segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

A HONRAR: OS PROFESSORES DO JULINHO (II)

Prédio antigo do "Julinho", na Avenida João Pessoa, destruído por um incêndio em 1951

Fevereiro de 1956. As férias perdidas, ocupei-me durante todo o tempo a decifrar o enigma da Química Inorgânica, reservando alguns dias antes de começar os exames de segunda época para fazer uma revisão na matéria de Geografia. O professor Procópio Mariath foi quem formulou as questões de Química. Dominando o assunto, consegui minha aprovação com nota nove. Faltava, no entanto, acertar as contas com Dona Geografia para conseguir ingresso no segundo ano. E, como havia subestimado mais essa preparação, não logrei alcançar meu intento.
Diante desses resultados, busquei uma nova matrícula no 1º ano Científico. Na Secretaria do Colégio, informaram-me então que as inscrições já estavam encerradas desde dezembro do ano anterior. Tentei argumentar que, naquela data, ainda dependia de novos exames para saber em que série deveria estudar. A atendente me falou, na ocasião, da matrícula condicional que eu desconhecia e me sugeriu que encaminhasse à Direção aquele meu pleito. Recebeu-me a professora Mery Fagundes, de quem eu fora aluno de Espanhol. Expus a ela todo o equívoco causado pela inexperiência de jovem interiorano, desorientado na Capital. Depois que me ouviu, a Diretora achou que deveria levar ao Conselho o meu caso: seria difícil, não poderia prometer nada, que eu a procurasse daí a dois ou três dias. Decorrido o período, saí no encalço da professora Mery; encontrei-a saindo da cantina, quando me relatou a decisão do Conselho: em consideração ao meu comportamento como aluno esforçado, houveram por bem abrir um precedente e aceitarem minha matrícula fora do prazo. Que eu não perdesse tempo, passassse logo na Secretaria e acertasse tudo.
A repetência me proporcionou excelente oportunidade de consolidar o aprendizado precário do ano anterior e me deu mais segurança para assimilar os conhecimentos posteriores: meu desempenho escolar melhorou sensivelmente. Mais feliz ainda fiquei em continuar mais um ano como aluno de Espanhol da professora Mery. Os resultados foram tão estupendos que, antes de findar o ano letivo, a cara mestra me chamou para comunicar que, junto com outros dois colegas, estava concorrendo a uma bolsa de estudos patrocinada pelo Consulado de Espanha e que, até aquele momento, liderava a disputa, dependendo apenas dos exames finais para vencer a corrida.
A preparação das provas era árdua e nos exigia imenso esforço, com o que a gente ia cansando à medida que avançava nos exames realizados. Espanhol era uma das últimas provas, se não a última. Já estava com boa média e não precisava me empenhar; daí uma nota razoável, sem brilho, resultado que me tocou, como prêmio de consolação, o livro “Garcia Lorca”, de Edgard Cavalheiro, ofertado pela Companhia Editora Nacional. 
Os bico-de-pato da Engenharia
A professora Mery colecionava chapéus de calouros universitários, seus ex-alunos. A fim de resgatar uma grande dívida de gratidão, levei-lhe meu bico-de-pato da Engenharia,

