quinta-feira, 22 de junho de 2017

Da homenagem ao poeta gaúcho Heitor Saldanha

Cedemos nosso espaço para repicar parte da Apresentação do Especial Heitor Saldanha com o depoimento do Poeta Garoeiro, de Natal-RN, sobre uma das obras deste ilustre cruzaltense

3. Hora Evarista – Especulações...

Sob o título: “A Hora Evarista” a Editora Movimento, de Carlos Appel, lançou, em 1974, poemas de Heitor Saldanha, inclusive, os de: “A Nuvem e a Espera”, “As Galerias Escuras” e “A Outra Viagem”. Ainda que esse livro trouxesse refinados comentários de Manoel Sarmento Barata, Raymundo Faoro e José Louzeiro, nada é mencionado a respeito do título, onde está esse adjetivo singular, “evarista”, para qualificar aquela “hora” do poeta. Descartamos eventual referência que viesse da onomástica, pela antroponímia de “Evaristo”, nome próprio de origem latina.
Invenção, neologismo, aliteração, transliteração para abonar ou desabonar palavras, são atitudes constantes na criação poética e na literatura em geral. Nosso poeta poderia simplesmente ter achado bonito, sozinho em sua mesa, ou conversando com amigos, “A Hora Evarista”, que não é “A Hora H”, nem “A Última Hora”, mas é uma hora decisiva.
Também pode ser que ele tivesse lido o epíteto em algum tempo e lugar e por gosto e livre escolha adotado o enigma para título da compilação.
Nos poemas em que a expressão aparece um significado preciso não ganha abonação pela moldagem metafórica que a permeia.
As pistas rabiscadas pelo Poeta Heitor Saldanha, autor de "A Hora Evarista", são:

1ª) - página nº 9 - (título): a hora evarista (em letras minúsculas); com a epígrafe:

uns vivem crono-metrados
eu vivo fora de hora
paciência
por agora
quero um oco de céu
pra cabidar meu chapéu

2ª) -  página nº 10 - (título): A HORA EVARISTA (caixa alta), seguido de:

chega uma altura na vida
em que o universo suspira sua síntese
então passamos de cabeça baixa
era tão longe e não se sabia
que tudo é perto pra viver poesia

3ª) – página nº 11 – poema: "Dia dos Mortos":

tira isso daí
recua essas mesas pardas
pra não me perturbar em alucínio
apague os refletores que essa água mareia
estão desembarcando os passageiros
nesse campo de pouso disparado
é a hora evarista no tambor dos revólveres
por isso não há estampido
cuidado
sai daí
...

Pensando nisso, é possível que uma "hora evarista" seja, ao contrário da hora cronometrada, uma "hora de se viver fora de hora", "numa certa altura da vida", "com a síntese do universo ali, sendo suspirada"...
Ela poderia vir, por aproximação, do Latim, onde "sempre" admite, entre outras abonações: "semper", "umquam", "ever" e "in perpetuum".
Ora, considerando "ever" - também, como o mantém a Língua Inglesa - há de haver uma forma declinativa de "ever" para "evaris", acabando por ancorar o adjetivo "evarista", para qualificar uma determinada e singularíssima hora que seria para sempre, com duração diferente da "hora cronometrada", muito diferente:

Hora evarista = aquela que a gente quer que nunca acabe, que dure para sempre...

Ou, não?

Poeta Garoeiro – Natal, RN, 21 de junho de 2017.


Programação: de 22 de junho a 29 de junho de 2017, o Reblog do Poeta Garoeiro homenageia o Poeta Heitor Saldanha, postando, dia a dia, um poema escolhido, dentre o manancial apuradíssimo que ele criou...

5 comentários:

JBS Garoeiro disse...

Segundo a Wikipédia, há uns anos atrás, Mário Quintana, Heitor Saldanha e Carlos Nejar seriam os três grandes poetas desse celeiro enorme chamado Rio Grande do Sul. Fiquei sabendo porque estava planejando uma semana em homenagem a Carlos Nejar, no Reblog do Poeta Garoeiro, em junho. Foi aí que descobri "A Hora Evarista", a coletânea de poesias de Heitor Saldanha! Grande Poeta, Grande Poesia! Por isso, antecipo ao Amigo Souza que a última semana de junho será a Semana Heitor Saldanha! Nejar, que está por aqui, ainda, poderá esperar...

Ou, não?

JASouza. disse...

Para ler a íntegra de Apresentação, clique em Poeta Garoeiro acima.

JASouza. disse...

Ou melhor, clique no link Poeta Garoeiro no início desta postagem.

Garoeiro disse...

Caríssimo Amigo,
Se é grato pela sua iniciativa de repicar aqui nestas Águas Doces a postagem desse nosso Especial, muito mais grato, com certeza, há de ficar a Literatura do Rio Grande do Sul e esse seu extraordinário filho, o Poeta Heitor Saldanha!
Ou, não?
Abraço,
Poeta Garoeiro

Hunder Correa disse...

Caro José Alberto,

Gostei muito. Continua rememorando literatura boa como essa que confias o teu espaço. Um abraço