domingo, 21 de dezembro de 2008

EIS AÍ A MINHA RÉPLICA...

Porto Alegre, 2 de abril de 1986.
Que bom teres apreciado aquela singela história do Rafael e da Leila! Confesso-te: já me sentia por demais ansioso na expectativa de uma manifestação tua. Eu bem que imaginava - estivesses desfrutando do teu pedacinho do paraíso situado lá no extremo sul da nossa Pátria - o Hermenegildo - enquanto se avolumavam na soleira da porta da tua casa tantas e tantas mensagens de amor e carinho de todos amigos e familiares que te lembram saudosamente por ocasião das festas natalinas...
Minha cara maestra, quem tem de se penitenciar, se acaso algum lapso tenha havido, esse alguem creio seja eu e não tu... Porque, há alguns dias atrás, tomei conhecimento do conteúdo da tua amável carta, através de comunicação telefônica do Anysio lá de Jaguarão e, inobstante, preferi aguardar que chegasse às minhas mãos esta peça escrita de teu próprio punho para ler, reler e sentir as tuas palavras que sempre me soaram mágicas e inesquecíveis... E até agora ainda estou relendo-a e constatando nesta tua tranquila humildade toda a grandeza, toda a sabedoria do teu espírito generoso que se constrange e se encerra no anonimato da sublime missão que tão bem soubestes exercer com amor e despreendimento como a grande educadora que tens sido em toda a tua abnegada existência.
Talvez não faças idéia, porém, eu te digo convicto: não só na nossa querida Jaguarão, mas também nos mais diversos recantos deste imenso mundo de Deus, existem aos montes pessoas que como eu sabem o quanto são SIGNIFICATIVAS e IMPORTANTES as recordações de uma BRILHANTE professora chamada Delícia e de um castelhano NOBRE E CULTO chamado Dom Guadil!
De minha parte, eu lamento não tenha sido mais quantitativo o convívio que tive com a tua adorável família, porém, me conformo com o qualitativo que pude usufruir e que me marcou profundamente através dos ensinamentos colhidos, os quais considero pilares básicos da minha formação pessoal.
E tu me dizes que gostarias de identificar a Abel Kaur, este sujeitinho imprevisível que me assiste na imaginação e que achou por bem me fazer instrumento seu na intenção de transpor, no espaço e no tempo, fatos premeditados pelos cenários e personagens idealizados coerentemente como peças ajustadas de um quebra-cabeças. Nem mesmo eu consigo reconhecer este alterego que me transcende a individualidade como um ser ideal integrante da nossa mente cósmica, pois Kaur se faz interlocutor de todos aqueles que te (e a Guadil) são gratos e assim sente-se como resultante de todos aqueles que te (e a Guadil) amam e que nunca te (e a Guadil) esqueceram...
Talvez todos nós tenhamos sido um desses quantos rafaéis perambulam pelo mundo, à procura de u'a mão amiga que se lhes estenda e de uma palavra confortadora na hora precisa, gestos característicos teus e de Guadil, pessoas de espírito jóvem, de diálogo fluente e espontâneo, no colóquio fraterno que a presença de vocês inspirava a todos nós, moços atentos naquelas inolvidáveis lições de vivência humana.
Perdoa-me, Delícia minha mestra, se - creio - cada um de nós quisesse dedicar a ti (e a Guadil) o que Kaur dedicou.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Um compromisso para o Natal (III)

(continuação)
O Castelhano sentiu que tinha diante de si um confidente confiável e, por isso, resolveu se identificar:
- Mi nombre es Rafael. Hacía compañía a mi madre desde el dia que mi padre desapareció como ativista político, a decir verdad que algunos no gustabales escuchar... Dejé mi madre solita por hallar que aburro su vida... Y además también mi novia me despreció diciendo que soy ocioso, no haciendo nada para que merescala...
- Mas tu hás de convir comigo, Rafael, a razão não está do teu lado. Abandonando a tua mãe, a deixastes desesperada... Talvez, neste momento, esteja ansiosa por saber notícias tuas, E eu não acredito que sejas um desocupado, a não ser por falta de vontade. Tens o bem maior que o Senhor te legou – a tua juventude, a tua vitalidade! Vais me dizer que não tens alguma habilidade que te valorize?
- _Esto es verdad, Coronel! Yo soy maestro instrumentista, gustame tocar la flauta dulce... Hace poço tiempo, ganaba unos trocaditos enseñando música a quien tênía interés em esto, pero, era tan poço que juzgaba no valer la pena continuarlo...
- E isto já é alguma coisa, Rafael! É um dom divino que poucos tem a oportunidade de desenvolver. Assim, poderias ajudar a tua mãe e, quem sabe, motivar a reconquista do respeito da tua amada, a quem não conheço, mas me parece deve gostar muito de ti e apenas te rejeitou para que reagisses, para que desses um jeito na tua vida...
- Ella llamase Leila, es mui hermosa como brasileña buena que es... Atraeme sobremanera por serlo cariñosa y sincera, Muy culta, destacase en su profesión – professora como vosotros decís. Es um suplício para mi estar acá a recordarla...
- E que estás esperando, meu rapaz? Não perde mais o teu tempo que é precioso e volta logo para tua casa, para os braços da tua mãe que te esperam abertos e ansiosos para te abraçar...
- _Sabe, Coronel? Hace três dias que acá estoy y la primera persona que comigo habla es Usted. Y esto hacíame uma falta imensa. Tênía un gran deseo que cualquiera de esas personas a cruzar insensibles a mi dolor dijiesenme lo que Usted diceme. Sientome otro y eso animame a proponerlo - _aceptar mi compromiso de volver a encontrarnos en el dia de NAVIDAD! Jurole por la gracia de Diós, acá estaremos Leila y yo Rafael para saludarlo com afecto y la gratitud de mi madre. Marque la hora, por favor, _las nueve en punto!
O castelhano barbicha já estava erguido e se afastava a passos largos circundando aquele degrau, passando ao lado direito da Igreja e tomando rumo lá para as bandas da Ponte Internacional, enquanto o Coronel se deixava ficar emocionado naquele terceiro patamar, a refletir na sua significação religiosa – se é difícil entender o sofrimento, mais difícil ainda é aceitá-lo, mas é o preço a ser pago pela salvação do homem.
Dedicado à professora Delícia Ramis Bittencourt e in memoriam a Guadil Bittencourt - mestres das letras e da solidariedade, aos quais sempre vislumbramos no horizonte da lembrança (conforme publicação no Jornal A Folha, de Jaguarão, em 24/12/1985).

Um compromisso para o Natal (II)

