domingo, 8 de novembro de 2009

O carisma de Carlos Gardel no imaginário fronteiriço

Em seu blog AR do TEmpo, Alfredo Aquino transcreve trecho do novo livro de Aldyr Garcia Schlee:
Para o nascimento de Carlos Gardel em Tacuarembó, mais precisamente na Estância Santa Blanca, em Valle Edén, há muitas explicações.
Os contos deste livro transitam por algumas dessas explicações − imaginando e inventando como tudo terá acontecido − de forma a alcançar uma realidade ficcional que se proponha verdadeira à percepção do leitor. Assim, qualquer semelhança entre os fatos aqui narrados e algo que tenha realmente ocorrido ou deixado de ocorrer não será apenas mera coincidência: será a prova de que a realidade muitas vezes vai além dos recursos da ficção, alimentando-se do improvável e do inacreditável para chegar ao impossível − que nossa fantasia, geralmente, não consegue alcançar ou frequentar.
Aqui enfrentamos os limites do impossível.
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Entre os meus amigos tangueiros, tenho recomendado para que prestigiem este importante lançamento do novo livro de contos do escritor conterrâneo ALDYR GARCIA SCHLEE, mestre do imaginário fronteiriço.
Agilmar Machado, Carlos Boccanera Koch, Glênio Reis e Guilherme Braga, além do tangófilos Rogério de Moraes e Roque Araújo Vianna – fico só imaginando o prato cheio que poderia representar esse Os Limites do Impossível – Contos Gardelianos, alimentando a sua eterna polêmica sobre a origem da figura mítica de Carlos Gardel, controversa até após o acidente aéreo que lhe ceifou a própria existência.
Certa ocasião, já me disse o franco adepto Agilmar Machado que seria bem fácil findar de uma vez por todas com essas pendengas desde que se procedesse a exame de DNA entre gardelíferos de ambas as margens do Rio da Prata e além fronteiras.
Juro que seria capaz de juntar todos esses gatos num único saco apenas para me deliciar com a maviosa sinfonia de miados daí resultante.
Agora, cá entre nós, a quem poderia interessar o clarear dessa penumbra, se o próprio Gardel parecia incentivar a dúvida sobre a sua Mãe Pátria – mais lhe cairia bem um doblechapa a fazer média pelos dois lados...
Aldyr Garcia Schlee, natural de Jaguarão, nortista do Uruguai, é um escritor pampeano com livre trânsito entre as fronteiras do Mercosul, já tendo publicado obras admiráveis como Contos de Sempre (1982) e Uma Terra Só (1984), premiadas na Bienal de Literatura Brasileira, em São Paulo, além de Linha Divisória, O Dia em Que o Papa foi a Mello, Contos de Futebol e Contos de Verdades, que tem sido objeto de láurea no Açoriano de Literatura.
Os limites do impossível - Contos gardelianos
© Aldyr Garcia Schlee
Livro de contos - 204 páginas - 2009
Edições ARdoTEmpo
Pré-lançamento: 55ª Feira do Livro de Porto Alegre
Dia 10 de novembro (terça feira) - 19h30
Praça da Alfândega s/nº - Centro - Porto Alegre RS

