quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Reflexões sobre a incrível efemeridade



Dei uma circulada pela ancestral cidade e constatei uma gradativa perda de referência. Senti bastante a falta daqueles amigos que tomaram outros rumos, alguns deles partindo para outros planos. Até os antigos pontos de encontro já não existiam mais, substituídos por acanhados recintos que mal acomodavam os remanescentes daqueles bons momentos ali vivenciados. E agora aquele resistente boteco se tornava recanto tradicional, onde achávamos algumas caras vincadas diuturnamente que ainda podíamos reconhecer e assim compartilhar de um papo afável regado com o cafezinho da casa ou a água mineral servida bem geladinha para espantar a rouquidão das cordas vocais. 


Pouquíssimos conhecidos me reconheciam e eu não conseguia me lembrar das suas antigas figuras, hoje mais barrigudos e de cabelos grisalhos. “A quem devo a honra de me dirigir?” – era minha constrangedora saída para me situar num distante espaço de tempo. Alguns, mais afoitos, que não sentiam os anos pesando em suas costas, não deixavam por menos e me provocavam: “Mas tu ainda estás vivo!”. E eu tinha que bater três vezes com a mão em qualquer pedaço de madeira para tirar o pé da cova... De repente, gritavam meu nome e eu olhava para um lado e para outro e só via aquelas damas todas eufóricas. “Qual delas?” – me inquiria apelativo. 

À noite, andando por aquelas ruas repletas de passantes desconhecidos, julgava-me como um espectro que tudo vê e não é visto, a enxergar os vultos difusos das minhas lembranças, passado que teimava por não ser esquecido. Saudava-os como nas noites em que, na saída do cinema, respeitosos casais caminhavam lépidos tentando aquecer os corpos açoitados pelo vento hibernal e desprotegidos apesar das grossas vestimentas, na direção da cafeteria mais distante para o choque térmico do chocolate quente. Mas eles também não me avistavam nem respondiam ao cumprimento como se eu fosse um fantoche das próprias ilusões. 

Também andei passeando nas alamedas da minha aldeia de saudades eternas. Naquelas pedras frias e tristes, os retratos amarelecidos pareciam me contemplar através de um limiar imaginário. Pacientes, eles sempre esperavam a minha chegada, querendo me agradecer pelas piedosas orações. Esta energia que emanava do infinito estabelecia uma espécie de comunicação com aqueles entes queridos. Ali estavam as profundas raízes desse tronco que ainda permanecia de pé e se ramificava em outras gerações. A nossa capelinha se mantinha cuidada e pronta para o ornamento reverencial das flores como eu gostaria que continuasse quando ali fosse conduzido. 

Pois esta minha imersão nesse mundo de outrora me fazia refletir sobre a efemeridade da vida, de memoráveis instantes que não se eternizam. De hora em hora, a necessidade nos impele a profundas transformações, a nos adaptar a novos comportamentos ditados pelo aqui e agora. Assim como antigas células de qualquer organismo dão lugar a outras mais novas num processo constante de renascimento, também nosso entorno submete-se a severas mudanças. A mãe Natureza sempre procura nos alertar e preparar para esse ciclo irreversível de plantio/germinação, crescimento/maturidade, colheita e letargia. Até mesmo o progresso implacável contribui para o supremo desígnio do Universo.

12 comentários:

Anônimo disse...

Poeta, a saudade lhe bateu à porta? Fez bem em convidá-la a entrar! Viu como a conversa foi boa. Às vezes é sua mão(com seus comentários salva-vidas postados na ALC) que me puxa de volta a realidade, quando faço também, por aqui, essas imersões saudosas!

Raimundo Candido

Jorge Passos disse...

Caro amigo, reflexões profundas que só tempo e a sabedoria podem proporcionar! Mas ainda há muito por fazer! Há muitas Dulcinéias para amar nesta vida!

MARCELLO CAMPOS disse...

Belo texto, Don Souza!
Gostei bastante.

Abraço,
Marcello Campos

blog do xerife disse...

Nostálgicas divagações sobre a temporalidade da existência...Mas vindo de um mestre no trato das palavras, nos remeteram tambem nas brumas do espaço- tempo!

EDEMAR ANNUSECK disse...

Grande Mestre José Alberto de Souza,

Suas lembranças expressadas aquí tb tem me incentivado a rabiscar no meu modesto blog sobre fátos que ocorreram comigo e como diria Clauidiomiro. sem migo. Parabéns. Seus textos são maravilhosos, veradeiras lições de como escrever sobre fatos vividos e não vividos tb que nos encantam.
Um forte abraço do seu amigo
Edemar Annuseck
São Paulo - SP

Anônimo disse...

Linda reflexão Tio, consegui sentir o que escreveu relembrando fatos passados...e concordo com Jorge quando diz que ainda há muito o que fazer, pero troco Dulcinéias por D. Quixotes he, he...E digo mais: os momentos se eternizam à medida que nos tornamos conscientes do que viemos fazer aqui nesse plano.Não temos que nos "adaptar" a nada que nos faça mal e sim buscar pessoas, situações e lugares que nos façam felizes. A vida é simples pra quem não complica...rsrsrs.Suas produções me ajudam a construir novas reflexões sobre os temas apresentados. Isso é transformação, renascimento,mudança, maturidade, etc...Obrigada por ser meu tio. Beijão.
Hilda

Helena Ortiz disse...

Querido Souza,
Desde que te entregaste totalmente à literatura estás mais vivo do que nunca. E as lembranças são atropeladas por fatos, que são as tuas palavras se disseminando, tua experiência sendo distribuída, teu afeto chegando a mais pessoas,
que passam pelas mesmas coisas, que sentem parecido, mas que se abraçam às tuas para recriar a vida.
grande abraço
Helena




est

Blog do Wenceslau disse...

Souza: mais uma vez o meu mestre demonstra sua inspiração e capacidade de traduzir sentimentos às vezes intraduzíveis. Cumprimentos. Valeu, como diz a galera.

Clarice Villac disse...

Passeio sábio, tocante, em que nos colocamos a seu lado, sentindo, respirando, vivendo o clima de sonho & lucidez, entrelaçados pela sinceridade e sutileza espiritual.

Gracias pela carona, Poeta José Alberto !

EDEMAR ANNUSEK disse...

O comentário da Helena Ortiz retrata a mais pura realidade. Já tinha pensado nisso. Estais mais jovem, estais mais ativo, estais em êxtase com certeza.

Carlos José de Azevedo Machado disse...

Simplesmente, obrigado. É bom saber que estás ativo e firme para nos propiciar momentos de reflexão como este. Abraços.

Anônimo disse...

Prezado Souza:
Em certo ponto, o teu belo texto me reporta a alguns relatos da literatura espírita (psicografias), descrevendo as impressões de espíritos que ainda não se deram conta de que já estão desencarnados, ou noutro plano, como tu dizes.
Abraços e votos de Feliz Ano Novo.
Gulherme