(continuação)
Pela calçada da esquerda, caminhava o velho Coronel, cabeça erguida, os cabelos grisalhos, seu insistente porte marcial apesar dos anos de reforma compulsória. Ainda tinha tão perto de si todo um passado de estudos e atividades da caserna memorável – táticas, estratégias, manobras, apoios logísticos, colunas em deslocamento – do qual buscava se esquivar, dedicando-se a gratificantes causas comunitárias e até se tornando um personagem místico naquele seu afã de se comunicar com o Senhor nas oportunidades que lhe surgiam de ajudar os infelizes e necessitados. Seus braços movimentavam-se acompanhando exatos o ritmo de suas passadas e assim se aproximava daquele local onde havia divisado o moço solitário e encolhido em posição fetal.
Então levou os dedos à altura do coração, por dentro do sóbrio casaco paisano, dali tirando discretamente a carteira que abriu para separar uma das notas ali depositadas; a seguir, fechou-a e a recolocou no devido lugar. Foi-se acercando e parou na frente daquele tipo estranho, postando-se com a perna esquerda apoiada no segundo degrau enquanto a direita acomodava-se no terceiro da escadaria. Aí estendeu aquela mão na qual estava a cédula separada, oferecendo-a como óbolo desinteressado àquele seu irmão decaído. Porém, este insistia em não tomar conhecimento da presença do Coronel, imóvel, o queixo apoiado nos joelhos que se encontravam colocados naquela incômoda postura.
- Como é, meu filho, não vai aceitar? – o Coronel achou esquisita aquela atitude e se ia dispondo a prosseguir na sua escalada rotineira, quando percebeu o jovem a murmurar naquele seu linguajar fronteiriço:
- Mi caso no resuelvese por la plata...
Mas como estavam os dois situados naquele degrau que significava, de acordo com a tradição popular, a Terceira Estação da Via Sacra, punham-se ambos a refletir inconscientemente sem que um soubesse do que o outro estava a pensar – É melhor padecer se Deus assim o quiser, por fazer o bem, do que por fazer o mal (1 Pd, 3, 17). Daí o Coronel resolveu retomar o diálogo:
- Não faz mal, filho meu, não era minha intenção te ofender...
Neste momento, o barbicha soltou sua perna direita, esticando-a ao longo, com o que se permitiu a mão destra se fizesse segurar na soleira do patamar enquanto a outra perna, ainda encolhida, passava a servir de apoio ao braço que se distendera. Ergueu sua cabeça de modo a fitar aquele interlocutor desconhecido, de forma arrogante:
- Pero, dígame, _quien es Usted para que tenga algún interes por mi que nada estoyle a pedir?
O Coronel começou a sentir-se importuno, mas compensado na sua tentativa de querer apoiar desinteressadamente o irmão desassistido e, por esse motivo, não se fez de rogado em levar adiante aquele quebra-gelo:
- Sou Coronel do Exército reformado. Tenho tudo de bom que Deus me proporcionou – minha esposa, meus filhos casados, meus netos maravilhosos... E condói-me ver a ti, meu filho, nessa lastimável situação.
(continua)

Um compromisso para o Natal (I)

Aquele imenso Largo ocupava quase que um quarteirão inteiro, deixando à mostra o calçamento de pedrinhas irregulares a se alternarem no preto e branco de suas formas assimétricas. Completamente vazio, era um espaço aberto por onde corria solto o ventinho fresco das tardes primaveris. Mas se aquecia, até mesmo nas noites hibernais, com o calor humano das multidões que se concentravam nas festas cívicas ou nas quermesses paroquiais ou nos comícios inflamados onde o verbo dos políticos demagogos fazia-se ecoar nos seus quatro cantos, quatro pontos cardeais. Vez que outra, como querendo libertar-se de grilhões imaginários, as coloridas bandeiras agitavam-se quais pétalas nos cimos das hastes finas que eram aqueles três mastros a subirem eretos e plantados ali, bem no meio, no canteiro retangular de um solitário pedestal...
Em frente, situava-se a praça arborizada a contrastar no seu verde natural encravado naquele recanto tão urbano quanto a alvenaria do casario antigo e os paralelepípedos das ruas que delimitavam o seu contorno. Como que guarnecida por esta fiel companhia, avistava-se ao fundo a igreja centenária destacando-se no seu porte majestoso que as grossas paredes de tijolo assentado no barro teimavam em torná-lo imperecível. Até chegar-se às suas pesadas portas – tão altas que pareciam destinadas a dar passagem a um cortejo de gentes descomunais tal o tamanho da fé que consigo carregavam – ascendia-se por uma escadaria de patamares sobrepostos, quinze degraus para ser mais exato, que se dizia representarem cada qual uma das Estações da Via Sacra...
E quem frontalmente a contemplasse, sentado num dos bancos da praça, perceberia bem nítido de cada lado da nave central as duas torres a subirem altaneiras sustentando cada uma o seu campanário onde repicavam plangentes os sinos, as suas ondas sonoras propagando-se na distância indefinida. Veria ainda em cada uma das torres, a certa altura, dois painéis quadrados – no da esquerda, os ponteiros de um relógio a marcarem precisos as horas do tempo presente e, no da direita, a brancura característica da eternidade...
O sol que costumava cair por detrás da Igreja, tinha deixado de espalhar os seus raios sobre a escadaria sacra e, à esquerda, já se instalara no degrau do terceiro patamar – justo aquele que se pretendia representar quando Jesus cai pela primeira vez – um jovem de fisionomia parada, olhar fixo num ponto qualquer da praça à sua frente. Suas costas apoiavam-se na parede fria da fachada da Igreja, os calcanhares tocando as nádegas, enquanto as suas pernas mantinham-se dobradas e amarradas pelos braços que as circundavam em volta, as mãos enlaçadas nos pulsos contrários. Suas vestes amarrotadas, desbotadas e encardidas – calças jeans, camiseta de física, túnica militar e tênis rotos e sujos – combinavam-se com a espessa barba que lhe escondia o semblante triste e desencantado.
(continua)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Vai firme, Grande Chefe Annuseck!

Creio que o tema já tenha sido – técnica e didaticamente – abordado pelo conceituado radialista Edemar Annuseck, em sua série de comentários sobre a grave situação da rádio AM no Brasil. Nesses comentários, ele tem colocado a terceirização e o aluguel de espaço como efeitos danosos nas programações atuais das emissoras pela ganância de seus proprietários, apenas detentores de concessões de um bem público, que deixam de assumir a sua grande responsabilidade social. Entre outras questões, ele nos acena com a possibilidade de nossas emissoras oferecerem programações diferenciadas numa mesma freqüência devido à implantação do rádio digital. Assim o ouvinte teria oportunidade de optar, ao mesmo tempo, através dos canais de comunicação disponíveis pelo programa que mais atendesse a seu gosto – musical, esporte, jornalismo ou cultural. É bem verdade que, com o advento da televisão, o rádio tem perdido bastante da sua importância como meio de comunicação social e se tornado um alvo fácil para os aproveitadores de ocasião, ainda mais favorecido pelas benesses do poder político. A pergunta ainda permanece gritante no ar: o que foi feito de concreto até agora para que o nosso Rádio se adaptasse aos novos tempos? Aqui em Porto Alegre é voz corrente dizer-se que as nossas principais emissoras costumam basear suas programações no binômio Jornalismo & Esporte. Como exemplo, cito o encerramento das jornadas esportivas prolongando-se por mais de três horas e roubando espaço nobre de qualquer programação mais voltada ao entretenimento e à cultura. Os índices de audiência estão aí, apontando picos inesperados nas noites de sábados e nas manhãs de domingo, justamente naqueles dias não contemplados com o esporte. Recentemente, o professor catedrático em comunicações de Florianópolis-SC, Ricardo Medeiros, passou-nos a infausta notícia de que morre o rádio-teatro em Porto Alegre, através da comunicação de Mirna Spritzer, professora de interpretação teatral e responsável pelo espaço O Rádio é o Palco, da Rádio FM Cultura de Porto Alegre, que esteve no ar durante 9 anos. Exemplo típico de uma programação que vinha sendo apresentada por uma emissora estatal que não teve condições de dar continuidade a uma excelente formatação da arte radiofônica, devido ao corte de gastos públicos executado pelo governo estadual. Quer dizer: aquilo que as nossas rádios comerciais poderiam levar a seus ouvintes como alternativa de entretenimento, escamoteava-se em algum nicho do dial sem qualquer divulgação e interesse da nossa mídia de levar ao conhecimento do público em geral. Encerro essas considerações, sublinhando as palavras de Edemar Annuseck – rádio se faz com profissionais na Direção Artística, na Publicidade, no Jornalismo, no Esporte, na Programação e no Microfone.
O locutor esportivo Edemar Annuseck (foto), já está de malas prontas e retorna à cidade de São Paulo, onde fez grande sucesso nos anos 70 e 80 na Rádio Jovem Pan (AM 620 kHz).Desta vez o destino do famoso locutor esportivo é a Rádio Record (AM 1.000 kHz - São Paulo/SP). A partir de janeiro de 2009, Edemar Annuseck passará a integrar a equipe de esportes da emissora. A informação veio através de uma conversa com o próprio Edemar, que nos contou em primeira mão a novidade. Desejamos bom retorno!!!
(in Bastidores do Rádio, de 18/11/2008)

sábado, 29 de novembro de 2008

>>>>>>>> A Roleta dos Autógrafos na Feira do Livro de Porto Alegre (*)