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

UMA FENIX GANHANDO ÀS ALTURAS

Acreditamos que o talento seja uma maldição, pois diariamente presenciamos a batalha inglória daqueles que optam por realizar as suas potencialidades latentes, sacrificando a própria sobrevivência.
É bem verdade que alguns são bafejados pela sorte de serem descobertos em meio a uma diversidade de competências escondidas sobre o manto das generalizações.
Assim, interpretamos a consagração nacional de expoentes da nossa cultura, tais como Érico Veríssimo e Lupicínio Rodrigues, sem dúvida alguma detentores de indiscutíveis méritos, porém, sobrepondo-se a outros tantos que nada ficariam a dever-lhes caso tivessem a seu dispor uma divulgação mais eficaz.
O saudoso Jorge Costa, autor e intérprete de músicas de grande sucesso na sua época, como é o caso de Triste Madrugada, dizia-nos que o seu grande problema era o de morar no lugar errado – São Paulo – o que lhe acarretava deslocar-se ao Rio de Janeiro e esperar vários dias para encontrar Beth Carvalho, então fazendo temporada de shows pelo Brasil afora, obrigando-o a voltar sem conseguir o seu intento por não dispor dos recursos necessários.
Aqui em Porto Alegre, podemos citar o caso de Adylson Rodrigueiro, que vem fazendo um esforço sobre-humano para impor-se na sua carreira de poeta, compositor, músico e intérprete, e investindo além de suas posses para alcançar o seu objetivo.
Com o apoio do FUMPROARTE, já conseguiu editar o livro e CD – O Tecelão de Fantasias (1998) – onde apresenta composições próprias.
Na sala Álvaro Moreyra, do Centro Municipal de Cultura, apresentou o espetáculo Consciências, que teve a participação do grupo Entre Cordas e Acordes, com Chico Pedroso (cavaquinho), Guaracy Gomes (bandolim), Luiz Palmeira (violão 7 cordas) e Valtinho (pandeiro), bem como da cantora Marília Benites e mais o grupo Tribo da Vila constituído pela percussão de Álvaro, vocais de Daniela e violão, contrabaixo e vocais de Jerônimo Rodrigues, seu filho.
Em 2005, lançou a sua coletânea de MPB composta em Porto Alegre, intitulada Enxuga Teu Pranto, com a colaboração dos instrumentistas Marco Farias, Chico Pedroso, Silfarnei Alves, Fábio 7cordas, Valtinho, Marcelo da Cuíca e Paulo Goia – além dos discos temáticos Amantes e Pecadores (românticas) e Terapia de Malandro É Conversa de Botequim (sambas).
A sua obra pode ser considerada performática, poética e romântica, alegre e brejeira, com toques de crítica social, valendo-se de violão e voz - regional brasileiro (violões, cavaquinho, bandolim e percussões) – piano e voz – ou então quinteto (teclados, baixo, bateria, violão/guitarra e sopros, conforme o formato temático e rítmico.
VALE A PENA CONFERIR!
DUAS MÚSICAS DO NOVO CD DE ADILSON RODRIGUEIRO! SHOW DIA 29.OUT. QUINTA-FEIRA 20h
ALTOS DO MERCADO PÚBLICO - CENTRO - POA - RS
CLIQUE ABAIXO URL do MySpace:

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

>>> TRAJETÓRIA DE UM ASTRO ( VI )

Em SPFCpedia, encontramos a galeria dos 100 Jogadores Mais Importantes do São Paulo Futebol Clube, dos quais apenas constam oito goleiros, a saber: Gilmar, King, Mário, Poy, Rogério Ceni, Sérgio, Valdir Peres e Zetti. Considerando que poderiam ser formadas nove equipes de 11 jogadores com o total de atletas figurantes dessa mostra histórica, deduzimos que se teria de improvisar mais um goleiro entre outros não especialistas da posição. Desse modo, demonstra-se cabalmente a importância do nosso conterrâneo Mário Oliveira como baluarte da agremiação são-paulina.
É bem verdade que atualmente Rogério Ceni, sem sombra de dúvida, representa o jogador símbolo do tricolor do Morumbi, sob o peso de mais de 700 jogos disputados em 19 anos de carreira, e ainda permanece fresca a lembrança de Zetti e Valdir Peres, de grande e inegável experiência no cenário internacional. Porém, a poeira do tempo vai jogando no ostracismo a recordação daqueles que marcaram a sua época.
Permitimo-nos, portanto, percorrer aquela galeria para escolher alguns de seus integrantes que atuaram em outras posições no quadro do São Paulo F.C. e ai desfilam nomes como Bauer, Friaça, Leônidas, Mauro, Noronha, Ponce de Leon, Remo, Rui, Teixeirinha, Alfredo Ramos, Maurinho, Pé-de-Valsa e Poy, quer dizer, todos eles contemporâneos e companheiros do Mário na época em que defendia as cores do tricolor paulistano. Um verdadeiro time dos sonhos que conquistou o bicampeonato paulista em 1949, comandado pelo renomado treinador Vicente Feola, constituindo-se em autêntica inspiração para muitos disputantes do futebol de botão daquele tempo.
Recomendo a todos jaguarenses e simpatizantes da nossa terra para que acessem o link http://www.blogdozanquetta.com/?p=4204 a fim de darem uma força a esse injustiçado conterrâneo na votação que ali se processa para apontar o melhor goleiro da história do São Paulo e que se consagre Mário Oliveira com destaque mais expressivo nesse pleito. Afinal, ele continua sendo um dos nossos mais lídimos orgulhos.

