terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

UM APELO BEM SUCEDIDO /Sérgio Costa Franco

Porto Alegre Bairro Menino Deus no tempo das chácaras
O apelo que fiz, numa destas minhas crônicas avulsas, por gente que pudesse compartilhar das minhas lembranças mais remotas do bairro Menino Deus, teve bom resultado. As crônicas em si, que eu dirijo ao restrito público dos meus filhos, netos e amigos próximos, teriam o destino dos natimortos, se não fosse a gentileza de meu conterrâneo e vizinho José Alberto de Souza, que habitualmente as reproduz em seu blog, e do colega Antônio Goulart, que, nesse caso transcreveu minhas reminiscências nas colunas do “Almanaque Gaúcho” em Zero Hora.
Mostrando que memórias emocionadas não são privativas deste octogenário, escreveu-me o Engenheiro Roberto Difini, colega do Curso Científico do Colégio Anchieta em 1945, para acrescentar lembranças muito vivas daquele velho Menino Deus que ambos conhecemos na infância.
Mas as lembranças dele me induziram a espichar o assunto, pois evocaram uma imagem perdida e esquecida da Rua José de Alencar, que muito importa relembrar: a Vila Esmeralda, sede de uma grande chácara que fazia fundos na Rua Costa, pertencia aos avós maternos do Roberto, João Pereira da Costa e sua esposa, casal que eu conheci e ainda conservo na memória. Assinalada por uma grande figueira e por um magnífico portão de acesso, o imóvel estaria hoje preservado como relíquia do patrimônio, não só do bairro, como da própria cidade de Porto Alegre. Ali estava um dos últimos exemplares de sede de chácara, com fisionomia autenticamente rural. Outros imóveis que resistiram à ânsia demolitória, como o solar de Lopo Gonçalves, na Rua João Alfredo, ou o sobrado da Rua Paraíso, no Morro de Santa Teresa, têm o estilo de residências urbanas.
João Pereira da Costa fora comerciante visceralmente urbano, dono da joalheria Esmeralda, na Rua de Bragança, mas sua chácara no Menino Deus conservava as características de um estabelecimento rural, quase se diria uma sede de estância. Creio que, já no início da década de 1980, um de nossos prefeitos nomeados, do período ditatorial, talvez o Thompson Flores, concebeu abrir a Rua Múcio Teixeira até a José de Alencar, disso resultando a desapropriação e demolição da Vila Esmeralda, com seu centenário e estilizado portal, mais o magnífico arvoredo. Parece que se tratava de um projeto urbanístico antigo, repetidamente adiado. Tudo para abrir uma radial tortuosa e estreita, que mais adiante se interrompe. Em lugar da chácara, numa esquina movimentada, está uma prosaica e insossa agência da Caixa Econômica. Atentado modernizante, que hoje, com melhor consciência patrimonialista e ambiental, talvez não se consumasse.
Imagino não sermos apenas nós, eu e o Roberto Difini, que lamentamos a perda da Vila Esmeralda no ambiente do Menino Deus. 

