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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Cuidado: o Autor Desconhecido ataca!!!

Confesso que costumo me irritar quando vejo artigos de jornais locais sendo “chupados” para publicação em boletins informativos de certas empresas. Parece até que os seus leitores não tem o hábito de abrir os diários para conferir o conteúdo dos mesmos. Inclusive cheguei a flagrar um editorial num órgão ligado à Responsabilidade Social reproduzindo, sem tirar nem por, todo um texto que circulava banalizado através da Internet. Em meu serviço, sugeri e consegui que se fizesse, fora do expediente, uma oficina para elaboração de veículo jornalístico com a finalidade de ser produzida matéria da própria lavra dos funcionários. ***************************************************
É claro que se obtiveram ótimos textos com essa iniciativa, porém, não me dava por satisfeito ao constatar a timidez de alguns de seus autores quando se escondiam através do recurso do pseudônimo ou então concedendo apenas as iniciais de seus nomes. Entendia essa atitude como uma forma de se defenderem das críticas para evitar polêmicas desnecessárias. Isto que os assuntos tratados eram os mais diversos possíveis, sem envolver qualquer ofensa pessoal. Portanto, não deveriam se envergonhar da sua condição de diletantes escribas que manifestam suas idéias, atendendo a necessidade de uma fluente comunicação. *********************************************************
Há pouco recebi “Felicidade Realista”, cuja autoria era atribuída a Mário Quintana. Desconfiei do estilo apresentado e resolvi pesquisar no Google, onde descobri um portal que denunciava como sendo de Martha Medeiros o referido texto. Então alertei ao remetente esse equívoco e ele me respondeu que mais importava o conteúdo do que o autor. Quer dizer que essas mensagens estariam circulando impunemente, sem que se evite os constrangimentos a que são submetidos seus criadores, como veio ocorrer com Luiz Fernando Veríssimo ao ouvir numa cerimônia de formatura da qual era o paraninfo, um trecho apócrifo que lhe era atribuído. ******************************************************************
A jornalista Cora Rónai, em seu livro “Caiu na Rede”, no qual desmistifica os textos apócrifos, declara que é “uma completa falta de interesse pelo autor do texto: o que importa é a mensagem, não importando quem a tenha escrito... aliada à ignorância e a um senso peculiar do que seja direito autoral”. Nessas páginas, desfilam como vítimas Millôr Fernandes, Herbert Vianna, Gabriel Garcia Marques, Henfil, Caetano Veloso, Chico Buarque, Clarice Lispector e Castro Alves, tendo ainda veementes depoimentos de João Ubaldo Ribeiro, Arnaldo Jabor, Martha Medeiros e Luiz Fernando Veríssimo, renegando indevidos escritos.
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Martha Medeiros, vai dai certo machismo, tem sua produção autoral confundida com Carlos Drumond de Andrade (este com o texto “Quem Não Tem Namorado”, na obra erroneamente se aponta como sendo de Artur da Távola), Mário Quintana (“Promessas Matrimoniais”), Luiz Fernando Veríssimo (“A Impontualidade do Amor” e “O Que Faz Bem à Saúde”), Roberto Freire (“As Razões que o Amor Desconhece”), Arnaldo Jabor (“Até a Rapa”), Miguel Fallabela (“A Dor Que Dói Mais”) e Pablo Neruda (“A Morte Devagar”). Afora os inúmeros apócrifos onde o Autor Desconhecido ataca sem dó nem piedade, alterando os devidos créditos. **************************************************************
Vinte anos atrás, andei buscando exaustivamente um poema atribuído a Bertold Brecht e, por acaso, numa entrevista do então vereador Antônio Hohlfeldt, tomei conhecimento de “No Caminho com Maiakovski” http://www.culturabrasil.org/caminhocomaiakovski.htm que tinha autoria de Eduardo Alves da Costa, publicado em sua obra de mesmo nome, e que ninguém acreditava ser de sua lavra como até hoje a Internet vem confundindo os incautos. Comumente venho recebendo “Desejos” ass’as’inado por Victor Hugo e que acabei descobrindo como adaptação da crônica do nosso saudoso Sérgio Jockymann, intitulada “Os Votos” http://muneo.wordpress.com/2007/12/15/os-votos-de-sergio-jockymann-a-verdadeira-versao/ e publicada na Folha da Tarde em 30 de dezembro de 1978. ***********************************************************************
Rónai, colunista do Segundo Caderno do jornal O Globo, em suas considerações de “Caiu na Rede” é muito enfática quando afirma: “O melhor serviço que se pode prestar aos autores de quem se gosta, porém, é nunca, jamais, em hipótese alguma, passar adiante textos a respeito de cuja autoria não se tenha certeza”.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O PÃO DORMIDO DE UMA CRÔNICA

