quarta-feira, 4 de setembro de 2013

ESTES FORAM OS PAIS QUE EU CONHECI

A “pequena” Graciara de Fátima homenageou Florisbela e Cantalício Resem, os avós que conheceu, postando foto no "face", onde aparece junto com eles. Isto porque a vó Bela, na realidade sua tia-avó, era emprestada desde que aquele seu avô materno, enviuvou da sua verdadeira avó Rosa, irmã de Florisbela e grande paixão dele. Sua mãe Nilza era pequena quando ocorreu o surto de gripe espanhola em Jaguarão e, junto com vô Cantalício, permaneceram acamados e cuidados pela vó Rosa até ficarem curados daquela enfermidade. Após foi a vez de Rosa ser abatida pela insidiosa doença, sem chances de recuperação.
A bisavó Delfina, mãe de Cantalício,  então o aconselhava a procurar alguma outra moça para casar, argumentando que não tinha certeza se teria condições de criar a neta Nilza no seu tempo de vida restante – no entanto, longeva, conseguiu vê-la casada. Nessa época, Cantalício costumava visitar os sogros como forma de relembrar a sua efêmera felicidade. E, numa dessas vezes, enxergou a cunhada recolhendo um balde d’água na cacimba, nos fundos da casa. Lembrando dos apelos da sua mãe, aproximou-se dela sorrateiro, ganhou coragem e perguntou à queima roupa: “Florisbela, queres casar comigo?” E ela nem titubeou: “Quero”.
E assim Florisbela contraiu matrimônio com Cantalício e passou a cuidar da sobrinha Nilza como fosse filha verdadeira, além de aumentar a família com Anysio e Lucy, estes sim seus filhos e, por que não dizer, primos de Nilza, tornando-se pois a avó homenageada que Graciara conheceu pelo lado materno. Dona Edina e Seu Tourinho, de Belém do Pará, foram outros avôs – já falecidos quando esta nasceu - que deixou de conhecer por parte do pai coronel Cesário. Esta “Vó Bela” foi o grande esteio de um clã de 15 netos e inúmeros bisnetos e trinetos que forjou o carisma Resem através dessas sucessivas gerações.  
 Esse casal também, ele e ela, foram os tios que me criaram desde o falecimento de minha mãe Maria Francisca em consequência do parto (não existia penicilina na época), aos treze dias de nascido. Meu pai, José Dalberto, viúvo pela segunda vez e bastante abalado com mais esse golpe, não encontrou forças suficientes para se recuperar e achou por bem apelar para a solidariedade daqueles meus tios, sua irmã Florisbela e o cunhado Cantalício. Eles se dispuseram a me acolher como tutores até que eu atingisse a idade adulta, o fato vindo a se consolidar com o passamento de papai, após eu completar dois anos.
E eu acabei migrando para uma nova família, onde recebi a condição de “reisinho”, mimado pelos tios que se tornaram pais adotivos e pelos primos, os quais passaram a me tratar como irmão caçula. Nilza e seu noivo tenente Cesário já treinavam comigo os cuidados que dispensariam a sua futura prole. Ali fui crescendo cercado de regalias que Anysio e Lucy, mais graúdos, não dispunham. Travessuras que eram perdoadas como aquela de escalar as prateleiras de uma cristaleira desabando sobre mim e o susto que todos levaram até levantarem o móvel e me constatarem são e salvo em meio aos cacos de jarras e copos.
Florisbela era mulher prendada, cheia de energia, que trazia para si todos os encargos inerentes a uma administradora do lar, sem arrepiar na beira de um fogão a lenha, mesmo quando a fumaça da chaminé se voltava para dentro de casa. Pau para toda obra, fabricava em seus domínios produtos caseiros como velas, sabões, pães, bolachas, massas, linguiças, compotas de doces... Além de gerenciar a livraria e a tipografia “A Miscelânea” que passou a sua propriedade, quando Cantalício assumiu funções de Juiz de Direito da Comarca, intimado pelo Dr. Carlos Barbosa, então presidente do Estado. 
Já Cantalício era o intelectual autodidata, dado às lides jornalísticas, inclusive atuando na área assistencial como colaborador da Associação Protetora dos Desvalidos. Por muitos anos, dirigiu “A Folha”, um dos mais antigos jornais do Estado que ele fundou, até passar às mãos de seu filho Anysio de Souza Resem. Tinha uma chácara que dedicava especial atenção para abastecer sua residência de leite, verduras e frutas. Mais dado ao diálogo, não acreditava em castigos infligidos a seus descendentes e sim no exemplo de uma conduta ilibada que sempre soube transmitir com carinho e respeito a todos aqueles que se afastassem dos rumos traçados para um futuro ideal.

16 comentários:

Graciara de Fátima Nascimento disse...

Adorei o texto, comovente e verdadeiro.
Bjus e sucesso.

Lu Artes disse...

Oi tio amei.
Deu muita saudades deles.
Tua descrição foi fiel!
Beijos!

Jorge Luiz Passos disse...

Caro amigo,
Muito bonita essa sua história familiar.
Registro importante.

Carlos José de Azevedo Machado disse...