sábado, 21 de janeiro de 2017

ELES VIAJAM POR MIM -- Sérgio da Costa Franco

Por diversas razões nunca viajei a longas distâncias nem jamais saí do Brasil, salvo, “excusez du peu”, para ir a Rio Branco ou Artigas, na fronteira uruguaia. Rigorosamente, só gostaria de ter viajado um pouco mais pelo Brasil, para conhecer alguns lugares da Amazônia e do Estado do Rio, Petrópolis, Vassouras, onde viveram antepassados. E mais São Luiz do Maranhão, que vale até o sacrifício de visitar o Sarney. No rumo do norte não ultrapassei Recife  e a Paraíba, e no Centro-Oeste não fui além de Brasília. Do estrangeiro só conheço o que me ensinaram os livros, os álbuns e as revistas. Mais as cartas dos irmãos diplomatas e dos filhos viajores.
É que sou irremediavelmente um monoglota, só escrevo e falo em Português, e, por isso, acho que não teria graça visitar países onde só pudesse me comunicar com guias turísticos e porteiros de hotéis. Acho imprescindível a fraternidade do boteco, a leitura do jornal local, a audiência direta dos nativos. Conhecer um país através de imagens, filmes, vídeos e agências de viagens nunca me atraiu. Talvez porque sempre fui vidrado na pesquisa de fontes primárias, de livros e documentos originais.
De resto, os encargos de família não foram leves, enquanto eu era jovem. Com 7 anos de casamento, eu e a Nezinha já tínhamos três filhos. Quando já estávamos mais folgados, à beira dos 40 anos de idade,  convocamos mais dois para enriquecer a caravana. Excetuado um curto período, entre a infância do Miguel e o nascimento do Fernando, sempre havia um traseiro sujo a reclamar cuidados e fraldas por trocar. Isso matava eventuais pretensões turísticas que aliás não cultivávamos, nem eu nem a Nezinha . Basta dizer que moramos l ano e meio em Quaraí, na fronteira com o Uruguai, e nunca fomos sequer a Montevidéo. 
Dispensado do sacrifício dos vôos prolongados, dos aeroportos, das estações rodoviárias e ferroviárias, das bagagens, da compra de passagens e das operações de câmbio, delego todas essas torturas aos meus filhos, que amam viajar e galopar pelo mundo. Dou-lhes procuração para que viajem por mim à foz do Prata, ao Caribe, à França, ao trepidante São Paulo e até à Indonésia... Um neto corajoso já foi sozinho à Patagônia e, mais tarde, à Islândia.   Eles me transmitem todos os ensinamentos que eu desisti de assimilar e me repassam emoções de que eu me poupei. Agora esteve o Miguel com mulher e filha em Portugal, fazendo uma viagem maravilhosa, que, esta sim, causou inveja a este velho lusófono e lusófilo, devoto de Camões, de Guerra Junqueiro e Eça de Queiroz. O filho chegou ao histórico promontório de Sagres, sede da escola náutica de Henrique, o Navegador, foi tocado pela emoção de contemplar o Mar Oceano do alto daqueles rochedos, e sentiu o desafio que ele representava para os homens do século XV, que ainda estavam descobrindo os segredos de velejar, de medir longitudes, de ler cartas náuticas e de sobreviver às tempestades. Acho que a emoção do Miguel foi a mesma que me atingiria se eu lá estivesse. Deve ter sido um fiel e “bastante procurador”.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

PRAZO DE VALIDADE - p/ Sérgio da Costa Franco


Li na semana passada o interessante livro de Luiz Felipe Pondé, FILOSOFIA PARA CORAJOSOS, presente de Natal do meu neto Jonas. E ainda que aquele filósofo me pareça às vezes superficial, ele não deixa de nos transmitir algumas verdades chocantes, que nos obrigam à reflexão. Uma delas diz respeito à longevidade, em geral saudada como grande conquista do nosso tempo, mas que ele cerca de reservas muito ponderáveis. “Transcrevo o próprio Pondé: “O mundo moderno burguês em que vivemos é um lugar pautado pela lógica da eficácia em que tudo é medido pelo seu valor “instrumental”, ou, dito de outra forma, pelo seu valor “de uso”. “Você vale pelo que faz funcionar neste mundo. Idosos hoje não valem nada, apesar de dizerem o contrário. Ficam brincando com computadores e Facebook para parecer parte deste mundo. Claro, os idosos com grana têm seu lugar na cadeia de consumidores de bens de valor”.
Depois dessa importante lição, em que nos convence de que estamos sujeitos a prazo de validade, ele ainda escreverá mais adiante: Eis que a longevidade está aí. Vive-se muito, e uma das primeiras coisas que os governos têm de fazer é adiar a aposentadoria, porque ao lado da longevidade está a infertilidade das mulheres seculares, o que gera o famoso problema da previdência: não tem jovem bastante para bancar tanto idoso querendo ser feliz. Afora essa questão de gestão, a longevidade cria outros traumas. Como os vínculos são cada vez mais efêmeros entre as pessoas, e a atomização é crescente, a tendência é a solidão ser a outra face da longevidade. Pessoas vegetam em suas casas, quando têm casas, ou abrem-se novas casas de repouso. Claro, existe até uma nova ciência: gerontologia.
É evidente que o livro de Pondé não é de autoajuda. Se já estávamos mais ou menos preocupados com a ultrapassagem do prazo de validade, a perspectiva de uma longevidade em solidão não é nada animadora.
O interessante é que o nosso inconsciente reage, e, pelo menos em sonhos, reassumimos as funções do passado, voltamos a ter preocupações com o trabalho e a eficiência. A angústia por não haver entregue à Redação do jornal o artigo agendado é um dos meus sonhos mais frequentes. E vai ao ponto de tentar escrevê-lo mesmo dormindo. 
A preocupação com a perda de prazos processuais, muito própria dos profissionais do Direito, seguidamente me assalta. Pelo menos durante o sono, não perdi validade, ainda me vejo mergulhado no trabalho e preocupado em ter bom desempenho. Parece-me isso uma justa reação do inconsciente contra o que Pondé sadicamente chama de “apodrecimento” dos longevos.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

UM BOM DIÁLOGO OU UMA SURRA DE CINTO ?