Apesar da virada dos quatro dígitos, ainda não havíamos chegado ao Século XXI nem tão pouco ao Terceiro Milênio. Porém o fascínio que nos causou trocar o 1 pelo 2 e os três 9 pelos três 0, tinha algo de místico e profundamente revelador. De repente, parecia que despertávamos de um sono letárgico e nos dávamos conta das grandes transformações que ocorriam no mundo em que vivíamos. Dos mais idosos aos mais jóvens, cruzando os limiares de 2001, logo iríamos carregar a pecha de haver nascido no século passado.
Quantos de nós deixamos de perceber a gradativa evolução arquitetônica de nossas cidades? Ainda existiam essas relíquias tombadas pelo patrimônio público como registro de uma época de fausto. Assim, podia-se constatar o alto pé-direito daquelas edificações, as vigas de madeira tosca a sustentar o assoalhado dos pisos superiores. Ou então as artísticas fachadas com ornamentos cuidadosamente executados, portas e janelas refletindo a ostentação de uma riqueza concentrada nas mãos de poucos. Estruturas de ferro e aço, o concreto das lajes, formas buscando a funcionalidade, o ar condicionado, o elevador, provocavam revisão de conceitos no projeto de prédios atualmente mais despojados.
Até meados daquele século, os objetos pareciam relutar em se tornar peças de museu. Geralmente tinham a sua serventia situada desde um passado distante. E eis que chegávamos a civilização do consumismo desenfreado, do obsoletismo programado. E ai começávamos a fazer arqueologia em recentes depósitos de lixo, dos quais se extrairiam desde radinhos de pilha até computadores e calculadoras eletrônicas, resultantes da revolução que a nanotecnologia ocasionava na compactação desses aparelhos.
Quantos de nós, já arqueados pelos anos, ainda não revivíamos aqueles tempos em que possuir uma geladeira dava status a seu proprietário? Em que teimávamos, década de quarenta provavelmente, mantendo os “frigoríficos”, móveis de madeira de lei, revestidos internamente com folhas-de-flandres, onde se gelavam e conservavam bebidas e alimentos, juntos a barras de gelo. Essas adquiridas em fábricas funcionando anexas a usinas elétricas com geradores acionados pelo vapor resultante da queima de carvão nas caldeiras.
Os antigos filmes americanos já nos mostravam as primitivas televisões que surgiam no mercado ianque, um inacessível sonho para nós brasileiros que não demorou muito para se concretizar – essa majestade que determinava a derrocada do rádio e do cinema, trancando as pessoas em casa com drástica mudança de costumes. As visitas perdiam a sua razão de ser...
E ainda permanecia fresca em nossa memória a lembrança do telefone de manivela com bocal fixo e terminal de escuta que se levava ao ouvido, solicitando-se o número desejado à telefonista na Central para aguardar com o fone no gancho que fosse completada a chamada... Então engavetávamos esse texto com receio de que fossem dizer que havíamos começado a “recordar a História, nem era preciso ensinar”.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Como me tornei projeto em Valinhos

