segunda-feira, 18 de agosto de 2008

PLÁCIDO REPOUSO

Um, dois, três, quatro, cinco na mão direita; um, dois, três, quatro, cinco na esquerda. Ainda menina, te certificavas de ter os dedos completos para juntá-los aos pares. Mindinho com mindinho. Seu-vizinho com seu-vizinho. Pai-de-todos com pai-de-todos. Fura-bolos com fura-bolos. Mata-piolhos com mata-piolhos. Antes de dormir, te ajoelhavas ao pé da cama e repetias as palavras ditas baixinho por tua mãe em teu ouvido. O hábito arraigado, estranhavas aquele dia em que ela deixou de aparecer. Sozinha no quarto amplo, te sentias insegura à espera do monstro de ferro que logo passaria ali perto, estremecendo toda casa.
Aguardavas tua mã e ouvias perfeitamente aqueles passos, subindo as escadas com o cão. Eram de teus irmãos maiores já iniciados nas conversas dos adultos. Àquelas horas, eles raramente costumavam andar pelos corredores do sobrado, muito menos o cão que se confinava no pátio. E tu ali , em vão tentavas mexer os dedos para te distraires. E depois aquele apito estridente. ********************************************************************** Na madrugada, um trem sibila e te acorda num sobressalto. Tua mãe parece estar adormecida na poltrona, ao lado da cama. Olhas para a sua face, os traços tristes, cabelos soltos e enbranquecidos, o xale preto se estendendo sobre o corpo encolhido pela noite fria. Ela se lembrou de ti, deves pensar, talvez não se tivesse animado a te despertar para as orações que sempre fez junto contigo. Sais do leito, te abaixas a seus pés e beijas suas mãos enregeladas. Teu desespero ecoa solitário no silêncio...
As luzes da casa acendem-se todas, logo o quarto está habitado por outros parentes. Perguntas por tua mãe, se não a viram. Impossível que ela esteja ali, mas o milagre finalmente acontecera, há anos que esperam esse teu retorno. Lágrimas, rostos sorridentes, comovidos, vincados pelo tempo, aos poucos vais reconhecendo-os. E teus irmãos? O cão? Ninguém consegue falar deles para ti. Apenas abraços e beijos, te festejam sem que entendas o porquê. E te enxergas com mãos e pés enormes saídos de uma esmaecida camisola de dormir. Alguém traz um livro, abre-o em uma página marcada e te mostra a passagem. O teu olhar interrogativo, tudo tão nebuloso para ti naquele momento. Forma de esquizofrenia caracterizada por catalepsia, melancolia e depressão física - como poderias entender?

3 comentários:

Edemar Annuseck disse...

Boa noite José Alberto de Souza

Você realmente merece o título de “Poeta das Águas Doces”. Não por teres nascido nas belezas de Jaguarão, mas pelas histórias e poemas escreves com sabedoria, sutileza do fundo da alma. Parabéns. Estás engrandecendo cada vez mais a Cultura Brasileira.

Um grande abraço

Edemar Annuseck

cabeda disse...

Continuas o mesmo sensível artesão da palavra.

Cumprimentos, amigo.

Gilberto disse...

Poderia ser desencarne?