sexta-feira, 3 de março de 2017

A PONTE PÊNSIL - vista p/Sérgio da Costa Franco

Da minha janela, com vista para o Rio Mampituba e o Passo de Torres, descortino à esquerda a moderna ponte rodoviária, sólida, de concreto e plenamente confiável, pelo menos para veículos leves. Mas, olhando à direita, vejo a ponte pênsil, uma estrutura balouçante, que não me animo a utilizar em minhas caminhadas, mesmo se vou a curtas distâncias. Usei-a apenas uma vez e me arrependi. Jovens na idade das brincadeiras inconvenientes pulavam sobre a ponte, fazendo-a balançar perigosamente, pondo em risco a segurança dos velhinhos que se animavam a utilizá-la. Há um cartaz condenando essa prática imprudente, mas duvido que seja obedecido pela garotada. Vejo a ponte pênsil muito utilizada, inclusive por ciclistas e, em certas horas, suspeito que receba excesso de frequentadores.
No mesmo local, parece que existiu outrora outra ponte pênsil, bem mais precária, das qual possuo um pequeno quadro a óleo, de pintor local, que adquiri de um vendedor de rua, na Prainha, faz alguns anos. Era a única via de transporte a pé enxuto sobre o Mampituba.      O certo é que, em 1984, por iniciativa das duas prefeituras interessadas, a de Torres e a da cidade catarinense que a defronta, construiu-se a ponte atual, mais sólida, mais forte, com uma estrutura de cabos de aço, tabuado firme e guardas laterais de arame grosso. Parecia obra definitiva, para durar muitos anos e assegurar a glória de seus construtores.
O entusiasmo trouxe multidão de gaúchos e catarinenses à sua inauguração, superlotou-se o equipamento, e, justo no instante em que o vigário preparava a sua bênção, a ponte cedeu ao peso dos que a celebravam, jogando no rio o padre, os prefeitos e as autoridades todas, felizmente sem vítimas ou outras consequências, afora o susto e o inesperado banho.
O episódio caricato inspirou a “Décima da Ponte”, que Guido Muri incluiu em seu livro de “Remembranças de Torres”: “As comitivas chegaram,/ Uma era a catarina,/ Outra, do nosso torrão./ De cada lado, povo olhando/ E foguetes estrondando,/ Cada qual com seu prefeito/ E o povo satisfeito/ Espera a inauguração.// 
E continua mais adiante, o poeta-cronista: “Também as autoridades,/ Era um grupo em cada ponta/ Pra no meio se encontrar/ E a pênsil inaugurar./ Muita gente em cada bando/ E mal estavam chegando/ Foram n’água despencar.// Uns nadaram muito pouco/ E à velha ponte chegaram./ Pra outros foi só um banho/ E na pele nenhum lanho./ Do padre, a água benzida/ É a única coisa perdida/ Nesse mergulho tamanho.// 
Com esse lance de ópera bufa, que é de 33 anos atrás, inaugurou-se a ponte pênsil. Um dos motivos para não transitar por ela com muita tranquilidade.

Um comentário:

Hunder Correa disse...

Importante remembrança. Infelizmente não conheci a velha ponte. Mas agora parece que tudo vai ficar bem. Um abraço José Alberto. Hunder