear entre os alunos do 7º. Ano B os dois livros de minha autoria que enviei para a Escola, onde cada um deles, após a leitura dos mesmos, deveria apontar o texto que mais lhe agradou a ser lido para toda classe comentar a respeito e assim sucessivamente procedendo-se novos sorteios, os quais resultaram numa atividade bastante envolvente e motivadora de trabalhos bem elaborados.
A Profª. Clarice Villac que muito me honra com sua presença em meu círculo de amizades virtuais, notadamente como seguidora deste nosso modesto blog, atuou como revisora da coletânea “Varal Antológico”, organizada pela escritora Jacqueline Bulos Aisenman, natural de Laguna-SC e residente em Genebra (Suiça), e teve a generosidade de comunicar a Jacque sua apreciação sobre o “Velho Chateau Daqueles Rapazes de Antigamente”, com o qual participei daquela obra, opinião que me foi transmitida em 14,02.2011 pela ilustre lagunense. Através de rastreamento na Internet, acabei descobrindo o endereço eletrônico da Profª. Clarice e assim agradeci sua atenção.
Logo depois, resolvi lhe enviar “Lá Pelas Tantas” e “Para Não Dizerem Que Passei em Brancas Nuvens”, títulos de minha autoria. Desta forma, fiquei conhecendo a moça idealista com notável atuação nas áreas pedagógicas e ambientais, uma persistente semeadora de valores humanísticos em sua comunidade, como pude constatar não só através de “Cantinho Literário” e “Ponto de Luz”, portais que edita com brilhantismo na Internet, como também das virtuosas atividades que vem desenvolvendo em sua Escola.
Palavra que não esperava essa tremenda repercussão alcançada junto a um jovem público que me analisa detidamente e externa espontaneamente seus qualificados comentários. Impressionou-me sobremaneira o entusiasmo com que levaram a cabo suas tarefas, fruto do carinho e paciência com que são orientados para futuramente exercerem com dignidade a sua cidadania. As duas mestras, Clarice e Leila, são bem uma mostra da abnegação dessa briosa classe dos educadores, ainda não suficientemente valorizada em nosso país.
A utilização da ferramenta informática em sala de aula demonstra bem a importância da interatividade entre professores e alunos que assim podem trocar idéias e enriquecer conteúdos didáticos, estabelecendo bases sólidas para um melhor rendimento através de um aprendizado rico de saber humanístico.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Parceiro Vado Medeiros na "sobreloja"

Contemporâneo de Pedro Bartholomeu Ribeiro (Tutuca) no Ginásio Estadual de Jaguarão, eu ficava abismado com a sua verve em composições musicais que produzia a torto e direito, sem se importar com o destino que elas tomariam. Quando muito apresentava as mesmas através de performances beneficentes do Conjunto “O Ginasiano”, na época composto por ele, Luiz Fernando Cassal, Eulálio Delmar Faria (Pato) e mais os saudosos Luiz Carlos Silveira (Bode), Oscar Godofredo Porciúncula (Porraço) e Luiz Elder Franco, inclusive tinha o samba “Trovejou, Relampeou”, de sua autoria, como característica musical do grupo.
Eu não me conformava com tanto talento desperdiçado e tentava convencer “Tutuca” a encarar melhor a divulgação de sua obra, mas ele Pedro Bartholomeu sempre me contestava com a demasiada mão de obra que lhe custaria investir nessa empreitada, não valia a pena. E ai eu, nulidade em qualquer ritmo, meti-me a querer provar como não seria tão difícil assim. E comecei a cantarolar alguns versinhos que me vieram à mente, saiu “Boa Noite, Alegria”. Depois numa viagem naqueles ônibus antigos da Fréderes, que rangiam com as “costeletas” da estrada de terra, comecei a escutar uma melodia naquela barulheira, “Seu Boa Piada”...
Um belo dia, enchi-me de coragem para apresentar esses “pecaditos” ao notável instrumentista de Jaguarão, Oswaldo Emílio Medeiros, nosso querido Mestre Vado. Voz de taquara rachada, ritmo precário, fui “largando a franga”. Ele me pediu que parasse, obedeci envergonhado. Ele pegou um pedaço de papel, riscou algumas pautas, apanhou o “surrado” clarinete de palhetas amarradas com barbante, deu uma ligeira afinada e me ordenou “canta de novo”, “para”, solava aquela coisa e depois escrevia as notas na modesta partitura. Canta, para, toca, anota e assim fomos indo. Em questão de minutos, as partituras estavam prontas.
“Quanto é, Mestre Vado?” De jeito nenhum quis me cobrar. Disse-lhe então que dali em diante o apresentaria como parceiro. Aceitou relutante, pois queria me convencer de que tinha passado para o papel aquilo que lhe transmiti. Na ocasião, recomendou-me que procurasse o professor Alcebíades Lino de Souza, pianista jaguarense, diretor do Conservatório Musical de Pelotas, para fazer o arranjo para piano e o desenho da partitura. E lá fui numa “via-crúcis” danada, dando cabeçadas de tudo que é jeito. Estabeleci meus primeiros relacionamentos no mundo musical e terminei editando a partitura definitiva e encalhada daquelas músicas.
Em 2002, produzi “Fundo de Gaveta”, CD/Demo reunindo parceiros e intérpretes para compilação de tudo aquilo que resultou dessa nossa jornada e ali registrando o samba “Boa Noite, Alegria” e a marcha “Seu Boa Piada”, ambos com música de Oswaldo Emílio Medeiros e letra de José Alberto de Souza, com muita honra. Pouco tempo depois, estive jantando numa churrascaria da Coxilha/Uruguai, onde me juntei aos amigos Cláudio Rodrigues, Newton Silva e Arnoni Lenz, para entregar essa modesta gravação aos companheiros “Tutuca” e Vado Medeiros, integrantes daquela coletânea.
Hoje sou surpreendido pela matéria “Jaguarão está de luto: faleceu Mestre Vado” postada em http://confrariadospoetasdejaguarao.blogspot.com/2011/12/jaguarao-esta-de-luto-faleceu-mestre.html?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+blogspot%2FmhyBLf+%28Confraria+dos+poetas+de+Jaguar%C3%A3o%29 e, pesaroso, estou publicando este meu depoimento sobre um ilustre conterrâneo, personalidade ímpar da nossa cultura popular, de grande contribuição a tantas orquestras e conjuntos regionais que se formaram em Jaguarão e Rio Grande, aonde chegou a acompanhar consagrados cantores do cenário nacional. Acredito que São Pedro deve estar recebendo-o de braços abertos ouvindo:
“Seu Boa Piada,
Seu Boa Piada,
conte mais uma,
bem bem engraçada,
daquelas que o senhor,
dizer sempre costuma...”

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Reflexões sobre a incrível efemeridade



Dei uma circulada pela ancestral cidade e constatei uma gradativa perda de referência. Senti bastante a falta daqueles amigos que tomaram outros rumos, alguns deles partindo para outros planos. Até os antigos pontos de encontro já não existiam mais, substituídos por acanhados recintos que mal acomodavam os remanescentes daqueles bons momentos ali vivenciados. E agora aquele resistente boteco se tornava recanto tradicional, onde achávamos algumas caras vincadas diuturnamente que ainda podíamos reconhecer e assim compartilhar de um papo afável regado com o cafezinho da casa ou a água mineral servida bem geladinha para espantar a rouquidão das cordas vocais. 