domingo, 18 de outubro de 2009

>>> TRAJETÓRIA DE UM ASTRO ( V )

Passando a palavra a Alberto de Oliveira, ele nos revela que Dª. Clori, com quem Mário se casou em Pelotas, é que lhe ensinou a desenhar o próprio nome – assim pelo menos dava seus autógrafos – pois era analfabeto e permaneceria nessa condição até o fim de sua vida, aos 74 anos, em 1998, quando veio a falecer. Essa senhora foi a companheira fiel e grande motivadora para que Mário superasse os percalços que surgiriam após a sua saída do São Paulo devido a desavenças com Leônidas da Silva, quando este passou a técnico e mais tarde dirigente dessa agremiação. Assim, o nosso conterrâneo viu-se forçado a peregrinar por vários clubes do interior paulista, entre eles o Comercial de Ribeirão Preto. Logo depois se vê obrigado a parar, quando sofre uma lesão que quase lhe custa a amputação da perna direita, não fosse o empenho e a persistência de salvá-la a qualquer custo da abnegada Dª. Clori. **************************************************** Em 1970, Alberto Oliveira vai visitá-lo em São Paulo e encontra-o trabalhando de porteiro no Juventus, da Rua Javari, muito benquisto no bairro e sempre lembrado em todas as festas do São Paulo. Pouco tempo depois falece, aos 93 anos, a mãe de Mário, Dª. Idalina Barbosa de Oliveira, que morava em Porto Alegre junto com seu irmão mais velho, Joaquim Dionísio Oliveira, o qual cuidou dela durante toda sua vida. Assim que Mário aposentou-se no Juventus e como pagava aluguel em São Paulo, Alberto insistiu junto a ele para que viesse residir com aquele seu irmão. Sugestão acatada, com a esposa Dª. Clori e a filha Carmen Sílvia, logo se muda para a nossa Capital, enquanto a outra filha Carmen Lúcia, casada, permanece em São Paulo. **************************************************** E assim foram surgindo as primeiras pistas para a ampliação dessa nossa pesquisa. Alberto Oliveira indica-nos o período entre 1948 e 1953 como o tempo em que Mário atuou naquele clube paulistano. Dessa forma, temos facilitado o nosso trabalho de acesso na Internet, onde descobrimos, através da SPFCpedia – Equipes Postadas Ano a Ano, fotos com as diferentes formações da equipe são-paulina nessa época, sendo Mário o titular da meta tricolor.

>>> TRAJETÓRIA DE UM ASTRO ( IV )

Em competição válida pelo Campeonato Paulista de Futebol da Segunda Divisão, aconteceu em 19 de dezembro de 1954, no Estádio Luis Pereira (Vila Tibério) de Ribeirão Preto, o primeiro clássico Come-Fogo da fase profissional.
A contenda que terminou empatada em 1x1, com golos de Américo (B) e Mairiporã (C), teve arbitragem de João Batista Laurito. As equipes entraram em campo com as seguintes escalações:
Comercial F.C.: Mário, Toninho e Sula, Assunção, Bié e Laércio, Sigilo, Ademar, Mairiporã, Maneca e Clive;
Botafogo F.C.: Enio, Mexicano e Kelé, Diógenes, Oscar e Nascimento, Dorival, Neco, Ponce, Américo e Fernando.