(*) Artigo publicado no Jornal Escola
IIIª Lâmina,
de Carazinho e Passo Fundo
(Ano 01
- Número 04 -
Dezembro de 1997).
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Como disse o Laury Maciel, pena que venha a ressaca do fim e que dure um longo ano. Assim, terminou mais uma Feira do Livro, a 43ª, da Praça da Alfândega, em Porto Alegre. Foram dezessete dias de uma festa só, uma quermesse cultural coroada por um fim de semans com sol primaveril, como compensação às diabruras do Menino lá do Pacífico.
E mais um patrono juntou-se à galeria dos notáveis, tais como Moacyr Scliar, Maria Dinorah, Luiz Fernando Veríssimo e Lya Luft, os quais ainda continuam bem lépidos e no ápice de suas produções literárias. Ficou a pontinha de saudade, o gostinho de ser majestade num curto espaço de tempo. Este ano, a Câmara Riograndense do Livro parece que resolveu botar na chuva um cidadão que, em épocas anteriores, costumava circular na Feira timidamente disfarçado para evitar o assédio dos admiradores. Pois é, Luiz Antonio de Assis Brasil teve que mostrar a cara e o fez de maneira desenvolta e cortês, como legítimo representante da refinada confraria de nossos escritores.
Nas sessões de autógrafos, fizeram-se presentes algumas centenas de autores, tentando não só expandir suas inquietações literárias como também obter o reconhecimento da crítica e da mídia nem sempre generosas, já que ignoraram 2/3 desses lançamentos, conforme se pode constatar através das coberturas jornalísticas do evento. Mais impiedosa ainda a repercussão entre o público leitor, peneirando aqueles que se fizeram merecedores de sua preferência: Concerto Campestre e Breviário das Terras do Brasil (L.A.Assis Brasil), Os Cadernos de Dom Rigoberto (Vargas Llosa), Freak Brothers (Gilbert Shelton), Topless (Marta Medeiros), E Nas Coxilhas Não Vai Nada (J.Zanota Vieira), Aline e Seus Dois Namorados (Adão Iturrusgai), O Manual do Guerreiro da Luz (Paulo Coelho), A Lei do Amor (Laura Esquivel), em ficção; A Cabeça de Gumercindo Saraiva (Tabajara Ruas e Elmar Bones), A Rua da Prais Foi Assim (Hélio Ricardo Alves), Porto Alegre: 48 Horas Sob Terror (J.R.Rosito e Diego Casagrande), O Caminho de Santiago (Sergio Reis), em não ficção. Conclui-se que daqueles 1/3 diferenciados, sobraram aproximadamente 4% (quatro por cento) felizardos ganhadores nessa roleta de autógrafos.
Entre muitas novidades, salientaram-se Inteligência Emocional e Memórias de Ernesto Geisel. Ainda figuraram com boa vendagem algumas promoções para reduzir estoque (O Mundo de Sofia, A Era dos Extremos, Verdade Tropical e Chatô, O Rei do Brasil). O desempenho da L&PM foi, disparado, o melhor entre as editoras, emplacando quinze títulos, cinco dos quais em livros de bolso.
A promoção da Xerox do Brasil deixou a desejar, distribuindo gratuitamente cento e cinquenta exemplares aos primeiros da fila, nas sessões de autógrafos do Autor do Dia, no Clube do Comércio - um tremendo constrangimento para os escritores que tiveram de dar explicações àquelas pessoas frustradas em seu objetivo de conseguir a obra ofertada. A multinacional valeu-se da parceria com a Câmara Riograndense do Livro e com a Secretaria Municipal de Cultura para demonstração da nova impressora digital, tecnologicamente mais avançada, que viabiliza menores tiragens - não precisava exagerar em número de exemplares tão reduzido.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

CROMOSSOMOS

Livre arbítrio ou prisão / Genealogia de exclusão /
Tanta coisa já contida / e o exemplo ao longo da vida /
Espécie de bagagem / Um dia sempre pesa na viagem /
(Pitty: Malditos Cromossomos).
********************************************** Papeleiro tem família? Pense num deles morando debaixo da ponte com uma mulher eventual, talvez ganha na troca por um trago de cachaça. Mau negócio, logo deve passar adiante. Assim, deixará de disputar no tapa a coxa de galinha rejeitada no lixo do restaurante. Calor humano tanto faz, afinal a cachorrada está ali para isso mesmo. Mais tranquilidade no prazer solitário. **************************************************** Vê se me garante esse resultado. Três a três me interessa e muito. Assim livro a minha equipe do rebaixamento para a Terceira Divisão. Apesar de toda aquela bebedeira de ontém à noite, ainda fui te buscar lá na zona. Eu compreendo: pai para o filho daquela empregadinha que diz ser teu, tem por aí aos montes. Penalti? Tudo contigo. Goool... Frangueiro, corno, bem mereces sustentar a cria dos outros!
**************************************************** O macho pronto para colocar o instinto em dia. Pega de surpresa, negaceia. Bofetadas estalando na noite escura. Local ermo. Possuída contra vontade. Sem apelação. Dias e mais dias escondendo a entrega humilhante. Enjôos, desejos inesperados. Ventre tomando forma. O emprego ameaçado. A insensibilidade da patroa. Aborto? Filho perdido, remorso, nem pensar. Mil vezes parir o fruto daquele ódio. **************************************************** Todos o conheciam no Mercado Público. Músculos salientes, roupas grossas e encardidas, o colete inseparável. Ganhava dinheiro por todos os poros e perdia boa parte no jogo de dados escondido no depósito das frutas. Festejado pelos amigos bebendo às suas custas, não se continha nas fanfarronices com mulheres. Apenas se punha possesso quando falavam da mulata lavadeira, sua perdição. **************************************************** Todo o dia a gente se vira no tanque, entrega roupa lavada na cidade e o dinheiro cada vez mais curto. Tinha tanta esperança no salafrário daquele português, que ele me tirasse do barraco, enfim me desse uma casa decente. Se já é um caro custo arrancar algum para o sustento do menino, imagina se ele ia ter miolo para dar jeito nesta miséria. Desabusado, nem se importa com o moleque vadiando por aí. **************************************************** O sol se pondo, ele voltava da roça. A mulher vinha ao seu encontro dizer que um casal estivera no povoado procurando uma moça para trabalhar na cidade. Sua filha? Jamais.
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Conhecia bem o marido. Cabeça dura, manobrava-o a seu gosto. Convenceu-o falando da ajuda vindo de fora. O futuro da menina? Não se preocupasse, gente fina tinham garantido.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

DISCONTUS : XVII, XVIII, XIX & XX

*************************************************DISCONTUS XVII Setenta por cento: a probabilidade. Os outros trinta, o médico não garante. A estatística pende para o lado certo, acredito, levo fé. Encho-me de esperança, flutuo na minha paz. ************************************************DISCONTUS XVIII Cada vez que passava na plantação, aquela melancia piscava-lhe o olho, provocante... **************************************************DISCONTUS XIX Vê se pode: a gente curtir transa mais legal mais adoidada do que essa aí da magrinha - haja saco - a morar no papo aqui do coroa! ***************************************************DISCONTUS XX Quando descia na sua parada, o menino tomou a iniciativa de apresentá-la ao amigo motorista do ônibus: - Esta é a minha mãe!

