
Guadalupe Soledad. Isso mesmo, Guadalupe Soledad, sem tirar nem por. Mulher franzina devido a sequelas de raquitismo na infância, sobrevivera até o fim de seus dias à custa de fervorosas preces e insistentes tratamentos a base de ervas medicinais. E fora batizada com esse nome como cumprimento de uma promessa por ter a mãe resistido a um parto doloroso e difícil. Nunca tinha saído daquele vilarejo pobre e empoeirado, de ar seco e sol forte, na região desértica da costa andina, onde todos dependiam de uma velha e exaurida mineração existente nos arredores.
A população local constituída basicamente de indígenas e afrodescendentes havia sido excluída naquelas paragens inóspitas desde os tempos da colonização espanhola, ali acontecendo, ao natural, miscigenação entre esses grupos étnicos. A maioria dos homens se enterrava nos túneis da mina durante o dia e só viam a luz do sol aos domingos, quando freqüentavam a capelinha para assistir a prédica de algum frade que lá comparecia. Raros os que ficavam na superfície, vivendo de biscates ou se dedicando ao artesanato de prataria para passar o tempo.
Desde pequena, Guadalupe se empenhava para ter uma vida normal apesar de suas limitações. Pernas arqueadas, caminhava se apoiando num bastão. Pouco convivia com o pai negro que trabalhava na mina, mas ajudava a mãe índia nas tarefas domésticas e até buscava água em longínquos poços. Naquela comunidade parca de recursos, todos se ajudavam na medida do possível. Supriam ausência de um posto de saúde com a medicina das comadres que se transmitia de geração a geração. As notícias eram geradas no balcão da bodega e corriam de boca em boca.
Já moça, não tinha os pais e passou a ser adotada e respeitada por todos numa estima isenta de comiseração. Deficiente, não media esforços para se igualar e mostrar sua fé inabalável àqueles abatidos pelo desânimo que buscavam se aconselhar e encontrar esse incentivo que transbordava da sua férrea vontade de viver. Um ser iluminado vagando nas trevas desse universo sinistro. O corpo vergado e disforme encerrava uma alma pura irradiando paz e harmonia a quem dela se acercasse. Até então ninguém tomara qualquer atitude de repulsa por sua condição humana.
Embora isolado, o vilarejo não se sustentava com os recursos de que dispunha em plantações de hortas e pomares. E os porcos, caprinos e jumentos se criavam quase selvagens em vazios cochos e exíguas campinas. Algumas pessoas tinham de percorrer a pé longas trilhas levando seu incipiente artesanato até outras povoações e trazendo mantimentos na volta como formigas carregadoras. E ainda havia os andarilhos que por ali passavam sem rumo e não se quedavam muito tempo, impulsionados por uma falta de perspectiva local, sem qualquer oportunidade de adaptação.
E assim surgiu na vila Frei Rafael, um frade de batina imunda e surrada, barba amarelecida, cajado de peregrino e sandálias rotas por infindáveis caminhadas. Acomodou-se num canto da capela e foi se tornando fixo no confessionário e nas missas de domingo. Logo requisitou os serviços da beata Guadalupe Soledad para auxiliar nos serviços domésticos e litúrgicos que ela exerceria com todo esmero. Encantada com a afabilidade do religioso, foi cedendo aos seus caprichos mais íntimos e secretos a qualquer hora e em qualquer lugar que ele necessitasse.
Porém brota em Guadalupe o instinto da maternidade. Ela enxerga em Frei Rafael o agente concretizador desse sonho, suplica seguidas vezes para ser atendida sem encontrar nele a mínima correspondência, pois este se esquiva sempre do ato sacrílego. Tanto o intimida que ele perde o gosto por esse pequeno deslize. E comunica que o estão chamando numa paróquia distante, que deve ir lá, mas que volta em seguida. Mais tarde, ao pé do altar, Guadalupe repara na escrita de um papel amassado:
"Qur perdoasse os seus pecados, que fazia daquilo um ato de caridade..."