>>> TRAJETÓRIA DE UM ASTRO (III)

1948 - São Paulo F.C. (Campeão Paulista): ********** Mário, Savério e Mauro, Rui, Bauer e Noronha, China, Ponce de León, Leônidas, Remo e Teixeirinha.
O São Paulo sagrou-se bicampeão paulista em 1949, ao derrotar o Santos, no Pacaembu, por 3x1. O jogo ocorreu no dia 20 de novembro e o árbitro era Godfrey Sunderland. Os golos foram marcados por Teixeirinha aos 25 minutos; Friaça aos 31 minutos do 1º. tempo e aos 19 minutos do 2º. tempo; e Alemãozinho aos 44 minutos do 2º. tempo. O tricolor formou com: Mário; Savério e Mauro; Rui, Bauer e Noronha; Friaça, Ponce de León, Leônidas, Remo e Teixeirinha; tec. Vicente Feola. O Santos jogou assim: Chiquinho; Charreta e Dinho; Nenê, Pascoal e Alfredo; Alemãozinho, Antoninho, Juvenal, Odair e Pinhegas; tec. Oswaldo Brandão. (in Planeta Tricolor, Anos 40).
1950 - São Paulo F.C. (Vice-Campeão Paulista): ***** Mário, Savério e Mauro, Rui, Bauer e Jacob, Friaça, Ponce de León, Leônidas, Leopoldo e Teixeirinha.
1952 - São Paulo F.C. (Vice-Campeão Paulista): ***** Mário, Turcão e Mauro, Pé-de-Valsa, Bauer e Alfredo, Alcino, Bibe, Albella, Leopoldo e Maurinho.

sábado, 17 de outubro de 2009

>>> TRAJETÓRIA DE UM ASTRO ( II )

No dia 18 de novembro de 1945, o Internacional, jogando no Estádio da Timbaúva, em Porto Alegre, venceu o Pelotas por 3 x l, marcando Carlitos e Tesourinha (2) para o colorado e Pepito para o auri-cerúleo. Com público de 8500 pessoas e arbitragem de Paulo Cortelari, as equipes alinharam da seguinte forma:
S.C. Internacional - Ivo, Nena e Alfeu, Viana, Ávila e Abigail, Tesourinha, Rui Motorzinho, Adãozinho, Elizeu e Carlitos;
E.C. Pelotas - Mário, Vaz e Demi, Rui, Laerte e Geraldo, Calvete, Amaral, Ápis, Fierro e Pepito.
Assim, o S.C. Internacional, que já havia ganhado no jogo de ida (15/11) em Pelotas por 4x2 sagrou-se então Hexacampeão Gaúcho de Futebol, ficando o E.C. Pelotas com os títuloz de Vice-Campeão Gaúcho e Campeão do Interior nesse ano.

sábado, 10 de outubro de 2009

>>> TRAJETÓRIA DE UM ASTRO ( I )