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

CHIRU BUENO DAS CHARLAS

No começo deste mês, fui surpreendido ao receber mensagem em meu computador de velho amigo e companheiro das jornadas literárias na casa do saudoso Laury Maciel. Era o Marco Aurélio Vasconcellos, grande cantor e compositor, parceiro de Luiz Coronel em notáveis clássicos do cancioneiro gaúcho. Então me comunicava que estava com um novo parceiro letrista (Martim César Gonçalves, meu conterrâneo, jovem de imenso talento), com quem vinha fazendo composições incríveis. Dizia ainda estar vivendo um momento excelente na área musical e que não se lembrava de haver criado tantas canções quanto agora. Em contrapartida, suas criações literárias andavam em compasso de espera até que pretendesse retomar essa atividade. ********************************************************** Daí passei para o assunto da troca de figurinhas com o pessoal do Martim César que já tinha me falado E que acompanhava pela imprensa a trajetória deles pelos festivais, em que vinham obtendo algumas premiações. Salientei-lhe o quanto mais velho o vinho fica melhor, assim a sua experiência estaria valendo na criatividade de agora. E, se não perder a embocadura, o som sai ao natural, não obstante estar aprimorando o imelhorável. Depois lhe deixei o meu palpite de que a música era o seu chão e que deixasse a literatura para quando lhe desse um ataque de estupidez. *********************************************************** E o Marco prossegue citando a esplêndida interação entre a sua melodia e a letra do Martim César, após ter ponderado que poesia é uma coisa e letra de música é outra, evitando-se o texto longo nesta. Didaticamente, expõe o quanto a rima e a métrica não trazem prejuízo musical se inexistentes ou eventuais, apesar de que a rima produz uma cadência toda especial e a métrica facilita a criação melódica. Então afirma: “De qualquer forma, acho o texto dele maravilhoso. Considero-o um dos melhores letristas da nova geração e me orgulho de ser seu parceiro, havendo reciprocidade nisso, porque ele também pensa o mesmo de mim... Há dois anos que o conheci. Eu andava, até então, produzindo cerca de três a quatro músicas por ano. A partir de então, meu processo de criação se exacerbou - ...respiro música, sonho com música e ela vai brotando a torto e a direito, mesmo que eu não tenha o violão nas mãos. É incrível ...nessa minha trajetória musical que já não era pequena e agora se agigantou.” *********************************************************** Foi aí que eu tive de me explicar sobre o ataque de estupidez – expressão que poderia soar como pejorativa – exemplificando com o Chico Buarque, quando enjoa de música, mete-se a escrever romances, algo cíclico assim como sua fase melódica atingindo o auge, ocorrendo hoje com ele Marco Aurélio. Considerava eu, no final das contas, letrista e melodista deviam confundir-se para se tornarem somente compositores. A propósito de métrica e rima, lembrei-lhe de uma conversa nossa anterior em que ele falava da musicalidade dos versos do Jaime Vaz Brasil, justamente por serem mais livres, mais soltos. E também daquela vez em que o santo lhe baixou bem na hora em que se dirigia ao Banco para pagar uma conta, as notas brotando na mente e ele se impacientando com a possibilidade de que algum conhecido lhe cumprimentasse no caminho, interrompendo-lhe a concentração. *********************************************************
O Marco Aurélio ainda me fala de outras parcerias lá por Jaguarão com o Alessandro, irmão do Martim César, e com o José Francisco Sabbado, sogro deste, enfim reatando-se a sua antiga amarração com a terrinha que ele veio a conhecer há mais de vinte anos, no tempo em que era advogado do JH Santos. Inclusive que teria escolhido ali participar da fase regional da Califórnia da Canção, tendo subido ao palco junto com Regis Bardini, grande violonista jaguarense. “Mas a minha gana é fazer um show por lá” – enquanto isso podemos assistir ao vídeo da Seresta Nossa dos Pampas na barra lateral.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

G_E_IO : a revanche dos 18 aos 81 !

Parabéns, parabéns
Saúde e felicidade
Que tu colhas sempre todo dia
Paz e alegria na lavoura da amizade.
(Parabens Crioulo/Dimas Costa)

24 de outubro de 1910

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Carta publicada na coluna Mr. Grilo, Turismo Caderno Especial, Edição nº. 216 do jornal Kronika, de Porto Alegre, 2ª. Quinzena de Setembro de 1990.
***************** Escreve o leitor desta coluna José Alberto de Souza:
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“Toda noite de quinta-feira, a convite de seu presidente Léo Remião, o Glória Tênis Clube (N.S. Graças, 207) acolhe um grupo de músicos e cantores, amantes da mais genuína música popular brasileira – o Clube do Choro. Fundado em novembro do ano passado, tal entidade agora se prepara para promover uma das suas mais inesquecíveis noitadas no próximo dia 25 de outubro a fim de homenagear um dos seus mais ilustres freqüentadores. **************************************************** Nesta data estará completando 80 anos um dos quatro filhos do casal Maria Antonia e Avelino Faustino Silva, nascido e criado no bairro Floresta da nossa Capital. Verdadeira legenda da boemia porto-alegrense que se orgulha de suas origens humildes: o balconista das bancas 8 e 9 do Mercado Público, o engarrafador de bebidas na firma Moraes Velhinho, o pugilista que interrompeu a carreira por falar mais alto a sua sensibilidade artística. **************************************************** Testemunha viva de uma época áurea impregnada de romantismo, de grandes serviços prestados à nossa cultura popular. Seu nome, muito ligado ao saudoso Lupicínio Rodrigues, insere-se com destaque na vida boêmia que nos legou figuras ímpares como Ney Orestes, Bororó, Sady Nolasco, Nuno Roland, Alcides Gonçalves, Ovídio Chaves e outros tantos. ****************************************************
O assunto não se esgotaria por aqui a merecer tratados que melhor analisassem a expressividade e a participação no movimento musical riograndense daquele estreante da Audição de Águas Caxambu às 20h45min do dia 12 de dezembro de 1934, na Rádio Sociedade Gaúcha – o nosso querido ORLANDO Johnson SILVA."

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Efeméride para não ser esquecida: 100 anos de Alcides Gonçalves

Dia 10 de outubro último, foi reapresentado o espetáculo Entra Meu Amor, Fica à Vontade!, desta vez no Teatro Dante Barone, da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, como parte da programação do projeto Centenário de Alcides Gonçalves que se vem desdobrando dentro do Ano - Jul/2008 a Jul/2009 - instituido pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre para comemorar a passagem dessa efeméride. ************************************************************ Com razoável presença de público, desfilaram no palco os artistas Carlos Catuípe (violão, voz e arranjos), Cléa Gomes (voz), Izabel L'Aryan (voz), Chico Pedroso (cavaquinho), Marcelo Pimentel (percussão), Luciano Padilho (acordeão), contando ainda com Airton Pimentel como convidado especial. ************************************************************ Na oportunidade, foi executado o seleto repertório das composições de Alcides Gonçalves e seus parceiros, a saber: Flávio Pinto Soares (Brigamos Outra Vez & Samba Cinquentão), Leduvy de Pina (Se Ela Soubesse), Lupicínio Rodrigues (Cadeira Vazia, Castigo, Jardim da Saudade, Maria Rosa, Pergunte Aos Meus Tamancos & Quem Há de Dizer), Pedro Caetano (Minhas Valsas Serão Sempre Iguais), além daquelas com música e letra próprias (Marcha da Coroa, Minha Seresta & Pecador). ************************************************************ Sob a coordenação de sua presidente Izabel L'Aryan, o Sindicato dos Compositores e Intérpretes Musicais do Estado do Rio Grande do Sul - SICOMRS - pretende ainda realizar a gravação de um disco com músicos e cantores gaúchos, edição de livro com partituras e CD encartados (em preparo pelo jornalista Marcello Campos), exposição fotográfica alusiva ao referido Centenário e outros espetáculos pelo interior do estado e por algumas capitais brasileiras. ************************************************************ Registramos aqui a pouca acolhida que os nossos meios de comunicação vem dispensando a essa louvável iniciativa do SICOMRS, não obstante a exaustiva divulgação do evento de parte dos seus organizadores, o que bem demonstra o tímido interesse da midia local em valorizar importantes personalidade da nossa música popular quando dedica generosos espaços a outro nome mais consagrado no centro do país. ************************************************************ Porém, sinceramente, o que nos lavou a alma foi a marcante presença na platéia do cantor e compositor WILSON PAIM, também consagrado intérprete de algumas melodias do saudoso Alcides, que bem representava o prestígio da nossa classe artística a esse empreendimento. Oxalá, quem sabe, chame atenção de outros colegas para apoiar e participar em futuras apresentações desse espetáculo.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