Pouquíssimos conhecidos me reconheciam e eu não conseguia me lembrar das suas antigas figuras, hoje mais barrigudos e de cabelos grisalhos. “A quem devo a honra de me dirigir?” – era minha constrangedora saída para me situar num distante espaço de tempo. Alguns, mais afoitos, que não sentiam os anos pesando em suas costas, não deixavam por menos e me provocavam: “Mas tu ainda estás vivo!”. E eu tinha que bater três vezes com a mão em qualquer pedaço de madeira para tirar o pé da cova... De repente, gritavam meu nome e eu olhava para um lado e para outro e só via aquelas damas todas eufóricas. “Qual delas?” – me inquiria apelativo. 

À noite, andando por aquelas ruas repletas de passantes desconhecidos, julgava-me como um espectro que tudo vê e não é visto, a enxergar os vultos difusos das minhas lembranças, passado que teimava por não ser esquecido. Saudava-os como nas noites em que, na saída do cinema, respeitosos casais caminhavam lépidos tentando aquecer os corpos açoitados pelo vento hibernal e desprotegidos apesar das grossas vestimentas, na direção da cafeteria mais distante para o choque térmico do chocolate quente. Mas eles também não me avistavam nem respondiam ao cumprimento como se eu fosse um fantoche das próprias ilusões. 

Também andei passeando nas alamedas da minha aldeia de saudades eternas. Naquelas pedras frias e tristes, os retratos amarelecidos pareciam me contemplar através de um limiar imaginário. Pacientes, eles sempre esperavam a minha chegada, querendo me agradecer pelas piedosas orações. Esta energia que emanava do infinito estabelecia uma espécie de comunicação com aqueles entes queridos. Ali estavam as profundas raízes desse tronco que ainda permanecia de pé e se ramificava em outras gerações. A nossa capelinha se mantinha cuidada e pronta para o ornamento reverencial das flores como eu gostaria que continuasse quando ali fosse conduzido. 

Pois esta minha imersão nesse mundo de outrora me fazia refletir sobre a efemeridade da vida, de memoráveis instantes que não se eternizam. De hora em hora, a necessidade nos impele a profundas transformações, a nos adaptar a novos comportamentos ditados pelo aqui e agora. Assim como antigas células de qualquer organismo dão lugar a outras mais novas num processo constante de renascimento, também nosso entorno submete-se a severas mudanças. A mãe Natureza sempre procura nos alertar e preparar para esse ciclo irreversível de plantio/germinação, crescimento/maturidade, colheita e letargia. Até mesmo o progresso implacável contribui para o supremo desígnio do Universo.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Pacto não revelado de articuladores (II)

Até que a orquestra parou para o intervalo de descanso dos músicos. Chamaram então Mercedes Ruiz para mais uma apresentação e ela se dirigiu ao palco, enquanto Hilário voltava para a mesa dos amigos. Estes já tinham sido alertados pelo garçom de que estavam sendo aguardados na saída pela turma do namorado ciumento da cantora. (continuação) E, para não sofrerem agressão, recomendava que se retirassem pelos fundos da casa, onde teriam um carro disponível. Embora contrariados, Hilário e os outros foram saindo discretamente de seus lugares para embarcarem no taxi que os conduziria ao hotel em que estavam hospedados.

De volta à sua cidade, Hilário mandou às favas todas as regalias do grupo, retornando aos antigos hábitos de total despreocupação com o futuro. Confiava então mais no taco que lhe prendia todas as noites no "snooker", respirando passivamente o ar viciado da fumaça do cigarro. E os amigos já não sabiam como proceder para livrá-lo dessa recaída em sua auto-estima, pois Hilário se refugiara na vidinha inexpressiva do pó-de-giz e da “cuba libre” para passar o tempo. Já se decorriam alguns meses quando aconteceu o inesperado: chegou um mensageiro em seu habitat noturno, dizendo que tinha alguém precisando falar com ele no principal hotel.

Hilário, educado como era de seu feitio, atendeu o chamado, acompanhando aquele mensageiro que o conduziu até uma das mesas do restaurante anexo ao hotel. Esperava-o Mercedes Ruiz que o convidou para jantar. Ela descobrira o seu paradeiro e viera até ali somente para colocar em pratos limpos o incidente de Buenos Aires. Explicou que há tempos vinha tentando dar um basta nas encrencas daquele namorado e só agora providenciara numa medida judicial que proibia a sua aproximação dentro de certa distância. Assim, ela lamentava o que acontecera à sua revelia, tentando reatar promissores laços de amizade entre os dois.

O fato despertou a curiosidade dos antigos amigos para saber o desfecho do romance, sendo frustrados ante a discrição e o sigilo dele e apenas constatando diferentes rumos seguidos pelos personagens visados. Mas esse conceito sentimental de Hilário se alastrou entre a população feminina da cidade e além fronteiras, assediado e disputado ferrenhamente por uma concorrência sem tréguas. Ele se via constrangido, pura amabilidade, ao manifestar seu desinteresse por qualquer uma das pretendentes sem deixar um rasto de esperança. Hilário despistava-as por roteiros alternativos até chegar naquele seu tranquilo refúgio das noitadas.

Na espreita, ainda continuavam os velhos companheiros, dispostos a obrigar Hilário se definir por uma posição de vanguarda. Eles vislumbraram uma mulher ideal e possível de interessar ao “escorregadio”... Era Leninha, filha única de um estancieiro, dotada de beleza inebriante, também esquiva e exigente com seus admiradores. Estes "cupidos" tramaram então forjar encantadores bilhetinhos a um e outro, manifestando discreto desejo de se conhecerem. Chegados a seu destino, foram o primeiro passo para aproximar Hilário de Leninha. Daí aquela brincadeira inocente evoluiu para o compromisso definitivo que selaria a união desses “pombinhos”...

Hilário logo se tornou o principal assistente do sogro, introduzindo algumas modernas técnicas de manejo no campo. Enfim assumindo funções de pessoa séria e responsável. Mais maduro, entusiasmava os pais de Leninha a ponto de o considerarem como o filho que Deus tinha dado a eles por mera afinidade. Anos a fio, manteve-se o pacto nunca revelado pelos articuladores.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O pacto não revelado dos articuladores

Moço respeitador, useiro e vezeiro nos bons modos, fazia bem o tipo do genro ideal para as mães de filhotas encalhadas. De futuro indefinido, morava com duas tias solteironas que o sustentavam e faziam todas suas vontades só para ter sua companhia garantida. Hilário nem precisava trocar a sua vida boêmia junto com os amigos por qualquer convívio familiar. Adorava impregnar as mãos com o pó do giz dos tacos de sinuca e praticar as tabelas para atingir a bola da vez. Os aperitivos sem conta não lhe apeteciam, pois não era de muita bebida, Quando muito uma “cuba libre”, o suficiente para passar o tempo e aproveitar melhor a noite.

