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Prédio atual do Colégio Estadual Júlio de Castilhos, inaugurado em 1958, situado na Praça Piratini. |
1958, ano da conquista do primeiro
campeonato mundial de futebol pelo Brasil, do qual acompanhamos uma das partidas
através de um rádio de válvulas, tipo capela, introduzido na sala de aula por
um dos colegas. Foi o ano em que cursávamos o 3º Científico, sendo iniciados
nos segredos das integrais e derivadas pelo professor Mello. Paraibano se não
me falha a memória, aparecia sempre em aula com sua gravatinha de tope
vermelha, trajando um casaco de lã verde. Enchia o quadro negro de equações,
demonstrando teoremas matemáticos e ia apagando o que já estava escrito sem dar
tempo para a gente copiar. O apagador saturava-se de pó de giz e não dava conta
da sua função. Para não gastar alguns minutos batendo e tirando aquele pó,
muitas vezes o mestre utilizava a própria manga do casaco para limpar os
borrões no quadro negro. Era um sufoco danado para a turma.
Um belo dia, antes de o professor entrar
em aula, o colega Mauro Knijnik propôs para a turma:
– Hoje não vamos deixar Mello dar aula
–. Em seguida, o mestre chegou e ia abrir o livro de chamada, quando Mauro, com
aquela cara de pau o interrompeu:
– Dá licença, professor?
– Pois não.
– Professor Mello, hoje nós gostaríamos
de homenageá-lo e a turma me incumbiu de passar às suas mãos uma pequena
lembrança, “singela, porém sincera”, em que todos se cotizaram para sua
aquisição.
Mauro, então, entregou uma caixinha
enrolada para presente, àquele mestre. O professor Mello, surpreso, cortou a
fita, desenrolou o papel e deu de cara com um isqueiro metálico em aço
inoxidável, tipo “zip”, muito em voga na ocasião. Aí não conteve mais sua
emoção e improvisou o agradecimento, dizendo da importância daquele gesto, não
pelo valor econômico do objeto, mas sim pelo valor simbólico que representava.
Então, desfiou para todos nós a miséria e a subnutrição dos seus tempos de
roça, a alfabetização retardada, sua condição de migrante nordestino,
autodidata, enfim sua luta pela sobrevivência. A turma o ouviu embasbacada e,
ao final, aplaudiu-o, todos de pé. Entre cumprimentos e abraços, havíamos
perdido uma aula de Matemática, mas ganhávamos uma inesquecível lição de vida.
Educação Física, praticávamos no Estádio
Ramiro Souto, no Parque da Redenção. Eu era uma nulidade em matéria de
esportes. Nas partidas de voleibol, era sempre o último a ser escolhido para
compor as equipes. Certa ocasião, minha equipe levava um vareio do adversário,
quando o pessoal interrompeu a contenda, reclamando que eu desequilibrava o
jogo para os outros. A equipe adversária aceitou me trocar pelo pior dos seus
integrantes. Passei para o outro lado da rede e, logo em seguida, o juiz deu
rotação para o meu novo time, competindo-me a vez de dar o saque. Atirei do
jeito que pude e a bola foi dar bem atrás dos outros jogadores, dentro da
quadra, quase em cima da risca. Ponto! E assim se sucederam outras rotações até
que tive de dar novo saque. Estava com medo de errar, mas não me permitiram a
substituição. Saquei e, de novo, marquei ponto. Os companheiros do outro lado
não se contiveram:
– Jaguarão, seu sacana, tinhas que sair
daqui para acertar saque do lado de lá.
Paulinho era nosso professor, gente
finíssima, amigo dos alunos, pena que me tenha treinado quando já atingia a
idade para ser dispensado daqueles exercícios. Prova de salto à distância: eu
vinha correndo, chegava na risca e dava um passo. Paulinho notou minha
dificuldade, chamou-me de lado e me explicou com noções elementares de Física: “vai
lá correndo e dá uma estocada com os dois pés em cima da risca; a força da
inércia vai te jogar longe”. Não deu outra: superei de primeira a marca mínima
para aprovação. Também no saldo em altura, quando insisti para pular a partir
do nível mais baixo da barra sem conseguir, ele reparou na minha maneira
equivocada. Novamente, orientou-me para que eu procurasse correr na diagonal,
chegando perto que eu levantasse uma das pernas e desse impulso com a outra.
Assim, venci meu bloqueio daqueles sessenta centímetros e fui saltando até
atingir 1m30cn para aprovação, dando-me por satisfeito. Até pouco tempo atrás,
ainda mexia com ele: se me treinasse mais, acredito que me tornaria um atleta razoável.
Eis ai meu depoimento como figurante
desta produção que marca a história dos 100 anos do nosso querido Julinho.
(in "Julinho 100 Anos de História"/ Org. Otavio Rojas Lima e
Paulo Flávio Ledur. - P. Alegre: AGE, 2000).