Faz algum tempo me falava um amigo sobre uma passagem de sua adolescência, na qual estava jogando bola com seu irmão e esta caiu no terreno vizinho. O proprietário a recolheu, devolvendo-a furada em represália. Eles então se revoltaram, apedrejando as vidraças da casa lindeira, cujo dono em seguida fez queixa ao pai deles. Este os chamou para a reprimenda de uma surra de cinto. Aquele me disse que, graças a esse incidente e outros mais, eles vieram a se tornar cidadãos íntegros e respeitadores. Repliquei-lhe então que, no lugar do seu genitor, até ajudaria a quebrar o restante daqueles vidros.
Parece que hoje se tornou moda descaracterizar o diálogo na educação dos filhos, havendo aqueles adeptos da linha dura para conduzir a prole no bom caminho. De minha parte, acredito que na minha formação familiar muito influíram as palavras de advertência de meu tio e pai de criação sobre a corrigenda de maus procedimentos. Sua fala era suficientemente clara ao ilustrar as consequências que poderiam vir a prejudicar terceiros por não assumir a responsabilidade de minha conduta. E eu jamais cheguei a mentir nessas ocasiões como forma de desarmar o desagrado que estava provocando.
Três desejos foram objeto de escamoteações às vistas de meus tutores: soldadinhos de chumbo, revistas em quadrinho e cigarrilhas “Phriné”. Tirando dinheiro da gaveta em que era guardado, secretamente adquiria aquilo que me parecia fazer falta e depois escondia esse produto em algum lugar seguro. Lembro-me que cheguei a formar batalhões de infantaria, artilharia e cavalaria, movimentando-os ludicamente em baixo de minha cama. Sob o colchão, mantinha reservado um rico “Almanaque do Globo Juvenil”, quando só se permitia aos menores o “Tico Tico” como leitura infantil.
Mas foram as cigarrilhas “Phriné” que me expuseram a fraqueza de caráter. Uns tubos finos de fumo fraco, não consegui resistir a tentação de pitar algumas de vez em quando, fazendo desaparecer inúmeras daquelas carteirinhas, o que deu motivo à desconfiança de tio Cantalício, inquirindo-me sobre o fato. Surpreendi-o, confirmando minha falta na hora. Então, ele replicou que, com essa atitude, eu lhe tinha poupado de acusar outra pessoa da casa inocente e me abriu os olhos para o bom caminho da retidão na maneira de proceder, evitando problemas futuros na orientação certa e segura.
Dada minha condição de órfão, acredito que por tal motivo nunca cheguei apanhar de meus tios, mais empenhados em compensar a ausência de meus pais biológicos. Evidente que tinha um tratamento diferenciado em relação a um primo e irmão de criação, nem sempre apoiado em suas preferências de lazer, como o futebol praticado nas peladas de rua ou no colégio. Assim, era objeto de ciumeira pelos demais que me consideravam “mimado” em demasia, sem quaisquer proibições para realizar o que bem entendesse, confiança essa que procurava corresponder em minhas ações.
No primário, tive dificuldades para me adaptar ao horário matutino, sonolento, com déficit de atenção, chegando a ser acordado com um copo d’água que o professor me atirou na cara e me desmoralizou perante os colegas. Pouco interessava ao mestre saber das causas daquele distúrbio, numa época em que ainda não se falava em correto politicamente. Sou mais adepto daquele saudoso diálogo com meu tio, colocando-me nos trilhos para seguir numa viagem mais tranquila. Confesso meu embaraço com os jovens devido a dificuldades auditivas que procuro suprir com exemplos dignificantes. 
Preparei exame de admissão ao ginásio com aulas particulares com a Profª. Delícia Ramis Bittencourt, vindo a obter o segundo lugar na classificação geral. Desta querida mestra, recebi uma das mais inesquecíveis lições de minha vida, quando adentrei na sala em que ela ministrava suas aulas. Com cortesia, ela me solicitou que saísse daquela peça, voltasse ao hall de entrada, batesse na porta e esperasse autorização para entrar, depois abrisse aquela porta, dando “boa tarde” aos presentes. Feito isso, ela me mandou sentar à mesa e começar meus estudos. Uma ação corretiva que bem poderia ser considerada o mais perfeito exemplo de cidadania para os dias atuais.

