sábado, 5 de abril de 2008

Em legítima defesa da própria honra

Não sei como apareceu lá em Jaguarão um fotógrafo de Pelotas a fim de retratar os formandos da Escola Técnica de Comércio para que cada um trocasse com os demais colegas as fotos que seriam postadas no seu álbum de lembrança. Esse cidadão tinha uma estampa bastante parecida com o Amigo da Onça, da revista O Cruzeiro - casaco trespassado, ombreiras largas, abotoaduras nos pulsos da camisa, gravatinha borboleta, calças com bainha afunilada, sapatos de verniz de bico fino e a cara então era sem tirar nem por a mesma daquele personagem.
Eu não fazia parte daquela turma de formandos, pois estudava em Porto Alegre, apesar de freqüentar os encontros rubiáceos no Café do Comércio, onde a gente ia jogar conversa fora; eram velhos amigos, companheiros das noitadas nas pensões da zona ou então do futebol de salão, em que alguns costumavam atuar no campeonato local. A gente ali na roda do cafezinho e ele, bom de papo, insinuava-se imperceptível, contando piadas, discutindo futebol e conquistando o pessoal com as suas refinadas maneiras; sabia vender o seu peixe como ninguém e, quando nos dávamos conta, ele já era um dos nossos.
Um dos companheiros, o Nico, não era lá muito bem dotado de atributos estéticos, mas apesar do seu porte franzino, tinha o seu cartaz como aguerrido atleta do Esporte Clube Cruzeiro do Sul. Pois esse nosso Amigo da Onça caiu na asneira de garantir ao Nico que tiraria uma fotografia artística sua, que ia dar uns retoques aqui e ali, nem o próprio se reconheceria - o Marlon Brando (naquela época era o xodó das gurias) que se cuidasse, pois logo logo elas iriam trocar as figuras nas paredes de seus quartos.
E lá se foi o Nico, faceirito que nem mandalete de donzela, junto com o Amigo da Onça para as poses no seu estúdio instalado dentro do quarto do hotel – spot pra tudo quanto é canto, tinha iluminação para tirar qualquer sombra, até mesmo de nariz avantajado, estava caprichando naquela sessão super cansativa a que se submetiam os mais famosos modelos do mundo.
Concluídos os trabalhos de fotografar todos os formandos, voltou a Pelotas para revelar os negativos e tirar as cópias dos mesmos, retornando logo após a Jaguarão para fazer as entregas das encomendas. Encontrando o Nico junto com a turma no Café, passou-lhe às suas mãos as respectivas fotos – decepção do dito cujo com a fidelidade ao original – horrorosas em sua opinião, não as quis receber.
Aí, o Onça propôs ao Nico resolver a pendência numa partida de snooker – ganhasse o Nico ficaria com as fotos e não precisava pagar, caso contrário ele Onça receberia o pagamento devido. O Nico meio que regateou, mas terminou topando, já que o outro confiava demais no próprio taco e, assim acertados, os demais da turma como testemunhas, dirigiram-se ao Snooker do Darcy ali perto, para esse duelo a fim de lavar a honra ultrajada.
No cara ou coroa, coube a tacada inicial para o Onça, seguindo-se depois as encaçapadas sucessivas do Nico até a bola 7, liquidando a fatura numa noite de Rui Chapéu.
Porém, o Onça não se convenceu que tinha diante de si um dos mais famigerados caçadores de marreca da região, pedindo revanche mediante aposta do valor das fotografias. O Nico meio que sorriu disfarçadamente (eu não quero te massacrar, cara!) e fechou na hora a parada; desta vez, no entanto, resolveu dar linha ao Onça, deixando que ele fizesse as primeiras encaçapadas e esperando a vez da investida fatal – de propósito demorou um pouco para concretizar.
A essa altura, o Onça já tinha entregado as fotografias e pago para que o Nico as recebesse; tampouco tinha se dado conta da sua conduta de marrecão assumido, vamos para a negra, dou-lhe doble, insistiu, insistiu e lá se foi para o matadouro inocentemente, nem preciso contar o desfecho da história – não houve jeito do coitado recuperar a justa remuneração do seu labor.

Um comentário:

Fernando Rozano disse...

essas histórias são deliciosas de se ler, istimulam o imaginário e incentivam à leitura. texto que para ser lido várias vezes. abraços.