Useiro e vezeiro nas boas maneiras, essa era a qualidade que o diferenciava entre seus companheiros, além do porte espadaúdo e do apuro no modo de vestir as roupas simples. Ocioso durante o dia, ocupava esse tempo com a leitura dos jornais que ilustravam sua cultura, agregando inúmeros conhecimentos que passava a dominar com toda segurança. O bom papo era seu forte ao se introduzir nas rodas da alta burguesia, onde era bem recebido e qualificava o grupo nas acaloradas discussões de temas polêmicos. Não havia quem não quisesse tirar proveito das potencialidades de Hilário e até encarar o desafio de investir na sua formação.

Para tanto, teriam de convencê-lo, passo a passo, sem que ele percebesse o afastamento de sua ingênua irresponsabilidade. Esses companheiros passaram então a massagear o ego de Hilário, provocando-lhe o surgimento de um despercebido sentido próprio de importância. Depois a segunda etapa da estratégia que consistiria em oferecer aval para que comprasse a crédito as vestimentas mais finas e elegantes a fim de circular com desenvoltura na alta sociedade. Que não se preocupasse em pagar, eles garantiam. E foram envolvendo Hilário de forma que nenhuma contestação houvesse quando ficasse bem integrado no seleto grupo.

Hilário passou a ser carregado nas incursões planejadas pela patota, sua presença se tornava cada vez mais indispensável em qualquer situação. Evidenciava-se o seu carisma como chave que abria portas inacessíveis. Lá se ia ele por esse mundo afora, usufruindo as benesses do seu talento, eminência parda que dava lustro aos seus companheiros. Estes cada vez mais convictos do acerto em cada centavo investido nesta imperceptível consultoria. Hilário crescia, todos cresciam juntos, não raro despertando bastante atenção por onde passassem. Eles eram alegres, simpáticos e, com impressionante facilidade, sempre cativavam novos amigos.

Certa ocasião, estavam assistindo um espetáculo de tango em El Viejo Almacén, quando se aproximou deles uma cantora que recém tinha apresentado seu número e pediu licença para sentar àquela mesa. Imediatamente, Hilário puxou uma cadeira, acomodando-a para a dama. Em conversa animada, pareciam velhos conhecidos festejando algum reencontro. Não demorou muito para que ela lhe sugerisse uma contradança que ele aceitou sem qualquer receio. Pois era da fronteira, já acostumado com os ritmos das típicas portenhas. Encantados um pelo outro, nem se deram conta desse tempo quase eterno em que estavam juntos...

Até que a orquestra parou para o intervalo de descanso dos músicos. Chamaram então Mercedes Ruiz para mais uma apresentação e ela se dirigiu ao palco, enquanto Hilário voltava para a mesa dos amigos. Estes já tinham sido alertados pelo garçom de que estavam sendo aguardados na saída pela turma do namorado ciumento da cantora. (continua)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A exata transvenção da Estante Pública

Não faz muito tempo – creio que por iniciativa de alguma empresa publicitária – foram instalados em Porto Alegre abrigos em paradas de ônibus com proteção lateral de material plástico e iluminação interna para veiculação de propagandas. O que se presumia como uma parceria do poder estatal com a intenção de proporcionar conforto aos usuários do transporte público acabou se tornando um transtorno face a ação de vândalos que infestam a nossa Capital, depredando todo e qualquer equipamento urbano necessário ao bem estar da comunidade e até desestimulando a sua pronta recuperação.
Essa proteção lateral consistia de um quadro metálico com a moldura inferior elevada a uns 40 centímetros do solo, revestido com painéis de plástico reforçado para propaganda, todos eles destruídos, restando hoje apenas a estrutura abandonada. Apesar da Prefeitura Municipal já ter providenciado na substituição de alguns desses abrigos por instalações mais simples, no entanto ainda se nota a existência dos mesmos em várias paradas de ônibus, constituindo sério risco para muitas pessoas que, distraídas, acabam levando “formidável rasteira” conforme presenciei dia desses um cidadão estatelar-se na calçada por descuido próprio.
Na semana seguinte, ao passar pelo local situado na Avenida Getúlio Vargas, entre as transversais Ganzo e Visconde de Herval, constatei o fechamento daquele quadro com madeira compensada, constituindo mais uma estante de livros de outras mais já instaladas por diversos bairros da cidade, em decorrência de um moderno conceito sobre “transvenção” (http://estantepublica.com.br/site/). Com essa proposta de intervenção cultural no meio ambiente pela comunidade, ameniza-se assim um problema de segurança para a integridade física do individuo gerado por incúria do poder público.
Ano passado, fui vítima de um desses acidentes no abrigo situado em frente ao Shopping Praia de Belas, que me ocasionou uma queda seguida de bater com a testa no solo, sendo socorrido por um dos seguranças daquele estabelecimento e levado ao ambulatório da Unimed ali situado e depois conduzido de ambulância ao Hospital Mãe de Deus, onde fui atendido e fiquei em observação, por mais de duas horas, até ficarem prontos os exames procedidos (tomografia, etc.). Na ocasião, foi feito levantamento fotográfico do local para ser encaminhado à Secretaria Municipal de Transportes, que até o momento nada providenciou.
Neste mundo conturbado em que vivemos atualmente, conforta-nos saber da existência de pessoas civilizadas e dispostas a dar o seu quinhão de solidariedade em prol do bem estar do seu semelhante, apoiando um nobre projeto de participação coletiva de Nomad Ind inscrito na Fundação Nacional de Artes, onde foi contemplado com a Bolsa de Estímulo à Criação Artística em Artes Visuais. Evidente que o êxito do empreendimento vai depender de uma atitude colaborativa, porém, se mantidas intactas as estruturas remodeladas, ao menos serão evitados graves acidentes pessoais nessas paradas de ônibus.

sábado, 12 de novembro de 2011

ENFIM DESVENDADO O MISTÉRIO!!

