sábado, 26 de janeiro de 2008

A indiferença dos privilegiados

Fim de tarde, estou só em casa. A cachorra late, fico sabendo que alguém chegou ao portão de entrada. Pelo olho mágico, vejo o rapaz parrudo, barba por fazer, roupas desbotadas, aparenta vinte e poucos anos. Poderia ser meu filho. Não é a primeira vez que bate em minha porta; nestas ocasiões sempre me pede um pão que eu nunca lhe nego. É a própria mansidão, cobrando de mim a indiferença dos privilegiados. Peço-lhe que me aguarde enquanto preparo um sanduíche de queijo e mortadela.
Quando vou lhe passar o alimento, vejo mais dois indivíduos invadindo o jardim para interrogá-lo. Reparo nas suas coloridas roupas esportivas: um deles, branco, estatura média, bom cabelo, óculos escuros; o outro, mulato sarará, de cavanhaque, magro, um pouco mais alto. A prepotência deles me irrita; digo-lhes para não importunarem o moço, afinal está na minha propriedade e deve ser respeitado como ser humano.
Então se identificam: são policiais e dizem estar observando aquele homem que vinha batendo de porta em porta a ver se havia gente nas casas, um potencial arrombador; querem apenar ajudar, perguntam-me se o conheço. Respondo que sempre o tratei como todos seus iguais, que nunca saíram de mãos vazias da minha solidariedade.
O sangue me ferve na cabeça; aproveito para reclamar da corrupção, dos salários baixos, do desemprego, enfim da causa real de toda essa violência e criminalidade dos dias atuais. Eles concordam, viram as costas e vão-se embora. Entrego o pão para o rapaz, ele me agradece.

Um comentário:

Maria Lúcia Sampaio disse...

Lindo texto! É importante dar-nos conta que os moradores de rua também são gente.