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A SAUDADE |
...desde la altura de la niña que fui, no es
tanto por recordar como ver si consigo, al cabo, de una vez, olvidar un
poco. LAURA ALCOBA
Naquela época, a empregada servia-me no almoço
uma comida amarga que minha avó me obrigava a digerir. Levantava-me correndo da
mesa e meu pequeno corpo enfraquecido se dobrava para expulsar todos os pedaços
engolidos.
Não entendia... Alguém havia cortado abruptamente
os laços com minha mãe que com vinte e cinco anos estava prostrada com poli neuropatia
numa cama, rodeada de travesseiros. O arsênico administrado em pequenas doses
tinha atacado seus nervos e músculos. Suas mãos pendiam dobradas sem movimento
como pétalas murchas a ponto de se desprenderem de seu corpo. Seu rosto havia
tomado a cor da tristeza e seus olhos sem brilho a da lonjura.
Meu pai ausente... Ainda às vezes se apoiava no
marco da porta e a olhava demoradamente. E eu fiquei com quatro anos de idade
como uma boia no meio do mar.
Então tomei minha decisão: não permitiria que me
colocassem no estômago tanta amargura. O ruído dos pratos e dos talheres me
indicava que era a hora do almoço.
Corria até a vila, a algumas quadras da minha
casa, onde me esperavam os pequenos para brincar. Logo uma voz nos chamava. Sentávamo-nos
a uma grande mesa. A meu lado, Perico e seus quatro irmãos.
Perico era meu amigo de seis anos que me abraçava
quando tinha frio e abria suas mãos sempre mornas para receber as minhas, Ele
não sentia o rigor das estações, não usava campeira e seus dedos do pé fugiam
pelo buraco das sapatilhas esfarrapadas.
A mãe com uma concha tirava o ensopado de uma
panela de barro com patinhas, preta pela fuligem das chamas do fogão e o
repartia nos pratos.
Para mim não havia mãe mais linda do que a de
Perico. Vestia-se com um avental que caia até os tornozelos e tinha uns seios
enormes que se moviam de um lado para o outro quando caminhava;
Eu queria ser irmã de Perico e ter essa mãe que
me servisse sorridente esse rico ensopado com muita abóbora e milho.
Depois todos iam ao pé do umbu que elevava suas
raízes como uma banqueta. Ali se sentava a mãe de Perico com um violão para
cantar: “Em um bosque da China, uma china se perdeu...” Deitados sobre o pasto,
à sombra do umbu, começávamos a fechar os olhos. Eu abraçava Perico e ele
tirava os cabelos de minha cara com sua mãozinha suja.
Adormecia-ne com a voz dessa mãe que chegava como
um sussurro... sussurro cada vez mais afastado.
Brenda Florángel Ahlers Perez
(Tradução de José Alberto de Souza)