Nesta última quinta-feira, estive na concorrida sessão de autógrafos do jornalista da Rádio Guaíba, Marcello Campos que estava lançando, na 57ª. Feira do Livro de Porto Alegre, “Minha Seresta – Vida e Obra de Alcides Gonçalves”. Na ocasião, tive oportunidade de rever velhas e novas amizades como a conterrânea Dª. Ema Peña Gonçalves, viúva do biografado; Fernando Rozano e Lúcia Jahn, editores da obra; Izabel L’Aryan e Ayrton Pimentel, dirigentes do Sindicato dos Compositores do R.G.S.; os irmãos Guilherme e Gilberto Braga, antigos cantores do nosso rádio; o pianista Paulo Pinheiro e os escritores Luiz Arthur Ferrareto (“História do Rádio no Rio Grande do Sul”) e Paulo César Teixeira (“Darcy Alves – Vida nas Cordas do Violão”).
Através desse último fiquei sabendo que, ao folhear a obra, se deparou com a letra de uma música incógnita gravada por Alcides Gonçalves, reconhecendo-a como sendo aquela intitulada “Porto Sol”, de autoria do seu pai Luiz Osório, o “Barão”, editor do jornal alternativo “Krônica” desta Capital, falecido em 2008. Paulo César me revelou ainda que era vizinho de Marcello Campos e que não tinha conhecimento do esforço infrutífero empreendido nessa pesquisa, concorrendo assim para que permanecesse a aura de mistério até a publicação de “Minha Seresta...” por uma incrível ironia do destino.
Em 2008, publiquei no portal “Caros Ouvintes”, de Florianópolis, três artigos intitulados “Lá se vão 21 anos sem Alcides Gonçalves” e “A Gravação Misteriosa de Alcides Gonçalves”, relatando todo o nosso périplo na procura de esclarecimentos, desde a surpreendente descoberta de uma gravação de Alcides Gonçalves que encontramos em antigas fitas de rolo do acervo do companheiro de noitadas inesquecíveis – Paulo Antônio Coimbra Bastos – grande cantor apenas conhecido daqueles mais íntimos, assim evitando o grande público. Um som impecável na cópia para CD foi obtido pelo técnico Paulo Roberto, da gravadora ACIT.
Nessa fita constavam as faixas: 1) “Alto da Bronze” (Plauto Azambuja/Paulo Coelho); 2) “Cidade Baixa” (Alberto do Canto); 3) “Minha Cidade” (Lupicínio Rodrigues); 4) “PORTO SOL” (LUIZ OSÓRIO); 5) “Porto dos Casais” (Jayme Lubianca); 6) “Praça Quinze” (Alberto do Canto), e 7) “Correio do Povo” (Alberto do Canto). Com exceção de “Minha Cidade” captada na voz do próprio Lupi, as demais melodias foram interpretadas por Alcides Gonçalves. Em contato com Alberto do Canto, prontamente reconheceu as músicas de sua autoria, apesar de não ter se lembrado da existência dessa fita. Também Jayme Lubianca ignorava essa gravação de “Porto dos Casais”. E nem mesmo Lupinho conhecia a melodia original de “Minha Cidade”.
Lupicínio Rodrigues Filho até me contou que fora procurado pela cantora Naura Elisa para obter a partitura de “Minha Cidade” a fim de incluí-la no CD que estava gravando. Procurando atender o prometido pelo velho Lupi, esse seu filho teve de se valer de vários fragmentos da canção conhecidos por alguns artistas para montar as cifras correspondentes. Inclusive, o arranjador de Naura, Marco Farias, chegou a declarar que seria bem mais fácil seguir o original.
Paulo César Teixeira também me falou que só tinha ouvido a música de Luiz Osório num acetato gravado na própria voz do “Barão”. Ontém, acabamos trocando figurinhas quando lhe mandei o áudio dessa “gravação misteriosa” e os textos postados em Caros Ouvintes e ele me repassou gentilmente uma foto do seu pai da época em que atuava como radialista do turfe, além de imagens que escaneou das páginas datilografadas com data de 9 de setembro de 1971 que comprovam plenamente a autoria e o título de “Porto Sol”. Dessa maneira, podemos encerrar as “árduas investigações” que pareciam não ter deixado rastro...

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A impercebida beleza desta rica fachada

Estivemos em Jaguarão na semana em que caiu o Dia de Finados. Lá fomos reverenciar nossos ascendentes, no mausoléu da família recentemente reformado, onde se encontram depositados os restos mortais de minha mãe, meus tios e tias e avós paternos. Ficamos hospedados, eu e a esposa Gislaine, no Hotel Sinuelo, situado entre os dois clubes tradicionais da cidade, e presenciamos a intensa movimentação de público assistindo o escoramento das paredes da Associação Cruzeiro Jaguarense, em decorrência de rachadura nas mesmas que ocasionaram o desabamento do teto do prédio, com terrível estrondo (http://confrariadospoetasdejaguarao.blogspot.com/2011/11/telhado-do-clube-jaguarense-desaba-e.html?showComment=1320598630252#c4608751447392870147.
Felizmente não houve qualquer dano pessoal, coincidentemente quando se encontrava fechado esse clube devido a data consagrada aos mortos. Na ocasião, estávamos almoçando no Restaurante La Fogata, da localidade fronteiriça da Coxilha, no Uruguai, acompanhados das sobrinhas Ana Lecy e Vera Lúcia Souza Pacheco, além do esposo desta Carlos José Azevedo Machado e seus filhos Vinicius e Érico. Apenas voltamos ao Hotel após aquele fato consumado. La Fogata é um estabelecimento simpático e acolhedor, de fartas opções no cardápio, que nos pareceu no momento sem comparações similares aos do outro lado do rio Jaguarão.
A notícia do deterioramento da sede do Jaguarense, cuja fachada já fora tombada pela municipalidade junto com outras edificações do entorno da Matriz do Divino Espírito Santo, atualmente interditada (http://confrariadospoetasdejaguarao.blogspot.com/2011/11/matriz-do-divino-pede-socorro.html), repercutiu até em Brasília, chegando a Jaguarão técnicos do Iphan para avaliar os destroços. Acompanhei em alguns portais os comentários dos leitores, a maioria deles inconformados com a situação e apontando responsabilidades para os dirigentes do clube, estes abnegados que vem resistindo há tempos com as minguadas arrecadações das mensalidades resultantes do contínuo esvaziamento do seu quadro social.
Jaguarão é uma cidade que está sendo tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional em virtude do seu conjunto arquitetônico eclético, um dos melhores conservados do país. Portanto, são edificações com mais de cem anos de existência, cuja manutenção deve onerar bastante a seus proprietários sem que haja uma justa valorização de seus imóveis. No entanto, constata-se uma grita geral pela demolição de prédios tradicionais como o Hotel Suzini (Aliança) que deu lugar ao Sinuelo, da antiga sede do Banrisul e da residência do Sr. Mário Bretanha (Banco do Brasil). E mesmo com o incêndio do Café do Comércio, substituído pelo “Caixão Econômico" Federal.
Porém, já que se fala de algumas coisas tristes, devemos salientar um fato positivo que vem ocorrendo bem diante do nariz de todos jaguarenses, os quais nem se dignam a perceber. Para mim, foi uma grata surpresa constatar a caprichada restauração da fachada do Clube Instrução e Recreio, cujas fotos acima reproduzidas me foram gentilmente enviadas pela turismóloga Elisângela Costa Barcellos, as quais demonstram a mais bela de todas as frentes da cidade, em minha opinião. Causou-me toda essa admiração, ao comparar o desapontamento que tive anteriormente com as infelizes intervenções naquela frontaria, agora corrigidas.
Quando passei em frente ao Instrução e Recreio, encontrei ali o empreiteiro Danilo Casciano Pinto, orientando os últimos acabamentos na pintura daquela fachada, e não me furtei a cumprimentá-lo por seu artístico trabalho. Então, ele me informou que a obra se completava após a reforma interna procedida no assoalho e no teto do salão de bailes, sem auferir um único centavo de qualquer ajuda oficial. Também me falou da parceria com o presidente do clube, Sr. Francisco Carlos Mattos da Cunha, que tornou possível vencer esse desafio de continuar proporcionando entretenimento para os assíduos frequentadores.