Ao abrir minha caixa postal na noite de ontem, deparei-me com uma mensagem cujo assunto me despertou bastante a curiosidade – Projeto José Alberto de Souza. Tratava-se de um link do portal “Projeto Letras e Artes Horácio 2011” (http://projetoletrasearteshoracio2011.wordpress.com/2011/12/17/projeto-jose-alberto-de-souza/#comment-162), que reúne criações literárias e artísticas dos alunos dos 7ºs anos de 2011, do Ensino Fundamental da EMEB Horácio de Salles Cunha, em Valinhos, SP, sob a coordenação das professoras Clarice Villac, de Língua Portuguesa, e Leila Rangel, de Artes.
O projeto consistiu em sortear entre os alunos do 7º. Ano B os dois livros de minha autoria que enviei para a Escola, onde cada um deles, após a leitura dos mesmos, deveria apontar o texto que mais lhe agradou a ser lido para toda classe comentar a respeito e assim sucessivamente procedendo-se novos sorteios, os quais resultaram numa atividade bastante envolvente e motivadora de trabalhos bem elaborados.
A Profª. Clarice Villac que muito me honra com sua presença em meu círculo de amizades virtuais, notadamente como seguidora deste nosso modesto blog, atuou como revisora da coletânea “Varal Antológico”, organizada pela escritora Jacqueline Bulos Aisenman, natural de Laguna-SC e residente em Genebra (Suiça), e teve a generosidade de comunicar a Jacque sua apreciação sobre o “Velho Chateau Daqueles Rapazes de Antigamente”, com o qual participei daquela obra, opinião que me foi transmitida em 14,02.2011 pela ilustre lagunense. Através de rastreamento na Internet, acabei descobrindo o endereço eletrônico da Profª. Clarice e assim agradeci sua atenção.
Logo depois, resolvi lhe enviar “Lá Pelas Tantas” e “Para Não Dizerem Que Passei em Brancas Nuvens”, títulos de minha autoria. Desta forma, fiquei conhecendo a moça idealista com notável atuação nas áreas pedagógicas e ambientais, uma persistente semeadora de valores humanísticos em sua comunidade, como pude constatar não só através de “Cantinho Literário” e “Ponto de Luz”, portais que edita com brilhantismo na Internet, como também das virtuosas atividades que vem desenvolvendo em sua Escola.
Palavra que não esperava essa tremenda repercussão alcançada junto a um jovem público que me analisa detidamente e externa espontaneamente seus qualificados comentários. Impressionou-me sobremaneira o entusiasmo com que levaram a cabo suas tarefas, fruto do carinho e paciência com que são orientados para futuramente exercerem com dignidade a sua cidadania. As duas mestras, Clarice e Leila, são bem uma mostra da abnegação dessa briosa classe dos educadores, ainda não suficientemente valorizada em nosso país.
A utilização da ferramenta informática em sala de aula demonstra bem a importância da interatividade entre professores e alunos que assim podem trocar idéias e enriquecer conteúdos didáticos, estabelecendo bases sólidas para um melhor rendimento através de um aprendizado rico de saber humanístico.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Parceiro Vado Medeiros na "sobreloja"

Contemporâneo de Pedro Bartholomeu Ribeiro (Tutuca) no Ginásio Estadual de Jaguarão, eu ficava abismado com a sua verve em composições musicais que produzia a torto e direito, sem se importar com o destino que elas tomariam. Quando muito apresentava as mesmas através de performances beneficentes do Conjunto “O Ginasiano”, na época composto por ele, Luiz Fernando Cassal, Eulálio Delmar Faria (Pato) e mais os saudosos Luiz Carlos Silveira (Bode), Oscar Godofredo Porciúncula (Porraço) e Luiz Elder Franco, inclusive tinha o samba “Trovejou, Relampeou”, de sua autoria, como característica musical do grupo.
Eu não me conformava com tanto talento desperdiçado e tentava convencer “Tutuca” a encarar melhor a divulgação de sua obra, mas ele Pedro Bartholomeu sempre me contestava com a demasiada mão de obra que lhe custaria investir nessa empreitada, não valia a pena. E ai eu, nulidade em qualquer ritmo, meti-me a querer provar como não seria tão difícil assim. E comecei a cantarolar alguns versinhos que me vieram à mente, saiu “Boa Noite, Alegria”. Depois numa viagem naqueles ônibus antigos da Fréderes, que rangiam com as “costeletas” da estrada de terra, comecei a escutar uma melodia naquela barulheira, “Seu Boa Piada”...
Um belo dia, enchi-me de coragem para apresentar esses “pecaditos” ao notável instrumentista de Jaguarão, Oswaldo Emílio Medeiros, nosso querido Mestre Vado. Voz de taquara rachada, ritmo precário, fui “largando a franga”. Ele me pediu que parasse, obedeci envergonhado. Ele pegou um pedaço de papel, riscou algumas pautas, apanhou o “surrado” clarinete de palhetas amarradas com barbante, deu uma ligeira afinada e me ordenou “canta de novo”, “para”, solava aquela coisa e depois escrevia as notas na modesta partitura. Canta, para, toca, anota e assim fomos indo. Em questão de minutos, as partituras estavam prontas.
“Quanto é, Mestre Vado?” De jeito nenhum quis me cobrar. Disse-lhe então que dali em diante o apresentaria como parceiro. Aceitou relutante, pois queria me convencer de que tinha passado para o papel aquilo que lhe transmiti. Na ocasião, recomendou-me que procurasse o professor Alcebíades Lino de Souza, pianista jaguarense, diretor do Conservatório Musical de Pelotas, para fazer o arranjo para piano e o desenho da partitura. E lá fui numa “via-crúcis” danada, dando cabeçadas de tudo que é jeito. Estabeleci meus primeiros relacionamentos no mundo musical e terminei editando a partitura definitiva e encalhada daquelas músicas.
Em 2002, produzi “Fundo de Gaveta”, CD/Demo reunindo parceiros e intérpretes para compilação de tudo aquilo que resultou dessa nossa jornada e ali registrando o samba “Boa Noite, Alegria” e a marcha “Seu Boa Piada”, ambos com música de Oswaldo Emílio Medeiros e letra de José Alberto de Souza, com muita honra. Pouco tempo depois, estive jantando numa churrascaria da Coxilha/Uruguai, onde me juntei aos amigos Cláudio Rodrigues, Newton Silva e Arnoni Lenz, para entregar essa modesta gravação aos companheiros “Tutuca” e Vado Medeiros, integrantes daquela coletânea.
Hoje sou surpreendido pela matéria “Jaguarão está de luto: faleceu Mestre Vado” postada em http://confrariadospoetasdejaguarao.blogspot.com/2011/12/jaguarao-esta-de-luto-faleceu-mestre.html?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+blogspot%2FmhyBLf+%28Confraria+dos+poetas+de+Jaguar%C3%A3o%29 e, pesaroso, estou publicando este meu depoimento sobre um ilustre conterrâneo, personalidade ímpar da nossa cultura popular, de grande contribuição a tantas orquestras e conjuntos regionais que se formaram em Jaguarão e Rio Grande, aonde chegou a acompanhar consagrados cantores do cenário nacional. Acredito que São Pedro deve estar recebendo-o de braços abertos ouvindo:
“Seu Boa Piada,
Seu Boa Piada,
conte mais uma,
bem bem engraçada,
daquelas que o senhor,
dizer sempre costuma...”

