terça-feira, 2 de janeiro de 2018

CRÔNICAS DE *CANTALÍCIO & FLORISBELA* (I)


O Poeta Garoeiro, de Natal-RN, intima-me para que escreva as “Crônicas de Cantalício e Florisbela”, impressionado com os relatos do saudoso Pedro Leite Villas Boas ao grande Mário Quintana, na única ocasião em que o encontrei no arquivo do Correio Povo e fui apresentado por aquele bibliófilo nosso conterrâneo. Então Pedro falou dos seus tempos de encadernador na tipografia de “A Miscelânea” e Quintana escutava com especial atenção o desempenho de minha tia e mãe de criação Florisbela de Souza Resem, esposa de Cantalício, em suas lides domésticas e comerciais.
Naquele tempo, Cantalício Resem foi designado por Carlos Barbosa, conterrâneo então Presidente do Estado do Rio Grande do Sul, a assumir funções como Juiz Distrital em Jaguarão, não obstante a suas desculpas de que não se encontrava preparado para exercer esse cargo. Sem outra opção, teve de se valer de uma alentada biblioteca jurídica, a que sempre recorria varando madrugadas no estudo dos autos de julgamento. Sem uma conclusão definitiva, muitas vezes vencido pelo cansaço, decidia-se por sua consciência para emitir o parecer final.
E esses pareceres chegaram a se tornar jurisprudência nos tribunais, motivo de grande admiração de muitos juristas da Capital, como os desembargadores Nésio Miranda e Celso Afonso Pereira que sempre o visitavam em suas passagens por Jaguarão. Ai também esteve o conceituado causídico Felipe Machado Carrion, também diretor do Colégio Estadual Júlio Castilhos na época em que lá estudei, que fez questão de conhecer aquele juiz cujas opiniões legais eram objeto de consultas por vários de seus colegas para firmarem posição na defesa ou na acusação de réus em julgamento.
Florisbela preservava-o de forma a nunca comprometê-lo com qualquer deslize, esmerando-se na recepção dos visitantes que não se cansavam de elogiar sua famosa sopa de entrada nos almoços. Aliás, minha prima Graciema Resem da Silveira costumava dizer que Florisbela era uma pessoa sábia que se fazia calada sem se intrometer nos assuntos a que não era chamada, evitando qualquer impertinência. A sala de jantar do sobrado em que residiam, parecia um templo ornamentado pela cultura daqueles que tiveram o privilégio de lá desfilarem seus conhecimentos.
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Douglas Marcelo Rambor, parceiro e grande pesquisador sobre o futebol gaúcho, revela-me a faceta de “desportistas” do casal, enviando a correspondência – acima ilustrada - que comunica a eleição em 07/Jul./1905 de uma das Diretorias da Sociedade F.B.Sport Jagurense, provavelmente a primeira entidade esportiva da cidade, constando o nome de Cantalício Resem como 2º secretário dessa agremiação. Entre seus familiares era conhecida a ojeriza que passou a nutrir pelo esporte bretão desde que constatou a péssima habilidade de seus conterrâneos no trato com a bola.
Este fato teve origem a partir do momento em que assistiu a uma partida de futebol contra marinheiros de um navio inglês ancorado no porto de Rio Grande, apresentando um verdadeiro espetáculo de domínio da pelota no campo da peleja, não conseguindo aceitar a condição de perna-de-pau daqueles amadores de Jaguarão. Isto apesar de ter o filho Anysio que se destacava nas equipes em que participava, negando-lhe sempre o apoio de sua presença para conferir sua habilidade técnica. Até o fim de seus dias não acreditou que Jaguarão chegasse a ser um celeiro de craques.
Para dar um exemplo dessa birra, o primo Anysio contava-me da sua grande mágoa ao término de uma partida na equipe do Ipinha de Jaguarão contra um quadro de Treinta y Tres – Uruguai – em que fizera o gol da vitória e todos os pais dos atletas ipaenses invadiram o campo para abraçar seus filhos, Diz ele que teve de engolir em seco essa comemoração solitária. Florisbela também era contrária às tendências do menino Anysio em se misturar com os moleques, correndo atrás de uma bolinha nas “peladas” do Largo da Bandeira, motivo de algumas reprimendas quando chegava a casa

6 comentários:

JBS Garoeiro disse...

Caríssimo Amigo,

2018 está quase...

Precisamos postar novidades sobre nossas mais queridas velharias...

A verdade da vida em nossos blogs é o esforço de anunciar o futuro polindo e descobrindo as maravilhas do passado, nosso bom passado...

Tanto assim, que este Garoeiro tem a petulância de sugerir ao Poeta das Águas Doces, para recheios no Blog a partir de janeiro, "Crônicas de Cantalício e Florisbela"

Se até o Grande Poeta Mário Quintana adorava ouvir a narrativa dos fatos da vida de Florisbela - como está gravado e postado! - que diremos, nós!

Mãos à obra!

Um grande e saudoso abraço!

Garoeiro

Playground da Diversão disse...

Adorei Tio, fiquei com dó do meu pai, pela falta de apoio do vô e da vó ao seu talento futebolístico.

Anônimo disse...




Amigo Souza!
Parabéns pela beleza (e clareza) dos teus textos.
Sempre tive a curiosidade de saber de onde vinha este dom. Acabo de conhecer essa origem: contágio familiar.
Grande abraço
Zinada

Anônimo disse...

Muito bom, José Alberto.Gostei muito. Um abraço.Hunder

Átila Resem Hidalgo disse...

Tio, queria que a dona Lucy tivesse tempo para ler tuas crônicas.
Ela, quando viva, me contava as apavorantes inchentes do rio Jaguarão, os uruguaios nos telhados ,atirando para cima e pedindo socorro. Saudades da minha mãe.

Anônimo disse...

Tiozinho, vê-lo comentar, escrever, falar sobre o vô Cantalício, faz com que eu reviva toda uma infância passada em Jaguarão, sempre aos finais de ano e nas férias colegiais de julho! Quem disse que recordar é viver, não poderia estar mais certo!!! Vivi e recordei muito ao ler teu escrito. Sempre tive na figura do meu saudoso vô Cantalício, o modelo de retidão, persistência e serenidade, dentre outras qualidades.
Amei teu texto, amei a maneira como escreveste sobre ele! Obrigada por esse "brinde" ao passado! Um beijo da tua sobrinha Lorena.