Coloco no Google – Mário goleiro do São Paulo – e me aparece um comentário, assinado por Alberto Oliveira, sobre o texto Goleiros de São Paulo, de Luizinho Trocate, inserido na página São Paulo Minha Cidade: “Pois é, tu falaste em quase todos goleiros do são paulo, faltou o mário, início da década de 50! não por que fosse meu tio, foi melhor do que muitos, e o poy era reserva dele... Jogou no time dos grandes da época...e o arrogante do leônidas, virou tecnico e "queimou" o cara...Abraços”.(sic).
Com o endereço eletrônico de Alberto Oliveira, apresento ao mesmo a minha disposição de pesquisar sobre a carreira do conterrâneo Mário Patão, como era conhecido em sua terra natal, que se consagrou defendendo a meta do São Paulo Futebol Clube, da capital paulista. Anteriormente, já tinha ficado sabendo da dificuldade do pesquisador de Jaguarão, José Nunes Orcelli, autor do livro Os 103 Anos do Futebol Jaguarense, em recolher dados acerca desse grande goleiro, de vez que na cidade quase nada se sabia da sua história.
Através desse sobrinho, ficamos sabendo que o irmão mais velho de Mário, Joaquim Dionísio, chegou a servir no Exército quando moço, perseguindo a coluna Prestes até a fronteira com a Bolívia, enquanto isso em Jaguarão a mãe viúva, Dª. Idalina Barbosa Oliveira, cuidava dos filhos menores, João da Cruz (pai de Alberto) e Mário, e sempre buscava o rancho – direito adquirido como genitora de militar em combate – que lhe era fornecido pelo Regimento local.
De nossa parte, contatando gente contemporânea que chegou a conhecer esse grande goleiro que figura na galeria dos 100 jogadores mais importantes da agremiação são-paulina, conseguimos precariamente registrar a sua trajetória na história do nosso esporte. Valemo-nos, pois, de importantes depoimentos de Alcides Carlos Moraes, arqueiro da seleção gaúcha de futebol em 1941, hoje com 93 anos e residindo no Rio de Janeiro; de Edu Pucurull, um dos veteranos fundadores do Mauá F.C., de Jaguarão, e de Luiz Carlos Vergara Marques, jaguarense e ex-narrador de turfe em nossa Capital.
Alcides Carlos Moraes, que também atuou no E.C.Pelotas, falou-nos que Mário, recém saído do Jaguarão F.C., foi o seu sucessor na meta auri-cerúlea em 1942, quando dependurou as chuteiras para assumir o seu cargo na Mesa de Rendas do Estado. Edu Pucurull lembrava-se de Patão treinando no Mauá no ataque sem grandes brilhos e que num recreativo colocaram-no debaixo das traves, quando então se revelou, apesar de não assumir a titularidade, cujo dono da posição era Oscar Emygdio Garcia, o craque Oscarzinho. Vergara Marques refere-se ao servente de pedreiro Mário trabalhando na casa do seu pai.
Dessa forma, retratamos inicialmente a passagem desse grande astro do futebol nacional pelos gramados do Rio Grande. O nosso falado Patão (calçava 44) iniciou a sua carreira aos 16 anos de idade, lá pelos idos de 1940, treinando no Mauá F.C., logo após se integrando no quadro do Jaguarão F.C.; daí transferindo-se para o Esporte Clube Pelotas, da cidade do mesmo nome, onde formou no trio final Mário, Catalã e Betinho Conceição. Já em 1947, emissários do São Paulo Futebol Clube foram buscá-lo para assinar contrato.
A seguir, contaremos como Alberto Oliveira, sobrinho de Mário. vem de nos desvendar a trajetória desse astro até chegar ao tricolor paulistano.

domingo, 12 de julho de 2009

DA INSÔNIA >>>>>>>>> À INSÂNIA

Sala pequena, apenas duas janelas e uma porta, mais escritório do que moradia. Corredor longo, banheiro coletivo no fundo. Haviam de ser disciplinadas as necessidades, também coletivas. Mesa de estudos junto às janelas, em frente à porta. Iluminação incidente pela direita, sem atrapalhar a escrita, de canhoto. Ao lado da cama, o criado-mudo. Em cima deste, o rádio tipo capela. Luz precária, tentava ler, o sono não vinha. Um copo de leite quente, sugeria, para acalmar. Calça e blusa sobre o pijama, de chinelos mesmo, trespassava a porta. Ali perto, dezoito degraus num só lance, do segundo ao primeiro pavimento, e mais vinte e dois até o térreo. Do lado de fora, encostava o portal, voltaria em seguida. Avenida movimentada, veículos nervosos. Na outra margem, salão iluminado, aglomeração de mesas e cadeiras. Atravessava esquivo a corrente para chegar ao balcão. Estranho entre notívagos que se admiravam quando pedia bebida incomum. Trocando calorias, pelo esôfago, entranhava-se o líquido aveludado. Degustava demorado, como se quisesse repartir a noite com os outros. Um tempo arrastado, pagava a conta, virava as costas. Ao cruzar a via, a provocação de novo. A porta do edifício, alguém a trancou. Esperar até quando? Amanhecer nesse mundo, jamais. A vidraça quebraria para puxar o trinco, por dentro. Na esquina, a viatura policial. Um arrombador poderiam julgar. Um plano simples, assumiria a responsabilidade, de manhã chamaria o vidraceiro, acertaria o prejuízo, não dormiria na rua. Se fosse assim, dos guardas nada a opor. Um tijolo maciço haveria de encontrar por ali. De mão, o apararia. Frontalmente, faltaria impulso, melhor enviesado, só dar uma corridinha. Dardo retangular numa desajeitada trajetória, a coreografia se esboçaria ante o olhar fixo. Saindo de comprimento, se atravessaria na largura, ficando de pé, o aríete se esforçaria por cair suave e não se esfarelar no solo. Em vão a súplica da vidraça, já determinado pelo instinto, mesmo por que não conseguiria adormecer.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