DISCONTUS : XIII, XIV, XV & XVI

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DISCONTUS XIII
Gorda para mais de cem quilos, já não atrai como antes. Mas tem ilusão, acha-se linda e se derrete toda com os galanteios da magrinhagem.
Fizeram eleição para Rainha do Bar Ocidente: deu ela disparado.
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DISCONTUS XIV
A família viaja no feriadão. Estrada cheia de buracos, decidimos compensar no trecho bom. O radar acusa cento e seis, excesso de velocidade. Na Polícia Rodoviária, pedem os documentos. Licença e seguro vencidos.
Duas multas no grupo um, uma no dois.
O guarda nem parece disposto para lavrar a infração.
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DISCONTUS XV
Esperou até a madrugada e se distraiu vendo o parquinho das crianças vazio, os antigos postes de lampiões quebrados, aquele recanto escurecido pela sombra das árvores.
Depois a cisma dela não ter aparecido. Daí se deu conta: esquecera de trocar a vestimenta na casa paroquial.
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DISCONTUS XVI
Acomoda as crianças, senta-se à beira da cama e se prepara.
Olha para os dois, por um instante hesita. O órfão choraminga, a filhinha quieta parece consentir em ceder sua vez.
Então se decide amamentá-lo primeiro.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

De como me impressionei assistindo Alcides Gonçalves ao vivo

Permita-me, tu velho seresteiro,
chamar-te de amigo e companheiro,
apesar de recém ter satisfação
de conhecer ao vivo, tua presença
que fui chegando sem pedir licença
porque me provocaste grande emoção...
Ouvir tua voz melodiosa que encanta
ainda hoje é coisa que nos espanta
e nos deixa incrédulos na descrença...
Ver-te sempre digno nesta altivez
de cabelos brancos, sentir a vez
dessa alma boemia que aí se condensa...
E que meus filhos sentissem como eu
tua ternura, todo carinho teu
disposto em cada canção inolvidável,
sempre fiel ao teu parceiro saudoso
do qual és intérprete esperançoso
a cultivar um amor formidável...
Em versos simples, agradeço a Deus
agradares a nobres e plebeus.
vindo da platéia aplausos merecidos!
Que ele te compense na vez primeira
por este empenho da tua vida inteira
- sermos mais humanos, mais comovidos!
Evocando o centenário de nascimento do saudoso Cidoca, publicamos aqui mensagem que lhe foi enviada em 01.05.1985, após assistir sua participação no espetáculo Noite de Seresta, apresentado pelo cantor Aroldo Dias.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

...ET LE ROI (III)

( c o n t i n u a ç ã o )
Há tempos que eles vêm monitorando os teus passos. E tu, Antoine, nem percebes nada. Agora mesmo que andas sozinho pela rua, eles vão te abordar, um de cada lado. Sentirás uma picada de agulha e, logo em seguida, desmemoriado, ficarás completamente a mercê dessa gente. Nem precisarão vendar os teus olhos porque, assim drogado, nunca vais saber por onde andaste. Foste convertido num ente sem vontade própria. Apenas te restarão teus conhecimentos técnicos que eles vão explorar.
Então, vais chegar numa propriedade situada em local inóspito, de difícil acesso, cercada de muros elevados e vigiada por ferozes cães de guarda. Contigo, eles atravessarão imenso bosque que oculta um sombrio prédio de poucas aberturas para o exterior, todas elas gradeadas, onde providenciarão teus aposentos e tuas vestimentas. Ali não verás nenhuma luz natural, apenas estarás circulando em longos corredores junto com outros internos, as faces encobertas em capuzes de mantos escuros.
Em breve, deverás voar à baixa altitude sobre uma área de florestas cerradas, fugindo do controle dos radares internacionais para transportar uma carga que nem chegarás a imaginar o que possa conter. Em tua mente, foi introjetada uma ordem de obediência incondicional, chantagem que não admite rebeldia, pois, caso contrário colocarás em risco a vida de Michelle e Phillipe, daqueles que não podes prescindir. Sem qualquer noção do tempo, nunca terás a mínima idéia de quando vais concluir essa missão.
A maior parte das tuas horas será gasta em sono profundo a que te induzirão a fim de receberes instruções e procedimentos a serem gravados em teu subconsciente, tais como planos de vôo, rotas aéreas, sistemas e códigos de comunicação e tudo que for necessário para desempenhares a tua tarefa. Ainda serás submetido a várias simulações de obstáculos e imprevistos para testar a tua capacidade de superá-los. Assim, estarás vivendo numa situação virtual, da qual te despojarão quando voltares à tua realidade.
Logo ficarás pronto para o grande passo rumo ao desconhecido. Eles vão te levar para um campo de pouso clandestino, com hangares cuidadosamente camuflados que guardam antigos bombardeiros adaptados para transporte de cargas. A aeronave que deverás pilotar já estará devidamente preparada para a decolagem. Apenas te caberá tomar conta da cabine de comando e seguir a movimentação involuntária das tuas mãos junto aos controles da aparelhagem sub-repticiamente colocada á tua disposição.
Desse modo, quando menos esperares, chegarás a teu destino e, em seguida, voltarás à letargia do repouso induzido ali mesmo na cabine de comando, enquanto eles descarregam a misteriosa carga, Eles te concederão certo tempo e depois te despertarão para o trajeto da volta que tornarás a proceder como da vez anterior, voando à baixa altitude sobre uma área de florestas cerradas, fugindo dos controles dos radares internacionais e... circulando em longos corredores, a face encoberta em capuz de manto escuro...
Alta madrugada, perambulas solitário pela rua. Apenas te lembras de ter saído de tua residência para buscar baguete e leite na padaria. Aliás, recém agora começam a ser levantadas as cortinas de aço da mercearia, o leite já foi entregue e o pão está saindo do forno. Portanto, és o primeiro freguês a passar no caixa para pagar as suas compras. Daí voltas para casa, meio que cantarolando naquele velho e surrado bordão: il a déjà pensé dans la brise des vertes mers en équilibrant les cocotiers des plages ensoleillées?

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

...LA DAME... ( II )

(continuação)
Michelle está ali, esperando. Com o telefone a seu lado, procura estabelecer contato com amigos e conhecidos. Esta tem sido sua rotina nos últimos dias. Só mesmo assim consegue alienar-se de uma grande preocupação. Ainda tem esperança de que alguém lhe traga alguma notícia sobre o paradeiro de Antoine. Ele não podia ter sumido assim sem mais nem menos. Tudo acontecera tão de repente, uma saída banal para buscar baguete e leite na padaria. O tempo passa. E ela, aguardando na sua nórdica frieza, aceita tudo com aquela naturalidade espantosa. Embora um pouco abalada, ainda consegue escrever os seus comentários sobre as repercussões das tendências da moda atual no Brasil.
Em Paris, Michelle levava uma vida agitada como editora de modas de uma revista de atualidades, sendo constantemente requisitada a empreender viagens em busca de novidades pelo mundo afora. Morena, ainda atraente e elegante, apesar da maturidade se aproximando, costumava valorizar os breves momentos junto com Antoine, conseqüente de um relacionamento sereno e de contínuas partilhas e confidências. Nem dava tempo para ficar remoendo mágoas e remorsos.
Agora, no Rio de Janeiro, embora exercendo sua atividade local como correspondente especializada da revista em que tinha trabalhado na França, estava vivendo naquela bonança de ares mais tranqüilos e dias mais arrastados, convencida que fora por Antoine que tinha insistido para ela dar um basta na frenética existência anterior, tanto que ele costumava repetir o velho e surrado bordão:
- il a déjà pensé dans la brise des vertes mers en équilibrant les cocotiers des plages ensoleillées?

