quinta-feira, 11 de setembro de 2008

...LA DAME... ( II )

(continuação)
Michelle está ali, esperando. Com o telefone a seu lado, procura estabelecer contato com amigos e conhecidos. Esta tem sido sua rotina nos últimos dias. Só mesmo assim consegue alienar-se de uma grande preocupação. Ainda tem esperança de que alguém lhe traga alguma notícia sobre o paradeiro de Antoine. Ele não podia ter sumido assim sem mais nem menos. Tudo acontecera tão de repente, uma saída banal para buscar baguete e leite na padaria. O tempo passa. E ela, aguardando na sua nórdica frieza, aceita tudo com aquela naturalidade espantosa. Embora um pouco abalada, ainda consegue escrever os seus comentários sobre as repercussões das tendências da moda atual no Brasil.
Em Paris, Michelle levava uma vida agitada como editora de modas de uma revista de atualidades, sendo constantemente requisitada a empreender viagens em busca de novidades pelo mundo afora. Morena, ainda atraente e elegante, apesar da maturidade se aproximando, costumava valorizar os breves momentos junto com Antoine, conseqüente de um relacionamento sereno e de contínuas partilhas e confidências. Nem dava tempo para ficar remoendo mágoas e remorsos.
Agora, no Rio de Janeiro, embora exercendo sua atividade local como correspondente especializada da revista em que tinha trabalhado na França, estava vivendo naquela bonança de ares mais tranqüilos e dias mais arrastados, convencida que fora por Antoine que tinha insistido para ela dar um basta na frenética existência anterior, tanto que ele costumava repetir o velho e surrado bordão:
- il a déjà pensé dans la brise des vertes mers en équilibrant les cocotiers des plages ensoleillées?

Antoine viera antes, junto com seu colega Phillipe, encarregados que foram de conduzir dois caças Mirage para teste na Força Aérea Brasileira, com planos de não voltar para a França. E ela agora estava ali sozinha, decorrido certo tempo desde que chegara para apoiá-lo nessa aventura em terras estranhas. È bem verdade, estava comodamente instalada naquela mansão em São Conrado com deslumbrante vista para o mar, que ele alugara para estarem mais próximos um do outro e, além disso, contava com a assistência de Phillipe, ainda ocupando uma das dependências da casa.
Ela nem sabe como consegue manter-se constante naquela vigília de dias infindáveis, completamente esquecida daquele viço de mulher impetuosa. Bem próximo de si, estava Phillipe, muito respeitoso, colocando-se sempre à disposição para o que fosse necessário. Porém, ela vivia à sombra de um fantasma, lembrança ainda intensa, brasa escondida sob as cinzas, que não lhe permitiam mudar os rumos do seu destino.
Desse modo, não lhe resta outra alternativa se não bater furiosa sobre as teclas da sua máquina de escrever, datilografando laudas e laudas que são rasgadas e jogadas à cesta do lixo, para depois recomeçar numa busca de perfeição inatingível. Em certas ocasiões, para com tudo e se põe a discar no telefone algarismos que estão gravados na sua memória, buscando informações em que se embaralham assuntos profissionais e particulares. Depois, vai até a cozinha, passa um café e traz o bule para a sua mesa de trabalho, onde se debruça tomando xícaras e xícaras dessa bebida enquanto quente para manter-se desperta até que o cansaço a prostre por completo.
Certo dia, porém, acordou com passos de gente andando pela casa. Avista um vulto vindo em sua direção. Já não pode mais conter a torrente de lágrimas represada em seu íntimo.
( c o n t i n u a )

2 comentários:

cabeda disse...

O que dois caças Mirage, ultrapassados, conseguem fazer....
A propósito, como eles conseguiram atravessar o Atlântico, entre França e Brasil?

Anônimo disse...

Oi Souza

Achei muito triste a vida que a Michelle estava levando ultimamente aqui no Brasil....