domingo, 6 de novembro de 2011

UM SAUDOSO ALCIDES GONÇALVES

57ª Feira do Livro
Editora da Cidade / Secretaria Municipal da Cultura
Sessão de Autógrafos
10 de novembro de 2011 (quinta-feira) • 18h30min
Praça Central de Autógrafos da Feira do Livro
Em 2007, o jornalista Marcello Campos, da Rádio Guaíba, lançou obra Intitulada “Week-End no Rio” que abordava os cinqüenta anos de atuação do Conjunto Melódico Norberto Baldauf. Na ocasião, passei-lhe informação de que no ano seguinte deveria se comemorar o centenário de nascimento de Alcides Gonçalves, um dos maiores ícones da nossa música popular.
Cantor, pianista e compositor, projetou-se como parceiro do notável Lupicínio Rodrigues. A bem dizer, o grande responsável pelo surgimento desse último no meio musical, ao registrar sua estréia na produção fonográfica – “Triste História” e “Pergunta A Meus Tamancos” em 78 rotações, datada de 3 de agosto de 1936, as quais se sucederiam clássicos do nosso cancioneiro como “Cadeira Vazia”, “Castigo”, “Maria Rosa”, “Quem Há de Dizer” com inúmeras gravações nas vozes mais consagradas da MPB. Suas principais criações estão registradas nos LP's “Cadeira Vazia” (1977) e “Pra Ela” (1981).
Pois agora, Campos anuncia mais um título de sua autoria – “Minha Seresta – Vida e Obra de Alcides Gonçalves” – lançamento da Editora da Cidade / Secretaria Municipal de Cultura, coroando um árduo trabalho de pesquisa em jornais da época, além de coletar fotografias antigas em valiosos acervos, afora entrevistas de contemporâneos, as quais lhe permitiram reconstituir pacienciosamente a rica passagem dessa personalidade que se confunde com a própria história do rádio gaúcho.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

ATINGIMOS MARCA EMBLEMÁTICA

Através desse mural, apresentamos a todos aqueles que nos distinguiram com seus comentários nossa mais sincera gratidão e o reconhecimento pelo estímulo que nos permitiu alcançar essa almejada meta.
***************
Jacqueline Aisenman - Angelo Alfonsin - Luiz Carlos Amorim - Edemar Annuseck
Valesca de Assis – Cláudia Ávila - Pedro Fagundes de Azevedo - Zilda Azevedo
Elias Barbosa - Luiz Antônio Barros - Aguinaldo Loyo Bechelli - Marilia Benitez
Diná Schultz Bernardi - Gilberto Stone Braga - Guilherme Stone Braga
Aline Brasil - Luiz Antônio de Assis Brasil - Corálio Bragança Pardo Cabeda
Carlos Roberto Campos - Marcello Campos - Nelson Casarotto Filho - Mauro Castro
Hunder Everto Corrêa - Luiz Mauro Pinto Costa - Lucia Cuervo - Franklin Cunha
Cladistone Arruda Dias - Rosângela Dorneles - Gilmar Eitelwein
Eulálio Delmar Faria - Sandra Fonseca - Sérgio da Costa Franco
Luiz Carlos Beiler de Freitas - Marcio Gobatto - Martim Cesar Gonçalves
Wenceslau e Alda Gonçalves - Jerônimo Jardim - Ernani Moraes Kurtz
Izabel L’Aryan - Stella Maris Faracco Ferreira Leão - Ubiratan Lustosa
Agilmar Machado - Carlos José de Azevedo Machado - Jane Alice Machado
Jorge Petinatto Madureira - Elinka Matuziak - Ronaldo Nieto Mendes
Maria de Fátima Barreto Michels - Alcides Carlos de Moraes - Eduardo Nadruz Filho
Sidnei Nascimento - Zuleide Nascimento - Fernando Neubarth
Alberto Marczak Oliveira - Helena Ortiz - Hilda Terezinha Souza Pacheco
Vera Lucia Souza Pacheco - Jorge Luiz Passos - Walnélia Corrêa Pederneiras
Renato Albano Petersen - Anésia Pereira Reis - Ellen Tanger Reis - Glênio Reis
Rosy Reis - Quênia López de Resem - Adilson Rodrigueiro - Catia Rodrigues
Fernando Rozano - José Paulo Sabbado - José Brignol Sanchez
Icléia Inês Ruckhaber Schwarzer - Antunes Severo - Gerson Sicca
Isabel Porto da Silva - Maria Luiza Silva - Laerte Antônio e Silva
Sérgio Souza Amaro da Silveira - Diasper Lucho de Souza
Jerônimo Fagundes de Souza - Lino Tavares de Souza - Luiz Carlos Teixeira
Raimundo Cândido Teixeira Filho - Zinaida Tscherdantzew
Marco Aurélio Vasconcellos – Nelson Miguel Viero - Clarice Villac - Vilarino Wolff
Kie Yamamoto - Helena Zamora - Rubens Zolotujin

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A Incrivel Carreata de "Rabos Quentes"