Antoine viera antes, junto com seu colega Phillipe, encarregados que foram de conduzir dois caças Mirage para teste na Força Aérea Brasileira, com planos de não voltar para a França. E ela agora estava ali sozinha, decorrido certo tempo desde que chegara para apoiá-lo nessa aventura em terras estranhas. È bem verdade, estava comodamente instalada naquela mansão em São Conrado com deslumbrante vista para o mar, que ele alugara para estarem mais próximos um do outro e, além disso, contava com a assistência de Phillipe, ainda ocupando uma das dependências da casa.
Ela nem sabe como consegue manter-se constante naquela vigília de dias infindáveis, completamente esquecida daquele viço de mulher impetuosa. Bem próximo de si, estava Phillipe, muito respeitoso, colocando-se sempre à disposição para o que fosse necessário. Porém, ela vivia à sombra de um fantasma, lembrança ainda intensa, brasa escondida sob as cinzas, que não lhe permitiam mudar os rumos do seu destino.
Desse modo, não lhe resta outra alternativa se não bater furiosa sobre as teclas da sua máquina de escrever, datilografando laudas e laudas que são rasgadas e jogadas à cesta do lixo, para depois recomeçar numa busca de perfeição inatingível. Em certas ocasiões, para com tudo e se põe a discar no telefone algarismos que estão gravados na sua memória, buscando informações em que se embaralham assuntos profissionais e particulares. Depois, vai até a cozinha, passa um café e traz o bule para a sua mesa de trabalho, onde se debruça tomando xícaras e xícaras dessa bebida enquanto quente para manter-se desperta até que o cansaço a prostre por completo.
Certo dia, porém, acordou com passos de gente andando pela casa. Avista um vulto vindo em sua direção. Já não pode mais conter a torrente de lágrimas represada em seu íntimo.
( c o n t i n u a )

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

LE VALETE... ( I )

Antoine e eu éramos pilotos de prova em caças Mirage, na França. Velhos parceiros, costumávamos voar junto testando os aviões da fábrica. Nessa época, já andávamos bastante traumatizados com as constantes ocorrências de acidentes em várias partes do mundo com jatos daquele tipo. Foi quando fomos encarregados de conduzir dois aparelhos para teste na Força Aérea Brasileira. Pensamos então que ali estava a oportunidade de nos acomodar e usufruir de um ócio conseqüente de nossas reservas financeiras acumuladas durante anos nessa arriscada atividade profissional. No Brasil, acreditávamos que levaríamos uma vida de nababos e bem mais tranqüila - il a déjà pensé dans la brise des vertes mers en équilibrant les cocotiers des plages ensoleillées? - conforme Antoine insistia sempre batendo na mesma tecla para me convencer.
Transcendendo a nossa ligação profissional, havia ainda uma antiga amizade que nos aproximava diuturnamente, as nossas diferenças complementando um ao outro. Assim eu, um pacato celibatário, não era lá muito dado a conquistas amorosas e sim mais chegado a visitas esporádicas aos conhecidos e familiares, em cujo círculo sempre fui bem recebido, compensando dessa forma a necessidade de uma companhia mais íntima. Já Antoine vivia há alguns anos com Michelle, compartilhando os breves momentos que cada um dispunha do seu tempo, cuja maior parte gastavam nas tarefas desempenhadas. Algumas vezes, eu costumava freqüentar o apartamento deles, quando me convidavam para o jantar preparado a capricho por Michelle. Ela sempre me dizia que adorava minha conversa fluente e espirituosa, que eu era o amigo mais assíduo e pronto para aconselhá-los no que fosse requisitado.
Numa dessas ocasiões, Antoine aproveitou-se da minha presença a fim de propor para Michelle largar as suas massacrantes tarefas e desfrutar de um convívio mais intenso junto a ele, através de uma radical mudança de hábitos. Falou-lhe então dos planos que pretendia realizar comigo de nos estabelecer no Brasil, após conduzir os dois caças que seriam testados pela Aeronáutica daquele país, de onde não deveríamos voltar; que ela poderia seguir para lá assim que pudesse. Para minha surpresa, Michelle revelou na hora para Antoine sua concordância com tudo àquilo que estávamos premeditando.
Passados alguns dias, logo chegávamos à Base Aérea do Galeão, no Rio de Janeiro, onde deveríamos permanecer certo tempo em missão de treinamento e instruções aos pilotos brasileiros, habilitando-os a testarem as aeronaves recebidas para aprovação técnica de futuras encomendas. Terminado o estágio na Base, então podíamos providenciar no aluguel de uma casa para Antoine fixar sua residência, pois ainda dispúnhamos de longo prazo na validade dos vistos de estadia provisória em nossos passaportes. Depois era só esperar a vinda de Michelle.
Nem se completara um mês, Antoine comunicou-me a notícia de que Michelle já estava pronta para embarcar, depois de se desembaraçar dos seus compromissos na França, inclusive recebendo proposta da própria empresa jornalística para exercer a função de correspondente no Brasil, não precisando envolver-se em demasia com aquelas responsabilidades inerentes à sua ocupação anterior em Paris. Até aqui tudo parecia correr às mil maravilhas, afora o entusiasmo exagerado de Antoine que já me esgotava a paciência quando repetia monotonamente a mesma conversa de sempre, sem que se desse conta desse ato involuntário:
- Je ne lui ai pas dit, M. Phillipe, maintenant est seul de penser dans la brise des vertes mers en équilibrant les cocotiers des plages ensoleillées?
( c o n t i n u a )

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

FOLHETIM (para Gislaine)


Perdoa-me se não te curti como devia
tanto e tanto sempre quís eu te compreender;
buscava fazer-te feliz e não podia,
nem sabes o que me custou esse padecer.
**********
E o tempo que ia passando, mais e mais eu insistia
neste tão estranho devaneio de te querer:
bastava simplificar mas eu não sabia
assim bem humana me fosses parecer.
**********
Primavera já marca lindo calendário:
azaléias são passadas em nosso jardim,
estão como recordações num relicário.
**********
Com ternura que representas para mim,
registro nas páginas deste simples diário
mais um capítulo do nosso folhetim.
**********

