
Imaginem só: de repente, sou surpreendido pelos jovens Cláudia Ávila, Janete Costa e Amarildo Dutra requisitando-me para apresentar o meu depoimento sobre seresta e serenata a fim de ser registrado no documentário Viola Enluarada, projeto cultural que atualmente estão desenvolvendo.
A princípio, até que duvidei como poderia colaborar nesse projeto, mas acabei topando o desafio de resgatar lembranças dos tempos da minha mocidade.
Foi como uma tempestade cerebral que se armasse nos meandros do meu subconsciente.
Como diz o outro – se não sabe, inventa – de cara já me deparei com a diferença de significado entre seresta e serenata, alguma coisa eu tinha lido, e fui me lembrando do sereno da madrugada, a serenata só podia acontecer na rua, à janela daquela pessoa especial a quem se dedicaria o canto romântico, o timbre sonoro que saia da caixa umedecida das violas.
Já a seresta seria coisa mais do interior das casas, onde se criaria o clima das cantorias e confraternização entre todos participantes.
Um sarau acredito que possa ser considerado uma seresta mais formalizada, a sala de visitas de uma residência servindo de local de reunião, os convivas bem apresentados aos quais se ofereciam canapés e licores.
Também havia aquelas sessões inesperadas, conhecidas como assaltos em que um determinado grupo se juntava para combinar a tomada de surpresa da residência de um amigo que se mantinha isolado, ignorando o golpe que se preparava.
Assim, o bando chegava naquela casa em horas nem tão tardias, vamos dizer, quando os moradores estavam prontos para recolher-se a seus dormitórios e iam fechar a porta da rua, lá estavam de emboscada para impedir o sono reparador das suas vítimas.
Precisava-se ver o corre-corre do dono da casa para buscar as bebidas e comidas a serem oferecidas aos artistas que invadiam a sua residência.
Ainda uma serenata podia tornar-se uma seresta; para tanto, bastava que o pessoal homenageado acorresse à janela para assistir e aplaudir a demonstração dos serenateiros – desculpe o meu neologismo – convidando-os para que adentrassem na casa que lhes retribuía então com uma bem servida mesa de petiscos e aí então aqueles passavam a ser seresteiros, cantando e tocando para seus anfitriões.
Outra característica bem marcante da serenata seria a sua realização em plena madrugada, de preferência em noites enluaradas, enquanto a seresta não tem um horário específico e pode concretizar-se até mesmo num churrasco de fim de semana.
Tudo isso eu fico imaginando só de ouvir falar, embora a minha vontade fosse a de ter uma participação mais ativa nesses acontecimentos, quem sabe encantando alguma donzela se tivesse uma voz privilegiada ou então executando com maestria algum instrumento de cordas.
Não me sendo possível, contentar-me-ia em ser mestre de cerimônias desses eventos.