domingo, 1 de janeiro de 2017

O ATENDIMENTO ELETRÔNICO POR TELEFONE

Tortura na comunicação

Os muito jovens dirão que é casmurrice de velho ou implicância de surdo. Mas não suporto uma das inovações da modernidade, que é essa escolha múltipla de opções nas ligações telefônicas para empresas ou repartições públicas. “se quiser a garagem, digite 1; se quiser o contador, digite 2”; para o sanitário, digite 4”; “para a alcova do diretor, digite 5" E seguem-se mais seis ou sete opções, que implicam em conhecer o próprio organograma da empresa ou a sua intimidade.
Agora me aconteceu de telefonar para o meu jornal de assinatura, a fim de pedir a transferência da entrega, de Porto Alegre para Torres. E o que antes era um procedimento muito fácil, ao alcance de qualquer criança, transformou-se num quebra-cabeças. Salvo engano, as alternativas foram em número de sete: se queria reclamar falta de entrega do jornal; se o jornal chegara incompleto, se houvera mudança definitiva de endereço... Um número para cada uma dessas hipóteses. Afinal, veio a única pergunta que me interessava: a hipótese de transferência transitória; creio que a sétima... É claro que também informei os dois endereços, o de Porto Alegre e o de Torres. Depois ainda me perguntaram o nº de minha inscrição como assinante e meu CPF ou CPJ. Quando tudo parecia acertado, inclusive a confirmação correta dos endereços, veio uma derradeira indagação, que a minha deficiência auditiva não entendeu bem, e o resultado foi a anulação de todo o procedimento. Como havia uma última e salvadora opção, que era a do atendimento personalizado, acionei-a com justa esperança de humanização do processo. Aí, então, uma simpática voz feminina atendeu ao meu apelo de socorro, esclareceu-me que a via eletrônica não tinha funcionado, anotou meu endereço transitório e garantiu que o jornal virá  para Torres, sem problemas. Tinha perdido uns cinco minutos na pretendida comunicação eletrônica; dois minutos de viva voz bastaram para solucionar a questão.
Mais uma vez a realidade atropela as sofisticações modernas. A última opção, do atendimento personalizado, continua sendo a mais confiável e eficiente. E que me perdoem os adeptos do telefone, mas este, em alguns casos, se transforma num instrumento de tortura.
Sérgio da Costa Franco

