segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O pacto não revelado dos articuladores

Moço respeitador, useiro e vezeiro nos bons modos, fazia bem o tipo do genro ideal para as mães de filhotas encalhadas. De futuro indefinido, morava com duas tias solteironas que o sustentavam e faziam todas suas vontades só para ter sua companhia garantida. Hilário nem precisava trocar a sua vida boêmia junto com os amigos por qualquer convívio familiar. Adorava impregnar as mãos com o pó do giz dos tacos de sinuca e praticar as tabelas para atingir a bola da vez. Os aperitivos sem conta não lhe apeteciam, pois não era de muita bebida, Quando muito uma “cuba libre”, o suficiente para passar o tempo e aproveitar melhor a noite.

Useiro e vezeiro nas boas maneiras, essa era a qualidade que o diferenciava entre seus companheiros, além do porte espadaúdo e do apuro no modo de vestir as roupas simples. Ocioso durante o dia, ocupava esse tempo com a leitura dos jornais que ilustravam sua cultura, agregando inúmeros conhecimentos que passava a dominar com toda segurança. O bom papo era seu forte ao se introduzir nas rodas da alta burguesia, onde era bem recebido e qualificava o grupo nas acaloradas discussões de temas polêmicos. Não havia quem não quisesse tirar proveito das potencialidades de Hilário e até encarar o desafio de investir na sua formação.

Para tanto, teriam de convencê-lo, passo a passo, sem que ele percebesse o afastamento de sua ingênua irresponsabilidade. Esses companheiros passaram então a massagear o ego de Hilário, provocando-lhe o surgimento de um despercebido sentido próprio de importância. Depois a segunda etapa da estratégia que consistiria em oferecer aval para que comprasse a crédito as vestimentas mais finas e elegantes a fim de circular com desenvoltura na alta sociedade. Que não se preocupasse em pagar, eles garantiam. E foram envolvendo Hilário de forma que nenhuma contestação houvesse quando ficasse bem integrado no seleto grupo.

Hilário passou a ser carregado nas incursões planejadas pela patota, sua presença se tornava cada vez mais indispensável em qualquer situação. Evidenciava-se o seu carisma como chave que abria portas inacessíveis. Lá se ia ele por esse mundo afora, usufruindo as benesses do seu talento, eminência parda que dava lustro aos seus companheiros. Estes cada vez mais convictos do acerto em cada centavo investido nesta imperceptível consultoria. Hilário crescia, todos cresciam juntos, não raro despertando bastante atenção por onde passassem. Eles eram alegres, simpáticos e, com impressionante facilidade, sempre cativavam novos amigos.

Certa ocasião, estavam assistindo um espetáculo de tango em El Viejo Almacén, quando se aproximou deles uma cantora que recém tinha apresentado seu número e pediu licença para sentar àquela mesa. Imediatamente, Hilário puxou uma cadeira, acomodando-a para a dama. Em conversa animada, pareciam velhos conhecidos festejando algum reencontro. Não demorou muito para que ela lhe sugerisse uma contradança que ele aceitou sem qualquer receio. Pois era da fronteira, já acostumado com os ritmos das típicas portenhas. Encantados um pelo outro, nem se deram conta desse tempo quase eterno em que estavam juntos...

Até que a orquestra parou para o intervalo de descanso dos músicos. Chamaram então Mercedes Ruiz para mais uma apresentação e ela se dirigiu ao palco, enquanto Hilário voltava para a mesa dos amigos. Estes já tinham sido alertados pelo garçom de que estavam sendo aguardados na saída pela turma do namorado ciumento da cantora. (continua)

2 comentários:

Anônimo disse...

Poeta, que maldade! Interrompeste o curso natural das águas doces, só para me deixar na expectativa...

Raimundo Candido

Jorge Passos disse...

Que beleza! Expectativa para o próximo capítulo!