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Reflexões sobre uma certa efemeridade

Dei uma circulada pela ancestral cidade e constatei uma gradativa perda de referência. Senti bastante a falta daqueles amigos que tomaram outros rumos, alguns deles partindo para outros planos. Até os antigos pontos de encontro já não existiam mais, substituídos por acanhados recintos que mal acomodavam os remanescentes daqueles bons momentos ali vivenciados. E agora aquele resistente boteco se tornava recanto tradicional, onde achávamos algumas caras vincadas diuturnamente que ainda podíamos reconhecer e assim compartilhar de um papo afável regado com o cafezinho da casa ou a água mineral servida bem geladinha para espantar a rouquidão das cordas vocais.

Pouquíssimos conhecidos me reconheciam e eu não conseguia me lembrar das suas antigas figuras, hoje mais barrigudos e de cabelos grisalhos. “A quem devo a honra de me dirigir?” – era minha constrangedora saída para me situar num distante espaço de tempo. Alguns, mais afoitos, que não sentiam os anos pesando em suas costas, não deixavam por menos e me provocavam: “Mas tu ainda estás vivo!”. E eu tinha que bater três vezes com a mão em qualquer pedaço de madeira para tirar o pé da cova... De repente, gritavam meu nome e eu olhava para um lado e para outro e só via aquelas damas todas eufóricas. “Qual delas?” – me inquiria apelativo.

À noite, andando por aquelas ruas repletas de passantes desconhecidos, julgava-me como um espectro que tudo vê e não é visto, a enxergar os vultos difusos das minhas lembranças, passado que teimava por não ser esquecido. Saudava-os como nas noites em que, na saída do cinema, respeitosos casais caminhavam lépidos tentando aquecer os corpos açoitados pelo vento hibernal e desprotegidos apesar das grossas vestimentas, na direção da cafeteria mais distante para o choque térmico do chocolate quente. Mas eles também não me avistavam nem respondiam ao cumprimento como se eu fosse um fantoche das próprias ilusões.

Também andei passeando nas alamedas da minha aldeia de saudades eternas. Naquelas pedras frias e tristes, os retratos amarelecidos pareciam me contemplar através de um limiar imaginário. Pacientes, eles sempre esperavam a minha chegada, querendo me agradecer pelas piedosas orações. Esta energia que emanava do infinito estabelecia uma espécie de comunicação com aqueles entes queridos. Ali estavam as profundas raízes desse tronco que ainda permanecia de pé e se ramificava em outras gerações. A nossa capelinha se mantinha cuidada e pronta para o ornamento reverencial das flores como eu gostaria que continuasse quando ali fosse conduzido.

Pois esta minha imersão nesse mundo de outrora me fazia refletir sobre a efemeridade da vida, de memoráveis instantes que não se eternizam. De hora em hora, a necessidade nos impele a profundas transformações, a nos adaptar a novos comportamentos ditados pelo aqui e agora. Assim como antigas células de qualquer organismo dão lugar a outras mais novas num processo constante de renascimento, também nosso entorno submete-se a severas mudanças. A mãe Natureza sempre procura nos alertar e preparar para esse ciclo irreversível de plantio/germinação, crescimento/maturidade, colheita e letargia. Até mesmo o progresso implacável contribui para o supremo desígnio do Universo.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Pacto não revelado de articuladores (II)

Até que a orquestra parou para o intervalo de descanso dos músicos. Chamaram então Mercedes Ruiz para mais uma apresentação e ela se dirigiu ao palco, enquanto Hilário voltava para a mesa dos amigos. Estes já tinham sido alertados pelo garçom de que estavam sendo aguardados na saída pela turma do namorado ciumento da cantora. (continuação) E, para não sofrerem agressão, recomendava que se retirassem pelos fundos da casa, onde teriam um carro disponível. Embora contrariados, Hilário e os outros foram saindo discretamente de seus lugares para embarcarem no taxi que os conduziria ao hotel em que estavam hospedados.

