segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

UM BOM DIÁLOGO OU UMA SURRA DE CINTO ?

Faz algum tempo me falava um amigo sobre uma passagem de sua adolescência, na qual estava jogando bola com seu irmão e esta caiu no terreno vizinho. O proprietário a recolheu, devolvendo-a furada em represália. Eles então se revoltaram, apedrejando as vidraças da casa lindeira, cujo dono em seguida fez queixa ao pai deles. Este os chamou para a reprimenda de uma surra de cinto. Aquele me disse que, graças a esse incidente e outros mais, eles vieram a se tornar cidadãos íntegros e respeitadores. Repliquei-lhe então que, no lugar do seu genitor, até ajudaria a quebrar o restante daqueles vidros.
Parece que hoje se tornou moda descaracterizar o diálogo na educação dos filhos, havendo aqueles adeptos da linha dura para conduzir a prole no bom caminho. De minha parte, acredito que na minha formação familiar muito influíram as palavras de advertência de meu tio e pai de criação sobre a corrigenda de maus procedimentos. Sua fala era suficientemente clara ao ilustrar as consequências que poderiam vir a prejudicar terceiros por não assumir a responsabilidade de minha conduta. E eu jamais cheguei a mentir nessas ocasiões como forma de desarmar o desagrado que estava provocando.
Três desejos foram objeto de escamoteações às vistas de meus tutores: soldadinhos de chumbo, revistas em quadrinho e cigarrilhas “Phriné”. Tirando dinheiro da gaveta em que era guardado, secretamente adquiria aquilo que me parecia fazer falta e depois escondia esse produto em algum lugar seguro. Lembro-me que cheguei a formar batalhões de infantaria, artilharia e cavalaria, movimentando-os ludicamente em baixo de minha cama. Sob o colchão, mantinha reservado um rico “Almanaque do Globo Juvenil”, quando só se permitia aos menores o “Tico Tico” como leitura infantil.
Mas foram as cigarrilhas “Phriné” que me expuseram a fraqueza de caráter. Uns tubos finos de fumo fraco, não consegui resistir a tentação de pitar algumas de vez em quando, fazendo desaparecer inúmeras daquelas carteirinhas, o que deu motivo à desconfiança de tio Cantalício, inquirindo-me sobre o fato. Surpreendi-o, confirmando minha falta na hora. Então, ele replicou que, com essa atitude, eu lhe tinha poupado de acusar outra pessoa da casa inocente e me abriu os olhos para o bom caminho da retidão na maneira de proceder, evitando problemas futuros na orientação certa e segura.
Dada minha condição de órfão, acredito que por tal motivo nunca cheguei apanhar de meus tios, mais empenhados em compensar a ausência de meus pais biológicos. Evidente que tinha um tratamento diferenciado em relação a um primo e irmão de criação, nem sempre apoiado em suas preferências de lazer, como o futebol praticado nas peladas de rua ou no colégio. Assim, era objeto de ciumeira pelos demais que me consideravam “mimado” em demasia, sem quaisquer proibições para realizar o que bem entendesse, confiança essa que procurava corresponder em minhas ações.
No primário, tive dificuldades para me adaptar ao horário matutino, sonolento, com déficit de atenção, chegando a ser acordado com um copo d’água que o professor me atirou na cara e me desmoralizou perante os colegas. Pouco interessava ao mestre saber das causas daquele distúrbio, numa época em que ainda não se falava em correto politicamente. Sou mais adepto daquele saudoso diálogo com meu tio, colocando-me nos trilhos para seguir numa viagem mais tranquila. Confesso meu embaraço com os jovens devido a dificuldades auditivas que procuro suprir com exemplos dignificantes. 
Preparei exame de admissão ao ginásio com aulas particulares com a Profª. Delícia Ramis Bittencourt, vindo a obter o segundo lugar na classificação geral. Desta querida mestra, recebi uma das mais inesquecíveis lições de minha vida, quando adentrei na sala em que ela ministrava suas aulas. Com cortesia, ela me solicitou que saísse daquela peça, voltasse ao hall de entrada, batesse na porta e esperasse autorização para entrar, depois abrisse aquela porta, dando “boa tarde” aos presentes. Feito isso, ela me mandou sentar à mesa e começar meus estudos. Uma ação corretiva que bem poderia ser considerada o mais perfeito exemplo de cidadania para os dias atuais.

3 comentários:

Hunder Correa disse...

Caro José Alberto. A professora Delícia Bitencourt foi minha professora no Joaquim Caetano. ótima professora. Com ela, também, aprendi muitas coisas, inclusive a responsabilidade que devemos ter com nossos compromissos. Mas hoje, infelizmente, os mestres até apanhyam de seus alunos, falta o respeito e apoio dos pais uqae muitas vezes saem em defesa dos filhos e contra os professores, infelizmente. Na tua época, como na minha tudo era diferente, os ensinamento começavam em casa , com os pais. E tu é um exemplo vivo de tudo isso. Parabéns. Um abraço. Hunder

Blog do Wenceslau disse...

Conterrâneo,
Como sempre uma maestria em narrações de relembranças. Também eu tive a sorte de ter como mestra a profa. Delícia de quem tenho as melhores recordações na área da educação. Cumprimentos renovados, também, pelo novo colunista do blog que só faz enriquecer qualquer publicação que esteja presente. Abraços. Wenceslau.

Anônimo disse...

Amigo José:
Gostei muito das suas reflexões sobre disciplina das crianças.
A chinelada e o relho não eram e nunca foram a melhor solução para a educação dos filhos.
Agradeço por continuares me privilegiando no teu blog.
Abraço do Costa Franco.