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

PLÁCIDO REPOUSO

Um, dois, três, quatro, cinco na mão direita; um, dois, três, quatro, cinco na esquerda. Ainda menina, te certificavas de ter os dedos completos para juntá-los aos pares. Mindinho com mindinho. Seu-vizinho com seu-vizinho. Pai-de-todos com pai-de-todos. Fura-bolos com fura-bolos. Mata-piolhos com mata-piolhos. Antes de dormir, te ajoelhavas ao pé da cama e repetias as palavras ditas baixinho por tua mãe em teu ouvido. O hábito arraigado, estranhavas aquele dia em que ela deixou de aparecer. Sozinha no quarto amplo, te sentias insegura à espera do monstro de ferro que logo passaria ali perto, estremecendo toda casa.
Aguardavas tua mã e ouvias perfeitamente aqueles passos, subindo as escadas com o cão. Eram de teus irmãos maiores já iniciados nas conversas dos adultos. Àquelas horas, eles raramente costumavam andar pelos corredores do sobrado, muito menos o cão que se confinava no pátio. E tu ali , em vão tentavas mexer os dedos para te distraires. E depois aquele apito estridente. ********************************************************************** Na madrugada, um trem sibila e te acorda num sobressalto. Tua mãe parece estar adormecida na poltrona, ao lado da cama. Olhas para a sua face, os traços tristes, cabelos soltos e enbranquecidos, o xale preto se estendendo sobre o corpo encolhido pela noite fria. Ela se lembrou de ti, deves pensar, talvez não se tivesse animado a te despertar para as orações que sempre fez junto contigo. Sais do leito, te abaixas a seus pés e beijas suas mãos enregeladas. Teu desespero ecoa solitário no silêncio...
As luzes da casa acendem-se todas, logo o quarto está habitado por outros parentes. Perguntas por tua mãe, se não a viram. Impossível que ela esteja ali, mas o milagre finalmente acontecera, há anos que esperam esse teu retorno. Lágrimas, rostos sorridentes, comovidos, vincados pelo tempo, aos poucos vais reconhecendo-os. E teus irmãos? O cão? Ninguém consegue falar deles para ti. Apenas abraços e beijos, te festejam sem que entendas o porquê. E te enxergas com mãos e pés enormes saídos de uma esmaecida camisola de dormir. Alguém traz um livro, abre-o em uma página marcada e te mostra a passagem. O teu olhar interrogativo, tudo tão nebuloso para ti naquele momento. Forma de esquizofrenia caracterizada por catalepsia, melancolia e depressão física - como poderias entender?

segunda-feira, 21 de julho de 2008

DISCONTUS : IX, X, XI e XII

DISCONTUS IX
Apareceu com uma bola de couro número três. Uma loucura. Os dois times formados, num deles o escalaram de centro-médio. Não armava o jogo. Pediram que fosse para a ponta-esquerda. Não sabia cruzar para a grande área. Terminou a partida atacando no golo.
No outro dia voltou com a mesma bola. Deram-lhe um apito.
DISCONTUS X
Domingo, manhã cinzenta, passeia no parque. Donzela linda o acompanha. Volúvel mexe as ancas. atrai a cobiça. Já acostumado, ele tira baforadas do cachimbo. Ignora.
De repente, liberada se agacha, faz xixi em público. Ele tolera tudo menos a falta de compostura:
- Mas que vergonha, Donzela!
DISCONTUS XI
Reconhece a lambreta no estacionamento. De braços cruzados, sentada na garupa, espera horas seguidas até que o marido aparece. A outra a tiracolo.
- Estou saindo da reunião... Ah, ia me esquecendo: minha companheira do Sindicato.
A outra percebe que está sobrando, pede licença para se retirar.
- Muito prazer, querida!
DISCONTUS XII
Ex-aluno do Colégio Júlio de Castilhos, primeiro lugar da turma. Hoje funcionário público, vinte e três concursos, uma vaga a menos - sempre ocupada - para os demais concorrentes.
Bunda-fria virou folclore: só ganhou estabilidade, saiu do piso salarial da categoria e recebeu cargo em comissão depois de atingir a idade limite.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Centenário de Alcides Gonçalves

No próximo dia 28 de julho, às 18 horas, no Teatro Renascença do Centro Municipal de Cultura, será levado a cena o espetáculo Entra Meu Amor, Fica a Vontade, que deverá encerrar o Festival de Inverno 2008, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura. Esse evento constitui parte do projeto Centenário de Alcides Gonçalves, saudoso compositor, cantor e instrumentista gaúcho que nos legou importante parceria com Lupicínio Rodrigues, autores de consagrados clássicos da música popular brasileira como Cadeira Vazia, Maria Rosa, Quem Há de Dizer e Castigo.
Na oportunidade, o prefeito de Porto Alegre, José Alberto Fogaça, deverá assinar Decreto instituindo o Ano Alcides Gonçalves na Música Porto-Alegrense, compreendido no período de Julho de 2008 a Julho de 2009, quando será desdobrada extensa programação de eventos alusivos à efeméride - 01/Out/1908 - com lançamento de CD e livro biográfico em preparo pelo jornalista Marcello Campos, além de exposição fotográfica da época e apresentações artísticas nos bairros da Capital e no interior do estado.
A coordenação geral do projeto encontra-se a cargo do Sindicato dos Compositores Musicais do Rio Grande do Sul, através de sua presidente Izabel L'Aryan, e conta com o apoio das Secretarias municipal e estadual de Cultura, do Instituto Estadual do Livro e da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul.
No espetáculo do dia 28, a cantora e compositora Izabel L'Aryan estará recebendo os artistas Carlos Catuipe (direção musical, arranjos, violão e voz), Cléa Gomes (voz), Chico Pedroso (cavaquinho) e Marcelo Pimentel (percussão). Também foram convidados Ademar Silvio, Roberto Paz, Alexandre e Alcides Gonçalves Júnior, cujas presenças deverão interagir com o público a partir do Teatro, prosseguindo pelo foyer do Centro Municipal de Cultura até chegar no Bar do Lupi, ali situado, a fim de mostrar um autêntico clima da nossa seresta.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

13 de junho de 1928

Hardy Vedana & Jazz Band com Glênio Reis, TV Piratini/1960.
No último sábado, amigos e admiradores do musicólogo Hardy Vedana reuniram-se no Ypiranga Futebol Clube, a fim de lhe oferecer um almoço comemorativo à passagem de seus 80 anos. Na presença de sua esposa Dª. Gila, das filhas Clarisse e Fernanda, dos netos Mateus, Daniel e Vitória e da bisneta Gabriela, o homenageado recebeu os cumprimentos de Soleno Almeida, Darcy Alves, Maria Helena & Ivomar, Anamaria Bolzoni, Raquel & Marcello, Flavinha, Gilberto Coutinho, Plauto Cruz, Franklin Cunha, Luiz Carlos Cunha, Eulálio Delmar Faria, Juarez Fonseca, Luiz Fonseca, Helenice & Waldyr, Carlos Boccanera Koch, Laci, Jayme Lubianca, Glênio Reis, Ruth Regina, Gislaine & José Alberto, Valtinho e tantos outros que ali compareceram. Num ambiente agradável, a festa prolongou-se até às 17 horas, através de um clima de confraternização em que não faltou a esperada apresentação artística, onde se salientaram os cantores Coutinho, Maria Helena Andrade, Ruth Regina, Maria Edith, Flavinha, Waldyr Justi e Bernardo, bem como o solo de trombone de Laci e mais a roda de choro do regional formado por Plauto Cruz (flauta), Darci Alves (violão), Cebolinha (cavaquinho), Soleno (pandeiro) e depois Valtinho (pandeiro). Uma verdadeira seresta que foi registrada pelos cineastas Cláudia Ávila & Amarildo Dutra para o documentário em preparo Viola Enluada. ********************************************************************** Natural de Erechim, Ardy Antonio Vedana (seu verdadeiro nome) veio para Porto Alegre em 1943. Aqui transitou pelas emissoras da época, primeiro frequentando os programas de auditório que as mesmas costumavam apresentar e, posteriormente, trabalhando como copista e como clarinetista do Regional do Paraná, inclusive exercendo essas atividades simultâneamente na Farroupilha e na Gaúcha. Memória viva da nossa história musical, tem-se destacado como grande pesquisador e colecionador de aproximadamente de 8.000 partituras, algumas delas manuscritas e a mais antiga datada de 1835. Grande estudioso do jazz, a sua biblioteca dispões de um alentado número de volumes, abrangendo todo o panorama da música nas Américas. Além disso, tem o seu passatempo predileto de colecionar carteiras de cigarro que já atinge um total de 12.000 unidades. Nessa rica vivência, tornou-se escritor ao natural, já tendo editadas cinco obras, as quais constituem rica fonte de pesquisa para estudiosos do assunto, a saber: Quem é quem em Porto Alegre, Jazz em Porto Alegre, A História do Choro, Otávio Dutra na História da Música de Porto Alegre e o álbum recentemente publicado sobre A Elétrica e os Discos Gaúcho. ********************************************************************** Através daquelas pessoas que compareceram ao Ypiranguinha, tentou-se resgatar um merecido reconhecimento de que a nossa sociedade e as nossas entidades de classe são devedoras para com Hardy Vedana, grande batalhador pela implantação do Museu da Imagem e do Som/RS.