Através do conterrâneo João Pompílio Neves Pólvora, tomo conhecimento dos 55 anos do Romi Isetta, o primeiro carro produzido em série no Brasil. A primeira unidade saiu da linha de montagem em Santa Bárbara do Oeste - SP, ás 11h30min do dia 30 de junho de 1956. Porém, o lançamento oficial deu-se a 5 de setembro do mesmo ano em São Paulo, quando 16 veículos partiram em carreata de promoção para uma concessionária situada na Marquês de Itu e circularam pelas principais ruas e avenidas daquela capital. A data assinala o começo da industrialização automotiva em nosso País.
E esse fato me remete a priscas eras em Jaguarão, quando ali existiam as revendas Ford e Chevrolet, respectivamente representadas pelos senhores Olívio Brum e José Laborda – numa época em que até os mais abonados penavam para adquirir um carro novo – com o que se limitavam ao comércio de autopeças. Se não me engano, os primeiros automóveis Ford que chegaram à cidade foram modelos de fabricação 1949 destinados ao construtor Gaspar Scangarelli e ao prefeito Dr. Ernesto Marques da Rocha. A Agência Ford contava ainda, em seu leque de atendimento, com Oficina Mecânica e Posto de Gasolina.
Parece-me que toda oficina mecânica que se prezasse, naquele tempo dispunha do seu próprio posto de combustíveis, como eram o caso de Cláudio P. de Freitas e Cantídio Occacia. Daquelas mais antigas, apenas a oficina de Martim Queijo não se dava a esse luxo. Tenho uma vaga idéia de que havia uma bomba de gasolina Ipiranga ali na esquina das ruas General Osório e Andrade Neves, de propriedade de Alter Gonçalves – o que preciso conferir com as “memórias vivas” de Cleber Carvalho e Cláudio Ely Rodrigues. Esses estabelecimentos eram suficientes para atender a precária demanda da época.
Até me recordo daquele “guarda-louça” preto e quadradão, lataria inteira, quatro portas, os vidros enormes nas janelas e pára-brisa, que “a gente não precisava entrar de bunda para se sentar” como diziam os avoengos. O Marino Hernandorena, com um braço só, pilotava esse seu flamante e antediluviano “bólido” pelas ruas da cidade, ostentando uma privilegiada condição social. A maioria da população valia-se de “autos de praça” nos deslocamentos mais longos atendidos pelos “choferes” André Nunes, Celerino Gonçalves, Gualter Silva e José Luiz Cunha, os mais conceituados.
Cheguei a freqüentar o balcão da Ford em Jaguarão para amenas conversas nas horas de pouco movimento com o filho do “seu” Olívio, meu amigo Flávio Brum. Inteirava-me então das imensas dificuldades de se colocar um carro “zero Km” nessa localidade para cumprir a cota mensal estipulada pela montadora em São Paulo. E o Flávio se via obrigado a seguidas viagens à Paulicéia para retirar um ou outro veículo na porta da fábrica e ali mesmo repassá-lo a preço de custo aos “picaretas”, sempre a postos para “tirar a corda do pescoço” daqueles concessionários ameaçados de perder a revenda.
Mas de uma coisa tenho certeza, Alter Gonçalves foi o pioneiro local na comercialização de carros populares, quando conseguiu ser concessionário de uma marca francesa. Na ocasião, recém tinha sido lançado no Brasil o Renault 4CV 1952, o popular “Rabo Quente”, um carrinho que parecia ser de brinquedo, 3,6 metros de comprimento e 600 kg de peso, velocidade máxima de 95 km/h. Ideal para um casal com crianças, tinha razoável conforto para quatro passageiros de estatura mediana.
Assim, o Pompílio me refrescou a memória, fazendo-me visualizar aquela incrivel carreata de “Rabos Quentes” (seis mais ou menos), puxada pelo “seu” Alter, pelas ruas de Jaguarão até a residência do prefeito Graciliano Jerônimo de Souza, grande administrador apesar do biotipo minúsculo, onde fez entrega da sua primeira encomenda.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Outro ilustre jaguarense em Guaporé

Serafina, Vespasiano e o filho Luiz Vespasiano
Serafina Corrêa e Vespasiano Corrêa são dois municípios gaúchos, antigos distritos de Guaporé, fundados respectivamente em 22 de julho de 1960 e 28 de dezembro de 1995, que tiveram suas denominações originárias de homenagens ao casal cuja passagem pela região, embora curta, foi marcante política, social e culturalmente.
A colônia de Guaporé foi criada em 1892, em terras pertencentes aos municípios de Lajeado e Passo Fundo. Em 1899, o jaguarense Engº. Vespasiano Rodrigues Corrêa, que trabalhava na Secretaria de Obras Públicas como agrimensor, foi designado pelo diretor da Comissão de Terras, Engº. José Montaury de Aguiar Leitão, para um trabalho demarcatório de lotes em Guaporé, com a incumbência de fazer cumprir a lei devido à ocupação de terras do governo por posseiros. Com medida variável entre 25 e 30 hectares, foram demarcados 5000 lotes.
Em 20 de fevereiro de 1900, o nosso conterrâneo assumiu oficialmente a chefia da Comissão de Terras de Guaporé.
Em 11 de dezembro de 1903, pelo decreto nº. 664, foi instituído o município de Guaporé, tendo como primeiro intendente o Engº. Vespasiano Corrêa, empossado em 1º. de janeiro de 1904. Então se projetou a cidade de forma arrojada para a época com quadras de 100m por 100m e avenidas de 25m. Até hoje seu Plano Diretor segue as normas delineadas há mais de 100 anos (mapa de xadrez regular em forma de quadrículos modulares), mantendo-a como uma das mais bem traçadas do Estado.
Para ser a residência do primeiro intendente do município, em 1902, edificou-se o prédio do atual Museu e Arquivo Municipal, sito à Avenida Alberto Pasqualini, 931.
Denomina-se Vespasiano Corrêa a praça central da cidade, muito arborizada, localizando-se ali a Prefeitura e a Igreja, rodeados pelas principais vias do município.
Vespasiano era filho de José Vicente Corrêa e Maria Carolina Rodrigues Corrêa e nasceu em 1871. Formou-se em Engenharia no Rio de Janeiro e casou-se com Serafina Corrêa na cidade de Rio Grande. Faleceu prematuramente, aos 38 anos de idade, em Pelotas. A família, então, já morava em Porto Alegre, quando em 1908 o Engº. Vespasiano teve de se afastar da Diretoria de Terras e Colonização da Secretaria de Obras Públicas, em razão de licença para tratamento de saúde. Desse casamento, nasceu um único filho, Luiz Vespasiano Corrêa, que estudou e casou nos Estados Unidos.
Em 25 de julho de 1985, data do jubileu de prata do município de Guaporé, os seus restos mortais foram depositados no Mausoléu, erguido postumamente em sua homenagem.
Entrevistando o médico anestesista Dr. Alcides Carlos Pinto Corrêa, residente em Porto Alegre, fiquei sabendo que o Engº. Vespasiano era irmão de sua avó Leocádia Rodrigues Corrêa (Querida), casada com Zózimo Corrêa, genitores do seu pai Vespasiano Rodrigues Corrêa, coronel do Exército, já falecido. Contou-me ainda que esta sua avó engravidara na mesma época que uma cunhada sua (?) e que elas teriam combinado dar o mesmo nome se nascessem homens os seus filhos, o que veio a ocorrer, daí sendo batizado o seu sobrinho como Vespasiano Faustino Corrêa (também eram descendentes do comendador Faustino Corrêa), futuro cirurgião em Porto Alegre.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Família Maia vai se reunir em Jaguarão

Excepcionalmente, transcrevo a seguir texto de autoria do Engº. Nelson Casarotto Filho, colega aposentado do BRDE em Florianópolis-SC, com a biografia de seu bisavô Coronel Agilberto Atílio Maia, um dos jaguarenses que participou da fundação do município de Guaporé-RS.

A história de Agilberto Atílio Maia deve ser iniciada por Jaguarão, pois de lá é originária a família Maia. Esse nosso bisavô nasceu em 1877, filho de José Luiz Maia e Gertrudes Passos Maia, que tiveram na sequencia Rosalvo, Eloi, Agilberto, Comba (Querida), Manoel, José (Zeca) e Alda.

Agilberto iniciou sua atividade no Exército em 1893, indo até 1899 e sendo depois agricultor. Ainda moço foi para Guaporé, saindo de Jaguarão em 1903 para assessorar o então intendente de Guaporé Vespasiano Rodrigues Corrês, seu compadre e primo de sua mulher Maria Carolina Rodrigues Maia. Estabeleceu-se ali para ocupar o Notariado e Registro Geral.

Em 1905, passou a exercer os cargos de Secretário e Tesoureiro do Município, nos quais permaneceu até 1912, quando foi eleito intendente. Foi reeleito outras duas vezes, completando 12 anos nessa função e promovendo enorme desenvolvimento ao município.

