segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

As negras rosas crianças

Uma rosa.
Qual a cor de uma rosa?
Rosa? Amarela? Vermelha?
Engraçado...
Existem crianças
Que dizem ser a rosa preta.
Porque elas não tem capacidade
De enxergar outra cor.
Suas mentes somente captam a escuridão.
Pois a fome escurece tudo, sabiam?
E a fome vive nessas rosas-crianças.
Todas as crianças são rosas.
Só que em algumas a fome está sempre presente.
Conduzindo-as e exterminando-as.
E estas rosas estão escurecendo;
Estão murchando
E despetalando.
Seus pólens não exalam mais o perfume que toda rosa-criança deve ter:
O perfume-alegria.
Há no ar apenas um cheiro de vazio
E um perfume-agonia...
As crianças-rosas-negras
Estão tombando
Uma a uma...
Mas as hastes que as seguram
Permanecem de pé,
Para lembrar a todos
Que ali, naquele lugar,
Uma rosa-criança viveu.
Uma rosa-criança sentiu fome.
Uma rosa-criança sofreu.
Uma rosa-criança murchou.
Uma rosa-criança morreu.
O poema acima foi escrito em 10/11/1979 pela jornalista de Brasília, Carla Fagundes Lebre, na ocasião ainda adolescente, o que me impressionou pelo seu conteúdo de profunda reflexão social.

3 comentários:

Fernando Rozano disse...

post de muito impacto, tanto pela foto, magistral como um documento da realidade que muitos insistem em negar, horroroso como destino e desfecho dessa realidade. José Alberto, despertas consciências com teu trabalho humanista e de rara sensibilidade. a poesia é de fato de uma profundidade fantástica e lá se vão quase trinta anos. parabéns. grande abraço.

Jacqueline disse...

Ah, a rosa negra da fome. Ela pinta de dor qualquer criança. E nos entristece a todos...

Sandra Fonseca disse...

O poema e a foto deveriam ser lidos todos os dias, para que ningu�m se esque�a que os meninos-rosas-negras vivem ainda neste planeta.
Poesia necess�ria!
Um abra�o.