**ECOMANIA: QUEM SE HABILITA?**

Não sei se existe alguma coisa que me causa mais aversão do que saco plástico. Se não me engano, comecei a detestar esse troço desde que um motorista de táxi resolveu me cobrar certa quantia a cada sacola carregada, resultando no total uma apreciável percentagem sobre o valor da corrida. Protestei e ainda fui reclamar no supermercado que exagerava no número de sacos fornecidos para o transporte das compras – uns vinte, cujo conteúdo poderia ser perfeitamente acondicionado na terça parte dos mesmos. Das duas a uma: ou o empacotador tinha combinação com o taxista ou a administração do supermercado não fazia valer o direito de serem mais bem atendidos os seus clientes no ponto encostado ao estabelecimento. **************************************************** Depois de acontecido o fato, passei a gastar certo tempo eu mesmo esvaziando em pleno supermercado as sacolas com as compras para depois acondicioná-las em número menor de sacos, descartando o excedente. Então me lembrava daqueles tempos em que eram usados sacos de papel – os únicos que param em pé – com um aproveitamento considerável de cada unidade, o que facilitava bem mais o transporte das compras. Porém, esse produto não se prestava para o seu reaproveitamento no descarte do lixo. E as famigeradas sacolinhas voltam de novo a desempenhar o seu papel de péssima utilização quando dificultam o trabalho de quem recolhe os resíduos domésticos – onde cabem uns dois ou três quilos, colocam-se algumas gramas. **************************************************** Vai daí que me vem à memória aquelas caminhadas que fazia com o saudoso colega Ruy Firmino, quando encerrávamos o expediente no BRDE e nos dirigíamos tagarelando rumo ao Menino Deus. O Ruy era um sujeitinho esbelto, metódico, que detestava fazer volume nos bolsos, só levava a carteira de identidade, procurando sempre manter as mãos livres dessas tralhas tipo pastas ou leva-tudo. Mas ele não deixava de marcar o seu ponto nas bancas de frutas e verduras ali na Praça XV e, nessas ocasiões, ele sacava d’algibeira um saquinho dobrado simetricamente, onde acomodava as hortaliças frescas para o consumo da família. Até nisso, ele me parecia uma pessoa diferenciada e cuidadosa com a sua postura, dispensando o excesso de bolsas plásticas. **************************************************** E a coleta seletiva? Lixo seco. Lixo limpo. Lixo inorgânico. Tudo certinho como manda o figurino no dia e local determinado. Vivia de bronca com os catadores. Eles chegavam antes do coletor e nem se importavam em descartar o plástico em plena via pública. Aí saquei qual era a deles – virei fiscal do lixo – e passei a guardar o plástico numa sacola separada, juntando papel, lata e vidro a parte, pois eram os materiais mais comercializáveis para os distintos especialistas. Aprendi então que, até para os excluídos, o plástico representa um valor irrisório em função do seu baixo peso específico. Traduzindo-se assim num alto custo-benefício a sua não reciclagem face às árduas conseqüências desde limpeza urbana até agressão ao meio ambiente. ****************************************************
Hoje em dia, fala-se muito na alta taxação daqueles produtos nocivos à saúde pública tais como o fumo e o álcool, apesar de que – limitante este fator – o poder público não só concede incentivos à produção dos mesmos sob a justificativa do grande potencial de arrecadar impostos e gerar empregos dessas indústrias, como também se omite ao não considerar os gastos da previdência social com o tratamento dos viciados. E ainda tem a escalada nefasta da fabricação de veículos automotores, de indiscutível capacidade poluidora. Eis por que precisamos entender como ainda não se onera substancialmente a comercialização dos sacos plásticos e, por outro lado, não se estimula através de medidas efetivas às empresas que operam com o reaproveitamento desse material. Mas não é necessário apoiar quem importa lixo da Inglaterra ou da Cochinchina...