terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Será que a humanidade é viável?

Naquele trecho da estrada, a pista apenas dava passagem para um veículo. Metade ruíra com a erosão da ribanceira. Eram cinquenta metros até o plano mais abaixo. A camioneta virada com as rodas para cima. Um deles com a perna esquerda imobilizada sob o teto da cabina, pensava na sua impotência para resolver a situação. O outro jazia todo ensangüentado ali dentro, coberto de bancos e vidros partidos, parecendo não dar sinal de vida. Lá estavam repartindo a solidão com a neblina da madrugada. As luzes dos faróis perdiam-se no espaço como tramas de uma tela absurda.
Gritava. Lançando a sua dor no vazio da semi-escuridão. As mãos apoiadas atrás para se manter sentado. O pé livre fazia apoio na coluna tentando arrancar-se do jugo. O resto do corpo já tinha esfriado, iniciava-se o sofrimento: a falta de circulação do sangue, a iminência da gangrena. O outro companheiro podia estar vivo, como providenciar socorro? Ficasse a outra perna ali enterrada, ele se arrastaria mesmo mutilado naquele rasto da ferida aberta da Natureza.
O acidente acontecera na estrada deserta. O cansaço da viagem, a sinalização deficiente, tudo tão rápido, nem se dera conta. Chamara o companheiro, não conseguira resposta. Estivesse apenas desacordado: sua esperança. Ele, lúcido, amaldiçoava o Destino pelo castigo imerecido, por não lhe abreviar aquele desespero que ia tomando conta de toda sua consciência. Os vidros quebrados, a solução, cortaria os pulsos. Ouviu o ronco dos motores intensificando-se com o clarear do dia. Alguém poderia avistá-los lá de cima.
No posto da Polícia Rodoviária, um telefonema anônimo avisava de haverem testemunhado a queda de um veículo na pista interditada. Os carros em fila, as pessoas correndo para verem o desastre. Os patrulheiros tentando disciplinar a confusão. A solidariedade fluindo ao natural. Dedos mexendo-se num corpo inerte. Respira. Arrastam-no para fora. Retoma a consciência, senta na terra solta. A camioneta é desvirada. O outro ainda consegue levantar-se, não falta quem o apoie. A gangrena fica na ameaça, os pulsos estão intactos. A dor dilui-se na alegria do salvamento. Alguém observa ao longe, mostra-se aliviado.

3 comentários:

Anônimo disse...

Esta história, por casualidade, aconteceu realmente, bem como tu narras com um caminhoneiro em Uruguaiana há mais ou menos cinco anos.

Diná

Fernando Rozano disse...

texto visceral, com tons de realidade narrado com maestria e essencialidade. frases que se encaixam à perfeição em uma escrita moderna e rica. parabéns, José Alberto.

Jacqueline disse...

Minha nossa, esta eu senti na carne! Uma vez desci de um ônibus para tentar ajudar num acidente, era noite, na estrada entre Florianópolis e Laguna. Um sentimento forte que guardo até hoje e que acabo de reviver lendo aqui tua história!
Abraços! Jacqueline