domingo, 29 de setembro de 2013

O BÊBADO E A FLOR (UMA CENA URBANA)


Aquela gravata folgada 
no colarinho aberto,
o vento por perto,
soltando a camisa 
da calça quase arriada,
de que me adiantou
barba, cabelo e bigode
caprichados, ela nem notou.

Pra meus cacos juntar,
passei naquele bar,
tantos tragos que tomei
não foram suficientes
como estranhos confidentes
das mágoas que desabafei,
até sair de lá tropeçando
nas minhas lembranças,
na mão ainda levando,
entre outras esperanças,
este botão de rosa vermelha,
afinal foi o que me restou
duma apagada centelha.



quarta-feira, 11 de setembro de 2013

De positivismo e sem mais outros cânones



Baseando-se na oralidade de seus antepassados, a prima Lucy (Souza) Resem Hidalgo escreveu, sem quaisquer pretensões literárias, apenas querendo deixar registro para seus descendentes, dois manuscritos sobre as origens das famílias Resem e Souza, sobrenomes paterno e materno. O histórico dos Resem remonta ao século XIX, por ocasião das lutas fratricidas entre blancos colorados, no Uruguai pós Independência. Ao  montar a genealogia dos Resem, relatou a história de Filomena Peres, curandeira residente em Pelotas: “Ela, que herdou dos avôs o conhecimento de ervas, tornou-se uma curandeira e fez muitas curas, inclusive curou o filho do intendente daquela época que, em agradecimento, deu-lhe uma placa para a porta com os dizeres de doutora.”
A propósito, a Constituição de 1891 do Estado do Rio Grande do Sul me vem à mente como única na Federação inspirada nos ideais positivistas de Júlio de Castilhos que apregoava a dispensa de diplomas aos profissionais de indiscutível competência. E até hoje se estende uma polêmica sobre a interferência de técnicos de nível médio em inúmeras atividades ditas exclusivas das “doutorais” profissões de advogados, engenheiros, médicos, economistas, contadores e outros mais para exercício do corporativismo da classe que, algumas vezes, ressente-se de falta de prática para completar sua formação. O que se pode constatar na batalha daqueles que ingressam no mercado de trabalho com poucas oportunidades de preparo nas empresas em que forem admitidos.
Valho-me dessa introdução para comentar interessante artigo da escritora Mafabami, intitulado “Breve aqui diplomas para escritores” e publicado em 21/06/2006, no site A Garganta da Serpente, no qual aborda a criação de um curso de formação de escritores e de agentes literários sob a coordenação de Fabrício Carpinejar na Unissinos. Nesse texto, a autora manifesta sua inconformidade com os cânones de diplomados, com o que concordo em parte, inclusive já tendo discutido o assunto em “Mais Currículo, Menos Diploma”, matéria que tratava do exercício da profissão de jornalista. Pois acredito na existência do talento inato, intuitivo, que prescinde de qualquer formação acadêmica, este sim “Doutor Honoris Causa”, com direito ao livre exercício profissional.
Por curiosidade, resolvo acessar o portal da revista Cronópios, no qual se encontra detalhada apresentação daquele curso através da matéria “Universidade pode formar escritores?” e me surpreendo com a riqueza e abrangência do interessante conteúdo curricular que se presta a auxiliar todos aqueles que buscam eficácia no ato de escrever. Tem gente que não se dá conta da necessidade de aprimorar seus precários dotes nas letras e que se aventura no “papel aceita tudo” de muitas editoras do “pagando bem que mal tem” sem receber a sustentação de um conselho editorial para examinar a possibilidade de investir no novo autor. Antes de tudo são “impressoras” que nem estão ai para o ecologicamente incorreto de “assassinar” árvores inocentes... 

Quanto a minha experiência em Oficinas e Seminários de Criação Literária, participando de grupos formados pelos professores Luiz Antônio de Assis Brasil (PUC), Laury Maciel e Léa Masina, tenho a dizer que foi muito proveitosa para a melhoria de meus textos, hoje mais enxutos e menos rebuscados. Estes me deram condições de frequentar algumas colunas de jornais e sites, aos quais tenho sido convidado para expressar minhas opiniões. Não me considero escritor formado e confesso que tenho muito a aprender, quando muito pretendia ser incluído numa Antologia de Contistas Bissextos, coordenada pelo escritor Sérgio Faraco, a qual me pouparia de alguns equívocos literários e me daria condição de encerrar com chave de ouro uma profissão que nunca pretendi exercer.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