Em 1925, foi nomeado Oficial do Registro Geral de Imóveis e, em 1928, foi novamente sagrado intendente com o voto dos correligionários. Depois foi nomeado prefeito, já no governo Getúlio Vargas. Além disso, exerceu o cargo de Delegado de Polícia.

A "descoberta" do oeste catarinense passa pelo nome dos Maia. Segundo Walter Fernando Piazza, em "A Colonização de Santa Catarina" (BRDE, 1982), "a 18 de setembro de 1918, com um capital de Rs. 100.000$000, Agilberto Maia, Manoel Passos Maia e Ernesto Bertaso, com participações iguais, fundaram a firma Maia, Bertaso & Cia., que perduraria até 21 de novembro de 1923". Havia grande amizade entre os sócios, sendo que Agilberto e Ernesto eram compadres. Após a dissolução da sociedade, essa empresa que "fundou" Chapecó-SC passou para Ernesto Bertaso. Agilberto continou como intendente em Guaporé até 1937.

Com Maria Carolina Maia, teve 11 filhos: José Domingos, Herondina, Nayr, Luiz, Vespasiano, Olga, Ary, Agilberto, Ildefonso, Ariosto e Álvaro, todos falecidos.

Na vida política, pertenceu ao Partido Republicano Riograndense, pelo qual em 1893 pegou em armas aos 17 anos. O Coronel Agilberto faleceu em 1948 e dá nome a Rua e Colégio, tendo seu busto na praça principal de Guaporé. A família doou para o município sua casa, onde hoje funciona o museu da cidade.

Em 2006, seus descendentes (202 na época) se reuniram em Guaporé e acertaram, sem data definida, que o próximo encontro da família deverá ocorrer em Jaguarão.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A DESPEDIDA DE UMA ÚLTIMA VEZ

Na foto, Fernando Collares e Luiz Mauro no lançamento de "Rua da Praia" (2003). Sempre existe uma última vez sem que se perceba tratar de uma despedida. Já visitei pessoas hospitalizadas que não tiveram oportunidade de obter a alta desejada. Nessas ocasiões, cheguei até pensar em postergar esses encontros para outro dia, porém, algo me impelia a que procurasse confortar o enfermo naquele preciso momento que viria a se tornar, sem que o soubesse, em nosso derradeiro adeus. Conformava-me após com a idéia de ter chegado ali a tempo de demonstrar minha lembrança e afeição com esse pequeno ato de presença, quem sabe, uma inesperada solidariedade humana.

Nesta última segunda-feira, fui colhido pela triste notícia do falecimento do grande amigo Fernando Collares que, há cerca de um mês, sofrera parada cardiorrespiratória, permanecendo em coma desde então na CTI do Hospital Divina Providência. Também fui informado da cerimônia fúnebre ocorrida nesse mesmo dia no Crematório Saint-Hilaire, em Viamão, que deixei de comparecer por impedimentos particulares. Embora abatido por não levar pessoalmente minhas condolências a seus familiares, recordei-me daquela última ocasião em que avistei Fernando ainda com vida, transbordando a sua proverbial alegria.

Esse nosso encontro – se não me engano no início deste ano - aconteceu na agência Menino Deus da Caixa Econômica Federal, onde tinha acabado de fazer um depósito. Já me retirava daquelas dependências quando fui surpreendido pela abordagem do saudoso amigo, convidando-me a que sentássemos ali mesmo na sala de espera a fim de bater um papo descontraído, já que decorria um longo tempo sem nos ver. Enquanto sua esposa, Dª. Sandra, resolvia assuntos pendentes na Gerência, ficamos relembrando agradáveis momentos de uma época em que eram freqüentes as nossas ligações.

Um balde de água fria nesse entusiasmo me veio em seguida, quando o radialista Glênio Reis me deu a notícia de que fora diagnosticado Mal de Alzheimer no estado de saúde daquele velho companheiro. Eu não acreditava, há pouco o tinha visto tão bem e feliz. Falando com o cantor Guilherme Braga, este me confirmou que estava no estágio inicial da doença. E através do Guilherme continuei me mantendo informado da sua acelerada evolução degenerativa. Coisas do destino, indagava-me eu, que nos colocara frente a frente, oportunizando-me gravar em minha mente uma imagem que me legara Fernando Collares, tão plena de otimismo e confiança no futuro.

A primeira vez que assisti o notável cantor foi por ocasião da estreia do espetáculo “Reencontro (O Show tem que continuar)” na Boate Le Club, em 16 de outubro de 1991, do qual participava junto com Guilherme Braga e Maria Helena Andrade, mais acompanhamentos de Paulo Santos (violão/guitarra) e Celso Lima (teclados) e apresentação do veteraníssimo Ary Rego. Conforme prometia o mote caracterizado no convite - “A gente precisa se reencontrar/ com os amigos/ com a música/ com os músicos/ antes que tudo passe/ com a alegria de viver” – todos os presentes fomos aquinhoados por uma noite esplendorosa e inesquecível.

Porém, nosso relacionamento mais estreito só veio a se concretizar em 1999, quando Guilherme Braga me sugeriu o seu nome para integrar o projeto “Por Amor à Música” que estávamos apresentando ao Fundo Municipal de Produção Artística, ao qual destinaríamos três faixas do CD que se pretendía gravar: “Quatro Estações” (Jayme Lubianca), “Minha Oração” (Jorge Machado) e “Sabiá Moreno” (Antoninho Gonçalves). Foi então que tomamos conhecimento da competência e da extrema versatilidade de Collares nos ensaios e nas sessões de gravação ao vivo promovidas pelo técnico Marcelo Sfoggia, tal a sua desenvoltura diante dos microfones.

Daí em diante, passei a me tornar participe da “turma do gargarejo”, assistindo sempre as diversas apresentações de Fernando Collares onde me fosse possível estar presente. Entre elas, no lançamento do CD “Rua da Praia” (2003), no qual interpretava a canção de Tito Madi que deu título ao disco, além de composições de Luiz Mauro (“Nunca é Tarde Para Sonhar” e “Lembranças”) e de Omar Stocker (“É o Amor”, “Ajuda-me Senhor”, “O Sítio”, “Ilha Azul”, “Leite Derramado”, “Poesia Sem Final”, “Sorria”, “Mãe Solteira” e “Mais Que Um Amigo”). Para complementar, reproduzo aqui o link da postagem que fiz no site Caros Ouvintes http://www.carosouvintes.org.br/blog/?p=4836, abordando as letras homônimas, com os respectivos áudios, de Alberto do Canto e Tito Madi.
Temos o grande Fernando Collares
esbanjando a sua jovialidade
que vem contagiando tantos pares,
de romântico, a habilidade.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

"Pega na cola que o resto não amola!"

