terça-feira, 16 de outubro de 2007

*** O índio Pedro Caranguejo, que foi levado na lábia de um posseiro

O vento arrebenta no concreto das paredes.
Olhos repuxados, pele curtida, a cisma de Pedro Caranguejo.
Acaba de chegar com a mulher e os filhos no ônibus que veio de Nonoai.
Palhas trançadas, desenhos primitivos, os badulaques da viagem. Negócio para sobreviver.
Acocorado, junta e desmancha tocos de cigarro, a enrodilhar os restos de fumo em qualquer pedaço de papel.
Depois teima em acender o canudo de tabaco, pedindo fogo aos raros passantes.
As crianças amontoam-se tirando calor da mãe - uma tremedeira só - e disputam com a mercadoria o abrigo da lona remendada.
Pedro arrasta-se na plataforma, nevoeiro adentro, passa pela tabacaria, a lanchonete, a farmácia, que ainda resistem à espera de retardatários. Frente ao guichê, a vontade de voltar.
Para cortar lenha no mato, cuidar do roçado de milho e mandioca, pegar algum jundiá na beira do riacho.
Mais um dos evacuados da Reserva, as pernas frouxas o desiludem.
Floresta espremida em capões na planície verde, maquinário trucidando a terra.
A taturana imprevista, haja defensivo nela, água cada vez mais suja, ruim de se beber até com fervura, a recomendação da gente do Posto. Passos perdidos, vai levando.
A conversa do vereador, ele deu as passagens, promessas de uma vida melhor para sua família.
Artesanato indígena no calçadão da Rua da Praia, garantia, dava dinheiro às pampas.
Encara o restaurante fechando, sobras de churrasco numa bandeja de plástico.
Pedro Caranguejo aquece-se na crença do retorno.

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