ESTES FORAM OS PAIS QUE EU CONHECI

A “pequena” Graciara de Fátima homenageou Florisbela e Cantalício Resem, os avós que conheceu, postando foto no "face", onde aparece junto com eles. Isto porque a vó Bela, na realidade sua tia-avó, era emprestada desde que aquele seu avô materno, enviuvou da sua verdadeira avó Rosa, irmã de Florisbela e grande paixão dele. Sua mãe Nilza era pequena quando ocorreu o surto de gripe espanhola em Jaguarão e, junto com vô Cantalício, permaneceram acamados e cuidados pela vó Rosa até ficarem curados daquela enfermidade. Após foi a vez de Rosa ser abatida pela insidiosa doença, sem chances de recuperação.
A bisavó Delfina, mãe de Cantalício,  então o aconselhava a procurar alguma outra moça para casar, argumentando que não tinha certeza se teria condições de criar a neta Nilza no seu tempo de vida restante – no entanto, longeva, conseguiu vê-la casada. Nessa época, Cantalício costumava visitar os sogros como forma de relembrar a sua efêmera felicidade. E, numa dessas vezes, enxergou a cunhada recolhendo um balde d’água na cacimba, nos fundos da casa. Lembrando dos apelos da sua mãe, aproximou-se dela sorrateiro, ganhou coragem e perguntou à queima roupa: “Florisbela, queres casar comigo?” E ela nem titubeou: “Quero”.
E assim Florisbela contraiu matrimônio com Cantalício e passou a cuidar da sobrinha Nilza como fosse filha verdadeira, além de aumentar a família com Anysio e Lucy, estes sim seus filhos e, por que não dizer, primos de Nilza, tornando-se pois a avó homenageada que Graciara conheceu pelo lado materno. Dona Edina e Seu Tourinho, de Belém do Pará, foram outros avôs – já falecidos quando esta nasceu - que deixou de conhecer por parte do pai coronel Cesário. Esta “Vó Bela” foi o grande esteio de um clã de 15 netos e inúmeros bisnetos e trinetos que forjou o carisma Resem através dessas sucessivas gerações.  
 Esse casal também, ele e ela, foram os tios que me criaram desde o falecimento de minha mãe Maria Francisca em consequência do parto (não existia penicilina na época), aos treze dias de nascido. Meu pai, José Dalberto, viúvo pela segunda vez e bastante abalado com mais esse golpe, não encontrou forças suficientes para se recuperar e achou por bem apelar para a solidariedade daqueles meus tios, sua irmã Florisbela e o cunhado Cantalício. Eles se dispuseram a me acolher como tutores até que eu atingisse a idade adulta, o fato vindo a se consolidar com o passamento de papai, após eu completar dois anos.
E eu acabei migrando para uma nova família, onde recebi a condição de “reisinho”, mimado pelos tios que se tornaram pais adotivos e pelos primos, os quais passaram a me tratar como irmão caçula. Nilza e seu noivo tenente Cesário já treinavam comigo os cuidados que dispensariam a sua futura prole. Ali fui crescendo cercado de regalias que Anysio e Lucy, mais graúdos, não dispunham. Travessuras que eram perdoadas como aquela de escalar as prateleiras de uma cristaleira desabando sobre mim e o susto que todos levaram até levantarem o móvel e me constatarem são e salvo em meio aos cacos de jarras e copos.
Florisbela era mulher prendada, cheia de energia, que trazia para si todos os encargos inerentes a uma administradora do lar, sem arrepiar na beira de um fogão a lenha, mesmo quando a fumaça da chaminé se voltava para dentro de casa. Pau para toda obra, fabricava em seus domínios produtos caseiros como velas, sabões, pães, bolachas, massas, linguiças, compotas de doces... Além de gerenciar a livraria e a tipografia “A Miscelânea” que passou a sua propriedade, quando Cantalício assumiu funções de Juiz de Direito da Comarca, intimado pelo Dr. Carlos Barbosa, então presidente do Estado. 
Já Cantalício era o intelectual autodidata, dado às lides jornalísticas, inclusive atuando na área assistencial como colaborador da Associação Protetora dos Desvalidos. Por muitos anos, dirigiu “A Folha”, um dos mais antigos jornais do Estado que ele fundou, até passar às mãos de seu filho Anysio de Souza Resem. Tinha uma chácara que dedicava especial atenção para abastecer sua residência de leite, verduras e frutas. Mais dado ao diálogo, não acreditava em castigos infligidos a seus descendentes e sim no exemplo de uma conduta ilibada que sempre soube transmitir com carinho e respeito a todos aqueles que se afastassem dos rumos traçados para um futuro ideal.