quarta-feira, 28 de junho de 2017

Poeta Garoeiro e a semana Heitor Saldanha (VI)






Heitor Saldanha 
– A Hora Evarista – 1974 – p. 203.
 Só depois de sentir que o Belo é triste
é que se atinge a alma da Beleza.
De que vale saber se Deus existe
conhecendo a alegria da tristeza?

Em Quixote a sonhar de lança em riste
a desfazer agravos e torpezas
- a viva encarnação do Belo-triste –
existe um deus pagão por natureza.


Antes do balançar para o crescente
recebe-se o ingresso permanente
e se devolve a senha antes do tempo.

Depois, buscar a luz ventre de treva
da viva floração nunca se eleva 
que da germinação não houve exemplo.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Poeta garoeiro e sua semana Heitor Saldanha (V)

5.1   S O N E T O
        Heitor Saldanha 
(A Hora Evarista, pag. 107)


Acordo-me outra idade e me renovo.
Sou minha antiguidade que festeja.
Acordo-me no ser que desaprovo:
abisbo-me de ver sem que outro veja.

Atingido de ser, lutoflutuo
pela luta de ser que em mim resiste,
e no descontinuar me continuo
que do meu alegrar me faço triste.

Já sou a sonolência de outra espera
onde dorme a consciência que nos gera
de onde nos chega o bem mais depurado.

Distendido e liberto me imagino
escutando a linguagem do menino
que vos fala por mim do outro lado.



5.2   T E M P O - I R A - T U R A
        Heitor Saldanha 
(A Hora Evarista - 1974, pag. 17)

Reler os meus poemas
me angustia
e no entanto insisto
no dilaceramento da matéria

arado
irado
contra o vento
apertarei o silêncio
as letras
as melodias
até que chegue a expressão
do verso que necessito
ou mesmo não necessito
exploro o pulso da forma
para poder deformá-la
e passo 
sou minha ultrapassagem

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Poeta Garoeiro e a semana Heitor Saldanha (IV)






Heitor Saldanha – A Hora Evarista – 1974 – pp. 54/55.

Em mim esse fulgor de alucinâncias
que paralisa os contrários
e reconquista um campo de batalhas
cansei de cruzar fronteiras
com passaporte lacrado
entanto não me projeto
somo um simples apelido
num alfabeto sincrônico
que há muito foi desusado
operário de impossíveis
trabalho sobre o imprevisto
escrevi cartas anônimas
à luz de velas mortiças
e minhas correspondências
chegavam sem endereço
...
mas não andei sobre as águas
não imitei Jesus Cristo
eu sou o lado contrário
e vou passar sem ser visto
...
sim meu trajeto é de longe
fazendo um curso de espasmos
com sombras de fuzilados
caindo dentro de mim
até chegar ao teu reino 
e te cantar   liberdade

domingo, 25 de junho de 2017

Poeta Garoeiro e a semana Heitor Saldanha (III)

Heitor Saldanha 
– A Hora Evarista – 1974 – p. 88.

Hoje enquanto tiver dinheiro beberei.
Depois entregarei ao garçom
meu relógio de pulso
meus carpins de nylon
meus óculos de tartaruga (que nome bonito)
minha caneta tinteiro
e continuarei bebendo
sem literatura
sem poema
sem nada.

Só.
Como se o mundo começasse agora.
Estou nesses conscientes estados de alma
em que não posso me salva
e nem salvá-la.

sábado, 24 de junho de 2017

Poeta Garoeiro e sua semana Heitor Saldanha (II)


Dança
Heitor Saldanha – A Hora Evarista – 1974 – p. 80.

A lua disse à criança
                    que a flor era um pé de sol.

A lavadeira passando
                    seus alvíssimos lençóis
                    estendeu uma nuvem no espaço.

E ficou tudo
                    distante
                              distante

                                       como a lembrança da infância.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Poeta Garoeiro e sua semana Heitor Saldanha (I)


Marcha
Heitor Saldanha – A Hora Evarista – 1974 – p. 182.

Ouço um rumor de astros debandando
um marulhar de onda que vem vindo,
será a marcha do tempo penetrando
ou será a Tua voz que estou sentindo?

São matilhas de cães que vão ladrando
ou debandar de sombras se esvaindo?
É um astro no mar que está sangrando
ou será o passo Teu que vem subindo?

Senhor,   não me abandones no caminho.
Tu me deste a beber de um novo vinho
então dá-me mais luz se é  que mereço.

