
Chegava em casa após o expediente no trabalho e minha esposa Gislaine me dizia que me ligara uma pessoa querendo falar comigo, apenas se identificando pelo primeiro nome. Isso aconteceu, em 1997, duas ou três vezes e me deixou fazendo conta de cabeça para que pudesse dar o retorno ao telefonema. Até que um dia esse cidadão conseguiu entrar em contato comigo quando estava em casa e me pediu para receber um representante de uma entidade de funcionários executivos, da qual ele era diretor-presidente. Concordando com a solicitação, marquei esse encontro na repartição durante o horário do almoço.
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Na ocasião em que fui procurado, foi-me entregue um ofício assinado pelo presidente daquela congregação de executivos. Nessa correspondência, falava-se da ampliação do seu quadro social “abrangendo outros altos titulares do Estado e de repartições da União e dos Municípios gaúchos, assim como eminentes personalidades do setor do profissionalismo liberal, empresários (do Comércio, Indústria e Serviços), além de pessoas gradas”. Também me era comunicado que (sic) “em decorrência de especial indicação, resolveu destacar o seu Nome, para atribuir-lhe, por decisão da cúpula da Entidade, o título de sócio EMÉRITO COLABORADOR... Isto em reconhecimento ao desempenho profissional marcante de Vossa Senhoria junto à comunidade”...
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Confesso que, ao tomar conhecimento dos termos daquele ofício, senti o ego massageado, porém, mesmo assim tentei declinar da honraria por não me julgar merecedor da mesma, ao que o meu interlocutor replicou dizendo que eu não imaginava a minha relevância nos círculos dirigentes do Estado. Após, apresentou a amostra de um Certificado de Adesão – um quadro enorme - que me seria concedido em sessão solene daquela entidade. E que, para confirmar essa adesão, eu deveria pagar uma jóia de doze mil reais, a qual poderia ser parcelada em seis mensalidades.
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Espantado, argumentei que não tinha recursos para arcar com essa despesa, enfatizando o meu desinteresse pela proposta, não obstante os rogos do corretor que tinha sido orientado a não voltar sem a adesão do Souza. Sem alternativa, deixei a frustração a quem de direito. No dia seguinte, o Senhor Presidente me telefonou, querendo saber das razões dessa negativa. Respondi-lhe que não estava interessado e pronto. Mas como? Precisava ver a fúria com que esse Diretor reagiu a minha réplica, chegando a bater o telefone na minha cara. Eu, heim, um pobre e humilde marquês?
Foto L.A.Assis Brasil - Museu Episcopal Anna de Souza - Évora Fev/1993