domingo, 25 de dezembro de 2016

VEJA A CRÔNICA AVULSA DE UM APOSENTADO

T A T U A G E N S
Sérgio da Costa Franco

Entre as incompatibilidades que, no fim da vida, arranjei com o meio social em que vivo, está essa prática da tatuagem, que a cada dia encontra mais aderentes e mais espaço na pele de formosas criaturas, que assim danificam pernas, colos e braços antes perfeitos. E o pior é que não posso ao menos criticar essa opção pseudo-artística e estética, porque foi aceita e adotada por estimados personagens da família. O que antes – e assim se entendia até o meu tempo de adolescente – era uma prática de presidiários e desocupados, ou de marujos, para preencher as extensas jornadas de ócio, tornou-se atrativo de moças bonitas e bem-nascidas, de rapazes ilustrados e até de trabalhadores, condenados a “ralar” no dia-a-dia da construção civil, da indústria fabril ou do comércio.
Até admiro a coragem de quem é capaz de mandar gravar na própria pele, de forma dificilmente removível, o nome de uma namorada, sem nenhuma garantia de permanência no leque das afeições pessoais. Os surtos amorosos, especialmente entre os muitos jovens, podem levar a essas demonstrações de afeto, que são dolorosas de fazer e ainda mais dolorosas para desmanchar. Não por uma namorada (o que poderia render alguma coisa em termos de relacionamento), mas por afeição intelectual e ideológica, um dos meus netos mandou gravar no braço a imagem do Nietzsche, com seu formidável bigode. Eu nunca aprovaria essa opção ideológica, que também foi de Hitler e dos nazistas, mas o jovem aprendiz de filósofo, então com vinte anos, jamais consultaria o avô, e lá está ele com seu ícone imortalizado no antebraço, até que se arrependa algum dia e eleja melhor parceiro, talvez um pacifista como Gandhi ou Mandela, ou um santo como Francisco de Assis. Mas será difícil e penoso deletar todo aquele bigodão... E como o filósofo é mal conhecido e menos identificado, meu neto é visto, no Rio Grande do Sul, como um fiel devoto do Governador Olívio Dutra.
Dias atrás, passou por mim, sem camisa, um jovem que mandara gravar no lombo a estrela do PT. O que me pareceu um caso de empolgação transitória, que em certas praias e ambientes deve agora trazer-lhe dificuldades para despir a camisa. Talvez fosse bem pior se ele tivesse desenhado na pele uma foice e um martelo, como do agrado de alguns comunistas antes do desmanche da União Soviética. De qualquer modo, jamais convém gravar na pele as opções políticas, sempre passíveis de revisões e de arrependimentos. 
Os velhos marinheiros, que me consta haverem sido os primeiros adeptos da tatuagem, gravavam na pele a imagem das mulheres que conquistavam nos portos, mas sem fixar nomes nem datas. Não precisavam removê-las quando as esquecessem ou quando passassem a odiá-las. Eram apenas figuras de um passado perdido, que levavam na pele como uma página de história. Os jovens da atualidade ainda estão aprendendo que são passageiras muitas afeições e devoções intelectuais, e os amores, mais ainda, são fugazes e incertos.

domingo, 18 de dezembro de 2016

QUEM SE LEMBRA DE COISAS MAIS ANTIGAS? *

Mais uma do Mestre da Crônica Relâmpago
Na idade que alcancei, já tenho dificuldade de achar parceiros para relembrar coisas antigas. Os que superaram minha idade já são poucos, muitos estão desmemoriados e outros tantos, desinteressados de lembrar fatos e coisas de um passado remoto. 
Morei neste gostoso bairro do Menino Deus entre os 7 e os 12 anos de idade, ou seja, entre 1935 e 1940. E a ele voltei, já bem idoso, em 2013, decidido a esperar nele a visita da Magra. Aquele saudoso estágio infantil me encheu de boas lembranças, de muitas coisas desaparecidas, que em vão tento descrever aos mais jovens. E outras, que sei por leitura de livros ou jornais, mas que nunca vi ou não guardei na memória. Esse é o caso da Rua 28 de Setembro, que existia onde hoje é a parte final do canal do arroio Dilúvio. Devo tê-la avistado e conhecido, mas nada me lembro dela. Também não conheci o Jardim Zoológico fundado pelo Coronel Ganzo, pelo óbvio motivo de ter sido desfeito antes da minha chegada ao Menino Deus e ao mundo. Mas também não encontrei ninguém, - o que bem poderia ocorrer - que o tivesse conhecido em 1925, quando consta haver sido extinto. Essa é a grande dificuldade: encontrar parceiros para rememorar coisas antigas, ou para me informar de outras que ignoro Quem se lembra ainda do Ratinho, o homem da flauta de taquara, que tocava o seu instrumento nas esquinas do bairro? Quem recorda a louca Ciriaca, que respondia às provocações da gurizada com uma ladainha de palavrões e rematava sua catilinária erguendo a saia e mostrando o gordo traseiro ao público?  O preto que vendia ”mocotó baiano”, num grande recipiente aquecido por um braseiro? . E os pregões, hoje desaparecidos, do “feijão miúdo, batata doce e aipim gema-de-ovo”, que o próprio lavrador trazia em sua carrocinha? E quem poderia esquecer o Circo Irmãos Gomes, estabelecido com seu barracão num terreno baldio da José de Alencar, logo ali depois da Oscar Bitencourt, bem ao lado da casa do Dr. César Pestana? Os times de futebol varzeanos eram numerosos e achavam espaço para as suas partidas nos grandes terrenos baldios, que havia na Barão de Guaíba, na Grão-Pará e outras ruas do bairro. E, por falar em futebol, confesso que ainda vi jogar o F. C. Porto Alegre, de jaqueta verde e branco, apelidado de “caturrita”, e que era dono da “Chácara das Camélias”, hoje espaço de uma escola estadual e do supermercado Nacional. Muito mais tarde, por leituras de história da cidade, fiquei sabendo que esse “Porto Alegre” era o mesmo “Fussball", nascido no bairro Navegantes, no mesmo ano do “imortal Tricolor” e seu primeiro adversário. Vão dizer que eu minto, se disser que na torre da igreja do Menino Deus havia enormes corujas brancas, exemplares da “coruja das torres”, que a Enciclopédia chama de “suindaras”. Mas eu as vi, e digo que até me atropelavam, se eu fosse mexer nos sinos para cumprir alguma ordem do vigário. E por falar na desaparecida igreja, ainda testemunhei as movimentadas festas de Natal na Praça Menino Deus, onde havia rifas e sorteios de todo o gênero, jogo de argolas, tiro ao alvo... Destas festas há muita gente que ainda as lembra, pois ali nasciam flertes e namoros que depois resultavam em casamentos. De tudo isso, o que ficou mais vivo na memória? Talvez só o grande silêncio das noites, apenas cortado periodicamente pelo ranger ritmado do bonde República e pelos acordes da flauta do Ratinho. 
SÉRGIO DA COSTA FRANCO

