quarta-feira, 5 de junho de 2013

Jaguarão já cantou de galo neste terreiro

(Colaboração de João Pompílio Neves Pólvora)

Pergunta-me Jorge Passos se conheço o sambista Jaguarão, mencionado na música “O Samba é Meu Dom”, de autoria de Wilson das Neves e Paulo Cesar Pinheiro. Aceito o desafio e me ponho a campo para responder essa questão. Fico sabendo que esse é o apelido de José da Silva, parceiro de Zinco em vários sambas-enredo compostos para a Escola de Samba Lins Imperial, escola esta que nasceu da fusão da Filhos do Deserto, fundada em 1933, e Flor de Lins em 1946, ambas existentes na Cachoeira, no bairro Lins de Vasconcelos. Permanecendo o verde e rosa das duas escolas, entre seus fundadores e grandes colaboradores figuravam Jones da Silva (Zinco) e José da Silva (Jaguarão).

Em “Certidões de Vida e Identidade”, Nei Lopes escreve: “Durante muito tempo, pertencer ao seleto grupo de compositores de uma escola de samba era um privilégio e uma honra, que dependia do talento poético e musical do sambista. Aceito na ala, por indicação ou mesmo “por concurso”, o compositor estava autorizado a mostrar seu talento no terreiro. O número de sambas que poderia apresentar, a cada ano, variava de escola para escola, sendo em geral dois. Esses sambas tinham vida curta, pois a renovação do repertório era obrigatória a cada ano. Mas essa curta existência resumia-se ao terreiro, pois muitos deles, embora nunca gravados, permanecem até hoje na memória do mundo do samba, como alguns escritos por Jonas da Silva, o legendário Zinco, e seu parceiro Jaguarão, dos Filhos do Deserto, da qual nasceu a Lins Imperial...”

Já Martinho da Vila em “Feliz Primavera” opina: “A minha estação preferida é a que estamos, cantada pela Filhos do Deserto há anos atrás, com ricas rimas que se não me falha a memória eram do Zinco e do Jaguarão (“Olhai a natureza nas campinas, esse Brasil de flores mil, esta beleza tão divina que enfeita um fabuloso jardim. Olhai os lírios nos campos, o cintilar dos pirilampos e o bailado das flores em fantasias multicores. Tudo isso que estás vendo faz a gente viver feliz. É a natureza oferecendo um grande presente ao nosso país. Pétalas soltas pelo chão sob um pé de flamboaiant. Um aroma que é sedução a perfumar o raiar da manhã. Manacás, hortênsias, violetas, cravos, malmequeres, bogaris... Onde um bando de borboletas faz os seus charivaris. Primavera em flor. Em alta madrugada, um lindo sonho de amor nos braços da nossa amada”).

Um ilustre desconhecido no cenário nacional, João da Silva (o Jaguarão) teve duas de suas composições gravadas. No álbum “Clementina de Jesus e Convidados” (Emi/Odeon, 1979) figura na faixa 4 com o título “Olhos de Azeviche”. Esta se encontra registrada no programa semanal Essa é Pra Tocar no Rádio – 73 – Os Olhos da Amada (29.02.2012), iniciando um desfile temático de grandes nomes do nosso cancioneiro como Cartola, Garoto, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Chico Buarque e outros mais, Além dos intérpretes Fagner, Maria Bethania, Fafá de Belém, Milton Nascimento, Paulinho da Viola, Marisa Monte, Elis Regina e outras feras. E em 1989, a gravadora Ideia Livre lançou Projeto em Homenagem à Memória do Presidente Getúlio Vargas, denominado “O Grande Presidente”, onde aparece na faixa 8, “24 de Agosto”, música de sua autoria interpretada por João Nogueira.

Aonde estão os olhos de azeviche que me olham tanto,
que destruiram minh´alma, que me roubaram a calma?
O meu coração palpita a todo instante,
vive a perguntar se aqueles olhos lindos não vão me enganar (Bis).
Eu que vivia feliz, sossegado, jamais havia pensado no amor,
surgiram então aqueles olhos negros,
todo meu sentimento transformou...
Consulto meu coração sentimental
se aguenta amar não lhe faz mal.

12 comentários:

Ana Maria Silva disse...

Belíssimo trabalho de pesquisa. Parabéns.

Academia de Letras de Crateús - ALC disse...

Poeta veja só: Ouvira “Olhos de Azeviche” na voz da Clementina, filme baixado da internet, e lera “ autoria de Jaguarão” nunca associei a sua bela terra, a um conterrâneo seu! Jaguarão, um celeiro de Poetas! Parabéns, grande José Alberto de Souza, Poeta das Águas doces!
Raimundo Cândido

Marco Aurélio Vasconcellos disse...

Cultura musical é que não falta neste teu magnífico blog.
Aprendizado histórico para a grande maioria dos apreciadores da música popular brasileira.
Abraço.
Marco

Pedro Fagundes de Azevedo disse...

Zé:
Esta é uma pesquisa pra ninguém botar defeito.
Abraço. Pedro

Cabeda disse...

Cumprimentos, amigo Souza

EDEMAR ANNUSECK disse...

Existe uma frase mais antiga do que andar pra frente: "Quem sabe, sabe, quem não sabe bate palmas". Parabéns amigo José Alberto de Souza. Pesquisar, buscar informações e transcrevê-las poucos fazem no dia de hoje. Todo mundo está preocupado em copiar as copias. Seu trabalho é maravilhoso. E com certeza Jaguarão a cidade e Jaguarão o compositor só podem dizer, obrigado Mestre.

Hunder Everto Corrêa disse...

Caro José Alberto, parabéns pela pesquisa. Trazes sempre as recordações de teus conterrâneos que não os podes esquecer, de jeito nenhum. Parabens. Um abraço. Hunder

Blog do Wenceslau disse...

Souza, esse é o mesmo "Jaguarão", muito conhecido aqui como um cantor, inclusive, se não me engano, na área do canto sacro?

Sidnei Nascimento disse...

Meu amigo José..
Admiro cada vez mais teu conhecimento, paciência e objetividade ao expor assuntos que como este..."matou a cobra e mostrou o pau".
Um abração a você e à Gislaine,
Sidnei

Antônio Roberto Arena disse...

Parabéns amigo veio,
Cada vez que passo por Jaguarão lembro de tudo isto e principalmente deste nobre poeta.
Abraço deste colega do BRDE

Anônimo disse...

Caro José Alberto, plenamente gratificado por ter provocado em você essa questão que redundou em tão fecunda pesquisa. Ficou a dúvida ainda se o codinome do sambista faz referencia à nossa cidade ou não. Forte abraço Jorge Passos

Carlos José de Azevedo Machado disse...

Tio Zezinho, escrevo este comentário ouvindo "Os olhos da Amada". Somente o Poeta das Águas Doces para nos remeter a estes momentos fantásticos recheados de nostalgia e de uma forte cultura. Gracias poeta. Grande Abraço!