De volta à sua cidade, Hilário mandou às favas todas as regalias do grupo, retornando aos antigos hábitos de total despreocupação com o futuro. Confiava então mais no taco que lhe prendia todas as noites no "snooker", respirando passivamente o ar viciado da fumaça do cigarro. E os amigos já não sabiam como proceder para livrá-lo dessa recaída em sua auto-estima, pois Hilário se refugiara na vidinha inexpressiva do pó-de-giz e da “cuba libre” para passar o tempo. Já se decorriam alguns meses quando aconteceu o inesperado: chegou um mensageiro em seu habitat noturno, dizendo que tinha alguém precisando falar com ele no principal hotel.

Hilário, educado como era de seu feitio, atendeu o chamado, acompanhando aquele mensageiro que o conduziu até uma das mesas do restaurante anexo ao hotel. Esperava-o Mercedes Ruiz que o convidou para jantar. Ela descobrira o seu paradeiro e viera até ali somente para colocar em pratos limpos o incidente de Buenos Aires. Explicou que há tempos vinha tentando dar um basta nas encrencas daquele namorado e só agora providenciara numa medida judicial que proibia a sua aproximação dentro de certa distância. Assim, ela lamentava o que acontecera à sua revelia, tentando reatar promissores laços de amizade entre os dois.

O fato despertou a curiosidade dos antigos amigos para saber o desfecho do romance, sendo frustrados ante a discrição e o sigilo dele e apenas constatando diferentes rumos seguidos pelos personagens visados. Mas esse conceito sentimental de Hilário se alastrou entre a população feminina da cidade e além fronteiras, assediado e disputado ferrenhamente por uma concorrência sem tréguas. Ele se via constrangido, pura amabilidade, ao manifestar seu desinteresse por qualquer uma das pretendentes sem deixar um rasto de esperança. Hilário despistava-as por roteiros alternativos até chegar naquele seu tranquilo refúgio das noitadas.

Na espreita, ainda continuavam os velhos companheiros, dispostos a obrigar Hilário se definir por uma posição de vanguarda. Eles vislumbraram uma mulher ideal e possível de interessar ao “escorregadio”... Era Leninha, filha única de um estancieiro, dotada de beleza inebriante, também esquiva e exigente com seus admiradores. Estes "cupidos" tramaram então forjar encantadores bilhetinhos a um e outro, manifestando discreto desejo de se conhecerem. Chegados a seu destino, foram o primeiro passo para aproximar Hilário de Leninha. Daí aquela brincadeira inocente evoluiu para o compromisso definitivo que selaria a união desses “pombinhos”...

Hilário logo se tornou o principal assistente do sogro, introduzindo algumas modernas técnicas de manejo no campo. Enfim assumindo funções de pessoa séria e responsável. Mais maduro, entusiasmava os pais de Leninha a ponto de o considerarem como o filho que Deus tinha dado a eles por mera afinidade. Anos a fio, manteve-se o pacto nunca revelado pelos articuladores.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O pacto não revelado dos articuladores

Moço respeitador, useiro e vezeiro nos bons modos, fazia bem o tipo do genro ideal para as mães de filhotas encalhadas. De futuro indefinido, morava com duas tias solteironas que o sustentavam e faziam todas suas vontades só para ter sua companhia garantida. Hilário nem precisava trocar a sua vida boêmia junto com os amigos por qualquer convívio familiar. Adorava impregnar as mãos com o pó do giz dos tacos de sinuca e praticar as tabelas para atingir a bola da vez. Os aperitivos sem conta não lhe apeteciam, pois não era de muita bebida, Quando muito uma “cuba libre”, o suficiente para passar o tempo e aproveitar melhor a noite.

Useiro e vezeiro nas boas maneiras, essa era a qualidade que o diferenciava entre seus companheiros, além do porte espadaúdo e do apuro no modo de vestir as roupas simples. Ocioso durante o dia, ocupava esse tempo com a leitura dos jornais que ilustravam sua cultura, agregando inúmeros conhecimentos que passava a dominar com toda segurança. O bom papo era seu forte ao se introduzir nas rodas da alta burguesia, onde era bem recebido e qualificava o grupo nas acaloradas discussões de temas polêmicos. Não havia quem não quisesse tirar proveito das potencialidades de Hilário e até encarar o desafio de investir na sua formação.

