segunda-feira, 6 de julho de 2009

ECOMANIA: QUEM SE HABILITA?

Não sei se existe alguma coisa que me causa mais aversão do que saco plástico. Se não me engano, comecei a detestar esse troço desde que um motorista de táxi resolveu me cobrar certa quantia a cada sacola carregada, resultando no total uma apreciável percentagem sobre o valor da corrida. Protestei e ainda fui reclamar no supermercado que exagerava no número de sacos fornecidos para o transporte das compras – uns vinte, cujo conteúdo poderia ser perfeitamente acondicionado na terça parte dos mesmos. Das duas a uma: ou o empacotador tinha combinação com o taxista ou a administração do supermercado não fazia valer o direito de serem mais bem atendidos os seus clientes no ponto encostado ao estabelecimento.
Depois de acontecido o fato, passei a gastar certo tempo eu mesmo esvaziando em pleno supermercado as sacolas com as compras para depois acondicioná-las em número menor de sacos, descartando o excedente. Então me lembrava daqueles tempos em que eram usados sacos de papel – os únicos que param em pé – com um aproveitamento considerável de cada unidade, o que facilitava bem mais o transporte das compras. Porém, esse produto não se prestava para o seu reaproveitamento no descarte do lixo. E as famigeradas sacolinhas voltam de novo a desempenhar o seu papel de péssima utilização quando dificultam o trabalho de quem recolhe os resíduos domésticos – onde cabem uns dois ou três quilos, colocam-se algumas gramas.
Vai daí que me vem à memória aquelas caminhadas que fazia com o saudoso colega Ruy Firmino, quando encerrávamos o expediente no BRDE e nos dirigíamos tagarelando rumo ao Menino Deus. O Ruy era um sujeitinho esbelto, metódico, que detestava fazer volume nos bolsos, só levava a carteira de identidade, procurando sempre manter as mãos livres dessas tralhas tipo pastas ou leva-tudo. Mas ele não deixava de marcar o seu ponto nas bancas de frutas e verduras ali na Praça XV e, nessas ocasiões, ele sacava d’algibeira um saquinho dobrado simetricamente, onde acomodava as hortaliças frescas para o consumo da família. Até nisso, ele me parecia uma pessoa diferenciada e cuidadosa com a sua postura, dispensando o excesso de bolsas plásticas.
E a coleta seletiva? Lixo seco. Lixo limpo. Lixo inorgânico. Tudo certinho como manda o figurino no dia e local determinado. Vivia de bronca com os catadores. Eles chegavam antes do coletor e nem se importavam em descartar o plástico em plena via pública. Aí saquei qual era a deles – virei fiscal do lixo – e passei a guardar o plástico numa sacola separada, juntando papel, lata e vidro a parte, pois eram os materiais mais comercializáveis para os distintos especialistas. Aprendi então que, até para os excluídos, o plástico representa um valor irrisório em função do seu baixo peso específico. Traduzindo-se assim num alto custo-benefício a sua não reciclagem face às árduas conseqüências desde limpeza urbana até agressão ao meio ambiente.
Hoje em dia, fala-se muito na alta taxação daqueles produtos nocivos à saúde pública tais como o fumo e o álcool, apesar de que – limitante este fator – o poder público não só concede incentivos à produção dos mesmos sob a justificativa do grande potencial de arrecadar impostos e gerar empregos dessas indústrias, como também se omite ao não considerar os gastos da previdência social com o tratamento dos viciados. E ainda tem a escalada nefasta da fabricação de veículos automotores, de indiscutível capacidade poluidora. Eis por que precisamos entender como ainda não se onera substancialmente a comercialização dos sacos plásticos e, por outro lado, não se estimula através de medidas efetivas às empresas que operam com o reaproveitamento desse material. Mas não é necessário apoiar quem importa lixo da Inglaterra ou da Cochinchina...

4 comentários:

Lino disse...

Meu Caro poeta com veio de ecologista.
Sua análise é perfeita e merece reflexão de todos quantos falam no tema "preservação do meio ambiente", principalmente os que atuam nessa área. Realmente, vivemos um clima de hipcrisia exposta das autoridades constituídas, em relação à política ambiental. Os cargos de confiança voltados a esse setor, na atual conjuntura, são ocupados à luz de interesses financeiros inconfessáveis. O que mais me surpreendeu na matéria foi a 'história' do taxista que cobrava pelo volume das sacolas. Confessa que tenho dúvida se isso é legal, pois o táxi é um meio de transporte de pessoas e não de carga. Como tal, nesse caso, o máximo que poderia fazer era limitar a quantidade, alegando excesso de peso, ou de volume em prejuízo da visiilidade do motorista. E o direito do passageiro em levar sua bagagem, onde é que fica nesse caso ?
Parabén, por mais esse enfoque, como sempre, embasado em tema interessante e com a clareza redacional desejável.
Abraços
jorn. Lino Tavares

Luiz Carlos Amorim disse...

Muito boa a sua crônica, José. É isso mesmo. Vi seu comentário à minha crônica "O Lixo e o Plástico Biodegravel" e respondi lá mesmo, por isso reenvio aqui:
"Tem razão de ser a sua dúvida, meu amigo. O plástico biodegradável se decompõe rapidamente na natureza, ao contrário do plástico comum, que leva cem anos. O produto é fabricado de milho ou bagaço de cana e leva de 90 a 120 dias para se decompor, virando adubo depois da decomposição. Na fabricação dele é incluído um aditivo que acelera a sua decomposição. Mas se ele for lançado a rios e ao mar, pode afetar a vida aquática, sim.
Quanto ao papel de plástico, se for jogado no lixo, como você exemplificou, vai demorar os cem anos do pacote plástico comum para se decompor. É que livro é uma coisa para ser perene, não é para se colocar no lixo, mas sabemos que isso acontece. Infelilzmente.
Obrigado por dar continuidade à discussão. Vou acrescentar essas informações à minha crônica."
Abraço do Amorim

Lino Tavares disse...

Existem dois tipos de pessoas com pendor artístico: os vocacionados para determinado ramo específico e os que vão um pouco além, revelando vocação para duas ou mais formas de manifestação da arte. José Alberto de Souza, nosso amigo comum, é um ser pluralizado, nesse aspecto, porque, além de compositor e poeta, também se notabiliza como escritor. Lançar um livro, no caso dele, é simplesmente eternizar para a posterida a verve literata desse jaguarense que honra sua Terra, por sua criatividade e seu telento.
Parabéns. Estou orgulhoso do amigo por mais essa conquista.
jornalista Lino Tavares

Helena Ortiz disse...

Querido Souza,
Tu observaste o Ruy Firmino, que deve ter observado (ou levado a observar) alguém que lhe incutiu a idéia, que leva à atitude.
Infelizmente, são poucos os que têm essa consciência. O que vemos é, mais do que tudo, o conforto fútil que leva ao descartável. Um conforto que certamente já se desmorona.
Um grande abraço.