quarta-feira, 8 de abril de 2009

O mais recente lançamento ( II )

Depois que o vigário aspergiu a água benta, o general-prefeito e a Miss Rio Grande do Sul desataram o nó da fita simbólica. Disco previamente colocado no prato, ninguém percebeu quando o Osvaldo acionou o mecanismo para largar os efeitos sonoros da 1812, de Tchaikoviski, numa primorosa execução da sinfônica de Saint Louis, regida pelo maestro Eleazar de Carvalho. A princípio, todo mundo ali compungido, a mão no coração, em atitude de mais profundo respeito, sabe-se lá de que país seria aquele hino. Inesperados, pois, os tiros de canhão. Parentes, amigos, convidados, pessoas de sua relação e amizade, autoridades civis, militares e eclesiásticas, aquela gente toda debandando, atordoada, esbaforida, sem saber para onde estava indo, um Deus-nos-acuda, dava-se pena de ver.
Apenas ficaram no local o Osvaldo e um cidadão, baixinho, meio capenga, lenço vermelho no pescoço, casaquinho marrom surrado, calças que deixavam tornozelos à mostra, pés descalços e um quepe azul do Colégio Pelotense. Era o Molinaro, que tinha a mania de passar por chefe da estação ferroviária e comparecia a todos os eventos, misturando-se no meio das autoridades. Imagina o Molinaro dando voz de prisão ao Osvaldo pela insurreição que estava levantando na cidade.
Mas a população logo acostumou seu ouvido à alta-fidelidade e a loja do Osvaldo tornou-se ponto de encontro dos amantes da boa música, principalmente da turma do Náutico – o Coró, o Duro, o Puca, o Coco, o Manivela, o Corrêa – destacando-se entre eles o Marciano, um índio guapo, de cabelo pretos alisados de tanta Glostora, aficionado de rumbas e mambos, fundador do fã-clube Ruy Rey. Quando ele aparecia, o Osvaldo contemplava-o com seu tema predileto – Paso Doble, abertura empolgante da orquestra Cassino de Sevilha – que o homenageado acompanhava, batendo o lápis nos dentes alvos e brilhantes, à moda castanholas, de arrebatar entusiásticos olés.
Algumas vezes o efeito-supresa apanhava desprevenido um que outro incrédulo, como o Sabão, que estranhava o sopro do Raul de Barros:
- Me diz uma coisa, Osvaldo, que está fazendo o Pitchón no banheiro, tocando trombone?
A loja enchendo de gente cada vez mais, o Osvaldo já não dava conta de tanto vender rádios, geladeiras, fogões, liquidificadores. Mas, se aparecia algum interessado na Hi-Fi, ele desconversava, dizendo que o preço era muito elevado, não valia a pena comprar. Até que, um dia, surgiu por lá um castelhano, atarracado, de boina preta, camisa de flanela quadriculada, bombachas e alpargatas embarradas, que se emocionara ao ouvir Quiereme Mucho, na magistral interpretação de Pedro Vargas e Libertad Lamarque. Cuanto vale? Aí o Osvaldo inflou bem o balão e soltou-o lá nas estrelas: Veinteocho millones de pesos. Para espantar o mais afoito comprador? Pois sim, mal sabia ele que tinha diante de si, Muñoz, o maior plantador de arroz lá das bandas de Treinta y Tres, o qual nem regateou como costumavam proceder seus patrícios:
Es mio, voy a llevarlo.
Fumu Imbora Memu!

4 comentários:

cabeda disse...

Bom dia, Souza
Ruy Rei, Casino de Sevilla, Libertad Lamarque? Bota "hora da saudade" nisso!
Continuas escrevendo muito bem. Cumprimentos.
Abraços
Cabeda

9 de Abril de 2009 12:18

Franklin Cunha disse...

Oigatê, índio bueno de contar um causo.
Este do castiano Muñoz é macanudo barbaridade.
Também, Jaguarão é terra que já deu, além do Souza, entre outros meu amigo Sérgio da Costa Franco.
E na voiz de bamo, já se fumo...
Parabéns e um abraço do
Franklin

Fernando Neubarth disse...

Porto Alegre, 26/4/1998
Prezado Souza:
Teu "mais recente lançamento" comprova mais uma vez a habilidade que tens para contar histórias, e o que é mais raro, com humor fino e sensível.
Quanto tempo teremos que esperar por um "long play"?
Um grande abraço, c/a admiração do
Fernando.

SECRETARIA DE CULTURA E TURISMO disse...

Boa tarde Souza. (Tio Zezinho, me permite). Cada vez que passo meu olhar neste conto, começo a imaginar minha Jaguarão em tempos outrora. O bom é que vir a Jaguarão, ainda é chegar em tempos passados. Afinal a arquitetura continua ali. A rua XV continua ali. E até as casas continuam como se o tempo não passasse. De vez enquando, passa um carro destes de luxo, e mais algum barulho estridente, e aí, acordamos e vimos que o futuro também chega. Creio que é possível ver o HI-Fi em Jaguarão(?). Abraços. E mais uma vez parabéns pelo blog. Carlos José Maninho