domingo, 11 de dezembro de 2016

Mais uma de Costa Franco: "Os homens e os cães"

Ao caminhar aqui pela Avenida Getúlio Vargas, onde sempre há cachorreiros e cachorreiras levando cães a passeio, me deparei com uma singularidade: enorme homenzarrão com mais de metro e noventa e um respeitável diâmetro ventral (é como os especialistas da área médica estão chamando a velha e popular barriga) conduzia pela guia um cãozinho “Yorkshire”, enfeitado de fitinhas coloridas.
A desproporção entre o homem e seu cãozinho (provavelmente uma cadelinha, a julgar pelos adornos feminis) me levou a algumas reflexões. O que teria levado esta espécie humana, que gerava gladiadores, bandeirantes e caçadores de tigres a sujeitar-se agora ao vexame de andar pela rua com uma míni-cadelinha enfeitada de fitinhas? Certamente houve o precedente de um diálogo do casal: - Hércules, não tenho tempo de levar a Fininha ao passeio hoje. Podes leva-la? E o pobre Hércules, morador de apartamento, que não tem a graça de possuir um Labrador, um Rothweiler ou um Policial dignos da sua companhia, tem de submeter-se, por mera solidariedade conjugal, ao ridículo daquele desfile pelas ruas do bairro.
A ascensão social, demográfica e “política” dos cães é um assunto digno de preocupação. Integrados à sociedade humana, consumindo alimentos quase em equivalência aos humanos, resguardados por rigorosa proteção legal, os cães poderão superar a nossa espécie em futuros recenseamentos. Já hoje, há domicílios em que os totós são mais numerosos que as crianças e seus pais. E quem examinar as gôndolas dos mercados, vai encontrar ração para cachorros com mais fartura e variedade que o feijão e as farinhas.
Entretanto, nem sempre foi assim. Esta ascensão social do cão, em todo o Ocidente, é um fenômeno mais ou menos recente. Antes de Pasteur e da vacina antirrábica, temia-se muito os cachorros, sendo eles perseguidos pela famosa “carrocinha”, que há pouco tempo ainda circulava pelos bairros de Porto Alegre, para recolher os vira-latas abandonados na rua. Na zona rural, os cães gaudérios, quando viviam em matilhas numerosas, tornavam-se agressivos e exigiam operações policiais para a sua repressão. O viajante inglês Mulhall, na área da Lagoa Mirim, ainda recolheu a tradição das grandes matilhas de “cães selvagens”, que atacavam terneiros, gado miúdo ou pessoas a pé. 
Já no Extremo Oriente a história era bem diferente. Lendo ainda há pouco um livro de viagens do explorador inglês James Cook, o prestígio dos cães, em algumas ilhas da Oceania, era o de alimento dos nativos, rivalizando com os porcos, nesse particular. E os próprios ingleses tiveram de experimentar a iguaria, não muito a gosto, mas afinal elogiando-a. Na Coréia do Sul consta que ainda se consomem na mesa 2 milhões de cães por ano, segundo informa o Google. Mas não sei se conviria divulgar essa informação em alguns bairros pobres da nossa periferia, onde a desejada e necessária ração proteica é quase desconhecida.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

