segunda-feira, 24 de março de 2008

A abelha-rainha merece ser tuteada?

Duas mensagens que recebemos através da Internet, chamaram-nos a atenção para o tratamento que costumamos dispensar às diferentes pessoas de nosso relacionamento.
Numa delas era relatado o caso de um juiz que processou o porteiro do prédio em que residia por que este o tinha destratado, chamando-o de você ao invés de saudá-lo como doutor.
Em outra, mostrava-se a diferença entre tu e você através de uma histórinha de um detetive prestando conta de suas investigações para um empresário que o havia contratado para informá-lo das atividades desenvolvidas por um de seus funcionários no horário do almoço.
Assim o sherlock historiou como aquele servidor desempenhava-se naquele intervalo de tempo, usando para isso a narrativa na terceira pessoa, deixando aquele patrão aliviado das suas desconfianças por não se configurar qualquer resquício de má fé.
Porém, eis que o nosso araponga resolve apresentar a outra versão, agora contada na segunda pessoa, esta sim desvendando a carapuça de inocência do acusado, ainda mais que andava fazendo amor com a tua mulher.
Tais fatos fizeram-nos refletir sobre os diferentes tratamentos pessoais a que somos condicionados através das relações humanas tradicionais.
Antigamente, ensinavam-nos a dobrar a língua para as pessoas mais velhas - seu Antônio, o senhor poderia me informar... - ou então para aquelas pessoas menos íntimas - Francisco, você pode me alcançar - e apenas e tão somente para aqueles mais jóvens - Maria, tu precisas saber... - ainda mais distinguido tornava-se quem possuía diploma de curso superior - Doutor Carlos, o que posso fazer...
Tantas mesuras só tem servido para semear confusão no entendimento correto da língua, fácil de ser simplificado abolindo-se a corruptela de Vossa Mercê, a exemplo da escrita bíblica onde nem mesmo o Supremo Criador deixa de ser tratado na segunda pessoa quando a primeira fala-lhe diretamente e n'Ele na linguagem indireta.
Poeticamente então, licença prá cá, licença prá lá, a gente não consegue livrar-se do você e ali pelas tantas termina dando marteladas na concordância verbal.
Querem ver como isso funciona - experimentem trocar o você pelo tu nos versos doidos desta Abelha-Rainha:
Você me atraía, me seduzia,
Me conduzia às alturas
Que eu nunca sonhei nem alcancei,
Pois fiquei no meio da viagem,
Desisti, não passei na triagem
Do cortejo nupcial.
Preferi continuar
Na minha vidinha
De eterno sofredor
Do que ser aquele zangão
Que contigo bailou
E morreu feliz
Na revoada do amor.

Um comentário:

Fernando Rozano disse...

pois é, o senhor pegou bem a questão, agora se você não estiver atento à linguagem do cotidiano, tu fica por fora de tudo, e está aí a internet para provar. brincadeiras à parte, excelente reflexão e pertinente discussão que deveria ser considerada séria por quem deve levar a sério a Educação e...bom, estamos no Brasil, Educação não é prioridade. grande abraço, José Alberto.