
Quantas pessoas não se vêem em dificuldade para ler uma receita médica?
Não sei por que aqueles que tratam da saúde de seus pacientes, com raríssimas exceções, fazem questão de se tornarem ininteligíveis com os seus garranchos hieroglíficos, apenas decifrados pelos farmacêuticos, tantas vezes testados nesses exercícios do mais puro sadismo.
É bem verdade que já se perderam na poeira do tempo aqueles cadernos de linha dupla em que os alunos do primário eram ensinados a aprimorar sua caligrafia.
Uma assinatura, então nem se fala, quanto mais rebuscada mais difícil torna-se de ser falsificada e a sua autenticidade apenas pode ser comprovada por peritos em grafologia.
Há pouco tempo atrás, era moda de se contratar algum calígrafo, principalmente aqueles especializados no gótico, para fazer endereçamento de convites sociais, tais como aniversário, casamento ou formatura.
E ai de quem caprichasse na sua letra do dia-a-dia; caia logo nas graças dos menos aquinhoados na arte da escrita, sendo muito requisitados e até remunerados para apor o seu talento no branco dos envelopes.
Da minha observação habitual, considero sem dúvida alguma a classe dos arquitetos, em sua esmagadora maioria, como os profissionais mais bem dotados nesse difícil mister, seja por que tenham de dominar o traço do desenho artístico em seus projetos, seja por que a estética se encontra latente na sua natural sensibilidade.
Pois essa impressão inesperada vem de me colher em cheio, quando recebo um grande envelope branco, onde se nota um cuidado desmesurado na disposição e alinhamento das letras artisticamente elaboradas ao redigir destinatário e remetente.
Custei para decidir em desvendar aquela obra de arte com o mínimo danificado, após o que constatei o seu conteúdo naquele álbum-revista Elite, estampado na capa a lindíssima cantora Maria Rita, todo recheado de ilustrações e textos de extremo bom gosto, entre os quais Sem-Cerimônia Num Adeus, crônica assinada por AGUINALDO LOYO BECHELLI, este novo amigo virtual que a Providência acaba de me dispor.
Administrador de empresas, cronista de costumes, poeta, percussionista, embora não o conhecesse pessoalmente, já tinha ouvido falar a seu respeito através de amigos comuns, entre eles os saudosos Jessé Silva e Jorge Costa, e assim apressei-me em agradecer-lhe a prestimosa lembrança, enaltecendo as suas qualidades – entre outras tantas – de emérito calígrafo.
E o Aguinaldo me responde, dizendo que nunca tinha estudado caligrafia, atribuindo essa letra bonita ao fato de tanto tomar sopa de letrinhas na sua infância, quando o vizinho da casa da frente, seu Aníbal, era representante de conceituado pastifício e vivia presenteando seus familiares com pacotes de uma massa com letrinhas de todo alfabeto – tinha até K, W e Y – nos quais vinha escrita uma quadrinha que ele achava genial e copiou no seu caderno escolar:
Guarde na memória
Ou escreva no papel,
Macarrão para ser bom,
Só sendo Santa Isabel!