Para tanto, teriam de convencê-lo, passo a passo, sem que ele percebesse o afastamento de sua ingênua irresponsabilidade. Esses companheiros passaram então a massagear o ego de Hilário, provocando-lhe o surgimento de um despercebido sentido próprio de importância. Depois a segunda etapa da estratégia que consistiria em oferecer aval para que comprasse a crédito as vestimentas mais finas e elegantes a fim de circular com desenvoltura na alta sociedade. Que não se preocupasse em pagar, eles garantiam. E foram envolvendo Hilário de forma que nenhuma contestação houvesse quando ficasse bem integrado no seleto grupo.

Hilário passou a ser carregado nas incursões planejadas pela patota, sua presença se tornava cada vez mais indispensável em qualquer situação. Evidenciava-se o seu carisma como chave que abria portas inacessíveis. Lá se ia ele por esse mundo afora, usufruindo as benesses do seu talento, eminência parda que dava lustro aos seus companheiros. Estes cada vez mais convictos do acerto em cada centavo investido nesta imperceptível consultoria. Hilário crescia, todos cresciam juntos, não raro despertando bastante atenção por onde passassem. Eles eram alegres, simpáticos e, com impressionante facilidade, sempre cativavam novos amigos.

Certa ocasião, estavam assistindo um espetáculo de tango em El Viejo Almacén, quando se aproximou deles uma cantora que recém tinha apresentado seu número e pediu licença para sentar àquela mesa. Imediatamente, Hilário puxou uma cadeira, acomodando-a para a dama. Em conversa animada, pareciam velhos conhecidos festejando algum reencontro. Não demorou muito para que ela lhe sugerisse uma contradança que ele aceitou sem qualquer receio. Pois era da fronteira, já acostumado com os ritmos das típicas portenhas. Encantados um pelo outro, nem se deram conta desse tempo quase eterno em que estavam juntos...

Até que a orquestra parou para o intervalo de descanso dos músicos. Chamaram então Mercedes Ruiz para mais uma apresentação e ela se dirigiu ao palco, enquanto Hilário voltava para a mesa dos amigos. Estes já tinham sido alertados pelo garçom de que estavam sendo aguardados na saída pela turma do namorado ciumento da cantora. (continua)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A exata transvenção da Estante Pública

Não faz muito tempo – creio que por iniciativa de alguma empresa publicitária – foram instalados em Porto Alegre abrigos em paradas de ônibus com proteção lateral de material plástico e iluminação interna para veiculação de propagandas. O que se presumia como uma parceria do poder estatal com a intenção de proporcionar conforto aos usuários do transporte público acabou se tornando um transtorno face a ação de vândalos que infestam a nossa Capital, depredando todo e qualquer equipamento urbano necessário ao bem estar da comunidade e até desestimulando a sua pronta recuperação.
Essa proteção lateral consistia de um quadro metálico com a moldura inferior elevada a uns 40 centímetros do solo, revestido com painéis de plástico reforçado para propaganda, todos eles destruídos, restando hoje apenas a estrutura abandonada. Apesar da Prefeitura Municipal já ter providenciado na substituição de alguns desses abrigos por instalações mais simples, no entanto ainda se nota a existência dos mesmos em várias paradas de ônibus, constituindo sério risco para muitas pessoas que, distraídas, acabam levando “formidável rasteira” conforme presenciei dia desses um cidadão estatelar-se na calçada por descuido próprio.
Na semana seguinte, ao passar pelo local situado na Avenida Getúlio Vargas, entre as transversais Ganzo e Visconde de Herval, constatei o fechamento daquele quadro com madeira compensada, constituindo mais uma estante de livros de outras mais já instaladas por diversos bairros da cidade, em decorrência de um moderno conceito sobre “transvenção” (http://estantepublica.com.br/site/). Com essa proposta de intervenção cultural no meio ambiente pela comunidade, ameniza-se assim um problema de segurança para a integridade física do individuo gerado por incúria do poder público.
Ano passado, fui vítima de um desses acidentes no abrigo situado em frente ao Shopping Praia de Belas, que me ocasionou uma queda seguida de bater com a testa no solo, sendo socorrido por um dos seguranças daquele estabelecimento e levado ao ambulatório da Unimed ali situado e depois conduzido de ambulância ao Hospital Mãe de Deus, onde fui atendido e fiquei em observação, por mais de duas horas, até ficarem prontos os exames procedidos (tomografia, etc.). Na ocasião, foi feito levantamento fotográfico do local para ser encaminhado à Secretaria Municipal de Transportes, que até o momento nada providenciou.
Neste mundo conturbado em que vivemos atualmente, conforta-nos saber da existência de pessoas civilizadas e dispostas a dar o seu quinhão de solidariedade em prol do bem estar do seu semelhante, apoiando um nobre projeto de participação coletiva de Nomad Ind inscrito na Fundação Nacional de Artes, onde foi contemplado com a Bolsa de Estímulo à Criação Artística em Artes Visuais. Evidente que o êxito do empreendimento vai depender de uma atitude colaborativa, porém, se mantidas intactas as estruturas remodeladas, ao menos serão evitados graves acidentes pessoais nessas paradas de ônibus.

