sexta-feira, 7 de outubro de 2016

E ERA MAIS CÔMODO PERMANECER CALADO...

Chego a tremer cada vez que abro a boca para dar algum palpite, receando ter de assumir a responsabilidade consequente desse ato involuntário. Em meados do século passado, estava eu degustando uma rubiácea com alguns amigos, sentado a uma mesa do imenso salão do Café do Comércio, onde todos falavam em encontrar um adversário para a próxima “pelada” do fim de semana. Todos menos eu eram atletas de uma equipe varzeana. Na gozação, sem querer, ofereci-me para colocar em campo um time inexistente e amarrei naquele momento a tão desejada partida.
Pra quê, mudeuducéu, em que encrenca me fui meter! Agora precisava sair dessa enrascada sem fugir da raia. E lá me mandei a buscar gente disposta a correr atrás de uma bolinha, conseguindo arregimentar – literalmente entre os soldados do quartel – os onze elementos necessários para colocar em campo, tendo ainda de providenciar camisetas, calções, meias e chuteiras, gentilmente cedidas com material de treinamento de uma agremiação esportiva local, incluindo mais a bola da disputa. Mais chorado ainda foi o empréstimo do campo que o diretor do clube largou a duras penas.
E para dar um toque feminino na cerimônia, formei uma comissão de atletas para convidar uma beldade de que me fazia admirador para ser a madrinha do improvisado esquadrão de futebol. No dia aprazado, as duas equipes prontas para a peleja, lembrei-me que faltava o árbitro e corri atrás de um espectador presente que a caro custo terminou aceitando a incumbência, por sorte o zelador do estádio ainda nos alcançou o providencial apito. O juiz dirigiu-se ao meio do campo, onde lá estava nossa madrinha a postos para entregar o ramalhete de flores ao capitão do time adversário.
Depois que nossa madrinha se retirou, na base do cara ou coroa, foi escolhido o lado de cada um dos disputantes e já ia ser apitado o início do jogo, quando o capitão do outro quadro, pediu para me falar e veio reclamar minha presença dentro da arena:
– Mas como é, todas as providências ficaram por tua conta e nem te fardaste para a nossa “peladinha”, esta não dá para aceitar...
– E o que mais querem? Já fiz a fogueira, então eu fora, vocês podem pular e se queimar à vontade! – Quando abro a boca tenho que sair da frente para não ser atingido.

Um quarto de século após, participava da organização de uma entidade de classe em que se colocava em pauta o lançamento de uma revista técnica. Julgando-me o menos ceguinho de todos os companheiros presentes, com um pouquinho mais de conhecimento de causa, resolvi abrir o bico para deixa-los perplexos com a opinião repleta de detalhes desconhecidos pela maioria. Afinal valia-me de minha experiência como gerente de jornal do interior, onde coloquei em prática noções empíricas de redação, revisão, diagramação e composição do meio em que me criara.
Tão convincente em meus argumentos, recebi de surpresa a chamada do presidente dessa associação – "Quem sabe te encarregas da direção da revista!" – mais um desafio ocasionado pela indiscrição oral. Ainda tentei expor a necessidade de se montar uma estrutura mais aparelhada com jornalista responsável, captação de publicidade, conselho editorial, distribuição e outras coisas mais. Mas aquele dirigente estava a fim de me colocar contra a parede, prometendo-me todo apoio logístico para implantar e levar adiante todas as metas do projeto, amparado num seminário nacional.
Precariamente, é bem verdade, conseguimos editar aquela publicação que foi alvo de um lançamento festivo, contando com o comparecimento de grande número de profissionais liberais, além de conceituados comunicadores, um deles isolado num canto do salão, chamava atenção, o que me levou a dirigir-lhe a palavra:
– Muito prazer, Senhor Fulano de Tal, admiro seu trabalho jornalístico.
– Agradeço o elogio, embora não seja a mim Beltrano objeto de merecimento. 
– Desculpe a confusão. – E sai de fininho para não provocar mais mal-entendidos...

3 comentários:

Anônimo disse...

Souza

Dizem que "em boca fechada não entra mosca", mas é bom darmos palpite, só que as vezes somos infelizes.
Abraço.
Diná

Carlos Ribeiro disse...

E quem resiste na hora de dar um palpite, mesmo que seja um "palpite infeliz", tal como ficou eternizado nos versos do nosso poeta Noel Rosa. Mas o bom mesmo é contar a história das consequências, reais e imaginárias, decorrentes do palpite "furado", da forma sutil, inteligente e humorĩstica como tão bem sabes fazer. PARABÉNS.

wenceslaugoncalves.blogspot.com.br disse...

Souza,
Estou de volta à Capital depois de uma estada na terrinha. Posso ver que o amigo continua se dando bem com as letras. Um bom texto de caráter memorialista no qual o autor se dá muito bem. Parabéns. Abraços. Wenceslau.