Meu caro Poeta das Águas Doces, querido Tio Zezinho. Esta história transcende o caráter pessoal. Vale a pena ler, fechar os olhos e viajar na história das primeiras décadas do século XX de minha cidade. Sei que tens outras histórias guardadas, de familiares, amigos além de causos interessante que, contados através de sua "caneta", tornam-se verdadeiras obras capazes de serem lidas e "degustadas" por qualquer leitor interessado. Assim, já o provoco e escrever mais histórias como esta. A propósito, tenho uma gravação sua, informal, falando das origens da família Souza, o que pra mim, já é um bom material de pesquisa e leitura. Parabéns e Grande Abraço. Carlos José (Maninho)

Anônimo disse...

Preado amigo José Alberto:
Li o texto sobre teus pais adotivos e fiquei comovido pelo teu sentimento de gratidão e devoção filial.
Meus cumprimentos.
Abraço do Costa Franco

Cabeda disse...

Amigo Souza,
Cumprimentos pelo belo preito de admiração e gratidão aos teus pais adotivos e do coração.
Abraços

Amilcar Souza Amaro da Silveira disse...

Oi Zezinho
Gostei muito de conhecer um pouco mais da história da família. Lembro que tínhamos muito respeito pela tia Bela, por sua austeridade,o que nos obrigava, a mim, ao Evandro e Luiz Cesário a ter cuidado com as brincadeiras que fazíamos. Eu gostava muito de olhar Jaguarão de cima, nas sacadas do casarão da 27 de janeiro. Fico no aguardo de novas histórias da família. Um grande abraço e parabéns.
Amilcar

Maria Nilza Lepre disse...

Gostei do seu Blog. Adorei conhecer a sua história familiar. Parabéns.
Abraços de sua nova amiga e parceira de Varal Antológico.

Anônimo disse...

Lindo texto primo.Fiquei muito emocionada.Um grande abraço.GRACÍOLA DO CARMO.

Academia de Letras de Crateús - ALC disse...

Grande Poeta de todas as águas!Águas doces, salgadas, frias, quentes... Só não escorre nestas veias poéticas as mornas águas da indiferença, também pudera! Quem tem as raízes enfincadas em Jaguarão e traz na memória os tesouros da infância, da família e do querido rincão natal só podia ser POETA DE TODAS AS ÁGUAS! ( O intermitente Rio Poti, águas de minha inspiração, manda lembranças ao glorioso Guaíba!) Abraços!
Raimundo Cândido

Anônimo disse...

Parabéns, Jose Alberto, pelo teu último Blogue.
É sempre bom recordar os nossos antepassados que marcaram nossas vidas.
Lembrar com saudades daqueles que tiveram presença constante em nossas vidas é sinal de bom caráter e de eterno agradecimento.
Parabéns e um abraço,
Hunder

Maria Alice Kerscher disse...

Tio Zézinho,

também me emocionei com esse texto.Ainda bem que podemos contar com sua memória e seus registros pra passar todos essas histórias para as novas gerações da família.Um abraço.

Maria Alice

Clarice Villac disse...

Que narrativa fascinante !
Conhecendo o Poeta das Águas Doces, sua história se torna ainda mais interessante !
E assim, vamos juntando material para o futuro livro !
:~)

Anônimo disse...

Prezado, parabens pela postagem. Sou o Alexandre Augusto, filho da Graciola, e pude mostrar para minha filha Clarissa a foto de seus trisavós. A propósito, vc teria alguma estória a respeito do Sr Augusto Alexandre, que, pelo que soube, seria o avô do Cantalício? Sou curioso, pois dizem que
meu nome foi uma lembrança do nome dele, por sugestão da Nilza, só que de forma trocada. Abraços.

Anônimo disse...

Tio Zezinho
Adorei a história, que me trouxe na memória as visitas que fazíamos sempre ao Tio Cantalício - fazíamos aniversário juntos no 18 de maio - e era visita obrigatória para trocarmos abraços e presentes. Eu era bem pequena mas lembro daquele senhor de bastante idade, que íamos visitar e ele sempre carinhoso comigo. Lembro da escada de madeira do sobrado da Andrade Neves, que fazia uma curva ao subir. Da Tia Bela não lembro, creio que não cheguei a conhecer, mas lembro de minha mãe contar que o Senhor - muito habilidoso também na arte do desenho - desenhou a Tia Bela na parade da casa, em tamanho natural. Ela falava com tanta propriedade deste desenho que, mesmo sem nunca te-lo visto, imaginava a cena - a Tia Bela gorda e grande, assim como me era descrita, na volta do fogão a lenha. Gostaria de ter visto este desenho.

Beijos da sobrinha que muito lhe admira e ama
Ana Lecy

Anônimo disse...

Caro primo,

Delícia fuçar as páginas do seu blog que me trazem a família de longe para bem perto.
Lembro de minha avó Hilda a contar estórias sobre a prima Nilza e marido Cesáreo, de quem, sabe-se lá por qual razão, sempre tive um medo enorme ... estórias da meninice. À época, desafio mesmo era recitar o nome de todas as irmãs Graci e não deixar ninguém de fora da lista rsrs.
Trabalho com as lembranças de quem tive a oportunidade de conhecer ainda pequena e das estórias que minha avó contava, mas ver comentários de Graciara e de Alexandre, filho de Gracíola, tornam todos aqueles personagens reais, e aproveito-me de seu blog para, bem devagarzinho, ir me chegando como quem não quer nada e pegando a pontinha desse banco onde se senta essa trupe.
Obrigada por esse enorme privilégio. Um grande e afetuoso abraço, Flávia Cristina Almeida - filha de Luiz Fernando, neta de Hilda Mello de Almeida, bisneta de Joaquim e Maria José Mello ... KKKK