Eram os anos cinquenta, em Jaguarão predominavam como assuntos ora o futebol, ora as carreiras de cancha reta que deslocavam a política para uma abordagem secundária e as cores partidárias se trocavam conforme o livre arbítrio de cada um. No Café do Comércio, andava-se de uma mesa para outra e se constava essa predileção entre os diversos clientes, não se tinha muito a escolher. Agora os carreiristas eram mais chegados à barbearia do Márcio Tissot, outro aficionado que atraia e dava linha para os clientes, demorando-se em suas conjeturas turfísticas que enervavam aqueles que não estavam a fim de papo.
Na época, recém se fundara o Jockey Club de Jaguarão, modismo que provocou algum esvaziamento nos estádios de futebol existentes na cidade, prejudicados pela concorrência com os páreos de longa distância, aos domingos, no Prado local. Disputavam a corrida principal o parelheiro Lord, pertencente a meu primo Anysio de Souza Resem, e a potranca Princesa, de propriedade do Dr. Ernesto Marques da Rocha, ex-prefeito do Município, em infindáveis tira-teimas consequentes das discussões que se sucediam na barbearia do Márcio, nenhum deles querendo dar o braço a torcer.
O Lord não tinha lá o seu pedigree, pois era descendente duma eguinha zaina e mansa que tio Cantalício tinha em sua chácara, após o passo dos Correias. Resultara do cruzamento com o tordilho Nico, este sim um excelente troteador e puxador do carrinho que conduzia Anysio para visitar a noiva na estância do futuro sogro no Cerrito. Mas aquele era um animal diferenciado que logo revelou seus pendores para o galope nas pistas de corrida, vindo a se tornar alegria de muitos apostadores na fase inicial quando pagava generosas “poules”, as quais em seguida deixaram de ser compensadoras...
Porém, havia um complicador nessa história toda: era o jóquei Matraca, um mestre nas rédeas apesar de muito chegado a um trago amigo que, às vezes, sumia na véspera e só aparecia todo borracho pouco antes de correr – e dê-lhe banho frio para se compor. Assim meu primo se viu obrigado a construir uma casinha de alvenaria na chácara do seu pai Cantalício, com um quarto para alojar Matraca e o tratador “seu” Benício, encarregado de vigiar os passos daquele, tendo ao lado a baia que abrigava Lord. E de madrugada, todo dia, saiam os dois para varear e cronometrar os tempos do parelheiro.
Anysio me falava que se dedicaria a viajar por todo Estado caso dispusesse de um capital maior, possibilitando-lhe a corrida do Lord em localidades onde não fosse conhecido para obter melhores rendimentos. Até que o doutor Ernesto se dando conta da melhor performance deste em relação à Princesa, terminou comprando-o. E o primo, acreditando nas melhores condições financeiras do seu rival para explorar o potencial do seu cavalinho, não relutou em se desfazer do mesmo. Acontece que Marques da Rocha se enfezou com a aquisição e terminou “queimando” suas fichas em canchas de baixo retorno...
Quando chegava à chácara de tio Cantalício, sempre procurei tomar meus mates com “seu” Benício e Matraca, levando alguns livros para que eles se distraíssem durante a semana. Numa dessas ocasiões, “seu” Benício Tissot, que também era pai do barbeiro Márcio e de uma filharada imensa dessas de campanha, convidou-me para ir até sua casa situada “logo ali” quem vai para a capela de São Luiz. E lá fui eu, roçando fundilhos em cima dos pelegos da sela de um petiço, a visitar o humilde rancho desse tratador. Foi uma festa a nossa chegada. Na porteira, a filha mais moça do velho, toda sorridente, e ele me larga uma pérola:
- “Que tal, te agrada essa flor de prenda?”

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Quem diria? Já cozinhei pra cachorro...

“Sempre me surpreendo, me decepciono quando encontro a maldade em estado puro... em crianças e pré-adolescentes” – a escritora e poetisa Profª. Maria Clarice Sampaio Villac se mostra desencantada, relatando em sua crônica (http://www.simplicissimo.com.br/colunas-ativas/daqui-de-la/aquela-historia--quando-vai-acabar) recente experiência em sala de aula com alunos de idade média entre 11 e 12 anos na escola em que leciona em Valinhos-SP, alguns dos quais manifestaram modos incorretos de tratar os animais. A meu ver, só o fato de abordar esse assunto deve ter contribuído para lançar em mentes férteis uma boa dose de valores humanísticos.
O tema serviu para me provocar profundas reflexões. Por não ser muito afeito a encarar perdas constantes como são aquelas que dizem respeito aos animais de estimação, que têm vida breve se comparada a nossa existência, tenho evitado não me envolver em demasia com tais apegos. Mas nem por isso deixo de admirar aquelas pessoas que se dedicam a cuidar destas criaturas compartilhando da nossa jornada pelo planeta no qual habitamos. Há pouco, vimos na televisão o esforço sobre-humano de uma família em São Paulo que buscava os mais avançados recursos veterinários para salvar o seu dócil leão acometido de uma doença degenerativa.
Minha esposa e meus filhos são apaixonados por cães e gatos. E eu, na medida do possível, sempre os apoiei nessa preferência, assumindo encargos de providenciar os cuidados necessários, tais como saúde e alimentação, inclusive como cozinheiro de cachorro, aquela mão de obra considerável. Hoje, com os filhos encaminhados na vida, a mulher e eu vivemos sozinhos em apartamento sem a compensação de afetos alternativos. Já moramos em casa bem situada no nosso bairro, sendo um dos motivos pela longa permanência na mesma o pátio e o jardim que nos permitiu ser acompanhados por uma gentil “collie” até o fim de seus dias.
Pois nessa residência procedemos algumas reformas para adaptá-la às nossas necessidades, uma delas foi a construção de uma “suíte” em cima da garagem para ser instalado o quarto do casal que posteriormente tivemos de trocar por razões ortopédicas na subida da escada. Então ali se acomodou um dos filhos até encontrar outro espaço de maior privacidade. E este era useiro e vezeiro em atrair os gatos da rua para sua companhia dentro do quarto. Os bichanos se acostumaram então a entrar pela janela sem a menor cerimônia a qualquer hora do dia ou da noite, tendo de me valer de algumas vassouradas para ser mais respeitado.
Ali recebemos um casal de parentes que era habituado a dormir de janela aberta, fosse verão ou inverno, para melhor renovação do ar ambiente. E não é que a gataria invadiu o recinto sagrado, provocando o maior escarcéu por cima de tudo que era móvel e assustando aquela gente... Mas não eram só essas inconveniências que os bichos aprontavam, bastava que se deixasse alguma abertura por onde eles pudessem chegar e logo apareciam ninhadas aqui e ali, o que sempre acarretava um tempo para serem descartados em algum local propício às suas sobrevivências. Até chegamos a apelar para a Associação Protetora dos Animais, cruz credo!
Agora o outro filho foi quem nos brindou com aquela “collie” que ele trouxe para casa quando procurava comprar uma roupa emborrachada de “surf” e terminou trocando por aquela filhota que viu num “pet shop” em seu trajeto. Antes já nos tinha enfiado uma lebre (ou coelho, sei lá) que extinguiu todo o verde existente no quintal, além de espalhar “bolinhas” por toda casa, obrigando-me a construir uma gaiola para conter a danada. Terminei negociando a “fera” com gaiola e tudo - e mais uma pelega de mil no pescoço - para um colega de serviço que morava num sítio, convencendo-o das vantagens da cunicultura como reforço da economia doméstica.