E se tanto merece um teu eleito
Senhor,   manda que cresça no meu peito 
este glorioso mal de que padeço.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Da homenagem ao poeta gaúcho Heitor Saldanha

Cedemos nosso espaço para repicar parte da Apresentação do Especial Heitor Saldanha com o depoimento do Poeta Garoeiro, de Natal-RN, sobre uma das obras deste ilustre cruzaltense

3. Hora Evarista – Especulações...

Sob o título: “A Hora Evarista” a Editora Movimento, de Carlos Appel, lançou, em 1974, poemas de Heitor Saldanha, inclusive, os de: “A Nuvem e a Espera”, “As Galerias Escuras” e “A Outra Viagem”. Ainda que esse livro trouxesse refinados comentários de Manoel Sarmento Barata, Raymundo Faoro e José Louzeiro, nada é mencionado a respeito do título, onde está esse adjetivo singular, “evarista”, para qualificar aquela “hora” do poeta. Descartamos eventual referência que viesse da onomástica, pela antroponímia de “Evaristo”, nome próprio de origem latina.
Invenção, neologismo, aliteração, transliteração para abonar ou desabonar palavras, são atitudes constantes na criação poética e na literatura em geral. Nosso poeta poderia simplesmente ter achado bonito, sozinho em sua mesa, ou conversando com amigos, “A Hora Evarista”, que não é “A Hora H”, nem “A Última Hora”, mas é uma hora decisiva.
Também pode ser que ele tivesse lido o epíteto em algum tempo e lugar e por gosto e livre escolha adotado o enigma para título da compilação.
Nos poemas em que a expressão aparece um significado preciso não ganha abonação pela moldagem metafórica que a permeia.
As pistas rabiscadas pelo Poeta Heitor Saldanha, autor de "A Hora Evarista", são:

1ª) - página nº 9 - (título): a hora evarista (em letras minúsculas); com a epígrafe:

uns vivem crono-metrados
eu vivo fora de hora
paciência
por agora
quero um oco de céu
pra cabidar meu chapéu

2ª) -  página nº 10 - (título): A HORA EVARISTA (caixa alta), seguido de:

chega uma altura na vida
em que o universo suspira sua síntese
então passamos de cabeça baixa
era tão longe e não se sabia
que tudo é perto pra viver poesia

3ª) – página nº 11 – poema: "Dia dos Mortos":

tira isso daí
recua essas mesas pardas
pra não me perturbar em alucínio
apague os refletores que essa água mareia
estão desembarcando os passageiros
nesse campo de pouso disparado
é a hora evarista no tambor dos revólveres
por isso não há estampido
cuidado
sai daí
...

Pensando nisso, é possível que uma "hora evarista" seja, ao contrário da hora cronometrada, uma "hora de se viver fora de hora", "numa certa altura da vida", "com a síntese do universo ali, sendo suspirada"...
Ela poderia vir, por aproximação, do Latim, onde "sempre" admite, entre outras abonações: "semper", "umquam", "ever" e "in perpetuum".
Ora, considerando "ever" - também, como o mantém a Língua Inglesa - há de haver uma forma declinativa de "ever" para "evaris", acabando por ancorar o adjetivo "evarista", para qualificar uma determinada e singularíssima hora que seria para sempre, com duração diferente da "hora cronometrada", muito diferente:

Hora evarista = aquela que a gente quer que nunca acabe, que dure para sempre...

Ou, não?

Poeta Garoeiro – Natal, RN, 21 de junho de 2017.


Programação: de 22 de junho a 29 de junho de 2017, o Reblog do Poeta Garoeiro homenageia o Poeta Heitor Saldanha, postando, dia a dia, um poema escolhido, dentre o manancial apuradíssimo que ele criou...

domingo, 4 de junho de 2017

* A ULTRA SENSIBILIDADE DE LUIZ CORONEL *



O homem no desemprego
é um homem amordaçado.
Esconde grito contido,
Por isso parece calado.

O homem no desemprego
rumina áspero o ódio.
O tempo boceja inútil 
sem agenda ou relógios.

O homem no desemprego
não tem passagens ou malas.
Move-se num vai e vem
qual uma fera na jaula.

O homem no desemprego
parece perdido no espaço.
Manearam suas pernas,
imobilizaram seus braços.

O homem no desemprego
é um homem no exílio.
Não tem idioma nem pátria.
É um trem fora dos trilhos.

O homem no desemprego
é um náufrago na tábua.
É um peixe asfixiado
num turvo aquário de mágoas.

Ao homem no desemprego
congelaram sua imagem.
O tempo rola seu filme
mas ele ficou à margem.

Ao homem no desemprego
o alambique destila
a salvação pelos copos
e o triste roteiro das filas.

Publicado em 17/maio/2017 no Caderno de Sábado do Correio do Povo (POA).