A estreia de Sergio da Costa Franco, com louvores

Como não tenho mais jornal  para escrever, cedo ao impulso escrevinhador para cometer uma ou outra  crônica extemporânea e chatear os amigos e parentes. Abraço do  Sérgio (Costa Franco).
A MIXÓRDIA URBANA

O que vejo da minha janela não sugere poemas de amor nem de deslumbramento com a natureza, nem mesmo recordações amenas de minha distante infância no Menino Deus da década de 1930. É um retângulo feio de imagens heterogêneas, onde se mesclam modernos prédios de apartamentos à direita, do outro lado da avenida, com extensos telhados mal conservados, destacando-se o do edifício que faz paralelo com o meu, todo remendado com uma capa aluminizada, que brilha ao sol e ofende os olhos. Mais além vejo antenas, caixas d’água e as copas de algumas esgalgadas palmeiras, com as quais outrora se pretendeu arborizar e humanizar um bairro que fora rural e bucólico até o fim do século 19.
A dificuldade de conseguir apartamento que alojasse a biblioteca nos obrigara a uma demorada e penosa peregrinação pelas imobiliárias, até descobrirmos este simpático 402, longe do tráfego e dos barulhos da avenida, na face lateral do Edifício Palácio de Versailles. Internamente cômodo e apropriado às nossas necessidades, o apartamento nos condenava, entretanto, a essa prosaica e melancólica paisagem, longe de parques, de verdes e de quaisquer outros atrativos urbanos. Quando, no momento de fechar negócio, minha mulher lamentava essa pobreza da paisagem, o corretor Lorenci, com aquela infatigável capacidade de argumentar, que é própria do ofício, apontou para as esbeltas e despojadas árvores da avenida: - “Mas, daqui desta sacada, a senhora pode contemplar as palmeiras da Getúlio Vargas!” Era o átomo de verde consolador que nos oferecia...
Antes de tudo, `à nossa frente, uns oitenta metros quadrados do telhado cinzento da agência do Banrisul, que certamente não romantizam o panorama. Depois dele, um velho prédio de  apartamentos, que, em recurso contra as goteiras, teve seu telhado   recoberto com uma capa aluminizada, que brilha à luz do sol ou mesmo ao tímido  luar, ofuscando a visão dos vizinhos. Além do prédio de telhado ofuscante, mesmo sem poder enxergar nada, já sabemos o que existe: outro modesto edifício de apartamentos, uma oficina mecânica, agora evoluindo para “estacionamento rotativo”, farmácia homeopática, lojinha de serviços de informática,  varejo de calçados de baixo preço, lancheria de baurus e pratos ligeiros (recuso-me a falar em “fast food” e outras inglesices) e até um abrigo para pessoas idosas que invoca o Arcanjo Rafael. Mais além, a esquina da Rua Barbedo, outra peculiaridade do bairro: rua já secular, ostentando o sobrenome de uma família tradicional, embora sem identificar o  homenageado pelo prenome. Seria isso desnecessário naquele final do século 19, tal a importância social do homenageado? A outra face da avenida, seu lado par, nos oferece uma visão mais civilizada: há edifícios de construção recente, bem conservados, a porta movimentada de uma academia de ginástica, o vaivém incessante de uma agência lotérica. Mas prossegue a mixórdia desta cidade de crescimento espontâneo: há restaurantes, confeitaria, pequenas lojas e, mais além, fora das minhas vistas, o palacete enfeitado, de inspiração “art nouveau”, que foi da família Noronha, remanescente quase único dos solares nobres da velha Avenida 13 de Maio (teve esse nome até 1937), e que hoje hospeda uma empresa comercial.
Curiosidade que ainda se pode observar nesse panorama confuso é o da grande extensão dos fundos desses prédios, que no passado teriam sido área de hortas, de jardins e até de cocheiras, ao tempo em que havia cavalos e carros a serviço das famílias. Tal amplitude dos terrenos, da frente aos fundos, favorece hoje os caprichos da verticalização das construções, ou faz deles área ideal para a “indústria” do  estacionamento de automóveis, um dos ramos de negócio mais rentáveis da mixórdia urbana.
Se me detenho a escrever sobre essa inglória paisagem, é pelo vivo contraste com a que nós desfrutamos em nosso apartamento de Torres, - um luxo de panorama físico e humano, com os aparados da Serra emoldurando o fundo, o Atlântico pelo leste, e, logo defronte a nossas vistas, o traçado sinuoso do Mampituba, seus barcos de pesca indo e vindo do mar, sua ponte rodoviária, sua ponte pênsil, os restaurantes de beira-rio, os pescadores de caniço, que estão presentes desde a madrugada logo abaixo da nossa janela.