sábado, 12 de novembro de 2011

ENFIM DESVENDADO O MISTÉRIO!!

Nesta última quinta-feira, estive na concorrida sessão de autógrafos do jornalista da Rádio Guaíba, Marcello Campos que estava lançando, na 57ª. Feira do Livro de Porto Alegre, “Minha Seresta – Vida e Obra de Alcides Gonçalves”. Na ocasião, tive oportunidade de rever velhas e novas amizades como a conterrânea Dª. Ema Peña Gonçalves, viúva do biografado; Fernando Rozano e Lúcia Jahn, editores da obra; Izabel L’Aryan e Ayrton Pimentel, dirigentes do Sindicato dos Compositores do R.G.S.; os irmãos Guilherme e Gilberto Braga, antigos cantores do nosso rádio; o pianista Paulo Pinheiro e os escritores Luiz Arthur Ferrareto (“História do Rádio no Rio Grande do Sul”) e Paulo César Teixeira (“Darcy Alves – Vida nas Cordas do Violão”).
Através desse último fiquei sabendo que, ao folhear a obra, se deparou com a letra de uma música incógnita gravada por Alcides Gonçalves, reconhecendo-a como sendo aquela intitulada “Porto Sol”, de autoria do seu pai Luiz Osório, o “Barão”, editor do jornal alternativo “Krônica” desta Capital, falecido em 2008. Paulo César me revelou ainda que era vizinho de Marcello Campos e que não tinha conhecimento do esforço infrutífero empreendido nessa pesquisa, concorrendo assim para que permanecesse a aura de mistério até a publicação de “Minha Seresta...” por uma incrível ironia do destino.
Em 2008, publiquei no portal “Caros Ouvintes”, de Florianópolis, três artigos intitulados “Lá se vão 21 anos sem Alcides Gonçalves” e “A Gravação Misteriosa de Alcides Gonçalves”, relatando todo o nosso périplo na procura de esclarecimentos, desde a surpreendente descoberta de uma gravação de Alcides Gonçalves que encontramos em antigas fitas de rolo do acervo do companheiro de noitadas inesquecíveis – Paulo Antônio Coimbra Bastos – grande cantor apenas conhecido daqueles mais íntimos, assim evitando o grande público. Um som impecável na cópia para CD foi obtido pelo técnico Paulo Roberto, da gravadora ACIT.
Nessa fita constavam as faixas: 1) “Alto da Bronze” (Plauto Azambuja/Paulo Coelho); 2) “Cidade Baixa” (Alberto do Canto); 3) “Minha Cidade” (Lupicínio Rodrigues); 4) “PORTO SOL” (LUIZ OSÓRIO); 5) “Porto dos Casais” (Jayme Lubianca); 6) “Praça Quinze” (Alberto do Canto), e 7) “Correio do Povo” (Alberto do Canto). Com exceção de “Minha Cidade” captada na voz do próprio Lupi, as demais melodias foram interpretadas por Alcides Gonçalves. Em contato com Alberto do Canto, prontamente reconheceu as músicas de sua autoria, apesar de não ter se lembrado da existência dessa fita. Também Jayme Lubianca ignorava essa gravação de “Porto dos Casais”. E nem mesmo Lupinho conhecia a melodia original de “Minha Cidade”.
Lupicínio Rodrigues Filho até me contou que fora procurado pela cantora Naura Elisa para obter a partitura de “Minha Cidade” a fim de incluí-la no CD que estava gravando. Procurando atender o prometido pelo velho Lupi, esse seu filho teve de se valer de vários fragmentos da canção conhecidos por alguns artistas para montar as cifras correspondentes. Inclusive, o arranjador de Naura, Marco Farias, chegou a declarar que seria bem mais fácil seguir o original.
Paulo César Teixeira também me falou que só tinha ouvido a música de Luiz Osório num acetato gravado na própria voz do “Barão”. Ontém, acabamos trocando figurinhas quando lhe mandei o áudio dessa “gravação misteriosa” e os textos postados em Caros Ouvintes e ele me repassou gentilmente uma foto do seu pai da época em que atuava como radialista do turfe, além de imagens que escaneou das páginas datilografadas com data de 9 de setembro de 1971 que comprovam plenamente a autoria e o título de “Porto Sol”. Dessa maneira, podemos encerrar as “árduas investigações” que pareciam não ter deixado rastro...