terça-feira, 24 de junho de 2008

P_E_N_E_L_O_P_E_D_I_C_A


Texto constante do álbum comemorativo à passagem dos 50 anos do escritor Luiz Antônio de Assis Brasil, oferecido em 21/06/1995 pelos ex-integrantes de sua Oficina de Criação Literária.
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Aonde houvesse um trapo, ela juntava.
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Amarelo claro, rosa esmaecido, verde musgo,
logo distinguia a tonalidade de cada cor.
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À luz do lampião, dispunha no solo
losangos, trapézios, meias luas, estrelinhas...
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Quando percebia algum efeito,
encarregava agulha e linha de resolver.
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Sem atropelos nem preocupações
(havia um anjo vigilante).
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Assim ocupou toda existência,
sempre esperando concluir a colcha de retalhos.
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terça-feira, 17 de junho de 2008

DISCONTUS : V & VI & VII & VIII

DISCONTUS V --------------------------------- Atende o telefone: mudo, desliga. Nova chamada, outra vez calado; se põe a xingar, bate a peça furiosa. Mais três ou quatro tentativas, deixa tocando até que cesse. Ocorre-lhe deixar o fone fora do gancho: ------------------------------------- - Dá trote agora, seu desgraçado! DISCONTUS VI -------------------------------- Na estrada, a morena super-gostosa fazia sinais. Parou bem em frente a ela. Tratava-se de trocar o pneu. -------------------------------------------------- - Com todo prazer... ---------------------------------------------------------------------------- Feito o serviço, ela agradeceu, entrou no carro e foi embora. DISCONTUS VII ----------------------------------------------------------------------------- Loura, maneira audaciosa de vestir, lábios tão tentadores, um azul perdido nos olhos. É insinuante na sua fala, tem graça no folhear das páginas coloridas da amostra encadernada. Quer fechar o pedido, se vou ficar com a obra: ---------------------------------------------------------------------------------------------------------- - Enciclopédia que nada, me dá o teu telefone! DISCONTUS VIII ---------------------------------------------------------------------------- Frequentemente buscava sintomas nos livros - nenhum que já não tivesse. Nunca usava sanitário público, pois só em casa podia fazer assepsia nas mãos e se banhar depois das necessidades fisiológicas. No necrotério constataram: --------------------------------------------------------------- Estava embalsamado desde que viera ao mundo.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

...e acabei quebrando a cara!!! (III)

(continuação)
Ai quem me dera que a estória terminasse por aqui. Outra vez, um dos trapezistas Hermanos Aguileras não podia participar do número com indisposição estomacal.
Carambôla - assim eles me chamavam – tenés que ir!
E lá naquelas alturas, numa das plataformas Carmencita, aquele mulherão de tirar o chapéu, e na outra, Huguito e eu. Carmencita se manda e vem até nós:
Veni, Carambôla!
Eu me atiro de qualquer jeito, ela me apanha no ar e me leva até a sua plataforma. Ali ela se agarra toda em mim:
Mi querido, mi querido...
Do outro lado, Huguito salta no seu trapézio, Carmencita me empurra, Huguito cruza os braços e eu fico pulando na rede de segurança. Carmencita logo vem em seu trapézio e me segura num daqueles pulos, voltando comigo até sua plataforma, e eu de lá tocando flauta no enciumado Huguito:
Mi querido, mi querido...
Esperem aí, eu tenho mais coisa pra contar. E aquela do atirador de facas, então, não tem no gibi. A companheira entrou em licença-maternidade e eu tive de me travestir como partner. Primeiro, eu vinha aos pulinhos e ficava rodopiando em volta de Dom Orlando que anunciava:
Y ahora com usteds el renomado batedor de la cavaleria americana, el Indio Apache com sus machaditas mortales...
Ele entrava todo agachado, os joelhos dobrados, olhando de um lado para o outro com uma das mãos em pala sobre as vistas e brandindo um enorme machado acima da cabeça, chegava a dez passos de onde se encontrava a roleta, erguia-se e esperava que me amarrassem naquela roda, aí se virava de costas, colocavam-lhe a venda nos olhos, a roda girava e ele atirava as machadinhas que se cravavam a milímetros próximos do meu corpo, ora no sovaco, ora quase arrancando uma das orelhas, no meio das pernas e por aí afora. O segredo do truque estava no peludo que girava a roleta, aparando as machadinhas nas áreas livres. Assim, é que, graças à sua habilidade, consegui sair são e salvo daquele número. Quando me soltaram da roda, eu tremia adoidado. Tiveram que me segurar para que eu andasse até onde se encontrava o Indio Apache, que me perguntou:
Como te llamas?
Carambola, eu lhe disse. E ele:
Ahora, eres Caram...
Eu insisti: Carambola. A observação dele:
Pero, mira lo que se quedó pendurado en la ruleta...
Desgraçado, desgraçado, eu te mato, eu te mato - e o Indio Apache saiu dali zunindo como uma flecha.
É melhor parar por aqui, se não eu é que vou ter de me desviar da pontaria de vocês!
Fum Imbora Mem?

quarta-feira, 11 de junho de 2008

...que fui aliciado por um circo... (II)

(continuação)
E aí começou a entrar bicho que não acabava mais, era elefante, era girafa, era urso, era macaco, era pônei, era cachorro, era palhaço, era trapezista, era equilibrista, era mágico... Mas eu comecei a me fixar na bailarina branquinha, branquinha, de uma alvura de propaganda de sabão em pó, ela vinha equilibrada num pé só, os braços estendidos e a outra perna esticada no ar, nem se mexia, em cima de um percherão e, naquela aflição, eu fui girando, girando junto com o carrossel e nem me dei conta que estava me enredando todo com o fio do megafone. Aí o cara que vinha em cima do elefante percebeu o que estava acontecendo e murmurou na orelha do bicho:
Ciranda, cirandita, vamos todos cirandar.
Ciranda, cirandita, media vuelta vamos dar.
O elefante girou para trás e a bicharada veio junto e eu rodando no carrossel consegui me soltar daquele monte de fio. Foi então que o percherão saiu da roda e ficou andando de lá pra cá e de cá pra lá na minha frente. Numa dessas, levantou a cola, deu um pinote e ploft ploft seguiu no trote. A bailarina deu uma mexidinha e logo se recompôs, mas eu não resisti e dei-lhe um baita berro:
Cuidado, niña, que te vas a melecar toda!
Vocês podem pensar que com essa eu já estava livre da enrascada, que nada, não é que Don Orlando me convidou para viajar com o circo e eu fui ser pau para toda obra. Um belo dia, o domador inventou de sumir na hora do espetáculo e adivinhem quem foi que teve de entrar na jaula com as feras? Não teve jeito, me explicaram direitinho e lá fui eu fazer outro papelão para enfrentar o Sultão e o Poderoso. Acontece que o tigre Sultão era gay e eu não podia deixar ele se aproximar muito de mim para que não me agarrasse e fizesse alguma indecência na frente da platéia. Era chicotada pra cá, chicotada pra lá, uma cadeira na outra mão empurrando ele pra longe quando se punha a rebolar:
No te fresquees, Sultón!
Já o Poderoso era um leão velho, bastante dorminhoco, que eu tinha que despertar a toda hora, dá-lhe chicote, fincar a cadeira na sua juba, bater no tambor, assustá-lo com o barulho, porque se facilitasse perigava ele cair no ronco ali mesmo. Assim, eu tinha que gritar alto e bom som:
Poderoso, mostrate como eres valiente!
(continua)