domingo, 20 de novembro de 2016

MUROS PARA CONTER NOSSOS "REFUGIADOS"


De repente, ele viu se ruírem vinte anos de experiência profissional, refletindo-se amargamente na própria existência como um castelo de cartas que desaba num simples assopro. Era mais um nas dezenas de milhões de desempregados brasileiros e, mesmo assim, buscava alternativas para sobreviver e contratava consultora especializada em colocação no mercado de trabalho. Explicava-me que nos dias atuais os currículos já eram direcionados às empresas de acordo com o perfil do candidato para se evitar o acúmulo de cadastros pessoais a serem examinados nas áreas de recursos humanos.
A consultora que contratara oferecia-lhe ainda oportunidades de investir suas reservas societariamente em empresas necessitadas de capital de giro, sem qualquer garantia de retorno financeiro, porém, via-se forçado a desistir pelo risco da empreitada. Chegou a elaborar um pequeno projeto de instalação de uma loja para comercializar jogos de computador, analisando detalhes envolvidos no custo benefício de um lucro razoável acima de 10% como rendimento satisfatório. E a concorrência do comércio informal dos clandestinos vendedores ambulantes impedia-o de levar adiante sua ideia.
Há pouco, surgiu-lhe oportunidade de atuar como sócio numa firma que buscava explorar em Santa Catarina colocação de máquinas de cartão de crédito no mercado local. Tudo levava a crer num investimento bem sucedido para que providenciasse sua inclusão no contrato social da empresa, além de contratar pessoal habilitado, com carteira assinada, na função de promotores de venda. Eis que, já obtendo algum retorno, compensando a representação do fabricante, este transfere seus direitos de manufatura a outro concorrente e acarreta o distrato como consequência da inviabilização do negócio.  
De maneira que hoje ele está ai, batalhando novamente para reestruturar sua carreira profissional e esperando resultados de concorridas entrevistas adequadas a seu perfil de candidato para a função ofertada. Ansioso e abalado por essa situação degradante do país, ele transfere suas expectativas para o exterior, para o Chile em particular mais próximo de sua origem, apesar de se constituir numa aventura em que necessitaria custear um longo período de adaptação e prova de capacitação até encontrar um lugar que o acolha definitivamente, com sua cidadania estrangeira assegurada.
Sempre me senti frustrado e de mãos amarradas quando algumas pessoas me solicitavam colocação para seus parentes e amigos, numa época em que não se acumulava uma grande demanda por postos de trabalho. E agora mais ainda observando essa debacle do nosso sistema social, a falta de solidariedade para com nossos “refugiados” sem qualquer perspectiva de melhoria em suas condições de vida, a ganância daqueles desprovidos de um mínimo pingo de consciência. Mas não deixo de enxergar o mérito no empreendedorismo de quem se dispõe a gerar novos empregos.
Creio-me um privilegiado chegando a um patamar difícil de ser alcançado por uma grande parte de nossa comunidade, porém, não me envergonho de minhas origens a percorrer uma trajetória de algumas conquistas a base de humildes meios de afirmação. E tenho compartilhado muito de meus ganhos com gente mais necessitada como se me exigissem um direito adquirido. Constranjo-me em dar “graças a Deus” por uma situação confortável em meio a uma multidão de miseráveis, sem um teto para se abrigar, sem recursos para se manter com dignidade como vem ocorrendo até hoje. 
Enfim estamos vivendo um tempo em que mais vale “ter” do que “ser”, em que competir se sobrepõe a cooperar, onde a corrupção ativa anda de mãos dadas com a passiva, causando grandes transtornos para nossa economia e exigindo cada vez mais o sacrifício da população mais humilde, continuamente afrontada com a ostentação de riquezas dos mais poderosos. Já é hora de ser implantada uma política de mais austeridade com melhor distribuição de renda e com uma efetiva assistência a todos os excluídos, principalmente moradores de rua, visando um objetivo de mobilidade social por meio de educação para que se libertem da apatia e do desânimo em evolução.