Baixo e magro era o Pinto Lima, professor de Geografia da nossa turma. Naquela época, ele costumava gravar as suas aulas e as reproduzia para a classe. Creio que deveria utilizar um gravador portátil de fita de rolo. Apenas escutávamos aquelas suas lições, através da voz metálica do aparelho, na primeira metade do período, após o que ele costumava escrever no quadro negro um resumo daqueles pontos. No primeiro semestre, comecei a empilhar notas 10 em todas as sabatinas, inclusive no exame do meio do ano. Entusiasmei-me de tal modo que decidi me laurear em Geografia, essa megera que me deu rasteira no ano anterior. E o negócio continuou indo bem até a última sabatina do ano, quando alcancei um nove. Eram dez questões que as respondi todas, com exceção de uma por não constar em meus apontamentos, os quais tinha todos na ponta da língua. Fui reclamar ao professor Pinto Lima que aquela questão não havia sido abordada em aula. Ele consultou o livro de chamada e lá estava anotada a matéria completa. Retruquei-lhe que eu não havia perdido nenhuma das suas aulas, vinha anotando todos os pontos e tinha absoluta certeza de que fora omitido aquele assunto.  Teimoso, ele não deu o braço a torcer e até me disse que alguns colegas haviam respondido a dita questão. Achei por bem encerrar a discussão por ali mesmo, pois sabia que aqueles colegas costumavam faltar às aulas e haviam copiado o tal ponto de outra turma, na qual não fora omitido. Faltavam ainda algumas aulas para encerrar o ano letivo; deixei de frequentar as preleções desse descuidado mestre e, no exame final, apenas compareci para entregar a prova em branco, pois já tinha média suficiente para aprovação.

       (in "Julinho 100 Anos de História"/Org. O. R. Lima e P. F. Ledur. - P.Alegre : AGE, 2000).

8 comentários:

Anônimo disse...

Achei muito legal o teu blog na rápida olhada que dei.
Teu estilo de escrever é uma forma muito pessoal e marcante.
Parabéns Souza!
Um grande abraço
Jaqueline

Fernando Rozano disse...

És um memorialista, espécie rara e essencial para a preservação da memória e estímulo ao conhecimento. Grande abraço.

Helena Ortiz disse...

Oi Souza,
Neste final de semana reli A borra de café, do Mario Benedetti. E agora ao ler teu texto, me lembrei logo dele. A diferença é que o teu texto é mais completo, vai aos detalhes. Parece que estás vivendo hoje o que há tanto tempo se passou. É sinal que o aprendizado ficou, não há dúvida. E também tocou.
grande abraço

Corálio B.P. Cabeda disse...

Souza, o 1º ano do Científico foi um choque, também para mim, Física, Química, Matemática, mas logrei aprovação. Sou inteiramente solidário contigo.
Em Espanhol, a professora, hoje com 93 anos de idade, era a Cônsul do Uruguai na cidade e, na entrega das notas da primeira sabatina, declarou que, pela primeira vez, havia dado nota 10 para uma prova, a minha...
Confesso que estranhei aquela “primeira vez”, porque achei matéria muito fácil, sempre obtendo notas elevadas. Enfim...
Quanto à Geografia, era velha amiga desde o Ginásio. Aprendi a dela gostar através de um oficial do Exército, que aconselhava o estudo munido de um Atlas! Elementar, não? O resto veio ao natural.
História, nem é preciso falar. Gosto não se discute...
Abraços

Vasco Ibanez disse...

Caro Amigo JASouza,
Lembranças importantes, essas que cultivas. Na verdade elas nos confortam nessa fase da vida. Lembro do Prof. Luiz Carlos Santana do Colégio Duque de Caxias, onde cursei também o Científico. Ele foi meu professor de Física, assunto que me atrai até hoje. Pois o encontrei num evento em 2008, revivemos momentos distantes e até tiramos fotografias juntos, no alto de seus 85 anos. JASouza, um abraço e continue escrevendo.
Vasco,14l2l4.

Hunder Everto Corrêa disse...

Caro José Alberto.
Muito lindo o teu reconhecimento aos velhos e amáveis mestres.
Mais uma vez demonstras o teu entusiamo pelo estudo e a garra implacável de vencer.
Parabens.

Maria Nilza Lepre disse...

Gostei muito da sua homenagem a seus velhos professores. Parabéns.

Carlos José de Azevedo Machado disse...

Tio Zezinho, como é bom ler estes seus textos. Este mesmo eu já tinha lido alguma vez (em algum dos seus livros, possivelmente). E descobri que ler de novo sempre é uma nova experiência fantástica neste mundo literário, mas também dentro de uma realidade que vive através destes relatos. Grande abraço.