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A impercebida beleza desta rica fachada

Estivemos em Jaguarão na semana em que caiu o Dia de Finados. Lá fomos reverenciar nossos ascendentes, no mausoléu da família recentemente reformado, onde se encontram depositados os restos mortais de minha mãe, meus tios e tias e avós paternos. Ficamos hospedados, eu e a esposa Gislaine, no Hotel Sinuelo, situado entre os dois clubes tradicionais da cidade, e presenciamos a intensa movimentação de público assistindo o escoramento das paredes da Associação Cruzeiro Jaguarense, em decorrência de rachadura nas mesmas que ocasionaram o desabamento do teto do prédio, com terrível estrondo (http://confrariadospoetasdejaguarao.blogspot.com/2011/11/telhado-do-clube-jaguarense-desaba-e.html?showComment=1320598630252#c4608751447392870147.
Felizmente não houve qualquer dano pessoal, coincidentemente quando se encontrava fechado esse clube devido a data consagrada aos mortos. Na ocasião, estávamos almoçando no Restaurante La Fogata, da localidade fronteiriça da Coxilha, no Uruguai, acompanhados das sobrinhas Ana Lecy e Vera Lúcia Souza Pacheco, além do esposo desta Carlos José Azevedo Machado e seus filhos Vinicius e Érico. Apenas voltamos ao Hotel após aquele fato consumado. La Fogata é um estabelecimento simpático e acolhedor, de fartas opções no cardápio, que nos pareceu no momento sem comparações similares aos do outro lado do rio Jaguarão.
A notícia do deterioramento da sede do Jaguarense, cuja fachada já fora tombada pela municipalidade junto com outras edificações do entorno da Matriz do Divino Espírito Santo, atualmente interditada (http://confrariadospoetasdejaguarao.blogspot.com/2011/11/matriz-do-divino-pede-socorro.html), repercutiu até em Brasília, chegando a Jaguarão técnicos do Iphan para avaliar os destroços. Acompanhei em alguns portais os comentários dos leitores, a maioria deles inconformados com a situação e apontando responsabilidades para os dirigentes do clube, estes abnegados que vem resistindo há tempos com as minguadas arrecadações das mensalidades resultantes do contínuo esvaziamento do seu quadro social.
Jaguarão é uma cidade que está sendo tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional em virtude do seu conjunto arquitetônico eclético, um dos melhores conservados do país. Portanto, são edificações com mais de cem anos de existência, cuja manutenção deve onerar bastante a seus proprietários sem que haja uma justa valorização de seus imóveis. No entanto, constata-se uma grita geral pela demolição de prédios tradicionais como o Hotel Suzini (Aliança) que deu lugar ao Sinuelo, da antiga sede do Banrisul e da residência do Sr. Mário Bretanha (Banco do Brasil). E mesmo com o incêndio do Café do Comércio, substituído pelo “Caixão Econômico" Federal.
Porém, já que se fala de algumas coisas tristes, devemos salientar um fato positivo que vem ocorrendo bem diante do nariz de todos jaguarenses, os quais nem se dignam a perceber. Para mim, foi uma grata surpresa constatar a caprichada restauração da fachada do Clube Instrução e Recreio, cujas fotos acima reproduzidas me foram gentilmente enviadas pela turismóloga Elisângela Costa Barcellos, as quais demonstram a mais bela de todas as frentes da cidade, em minha opinião. Causou-me toda essa admiração, ao comparar o desapontamento que tive anteriormente com as infelizes intervenções naquela frontaria, agora corrigidas.
Quando passei em frente ao Instrução e Recreio, encontrei ali o empreiteiro Danilo Casciano Pinto, orientando os últimos acabamentos na pintura daquela fachada, e não me furtei a cumprimentá-lo por seu artístico trabalho. Então, ele me informou que a obra se completava após a reforma interna procedida no assoalho e no teto do salão de bailes, sem auferir um único centavo de qualquer ajuda oficial. Também me falou da parceria com o presidente do clube, Sr. Francisco Carlos Mattos da Cunha, que tornou possível vencer esse desafio de continuar proporcionando entretenimento para os assíduos frequentadores.